
Herdeiro do Alfa Livro 4: Nova Era dos Lobos
Author
B. E. Harmel
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Chapters
16
Capítulo 1
Livro 4: Nova Era dos Lobos
ANTHONY
O ar na câmara do Conselho sempre pareceu pesado, mesmo quando eu era criança. Parecia cheio de grandes decisões que poderiam mudar a vida das pessoas. Hoje, porém, parecia ainda mais pesado, como se a própria sala soubesse algo que eu não sabia.
Meus pais ficaram quietos durante toda a viagem. Seus rostos pareciam cansados e preocupados. O barulho alto do helicóptero tinha tornado quase impossível conversar. Meu pai segurava o apoio de braço com força, como se até um pequeno solavanco pudesse nos fazer cair. Os olhos atentos da minha mãe permaneceram no horizonte, como se ela estivesse procurando respostas que só ela podia ver.
Caroline sentou ao meu lado, olhando pela janela. Seus dedos continuavam torcendo a barra da jaqueta. Não era do feitio dela ficar se mexendo nervosamente ou parecer insegura.
“Estamos quase lá” meu pai disse. Sua voz soou tensa.
Eu assenti, mas fiquei quieto. Essa reunião deveria ser sobre mim — sobre assumir meu lugar como Alfa. Mas quanto mais nos aproximávamos, mais eu sentia que estava sendo levado para algo completamente diferente.
Quando chegamos, senti o peso da câmara do Conselho imediatamente. A sala redonda era enorme. Suas paredes de pedra faziam cada som ecoar mais alto. No centro havia uma plataforma elevada onde os anciãos estavam sentados. Seus rostos pareciam velhos, mas atentos.
Fileiras de assentos iam ao redor deles em círculo. Estavam cheias de Alfas, Lunas e Betas de todas as Matilhas da região. Meu estômago ficou apertado. Isso não era uma conversa particular sobre meu novo papel. Era uma reunião de pessoas poderosas — cada líder chamado aqui por uma razão que ninguém tinha me contado.
“Por que estão todos aqui?” sussurrei para Caroline enquanto nos sentávamos.
Aurora não estava comigo. Ela ficou para cuidar de John. Ele era jovem demais para uma viagem como essa, e eu confiava nela para manter tudo em casa seguro. Mas ainda assim, eu tinha ficado checando meu relógio e mandando mensagens para ela sempre que podia. Eu precisava saber que ela, John e a Matilha estavam bem.
Caroline, que sempre foi confiante, agora parecia preocupada. “Não sei.”
Kevin sentou do meu outro lado. Ele estava quieto, mas observando tudo. Como meu Beta e melhor amigo, ele sempre foi aquele que me mantinha firme. Atrás de nós, meus pais tomaram seus lugares. Mesmo tendo deixado de ser Alfas, eu sabia que era difícil para eles abrir mão, especialmente com tanta coisa acontecendo.
A sala ficou quieta e tensa quando o membro mais velho do Conselho, Simon, se levantou. Ele era um homem magro com olhos cinzentos penetrantes. Sua voz tinha o tipo de poder que fazia até os lobos mais fortes baixarem a cabeça.
“Faz um ano desde o sequestro, e somos gratos que os herdeiros tenham retornado aos seus lugares de direito” ele começou. Sua voz soou séria. “Mas o sequestro deles não foi aleatório. Foi um sinal — um lembrete do que está escondido nas partes escuras da nossa espécie.”
Meu estômago se revirou, e senti um nó frio se formar dentro de mim.
“E descobrimos” ele continuou “uma profecia. De lobos que podem tocar prata sem se queimar. Uma linhagem tão rara, tão poderosa, que poderia mudar o destino da Matilha.”
Que diabos é isso? Uma profecia? De novo?
Meu coração disparou. Lobos que não se queimam com prata — eu e Caroline.
Um murmúrio baixo de vozes se moveu pela sala. Ao meu lado, meu pai ficou rígido. Sua mandíbula se contraiu.
“Esses lobos” Simon disse, olhando para todos nós “não são apenas uma história. Eles são reais. E acreditamos que estão entre nós.”
Eu congelei. Minha respiração parou. Meus punhos se fecharam. Lutei contra a vontade de olhar para Caroline, ou Kevin, ou qualquer um que pudesse revelar o que eu estava escondendo. Eles não podiam saber. Podiam?
Os olhos de Simon se estreitaram. “Alguém aqui conhece tais lobos?”
Silêncio. Espesso e sufocante. Meu lobo se mexeu inquieto, arranhando a borda da minha mente.
“Isso é loucura” rosnou Brad Hasendolf, um Alfa das Matilhas do leste. “Se esses lobos existissem, nós saberíamos. Eles estariam sentados aqui, não se escondendo em lendas.”
“Ou se escondendo” Brennon disse friamente. “Porque sabem o que faríamos com eles.”
As vozes ficaram mais altas, pessoas falando com tensão até Simon levantar a mão. “Chega. Isso não é um debate. Isso é um aviso. Se esses lobos existem, eles devem ser encontrados. Sua linhagem é a chave para nossa sobrevivência — ou nossa destruição.”
A sala ficou embaçada. Meu pulso rugiu nos meus ouvidos.
Eles não podiam estar falando de mim. Não era como se eu tivesse pedido por isso... essa imunidade. Tinha simplesmente acontecido — uma reviravolta do destino, um segredo que mantivemos porque tínhamos que manter.
Mas agora, não era apenas meu segredo. Era de Caroline também.
Forcei-me a ficar parado, a manter meu rosto calmo. Não podia deixar ninguém ver a tempestade dentro de mim.
Os olhos de Simon varreram a sala uma última vez, parando em mim por um tempo longo demais.
Prendi a respiração.
A reunião continuou, mas eu mal conseguia me concentrar. A profecia não era apenas uma história — era minha vida. E agora, não era só eu que tinha que proteger. Era Caroline, Aurora e John.
Eles nunca parariam de procurar.
***
A sala estava quieta, exceto pelas vozes abafadas vindo através da porta pesada. A reunião do Conselho continuava na câmara além, mas aqui, no apartamento temporário que o Conselho nos deu, a tensão era insuportável.
Meu pai andava de um lado para o outro perto da janela. Suas botas batiam no chão de madeira repetidamente. O luar mostrava sua forma, tensa e alerta, enquanto ele olhava para o pátio iluminado pela lua lá embaixo.
“Precisamos falar sobre isso” ele disse de repente. Sua voz soou tensa.
Minha mãe sentou na beira do sofá. Seus dedos estavam entrelaçados tão apertados que seus nós dos dedos ficaram brancos. Caroline sentou ao meu lado. Suas mãos se torciam no colo, um hábito nervoso que ela nunca tinha abandonado completamente.
Kevin se recostou na cadeira, calmo como sempre, mas seus olhos atentos se moviam entre nós, absorvendo cada palavra.
“Já falamos sobre isso” Kevin disse. Sua voz estava controlada. “Ninguém fora de nós sabe.”
“Isso não importa” papai retrucou, virando-se para ele. “O Conselho sabe alguma coisa. O suficiente para fazer perguntas. Quanto tempo até descobrirem? Quanto tempo até alguém decidir que Caroline — ou Anthony — é uma ameaça?”
Suas palavras pareceram um tapa. Cada palavra cortou mais fundo que a anterior.
“Não estou preocupado comigo” eu disse, sentando mais ereto.
O olhar de papai foi penetrante, mas continuei. “Sou Alfa agora. Posso lidar com o que quer que joguem em mim. Mas Caroline?” Minha voz tremeu, e odiei como soou crua. “Ela não pediu por isso. Nenhum de nós pediu. E quanto a John?”
A sala ficou em silêncio.
Eu não tinha a intenção de mencionar meu filho, mas o pensamento estava me corroendo desde que o Conselho trouxe a profecia. Se a imunidade à prata podia ser passada pelo sangue... John poderia ter herdado?
“Anthony...” mamãe começou. Sua voz estava suave e cuidadosa.
Balancei a cabeça. Meu peito ficou apertado.
“E se ele tiver? E se o sangue de John for como o de Caroline — como o meu? Ele é um bebê. Ele nem entenderia o que significa, muito menos como se proteger.”
Caroline se mexeu ao meu lado. Seus dedos entrelaçados no colo.
“Anthony, nem sabemos se funciona assim” ela disse. Sua voz estava firme, mas insegura. “Quer dizer, veio para mim por causa da mamãe — por causa do que aconteceu com Violet. E você só conseguiu por causa da transfusão. Não é como se fosse... passado de pai para filho.”
Suas palavras eram para me acalmar, mas não conseguiram. Não realmente.
“E se for?” insisti. Minha voz estava mais afiada do que eu pretendia. “E se ele estiver carregando algo que não entendemos? E se essa... profecia for sobre ele também? Sobre todos nós?”
Kevin se inclinou para frente, apoiando os braços nos joelhos.
“Se for, você vai protegê-lo. É só isso.”
A forma simples como ele disse me pegou desprevenido. Kevin sempre foi o firme, o centro calmo em cada tempestade.
Mas isso não era apenas sobre proteger John — era sobre o desconhecido. Sobre o fato de que nem sabíamos do que estávamos protegendo ele.
“Kevin está certo” papai disse. Sua voz tinha uma firmeza como aço. “Não sabemos o que está acontecendo ainda. Mas até sabermos, mantemos isso dentro da família. Ninguém mais pode saber. Ninguém.”
Seus olhos varreram Caroline, Kevin e eu, parando em cada um de nós como se nos obrigasse a entender quão sérias eram suas palavras.
“Você já fez sua parte para manter a imunidade de Anthony em segredo” ele continuou, falando com Kevin. “Mas não podemos baixar a guarda agora.”
Mamãe assentiu. Seu rosto parecia determinado, mas cansado.
“Isso não é apenas sobre a profecia. Se a notícia se espalhar, haverá lobos — Matilhas — que verão isso como uma ameaça. Ou pior, como uma oportunidade. Anthony, Caroline, vocês dois são alvos, gostem ou não.”
“Não me importo em ser um alvo” eu disse. Minha mandíbula se contraiu. “O que me importa é garantir que Caroline e John estejam seguros.”
Caroline estendeu a mão. Sua mão pousou na minha.
“Posso cuidar de mim mesma.”
Encontrei seus olhos, vendo a determinação em seu olhar azul. Era o mesmo olhar que ela sempre me deu quando éramos crianças, quando me protegia de tudo ou me ajudava a limpar depois de um dos meus erros imprudentes.
Caroline sempre foi forte, minha protetora, minha irmã mais velha que acalmava minhas tempestades.
“Eu sei que pode” eu disse suavemente. “Mas isso não significa que vou parar de me preocupar com você.”
Ela sorriu um pouco, mas não alcançou seus olhos.
“Vamos descobrir isso” mamãe disse, levantando-se para ficar ao lado de papai. “Vamos começar a investigar a profecia — quem pode saber sobre ela e por que está sendo trazida à tona agora. Mas até lá, ficamos quietos. Ficamos unidos.”
Papai assentiu.
“Esta família já passou por muito. Vamos nos proteger, como sempre fizemos.”
A viagem de helicóptero de volta foi quieta. A tensão da nossa conversa ainda estava pesada no ar.
Quando a casa da Matilha apareceu à vista, sua forma familiar delineada contra o céu escuro, senti uma breve sensação de alívio. Mas mesmo quando os portões se abriram e os guardas acenaram para nós, meus pensamentos estavam em outro lugar.
Aurora.
Seus olhos verdes piscaram na minha mente, a forma como eles suavizavam quando ela segurava John. Sua força silenciosa sempre me firmou, não importa a tempestade.
Eu tinha ficado fora menos de um dia, mas o peso da sua ausência me corroía.
E então havia John.
Três meses de idade e tão pequeno. Sua presença era tanto minha maior alegria quanto meu maior medo.
Toda vez que eu o segurava, não conseguia parar de pensar: Como mantenho essa vida minúscula segura em um mundo que quer despedaçá-lo?
O cheiro de lavanda e pinho me cumprimentou quando entrei, envolvendo-me como um abraço reconfortante.
Aurora estava na sala de estar, balançando John em seus braços. Seus olhos estavam meio fechados enquanto ela cantarolava suavemente.
Por um momento, apenas os observei — as duas pessoas que me ancoravam a este mundo.
Meu coração parecia que ia explodir de amor só por tê-los.
Ela abriu os olhos e sorriu quando me viu.
“Você voltou.”
Inclinei-me para beijá-la, cuidadoso para não acordar John.
“Senti sua falta.” Eu quis dizer cada palavra.
Ela riu suavemente.
“Você ficou fora por um dia.”
“Um dia a mais” eu disse baixinho, beijando o topo da cabeça dela enquanto ainda segurava John.
Aurora moveu John para o berço. Seus movimentos eram cuidadosos e praticados.
Fiquei em silêncio, lutando com o peso de tudo que tinha acabado de aprender. Não podia contar tudo a ela, ainda não, mas como minha alma gêmea, ela podia perceber que algo estava errado.
“Você está quieto” ela disse. Seus olhos procuraram os meus. “O que aconteceu na reunião do Conselho?”
Hesitei.
“É... complicado.”
Sua mão encontrou a minha. Seus dedos se entrelaçaram com os meus.
“Me conta.”
Suspirei. Não podia guardar isso só para mim. Não queria que ela se preocupasse, mas era maior que nós. Não era apenas eu contando isso para minha companheira. Era eu, Alfa, contando isso para minha Luna.
“Eles trouxeram à tona a imunidade à prata” eu disse finalmente. “O Conselho está fazendo perguntas. Eles sabem que existe, e estão tentando descobrir quem tem.”
O aperto de Aurora ficou mais forte.
“E eles não sabem sobre você?”
“Não” eu disse rapidamente. “Ainda não. Mas é só uma questão de tempo.”
Seu rosto escureceu.
“Eles têm medo de você.”
“Eles têm medo do que eu posso significar” corrigi. “E não é só eu. Se descobrirem sobre Caroline — ou John...”
Sua mão voou para a boca.
“Anthony, você acha...?”
Só o pensamento disso fez meu estômago revirar.
“Não sei” admiti. “Mas se ele herdou, precisamos estar preparados. Para o que vier a seguir.”
Aurora exalou lentamente. Seus olhos pareciam distantes.
“Vamos protegê-lo.” Sua voz estava quebrada e crua, como se estivesse tentando se convencer mais do que a mim.
“Eu queimaria o mundo para mantê-lo seguro” eu disse. As palavras escaparam antes que eu pudesse pará-las.
Aurora olhou para mim então. Seus olhos estavam firmes e determinados.
“Vamos.”












































