
O Reino
Author
Natalie Le Roux
Reads
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Chapters
51
Capítulo 1
Livro 1: Revelações
ISABELLE
Ele vai me matar.
Izzy sabia que conversar com o marido sobre a traição dele seria difícil. Mas em dezesseis anos de casamento, ele nunca tinha batido nela ou nos filhos.
O vidro quebrado da mesa de centro embaixo dela formava uma cama de dor terrível. Ela conseguia sentir os pedaços afiados de vidro espalhados pelas costas e a umidade do próprio sangue.
Tentou respirar, mas a dor aguda no peito a machucava.
Tossiu sem querer. Não conseguia encher os pulmões. A dor terrível fazia sua cabeça girar. Izzy sentiu o gosto de sangue no fundo da garganta. Ele machucou meu pulmão.
Ficou ali deitada, lutando por cada respiração. Perguntou-se o que Peter faria para terminar de matá-la.
Talvez ele tenha ido buscar outra bebida. Talvez beba tanto que vai desmaiar, esperou. Pelo menos os meninos estão com a mamãe. Nunca mais vou vê-los, mas estão seguros.
Novas lágrimas saíram, embaçando a visão. A sala de estar destruída entrava e saía de foco. Precisava se mexer, mas o osso quebrado da perna atravessava a calça jeans azul-escura.
Mas ela queria viver. Ser mãe para os meninos. Vê-los crescer.
A televisão ligou sozinha e mostrou estática por um momento. O quarto iluminado pela lua ficou claro. Sentiu seus pensamentos acelerarem. O medo que a impedia de se mover foi embora.
Ninguém vai vir me salvar.
Puxou o máximo de ar que conseguiu. Agarrou a perna e se sentou. Segurou um grito. Ouviu o vidro que não estava preso nas costas cair suavemente no tapete.
Olhou para baixo, para um grande pedaço de vidro afiado que brilhava na luz da televisão. Usou os dentes para puxar a manga sobre a mão e o agarrou.
Tossindo de novo, Izzy apertou os dentes contra a dor. Ouviu o sangue dentro do pulmão fazer bolhas. Sua cabeça girou. Seus olhos pesaram. Seja lá o que eu vou fazer, preciso fazer antes de desmaiar.
Olhou para cima ao som de batidas vindas de cima. Sabia o que Peter estava fazendo. Numa prateleira alta no armário do quarto ficava a arma da Segunda Guerra Mundial do avô. Um medo novo a encheu.
Do outro lado da sala, no canto, estava sua bolsa preta onde ele a tinha jogado.
Meu telefone está lá dentro. Ninguém vai chegar a tempo de me salvar, mas sei que a Amy vai fazê-lo pagar.
Com a perna quebrada, podia muito bem estar bem longe.
Tenho que tentar.
Um som de dor saiu dela quando rolou de bruços. Usando a perna boa, se empurrou bem devagar. Os sons de cima continuaram. A televisão dava luz suficiente para ver o caminho.
Ele está tentando abrir a caixa trancada. Não tem a chave. Vamos lá, Izzy, você consegue.
Pouco a pouco se moveu, deixando um rastro de sangue até a bolsa de couro estar perto o suficiente para alcançar. Largou o pedaço de vidro e puxou a bolsa para si. Procurou dentro pelo telefone.
Encontrou o telefone. Deslizou, deixando sangue na tela, e apertou chamadas recentes. Por favor, atende, Amy.
“Izzy?”
Izzy abriu a boca para falar. Nada além de uma tosse borbulhante saiu, deixando espuma grudenta nos lábios.
Tentou de novo. Parecia a coisa mais difícil que já tinha feito. Ouviu os passos de Peter descendo as escadas.
“Peter vai... me... matar, Amy” sua voz saiu tão suave e fraca que não reconheceu como sua. Apertou o botão de volume até a resposta assustada de Amy ficar quieta e escondeu o telefone de volta dentro da bolsa.
Ela vai ouvir tudo. Ele não vai se safar, pensou com uma felicidade sombria.
Rolou e viu Peter entrar na sala pela luz da televisão. Segurava a arma velha na mão. Olhou para ela. Os lábios estavam finos de raiva. A mandíbula estava tensa. Então levantou a arma para apontar para a cabeça dela.
Ela abriu a boca e sangue borbulhou, impedindo-a de falar.
Não conseguia falar com o pulmão enchendo de sangue. Então, num último ato de resistência, levantou a mão direita com o dedo do meio erguido. Viu os olhos dele seguirem o movimento.
Com a outra mão, alcançou o pedaço de vidro e agarrou a ponta entre os dedos. Jogou o braço para frente e assistiu enquanto acertava a perna dele. Vai se ferrar, Peter.
Ao som alto de raiva dele, fechou os olhos, e a arma disparou.
***
Izzy acordou de repente, olhos arregalados, se afastando enquanto o movimento machucava as costelas.
Só tinha vivido porque a arma velha com suas balas velhas não funcionou direito. Explodiu um pedaço que acertou Peter na cabeça.
Quando ele acordou, Izzy conseguia ouvir o som de sirenes de polícia. Ao som, o desgraçado tinha fugido.
Faz só três semanas? pensou, pressionando uma mão no lado. Dez anos de casamento feliz e seis vivendo como metade de si mesma, presa num casamento sem amor. Ficou pelas crianças.
Bastou um pequeno comentário do filho de quinze anos, James, para fazê-la saber que seus pensamentos sobre a traição de Peter estavam certos.
A única coisa boa daquele dia foi ter mandado James e o irmão de onze anos, Lucas, visitarem a avó antes de falar com Peter. Não estavam lá para ver o pai se tornar um monstro.
Izzy balançou o suporte de perna preto pesado que segurava os ossos quebrados juntos para fora do sofá e alcançou a muleta. Uma dor aguda disparou do pulso e subiu pelo braço.
“Merda!” gritou quando a muleta caiu no chão.
O frio na velha cabana de troncos do pai a fez tremer. Precisava acender uma fogueira logo.
Congelar até a morte no deserto canadense não estava na lista de coisas a fazer. Mas queria café e remédio para dor mais do que queria calor agora.
“Acho que essa é minha vida por enquanto” disse, falando com a muleta idiota deitada fora de alcance.
Que mudança da rotina regular como paramédica. Estava acostumada a ajudar os outros. Uma vida de ajudar pessoas que escolheu de bom grado, ajudando pessoas nos piores momentos. Seu estado machucado a deixava irritada.
Sabia que ainda deveria estar no hospital. Conhecia médicos suficientes que teriam ficado felizes em mantê-la lá enquanto os ossos saravam.
Mas o quarto de hospital limpo em que tinha acordado a fazia se sentir presa. Ou talvez fosse o orgulho ou a sensação de que precisava se esconder de Peter enquanto ele continuava fugindo da polícia.
Mas odiava se sentir indefesa. Amy a trouxe até aqui para descansar e sarar em lugares familiares. Quando não está caçando o desgraçado.
Arrastou a perna cuidadosamente atrás de si enquanto se movia em direção à cozinha, usando qualquer coisa por perto como apoio.
A maior parte do corpo coçava da cicatrização. Os hematomas estavam desbotando para uma mistura de verde opaco, azul e amarelo. Mas seis pinos de metal seguravam a perna quebrada junta. Como as costelas, levariam muito mais tempo para sarar.
Com vontade teimosa, se moveu para a cozinha para trabalhar com xícaras e fazer café.
Encarou o vapor por um segundo antes de se servir um copo de água. Engoliu uma mistura de antibióticos, remédio para dor e relaxantes musculares, depois voltou para a sala de estar.
Empurrou a porta com o ombro e segurou a xícara fumegante na mão machucada. Segurou a moldura da porta com o braço bom para se apoiar.
Ao entrar, seus olhos se ergueram para o quarto, e parou.
“Que droga?” saiu da boca dela diante de uma fogueira alta na lareira de ferro.
Seu coração afundou. O quarto quente pareceu frio enquanto tremia. Sua mente estava assustada. Peter! Ele voltou para me acabar.
Colocou a caneca na mesinha lateral e ficou quieta e tremendo, ouvindo por quaisquer sons na cabana que estivessem errados.
A madeira estalou na chama. A neve caía suavemente contra a janela lá fora. Tudo soava normal até o assoalho acima da cabeça fazer um som.
Isso é no quarto, pensou. DROGA! Puxou o telefone do bolso e ligou para o primeiro número na lista de contatos.
“Alô?” Amy atendeu com voz cansada.
“Tem alguém na cabana” Izzy sussurrou.
“O quê? Quem?” Amy perguntou, a voz cheia de consciência instantânea.
“Não sei. Consigo ouvir alguém lá em cima. Meu Deus, Amy, e se for o Peter?”
“Iz, vai para a cozinha. Deixei uma arma na gaveta, segunda de baixo, lado esquerdo da pia.”
Como detetive de polícia na Unidade de Crimes Violentos de Vancouver, Amy amava armas demais. Izzy se sentiu grata por isso agora.
“Espera aí.” Se moveu para trás com pés trêmulos, tentando ser o mais quieta possível. Cada passo lento fazia o chão de madeira ranger. Recuou para a cozinha, os olhos presos nas escadas.
Amy disse no telefone: “Pegou?” e Izzy virou para o quarto e congelou.
Ali, na cozinha dela, parado perto da pia com uma postura confiante e um olhar de diversão num par de olhos azuis incríveis, estava o homem mais alto que já tinha visto.
A razão para a confiança dele, além de um corpo que parecia poder quebrá-la ao meio facilmente, descansava firmemente na mão direita.
O aço cinza da arma de Amy quase combinava com o cabelo e roupas escuras dele, como algum tipo de acessório para um Pierce Brosnan musculoso.
Aqueles olhos azuis lindos olharam para os castanhos dela como se olhassem para a própria alma. Engoliu através de uma garganta apertada de medo, tentando fazer o corpo teimoso se mexer.
Mas não se mexeu. Só ficou ali em choque como algum pedaço inútil de mobília quebrada.
A voz de Amy a chamou do telefone de novo. Queria desesperadamente gritar para a amiga por ajuda, mas a arma na mão do homem a assustava demais para arriscar isso.
Em vez disso, disse rapidamente: “Quem é você?” enquanto o coração batia nos ouvidos e o medo corria por ela. O homem deu um passo à frente, e Izzy tropeçou para trás.
“Não chegue perto de mim. Por que está na minha casa?”
O homem não disse nada enquanto inclinava a cabeça e olhava o corpo dela.
Ah Deus, só faltava essa agora. “Por favor, não...” sussurrou.
Enquanto encarava os olhos do homem, eles começaram a mudar. O azul impressionante foi devorado por um vermelho profundo e rico.
A mão dele ficou branca na arma e ele baixou a cabeça, encarando-a por baixo da sobrancelha, os lábios numa linha fina.
Lágrimas pingaram dos cílios. “Não, por favor, não” implorou enquanto rolavam pelas bochechas.
O estranho moveu a arma, usando dois dedos para segurá-la pelo cano e colocando-a no balcão à esquerda. Não que o invasor estar sem arma fizesse diferença. A cabeça dele quase tocava o teto de dois metros e meio.
Ao baixar o braço, ela conseguiu ver o movimento dos músculos enormes deslizando como seda sob a roupa preta que usava.
Os braços superiores eram do tamanho das coxas dela, com peito e ombros igualmente musculosos. Parecia um fisiculturista ou usuário de esteroides. Ele pode fazer o que quiser comigo sem se esforçar.
“Não tenha medo. Não vou machucá-la” disse. A voz profunda soava como mel e fumaça de charuto na cozinha silenciosa.
“O que quer de mim?”
“Tirá-la deste mundo” disse, apontando com as mãos fortes para o teto.
O coração de Izzy pulou de novo. “O que quer dizer?” perguntou, se afastando dele e batendo na porta sólida da cozinha.
“Quem fez isso com você?” perguntou, franzindo a testa de novo, os olhos vermelhos ficando mais escuros.
“Não é da sua conta!” retrucou.
Ele deu um passo mais perto, o rosto contorcido de raiva.
Droga. Talvez deixá-lo com raiva não seja a melhor ideia.
Izzy se afastou dele enquanto dava outro passo mais perto, entrando no espaço pessoal dela.
Conseguia sentir o cheiro do homem, um estranho cítrico e canela, mas não exatamente. Ficou perto o suficiente para tocá-la, mas os braços permaneceram ao lado. “Quem fez isso com você?” perguntou de novo, o tom gentil.
“Meu ex-marido” disse, esticando o pescoço para olhar o rosto dele. A raiva e violência naquele olhar mandaram um tremor por ela. Droga, droga, droga.
“Onde ele está?”
Izzy franziu a testa com isso.
“Não está aqui, mas minha amiga vai estar, logo. Ela é policial, então talvez devesse ir embora antes dela chegar” Izzy disse, esperando que fosse suficiente para fazê-lo ir embora.
Mas ele só ficou encarando-a, um músculo na bochecha se movendo enquanto pensava.
“Por favor, só vá embora. Não tenho nada valioso, talvez alguns dólares na bolsa...” Apontou para a bolsa no banco de bar na área de café da manhã a alguns metros.
“Não sou ladrão.” A voz profunda soou alta enquanto se endireitava. Ela não conseguiu evitar ver coisas interessantes acontecerem com o corpo musculoso à frente.
“Então” tentou não pensar no que ele queria, se não dinheiro “o que quer?” perguntou com voz pequena.
“É complicado. Não posso te contar. Ainda não.”
“Está aqui para me matar?” Izzy perguntou, incapaz de parar um tremor na voz.
“Não” o homem disse simplesmente, recuando para apontar para os ferimentos dela com aquelas mãos grandes e de aparência forte “mas vou matar o homem que fez isso com você.”
Ela balançou a cabeça para limpar os pensamentos confusos. “Por quê?”
“Porque um homem que bate numa mulher assim não deveria viver, mas também porque ele fez isso com você.”
Comigo? Mas ele é um estranho, por que se importa com o que aconteceu comigo? Ainda estou dormindo? Esse é outro pesadelo?
Sem violência do homem, se endireitou, tentando entender o significado dele pelo rosto.
“Quem é você?” Izzy exigiu. Ao se mover como fez e não sentir a dor das costelas, sabia que o remédio para dor estava funcionando. Perguntou-se se isso lhe dava uma vantagem de confiança.
Ele esperou antes de responder e então deu de ombros como se não importasse. “Meu nome é Mikhlas. Sou o Capitão do Koentra, um destruidor da Frota Estelar de Defesa Real.”
Frota Estelar? Ah ótimo, ele é louco.
Se afastou de novo, a porta atrás dela abrindo, e tentou manter a voz leve. “Ok, Mike, talvez devesse voltar para sua nave. Tenho certeza que a liga de defesa real precisa de você de volta.”
Os olhos dele suavizaram, azuis novamente enquanto sorria, mostrando dentes brancos perfeitos. “Você estava certa, ela não acredita em mim” disse.
“Eu avisei” outra voz grave de baixo disse atrás dela.
Ela girou, e um segundo maluco enorme de academia vestido de preto se apoiava na parede, a apenas sessenta centímetros atrás dela.
Entrou em pânico e tentou se afastar, mas a perna machucada não obedeceu, e tropeçou. Esperava bater no chão, com força, e fechou os olhos.
Em vez da batida dolorosa do chão, dois braços quentes e sólidos a pegaram. Abriu os olhos e tudo que conseguia ver eram o azul brilhante dos olhos de Mikhlas encarando os dela, um oceano frio que encheu sua visão.
Seu coração acelerou. Queria dizer algo suave e inteligente, mas as palavras falharam enquanto encarava os olhos dele sem piscar. Tão lindos. Pena que pertencem a um cara louco.
Mikhlas a segurou por um momento então facilmente a ergueu e passou pelo outro homem para a sala de estar antes de colocá-la de pé.
Izzy se equilibrou com a mão no ombro dele, sentindo o músculo firme então puxando a mão como se queimada. Encarou os dois homens, olhos se movendo entre eles.
Poderiam ser irmãos, são tão parecidos. A única diferença que consigo ver é que o segundo homem é alguns centímetros mais baixo, e as olheiras sob os olhos.
“Quem são vocês?” perguntou, enquanto o segundo homem se afastou da parede e caminhou em direção a ela. Se afastando dele, a bunda bateu na mesa de jantar, e ele parou. Os olhos eram do mesmo azul brilhante de Mikhlas.
“Me respondam! O que querem?” gritou para ele, mas Mikhlas respondeu.
“Posso explicar, mas preciso de uma coisa primeiro.”
“É, e o que é?” retrucou.
Mikhlas deu um passo mais perto, um olhar estranho no olho, e ela sentiu aquele cítrico e canela de novo.
Queria se afastar, mas a mesa estava bem atrás. Não podia correr, não com a perna, e o segundo homem parecia pronto para bloqueá-la se se movesse, um senso preguiçoso de prontidão enrolada.
Mikhlas ficou sobre ela, e ela manteve os olhos no chão, a respiração rápida e superficial.
“Seu DNA” sussurrou.
Quando Izzy ergueu os olhos em confusão, ele se curvou mais e colocou os lábios nos dela. Enquanto ficava congelada em choque, a mão dele se moveu para a nuca e a segurou gentilmente no lugar enquanto o beijo se aprofundava.












































