
Aquilo Que Nos Define
Lucara não resiste à escuridão dentro de si — ela se torna ela. Agora reinando sobre um império destroçado, seu trono está mergulhado em poder, sangue e no caos que desatou. Raja, seu general feroz e leal, a segue para onde outros temem olhar. Seu coração? Já é dela. Mas quando um príncipe silencioso, de olhos assombrados, é oferecido à Rainha como presente, lealdades antigas começam a rachar.
Alakis não conhece toque, amor ou liberdade, até Lucara aparecer. Em um mundo de laços forjados em fogo e devoção perigosa, três almas colidem sob uma mesma coroa. Emoções florescem. Traições surgem. E a sobrevivência pode custar mais do que qualquer um deles está disposto a pagar.
Aquilo Que Nos Diverte
Não era para ninguém morar ali. O ar era seco e cheirava a pano velho, naftalina e abandono. Móveis altos e finos ficavam nos cantos como fantasmas.
Um sofá quebrado e um guarda-roupa torto estavam cobertos com lençóis. A perna de uma mesa quebrada saía de trás de uma tapeçaria que ninguém mexia há anos. O único sinal de vida era uma trilha no meio da poeira no chão de pedra e uma janela que era mantida extremamente limpa pela pessoa que vivia no quarto.
Alakis estava sentado no chão embaixo da janela. Seus braços pálidos envolviam os joelhos. A luz entrava pela janela, suave e fraca, da cor de coisas distantes. Caía sobre seu cabelo branco-prateado, que descia pelos ombros como luar derretido.
Ele não se mexia muito, a menos que precisasse. Se mexer fazia a poeira voar, e ele odiava o jeito que ela grudava em sua pele. Ele não tinha uma cama de verdade. Tinha apenas um sofá velho virado que havia coberto com cortinas antigas.
Ali, ele dormia com os braços apertados ao redor de si mesmo. Era como se estivesse se protegendo de um mundo que o havia esquecido há muito tempo. O silêncio no quarto não era tranquilo. Era denso e tinha forma.
Às vezes soava como respiração quando ele estava sozinho. Às vezes não. Do lado de fora da janela, a vida no palácio continuava sem ele. Ele observava as pessoas lá embaixo.
Servos e guardas se moviam pelos pátios ensolarados. Nobres passavam rindo com as suas sandálias elegantes, suas vozes subiam em explosões de fofoca adocicada. Músicos tocavam à noite. Cavalos faziam barulho de manhã bem cedo.
A cidade além dos muros brilhava em tons de dourado e laranja, movimentada e viva, tão diferente deste lugar esquecido de madeira apodrecida e teias de aranha. Ele não acenava. Ninguém nunca olhava para cima.
Ele não sabia como era fazer parte daquilo. Às vezes se perguntava se eles sequer sabiam que ele existia. Suas refeições vinham uma vez por dia, e às vezes nem vinham.
Um servo deixava uma tigela com o que sobrava de comida depois que as cozinhas alimentavam o palácio. Podia ficar do lado de fora da porta por horas antes que ele a visse. Ele aprendeu a não esperar por ela.
A fome se tornou uma forma de medir o tempo e até isso havia começado a perder o sentido. Ele não falava há tanto tempo que sua voz havia começado a desaparecer. Ele sussurrava para si mesmo às vezes, só para lembrar como era.
Ele não dizia nomes. Não se lembrava da última vez que alguém havia dito o dele. “Alakis.” Soava estranho até em sua própria cabeça. Ele criou um lar pequeno e estranho ali. Era um tipo de santuário nos ossos de uma beleza antiga.
Uma bacia de lavar escondida atrás de um guarda-roupa. Uma pequena estante faltando metade das prateleiras. Um espelho quebrado virado para a parede. Ele não gostava de se ver.
As paredes eram cobertas com pinturas antigas. Mostravam nobres desbotados que estavam mortos há muito tempo e não tinham nomes. Seus olhos o seguiam mesmo no escuro. Ele parou de ter medo deles. Parou de ter medo de qualquer coisa, na verdade.
Quando você é esquecido, aprende que não há mais nada a temer. Às vezes ele traçava as rachaduras no teto com os olhos e fingia que eram estrelas. À noite, ficava acordado por horas ouvindo o palácio respirar.
Às vezes, chorava sem fazer qualquer som. Mas na maior parte do tempo, apenas olhava pela janela. Ele gostava de observar pessoas que não sabiam que ele estava ali.
Gostava de ver o jeito que se moviam como se importassem. Como se alguém estivesse esperando que elas chegassem. Ele imaginava para onde estavam indo. Inventava nomes para elas.
A mulher de roupa vermelha com a bandeja de laranjas se tornou Yelari, a filha do vendedor de frutas. O guarda alto com a armadura quebrada e sorriso torto era Fareth, um soldado que secretamente escrevia poesia quando não estava trabalhando.
A criada que tropeçava nos próprios pés de manhã era Daya, a filha ilegítima de um nobre que um dia se tornaria rainha. Elas tinham histórias. Ele dava significado a elas, porque ele não tinha nenhum para si próprio.
E quando a noite chegava e a janela ficava escura como um espelho, ele se encolhia em seu canto e fingia que o silêncio era um cobertor, não uma jaula.
As estações passaram e os ventos mudaram de direção.
Ele não percebeu no começo — não no céu, mas no silêncio. O tipo de quietude que vem logo antes de algo quebrar. A porta se escancarou como uma parede se rompendo em seu mundo.
Alakis não pulou. Não se mexeu nem um pouco, nem mesmo quando passos ecoaram pesadamente na pedra, fazendo a poeira voar como insetos assustados.
“Bem, olha só isso,” uma voz disse, presunçosa e adocicada. “Ainda respirando.”
Alakis virou a cabeça um pouco, só o suficiente para vê-los. Seus irmãos estavam ali, dois deles.
O alto de roupa vermelho escura era Ronash, o sexto nascido. Ele era forte como uma pantera, com um sorriso branco demais para ser gentil. O mais baixo, mais largo, vestido de seda e ouro pesado, era Kelir, o quinto nascido. Era duas vezes mais cruel porque nunca havia sido o favorito.
O cheiro de óleo e especiarias grudava neles. Estavam vestidos para os salões internos do palácio — as partes aquecidas, macias e brilhantes que eram cheias de música e perfumes.
Eles não pertenciam a este lugar empoeirado. Mas ali estavam, trazendo lama e risadas para o mundo de silêncio de Alakis.
“Ainda mantendo ratos como companhia, irmãozinho?” Ronash perguntou, empurrando uma tigela vazia perto da porta com o pé.
Kelir se abaixou para pegar um dos pedaços de pano que Alakis usava para fazer seu lugar de dormir. Ele o ergueu com uma expressão cruel.
“Isso é uma cortina ou um manto? De qualquer forma, combina com você,” ele disse.
Alakis se levantou devagar. Não por orgulho. Não por desafio. Simplesmente não tinha sentido ficar no chão enquanto eles estavam ali. Ele não falou. Eles não esperavam que ele falasse.
Ronash caminhou ao redor dele uma vez, seus olhos brilhando.
“Ele está tão quieto. Como uma boneca. Como você acha que ele ficaria pintado? Ou devemos deixá-lo empoeirado? Pode ficar melhor assim.”
Kelir riu.
“Vamos descobrir.”
Eles não disseram onde estavam levando ele. Nunca diziam. Fazia parte do jogo.
Alakis não perguntou. Eles não diriam a verdade de qualquer forma. Ronash liderava o caminho com passos seguros, seus trajes de seda roçando o mármore.
Kelir caminhava logo atrás de Alakis, às vezes cutucando ele com um anel com pedras preciosas ou tirando poeira de seu ombro fingindo nojo.
“Não é à toa que eles te mantém guardado como mofo,” Kelir disse baixinho. “Você cheira a livros velhos e coisa podre.”
Eles o arrastaram por um corredor que ele não conhecia. Cheirava a rosas e vinho. As paredes tinham portas esculpidas como penas de pavão e incenso queimando em tigelas douradas.
E então eles chegaram.
O ar era denso. Dourado e vermelho cobriam cada parede, cada almofada. O teto estava forrado com seda que se movia devagar no ar quente de aberturas escondidas.
Perfume vinha de todas as partes.
As paredes eram pintadas com cenas que teriam chocado os deuses.
Cortinas de veludo vermelho-sangue e dourado pendiam de arcos esculpidos com flores. Lâmpadas queimavam baixas e quentes atrás de vidro colorido. Incenso se enrolava como fumaça da boca de um dragão, pesado com mel, almíscar e algo mais escuro.
Água borbulhava devagar em bacias rasas cercadas de flores de lótus brancas. Havia risadas e música. Cordas suaves e flautas ofegantes estavam todas misturadas com o cheiro de comida e bebida.
As concubinas estavam deitadas em sofás e almofadas. Seus olhos estavam pintados, seus lábios vermelhos, suas peles brilhantes com óleo. Elas estavam seminuas e se divertindo muito. Suas risadas se enrolavam como fumaça de suas bocas.
Elas se deitavam como felinos selvagens, mostrando os dentes enquanto Alakis era empurrado para dentro do quarto pelos seus irmãos.
Ninguém perguntou por que ele estava ali. Elas sabiam.
Ronash disse, abrindo os braços como um artista de teatro: “Queridas, um presente raro para todas vocês. A decepção mais preciosa de nosso pai, arrancada das sombras só para a sua diversão.”
Risadas se moveram pelo quarto como óleo na água.
Kelir agarrou Alakis pelo braço e o arrastou para o centro do quarto.
Uma mulher em um traje violeta transparente se aproximou. Ela se inclinou para estudar Alakis do jeito que alguém olharia para um bicho estranho.
“O que ele é?” ela perguntou.
“Olhem para ele. Olhem para esses olhos. Como pérolas mortas.”
“Ele é ainda mais pálido que o mármore.”
“Você acha que ele está doente?”
“Ele é um fantasma?”
“Ele é,” Ronash disse suavemente. “Um fantasma da linhagem. Um sussurro que nosso querido pai mantém trancado.”
Outra mulher riu, girando vinho em uma taça dourada.
“Qual é o jogo desta vez? Vamos ensiná-lo a agradar? Ou vamos só assistir ele quebrar?”
“Ah, quebrem ele,” disse uma terceira. “Por favor. Eu amo o som que as coisas fazem quando se despedaçam.”
Uma uva foi jogada nele. Ricocheteou em seu peito e caiu no chão com um som molhado. Um lenço de seda foi jogado em seguida, pousando sobre sua cabeça como um véu.
“Olhem os ossos dele,” uma sussurrou, caminhando ao redor de Alakis como uma leoa farejando um filhote ferido. “Poderia tocá-lo como um instrumento.”
“Os pulsos dele são tão pequenos. Como os de uma menina.”
“Mas não uma menina bonita,” disse outra. “Ele parece algo que rastejou para fora de uma tumba.”
“Ou de uma cova de cadáveres de camponeses.”
O colarinho de sua túnica foi puxado para baixo, expondo um ombro. Um borrão de cinzas foi desenhado em sua clavícula com a ponta de um dedo mergulhada em vinho.
“Vamos enfeitá-lo,” disse uma mulher. “Ele precisa de cor.”
Uma concubina usando pulseiras douradas puxou um batom de uma bolsa. Ela começou a desenhar espirais e flores ao longo do outro braço dele, murmurando algo sobre “deixar o cabo da vassoura bonito”.
Uma pegou uma escova e brincou com seu cabelo emaranhado, fazendo sons de clique enquanto mechas se soltavam. “Parece uma teia de aranha. Sem peso nenhum.”
Alakis ficou ali e deixou que fizessem o que queriam.
Ele era pálido demais. Magro demais. Era feio. Não havia força em seu corpo. Seus ombros caíam como os de uma criança.
Seu cabelo era bizarro. Seus olhos eram estranhos. Ele não tinha a pele dourada de seus irmãos ou mandíbulas quadradas ou peitos largos. Não tinha suas vozes altas ou cicatrizes de guerra.
Ele não tinha nada. Nunca teve nada.
Ele pensou que talvez tivesse nascido errado. Como um erro que os deuses haviam esquecido de destruir.
Ele não se lembrava de sua mãe. Não sabia se ela o queria. Só sabia que ela havia morrido, e ele não. E isso foi o começo da raiva de todos em relação a ele.
“Ele nem fala?”
Alakis abriu a boca, depois a fechou. O que ele diria?
Outra pessoa riu e se aproximou.
“Não, não, esperem, façam ele apresentar algo. Vamos ver que truques o fantasma sabe.”
Ronash estalou os dedos e jogou uma moeda nos pés dele.
“Dance, seu cachorro.”
Mais risadas. Cruéis agora. Exigentes.
Alakis olhou para a moeda por um momento, o brilho do ouro contra o tapete. Ele não sabia dançar. Mas se moveu.
Ele fez o que achava que queriam. Era uma imitação ruim e triste dos movimentos que havia visto uma vez de longe através dos muros do jardim. Braços erguidos, pés deslizados, um balanço estranho como um fantoche amarrado.
Eles gritaram e vaiaram.
“Não precisa disso!”
“Meu xale poderia fazer melhor!”
“Que assustador!”
Algo foi derramado sobre seu cabelo, óleo ou vinho. Alakis não conseguia dizer.
“Aish!” Uma das concubinas estalou a língua com nojo. “Esses movimentos são um insulto ao significado da dança. Ele não pode ter permissão para arruinar tal arte. Fantasminha, pare com essa bobagem e rasteje!”
Isso fez todos gargalharem.
E então ele rastejou.
Porque isso ele sabia fazer.
Ele se abaixou até que sua bochecha quase tocasse o tapete e rastejou em círculo. Não porque fazia sentido. Não porque significasse alguma coisa.
Mas porque eles tinham mandado.
Porque se ele não fizesse o que queriam, talvez batessem nele. Ou pior — esquecessem dele de novo.
E de alguma forma esse pensamento doía mais que as risadas.
A humilhação não era nova. Só era mais alta aqui.
Foi Ronash quem viu as sombras se movendo no canto. Uma figura chegou, mais alta que o resto, silêncio envolvendo ele como uma lâmina desprotegida.
As risadas pararam.
Até a música parou, morrendo no meio da nota como uma garganta cortada rápido demais.
O Rei de Elgar havia chegado. Vandu, o Leão das Dunas Orientais, Senhor dos Estandartes de Ferro.
Ele usava trajes que sussurravam realeza em cada fio. Bronze escuro com detalhes de azul e branco. Uma coroa feita como chama retorcida brilhava em sua cabeça.
Seus olhos eram afiados, levemente fundos, como se o peso de governar já o corroesse por dentro há muito tempo.
Mas sua presença era pesada. Pesada o suficiente para que até Ronash recuasse, a taça de vinho baixando em respeito instintivo.
O rei não disse nada no começo. Ele olhou para Alakis.
Não, não para ele.
Através dele.
Como se estivesse olhando para algo em que havia pisado.
“O que é isso?” Vandu perguntou. Sua voz não estava elevada, mas ainda assim ecoava. Ecoou pelo quarto como uma maldição tornada real.
Ronash fez uma reverência baixa, fingindo ser gracioso.
“Uma brincadeira, Pai. Um pouco de diversão com...”
“Silêncio.”
A palavra parou o quarto, mais fria que gelo. Alakis sentiu o peso daquele olhar agora se estabelecer nele de verdade.
Ele não pulou. Não tremeu. Simplesmente olhou para cima.
O lábio de Vandu se curvou.
“Então foi para cá que você fugiu,” ele disse. Seu olhar afiado seguiu o lento pingar de mel que escorria pelo rosto de Alakis.
Vandu se aproximou devagar, seus passos pesados e cuidadosos. Ele ergueu o queixo do garoto com um dedo com anel.
“Você cresceu,” ele disse. Não era um elogio. Era uma acusação. “E ainda assim você não é mais do que era. Um defeito pálido e trêmulo.”
Alakis baixou o olhar, sabendo que o rei estava notando cada machucado, cada mancha, cada pedaço dele que não estava certo.
“Está na hora,” Vandu disse simplesmente. Ele se virou, como se falar mais fosse desperdício de fôlego. “Você será útil ao seu reino, afinal.”
Ronash olhou para cima, surpreso.
“Quer dizer — ela aceitou?”
“Aceitou.”
Todos os olhos estavam de repente em Alakis, mas não do mesmo jeito de antes. Algumas das concubinas trocaram olhares de pena, enquanto outras ergueram as sobrancelhas alto em choque. Até seus irmãos não tinham palavras.
O quarto ficou quieto por tempo demais. Tempo suficiente para que as concubinas não fingissem mais que não estavam observando. Tempo suficiente para que o incenso se enrolando dos braseiros parecesse engrossar com tensão, subindo até o teto como o espírito ascendente de um homem prestes a morrer.
Finalmente, Kelir deu um passo à frente. Ele manteve seu tom neutro, mesmo quando a preocupação se agitava por baixo.
“Enviá-lo para ela...” Kelir disse devagar, seus olhos se movendo de Alakis para as costas largas do rei. “Vai ser bom para nós?”
“Sim.”
O coração de Alakis bateu mais forte em seu peito. Ele olhou para seus irmãos, de Kelir para Ronash, congelados perto da coluna, com as mandíbulas apertadas. Não havia conforto em nenhum de seus rostos.
Ronash riu baixinho, mais para si mesmo que para qualquer outro.
“Ele sequer pode sobreviver mais que algumas horas com ela?”
A piada nem era cruel. Não do jeito que Ronash normalmente era. Era cansada. Um suspiro de descrença, como se alguém tivesse dito que um gato era adequado para liderar um esquadrão de guerra.
Vandu parou.
Não de forma dramática. Não com uma virada ou olhar fixo. Ele simplesmente parou de se mover, como se estivesse ouvindo algo que tornava o próprio ar denso demais para se mover através dele. Então, devagar, ele virou a cabeça o suficiente para olhar para Ronash por cima de um ombro.
Houve uma pausa.
“Você vai descobrir,” ele disse “que ela não mede homens do jeito que nós medimos. É por isso que ela ficou onde não pudemos ir.”
“Ela é um monstro,” Ronash disse baixinho, embora não alto o suficiente para ser ousado.
“Sim,” Vandu disse, virando de volta para a porta. “O que mais poderia derrubar o império de seis séculos de Nahr'Zul como se estivesse tirando areia de uma mesa? Ela despedaçou os rilks e sua cavalaria de cinquenta mil e os espalhou como cães assustados. Ela reduziu a legião de feiticeiros de fogo de Sharuhl a ossos enegrecidos em cinza de templo. E Qassira com seu desfile de elefantes de guerra blindados, cada um uma fortaleza móvel, ainda trazida de joelhos antes do fim de um único ano. Um após o outro, dentro de uma década.”
Kelir soltou um suspiro baixo. “Então devemos nos curvar e rastejar, vender nosso orgulho tão barato?”
A voz de Vandu era baixa, entrelaçada com o tom rouco e seco de um general experiente.
“Como não tenho feiticeiros, nem cavalaria, e nem um único maldito elefante, nós fazemos o papel do cão. Esperamos. Sorrimos quando pedem. Porque a sobrevivência, por enquanto, exige obediência ao que deveria ter sido pó há muito tempo.”
Isso finalmente silenciou os príncipes sedentos de batalha, mas eles se mexeram, energia inquieta se movendo através deles. Seus instintos gritavam contra o que estavam ouvindo, mas o peso das palavras de seu pai os mantinha no lugar.
Pelo menos um pouco.
Os olhos de Vandu se estreitaram com aquela sabedoria fria e cansada que só o tempo no campo podia trazer.
“Você não enterra a montanha que deve atravessar. Você sobrevive a ela. E espera que ela não caia sob seus pés.”
Ronash zombou.
“Então você vai mandar ele para ficar em nosso lugar? Para nos representar?” A quantidade de ódio em suas palavras poderia ter enchido um balde.
Alakis pulou ao ser mencionado. Sua pele arrepiou sob o peso do momento, a certeza rastejante de que estava sendo oferecido como um sacrifício. Ele ainda não tinha começado a entender o que essa barganha exigia dele.
“Sim,” Vandu disse simplesmente. “Ele vai.”
As mãos de Ronash se fecharam, seu rosto torcido com uma mistura de descrença e nojo.
“E se ele morrer?”
Vandu olhou para Alakis do jeito que alguém olharia para uma adaga lascada e deixada na chuva, apenas para encontrar uso para ela depois.
“Então ele vai morrer a serviço de Elgar.”
Kelir, ainda incapaz de aceitar tal situação, abriu a boca para falar. Mas antes que as palavras pudessem se formar, Vandu o cortou com um olhar que carregava o peso de séculos.
Os príncipes mais jovens estavam silenciosos agora. A verdade dura das palavras de seu pai se estabeleceu sobre eles como um vento frio.
O mundo havia mudado. O peso do orgulho de Elgar havia cedido sob a pressão de reinos muito mais fortes que o deles. Agora eram forçados a fazer o papel dos obedientes.
O reino, uma vez uma besta que rasgava seus inimigos com dentes à mostra, agora caminhava um caminho mais quieto. Era pavimentado com compromissos e rendições.
E Alakis, o garoto que antes não conhecia nada além da espada e do sangue da batalha, seria sua peça de barganha mais delicada. O mundo estava finalmente cobrando o que havia deixado para trás.








































