
Coração de Ouro 3: Dívida Esquecida
Author
E.F Boni
Reads
231K
Chapters
30
Capítulo 1
Livro 3: Dívida Esquecida
RACQUEL
“Filho da puta!”
Joguei a garrafa de vinho na parede com toda a força que tinha.
Desviei o olhar do vinho tinto no chão e dos cacos de vidro. Sentei no sofá e coloquei o rosto nas mãos.
“Droga", falei alto. “Não acredito que ele casou com aquela vadia.”
Não conseguia parar de ver os rostos felizes de Tito e Kelly na tela do meu notebook. Tirei o rosto das mãos.
“Droga", falei de novo.
Caminhei depressa até a mesa e fechei o notebook antes que pudesse me sentir pior.
Tamborilei os dedos nas laterais da cabeça e fechei os olhos com força. A notícia sobre o casamento me machucou demais.
Uma grande perda, como algumas pessoas disseram. Eu estava com ciúmes de Kelly? Claro que não. Mas eu estava errada sobre tudo, e agora parecia idiota.
Balancei a cabeça e me levantei da mesa.
“Tanto faz", falei. “Não acho que vai durar de qualquer jeito. Esses dois vão se divorciar mais cedo ou mais tarde.”
Isso me fez sentir um pouco melhor. O casamento deles não ia dar certo. Eu sabia que tipo de pessoa Kelly era. Ela era como a maioria das mulheres que usavam a aparência e o corpo para conseguir o que queriam.
Se eu estivesse certa, ela provavelmente teria um bebê e depois se divorciaria dele. Ela ia usá-lo para conseguir pensão alimentícia ou ficar com metade do dinheiro dele.
Balancei a cabeça.
“Droga, preciso de uma bebida", falei baixinho.
Olhei para o vidro quebrado no chão.
“Ah", falei sem emoção.
***
“Sério? Você finalmente viu a notícia.” Thelma estava rindo enquanto bebia do outro lado da mesa. “Estava me perguntando por que demorou tanto.”
Balancei a cabeça e bebi pelo canudo. “Nem eu acredito.”
“O que é ainda mais engraçado é que você não foi convidada.” Os olhos cinzentos dela pareciam felizes, e ela tomou um gole também.
“Obrigada por me fazer sentir pior.” Olhei para ela com raiva. “Não é como se você estivesse ganhando algo de bom com isso.”
“De certa forma, estou.” Ela deu de ombros. Os cantos dos olhos castanhos dela se enrugaram. “O jeito que você está reclamando disso é bem engraçado. Queria ter uma câmera agora.”
Coloquei o rosto nas mãos e fiz um som alto. Thelma Vasquez e eu nos conhecíamos há muito tempo. A conheci anos atrás na universidade. Não me lembro do que nos aproximou, mas nos tornamos amigas próximas. Depois que terminamos a faculdade, continuamos em contato e ainda passávamos tempo juntas com frequência.
“A propósito", ela disse, “tenho algo que vai te fazer sentir melhor.”
Tirei o rosto das mãos. “Se for algo sobre um podcast ou notícia interessante, estou dentro. Qualquer outra coisa, esquece.”
“Você pode querer mudar de ideia, amiga.” Ela sorriu. “Tem um cara gostoso neste restaurante que você não notou antes de chegar nesta mesa.”
“Thelma, não estou interessada em homem agora.” Esfreguei as laterais da cabeça. “A última coisa que preciso é pensar no que aconteceu hoje.”
“Só olha e para de ser medrosa.” Ela moveu a cabeça para a esquerda.
Olhei para onde ela estava olhando e vi um cara algumas mesas longe de nós. Uma garrafa de suco e um prato com um pouco de comida estavam na frente dele.
O capuz do moletom branco dele estava puxado sobre a cabeça. Eu só conseguia ver os lábios dele.
Levantei uma sobrancelha e olhei de volta para Thelma.
“Bonitinho, né?” Ela piscou.
“Como você sabe?” Balancei a cabeça. “Nem vimos o rosto dele.”
“Precisamos?” Ela revirou os olhos. “É muito claro que ele é gostoso. Olha aqueles lábios bonitos e aquele maxilar. Enfim, você sabe o que isso significa.”
“Eu conheço esse olhar, Thelma.” Olhei para ela com raiva enquanto um sorriso brincalhão aparecia no rosto dela. “Não vou jogar pedra, papel e tesoura com você.”
“En realidad?” A cabeça dela se inclinou para o lado.
“Sí. Minha cabeça está toda bagunçada agora. Além disso, a última vez que tentamos isso foi quando vimos Tito.”
Meus olhos ficaram menores. Anos atrás, na festa da fraternidade, Thelma e eu tínhamos visto Tito. Jogamos pedra, papel e tesoura, e ela ganhou. Uma coisa estranha aconteceu quando ela tentou falar com ele. Ele se interessou por mim.
“Então, você está dizendo que posso tentar com o gostoso?” Ela moveu as sobrancelhas para cima e para baixo.
“Vai fundo.” Fiz um gesto com a mão para ela ir.
“Okay, então.” Ela se levantou do assento. Então segurou o estômago, e os olhos dela ficaram grandes. “Ai, meu Deus.”
“O que foi?” Minhas sobrancelhas subiram. “Você está bem?”
“Acho que bebi suco demais.” Ela parecia estar com dor. “Preciso ir ao banheiro.”
“Não me diga", falei sem emoção.
“Vou ter que ir ao banheiro.” Ela saiu rapidamente.
Balancei a cabeça enquanto ela saía e olhei para a garrafa grande no lugar dela na mesa. Ela sempre bebia demais.
Olhei para o homem que tinha se levantado do assento. “Ah não", falei baixinho. “Thelma, é melhor você se apressar.”
O homem começou a andar em minha direção.
“Espera, o quê?” Meus olhos ficaram menores. Finalmente consegui vê-lo bem. Mesmo com o moletom largo com capuz, dava para ver que ele tinha músculos grandes. O jeans azul-escuro dele mostrava as coxas e panturrilhas bem grandes.
Meus olhos ficaram grandes quando ele sentou no lugar de Thelma. “Ei, você não pode sentar aí", falei. “Tem alguém sentado aí.”
“Eu sei.” Os cantos dos lábios dele subiram, e ele puxou o capuz para trás. Agora eu podia ver o rosto dele.
Thelma estava certa. Os olhos castanho-escuros dele combinavam com o cabelo encaracolado. Ele tinha um nariz reto. Olhei para a cicatriz que cortava a sobrancelha esquerda dele de cima a baixo. Depois olhei para o maxilar quadrado. Ouvi um som alto nos meus ouvidos.
Não, espera, era meu coração batendo forte no peito.
“Faz muito tempo, Racquel.” Ele falou de novo. O jeito que ele falava mostrava que era latino.
“Eu te conheço?” Inclinei a cabeça para o lado.
Ele inclinou a cabeça do mesmo jeito. A sobrancelha com cicatriz subiu.
“Quer dizer, é meio fácil saber quem eu sou” fiz um som pelo nariz enquanto olhava para as unhas. “Sou uma das jornalistas, blogueiras e influenciadoras mais populares. Até metade das pessoas neste restaurante olhou para mim quando entrei.”
“Si, eu sei disso.” Ele assentiu devagar, rindo. “Racquel Mendes. Dona do RM.com. Claro, eu sei tudo isso.”
Os lábios dele se apertaram enquanto esfregava o queixo. “Mas é muito mais que isso. É uma pena que você não consiga se lembrar de mim.”
“Um nome pode me ajudar a lembrar", falei sem emoção. “Se eu tivesse visto um rosto como o seu antes, acredite, eu lembraria. Bem, depende do que eu achei de você.”
A cabeça dele foi para trás enquanto ria alto. “Forte e ousada como sempre. Seus jeitos de líder de torcida nunca te deixaram. Aquela personalidade de garota popular ainda está lá, mesmo que menor agora.”
“Você foi para o meu colégio?” Meus olhos ficaram grandes por um momento, depois menores. “Quem é você?”
“Te contar agora vai estragar a diversão.” Os cantos dos lábios dele subiram.
“Então por que diabos você veio aqui?” Eu estava cansada demais nesse ponto. Bonito ou não, eu não estava com humor para os joguinhos desse estranho.
“Estava esperando que aquele cérebro esperto descobrisse.” Ele balançou a cabeça um pouco. “Estou desapontado.”
“Este mundo está cheio de decepções.” Fiz um estalo com a língua.
“Adoro que você nunca perdeu seu senso de humor estranho.” Os lábios dele se abriram para mostrar dentes brancos perfeitos.
“Bom saber.” Pisquei como se fosse inocente. “É um dos meus dons.”
Olhei além dele para Thelma, que tinha saído do banheiro. O olhar confuso dela ia e voltava entre o estranho e eu. Então as sobrancelhas dela subiram como se estivesse fazendo uma pergunta.
Pensei comigo mesma: “Demorou, hein.”
O estranho olhou para onde eu estava olhando. “Parece que sua amiga voltou.”
“É.” Sorri enquanto ele olhava de volta para mim. “É melhor você sair do lugar dela.”
“Claro.” Ele levantou as mãos como se estivesse se rendendo e se levantou. Olhou para baixo para mim com um sorriso brincalhão no rosto. “Acredite, não terminamos. Vamos nos encontrar de novo.”
“E por que você acha isso?” Fiz um som como se não acreditasse.
“É bem simples, na verdade.” Os olhos dele pareciam brilhantes e os lábios se moveram como se estivesse tentando não sorrir. “Sua reputação e trabalho vão ser a coisa perfeita para nos unir.”
O cheiro da colônia dele entrou no meu nariz quando ele passou por mim. Engoli um pequeno nó que se formou na minha garganta.
Thelma sentou depois que ele saiu. “O que foi aquilo?” Ela moveu a cabeça em direção à porta.
“Não sei.” Dei de ombros. “Alguém que disse que me conhecia.”
“Disse?” A cabeça dela se inclinou para o lado.
“Ele foi para o meu colégio” soltei o ar.
“Ele disse o nome?”
“Não.” Minhas sobrancelhas se juntaram. “Ele deixou essa parte de fora de propósito, como se quisesse jogar algum jogo de mistério comigo.”
“Estranho.” Os lábios dela se apertaram. “Ele não pediu seu contato?”
“Não.” Balancei a cabeça. “Mas sinto que ele teria feito isso se você não tivesse voltado.”
“Bom, que droga.” Ela balançou a cabeça. “Era bonitinho. Vamos vê-lo de novo?”
Olhei em direção à porta. Ainda conseguia sentir o cheiro daquela colônia.
“Não sei.”




