
A Série O Oculto
Author
Maya Chevalia
Reads
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Chapters
15
Capítulo 1
Livro 1: Silencioso
O dia começou como qualquer outro. Ou quase.
Nonali não conseguia se livrar de um mau pressentimento. Ele a rondava enquanto ela se vestia e preparava o café da manhã. Seu pão pulou da torradeira completamente queimado, com a fumaça subindo como um mau presságio.
A sensação a seguiu até o trabalho, e depois até o almoço, onde ela encontrou sua melhor amiga Vanessa Vereno, ou Vee, como havia sido apelidada por Nonali na sua primeira semana no jardim de infância.
Diante de duas xícaras fumegantes, Nonali se esforçava para acompanhar o relato tagarela de Vee sobre seu drama mais recente. Ela se agarrou ao seu café, desejando que o calor da bebida afastasse o frio que subia pela sua espinha.
“...Mas não é como se ele deixasse de ser incrivelmente atraente só porque pode ser um babaca às vezes!” Vee parou para respirar e dar um gole em seu chocolate quente quase intocado. Nonali queria chorar.
Mais conversa sobre garotos.
“Nós estamos namorando entre idas e vindas há algumas semanas, é só que ele não apenas tem problemas de confiança, mas também tem medo de qualquer tipo de intimidade e tem uma tendência a atacar quando pressionado,” Vee esbravejou, em um discurso idêntico ao do último almoço.
“Por que você simplesmente não termina com ele? Parece que vai dar muito trabalho,” Nonali resmungou, pegando sua xícara mais uma vez, como se isso fosse escondê-la do olhar furioso de Vee.
O suspiro de Vee fez as cabeças das outras pessoas no café se virarem na direção delas.
“Terminar com ele? Acho que não! Eu preciso ajudá-lo a superar os problemas dele e se abrir! Do contrário, de que adianta eu ser terapeuta?” Ela terminou com uma piscadela.
“Não tenho certeza se namorar é a melhor forma de fazer valer a pena o dinheiro gasto nesse diploma de psicologia,” Nonali disse.
“Ah, não seja ridícula.” Vee jogou para trás os longos cabelos loiros. “Eu não sou obcecada em namorar pessoas quebradas, eu sou apenas boa em consertá-las!”
“Consertar,” Nonali bufou. “Certo.”
Justo quando Nonali estava prestes a soltar um suspiro, os olhos verdes de Vee brilharam de malícia. Nada de bom poderia vir daquilo.
“Eu fiz reservas no Vixen's!”
O estômago de Nonali embrulhou.
“Ah, a gente tem mesmo que ir... àquele restaurante em particular?”
“É claro!” Vee exclamou. “Vixen's Kiss é um dos restaurantes mais chiques da cidade! A comida é fantástica, e o serviço é sempre excepcional!”
“É só que...” Nonali engoliu em seco. “A dona—”
Em sua mente, ela se lembrou da mulher alta e deslumbrante que ficava na sacada acima do salão de jantar. Nonali conseguia ver através do falso exterior humano da mulher até sua verdadeira forma: uma raposa demônio de seis caudas, conhecida como kitsune.
Saber que o restaurante era de propriedade e administrado por demônios arruinava seu apetite.
“A dona é maravilhosa, do que você está falando?” Vee riu.
A sensação ameaçadora que pairava sobre a cabeça de Nonali começou a descer como um peso em seu peito.
“Esteja lá hoje às nove, por favor!” Vee disse, olhando para o relógio e saindo apressada da mesa. Ela bebeu o resto de sua bebida de uma vez e acenou ao sair.
Nonali olhou para o seu próprio relógio e percebeu que já estava atrasada para voltar para o escritório.
Desde que Nonali conseguia se lembrar, ela podia ver o mundo do Oculto.
Até mesmo enquanto caminhava pela rua até o escritório, ela avistou um homem passando com chifres saindo da testa. Uma mulher com uma cauda pontuda roçou à sua esquerda.
Parada no ponto de ônibus, uma criança com penas saindo da camisa segurava a mão de uma mulher sorridente, com dentes afiados demais para serem normais.
Nonali tentava incansavelmente não ver o Outro. Seu olhar nunca se demorava muito, e ela nunca comentava sobre as coisas que via. A ignorância era uma bênção, e ela estava determinada a ser abençoada, que droga!
Ela ignorou seu colega de trabalho no cubículo em frente ao dela com sua cauda de lagarto, escamas roxas e olhos cor de gelo com fendas, por baixo de sua atraente persona humana. Ela o cumprimentou rápida e silenciosamente antes de se sentar em sua mesa, retomando o livro de contabilidade que ela havia deixado pela metade antes de sair para o almoço.
Ela podia sentir o peso dos olhos dele sobre ela, enquanto o som das teclas se tornava um bálsamo para sua alma. As equações simples para calcular os ganhos deste trimestre faziam o resto do mundo desaparecer.
Ela genuinamente gostava do seu trabalho como secretária e contadora desse departamento, apesar de seu chefe ser um incubus e seu vizinho de cubículo ser um dragão. A maioria dos outros funcionários era humana, e ninguém a incomodava. Ela assumia uma postura menos do que amigável para manter seu ambiente de trabalho tranquilo.
Pelo menos, ninguém costumava incomodá-la.
Um pigarro áspero não a fez parar em seus cálculos. Nonali esperava que, se simplesmente ignorasse o som, ele iria embora, assim como esperava com tudo o mais. Por um momento, o intruso hesitou, mas reuniu coragem e se arrastou um pouco mais para o espaço pessoal dela.
Nonali suspirou e deixou seus livros de lado.
Callum era um homem alto, embora ela supusesse que um dragão não pudesse ser nada menos do que isso. Seu corpo humano era bem construído e agradável aos olhos, com o seu cabelo castanho espetado, pele morena e músculos definidos. Ele não parecia pertencer a um escritório.
Ele estava quase tímido, erguendo a mão para passá-la pelo cabelo de um jeito nervoso que ela já reconhecia de seus muitos dias sentada na frente dele.
“Ei, hum, eu estava me perguntando se talvez você não estaria interessada em sair hoje à noite?” ele perguntou com um leve rubor cruzando suas bochechas.
Se Nonali fosse normal, e ele fosse humano, ela poderia estar mais inclinada a concordar com a sua tímida declaração de interesse. No entanto, ela podia ver a fome e a sede de sangue em seu olhar serpentino. Se ela saísse com ele, era improvável que voltasse.
Ela tentou controlar seu instinto de lutar ou fugir, enquanto o medo martelava seu coração contra as costelas. Engolindo em seco, ela respondeu com a verdade.
“Eu tenho planos para hoje à noite.”
Sua fachada humana franziu a testa em decepção, enquanto a que estava por baixo fervia de raiva.
“Que tal amanhã?” ele tentou.
A forma esguia de seu chefe Everett, ou Sr. Norse, espiou pela abertura do cubículo com um sorriso charmoso, embora o sorriso debaixo da sua máscara humana estivesse zangado e tenso.
“Relacionamentos no escritório são proibidos, Sr. Bennett. Essa é uma regra que levamos muito a sério aqui. Este é o seu primeiro e único aviso.”
Nonali nunca ficou tão feliz em ver o desgraçado antes.
O dragão debaixo da pele de Callum rosnou e mostrou os dentes para o salvador dela, mesmo que, por fora, ele tenha rido e dado um tapinha no ombro do Sr. Norse antes de voltar para a sua própria mesa.
“Está tudo bem, Senhorita Beauchamp?” a voz aveludada do Sr. Norse questionou, embora seus olhos estivessem voltados para o peito dela que subia e descia.
Nonali lutou para controlar a respiração em pânico e sorriu para ele educadamente. Everett nunca havia sido nada além de profissional com ela no local de trabalho, e embora ela não gostasse de demônios, o respeitava como seu empregador.
“Obrigada pela intervenção,” ela disse em tom baixo, ciente de que o dragão puto da vida ao lado não havia aceitado bem a sua rejeição ou a interferência do chefe deles.
“Claro, eu odiaria ter que demitir a única secretária neste prédio que presta para alguma coisa.” Ele sorriu para ela, com os olhos ainda fixos no decote que a camisa de botões dela proporcionava, embora sua respiração ofegante de medo já tivesse cessado.
“Colocarei os relatórios que você precisa e suas reuniões agendadas na sua mesa antes do fim do dia,” ela disse, tentando distraí-lo.
Ele gemeu e assentiu com a cabeça, se afastando da mesa dela e voltando para o seu escritório de vidros escuros. Quando o expediente finalmente acabou, ela achou lenta a viagem de volta para o seu apartamento vazio, presa no trânsito da tarde e em seus pensamentos. Com sorte, ela não veria o Sr. Norse em seus sonhos novamente hoje à noite.
As visitas de Everett começaram pouco depois de ela ter entrado nesse emprego. Depois de algumas semanas, ela o pegou olhando para ela por cima dos papéis entregues junto com o café da manhã, exatamente do mesmo jeito que ele estava olhando para ela hoje.
Ele tinha dois rostos, mas eles refletiam tão de perto um ao outro, que ela achou que talvez estivesse apenas imaginando. Foi sua cauda semelhante à de uma vaca que o entregou, mas ela ainda não tinha certeza de que tipo de Outro ele era. Pelo menos até ela acordar encharcada de suor após o sonho mais safado que já teve na vida. Ela soube ali mesmo que ele tinha que ser um incubus, porque não havia nenhuma chance de ela ser tão criativa assim, tendo dormido apenas com duas pessoas em seus vinte e cinco anos de existência.
Nonali teve alguns sonhos com ele aqui e ali por um mês ou mais após o primeiro, mas eles logo cessaram quando ela notou que a qualidade do seu trabalho caía nos dias seguintes às visitas dele.
De vez em quando, no entanto, o Sr. Norse aparecia em seus sonhos, usando-a como uma bebida energética.
Nonali destrancou a porta e jogou a bolsa no sofá enquanto chutava os saltos, desvestindo-se à medida que entrava no apartamento.
O relógio na parede dava a ela cerca de duas horas para se arrumar para encontrar Vee, mas ela na verdade só queria ficar deitada na cama de calcinha e sutiã maratonando TV.
O doce alívio de tirar o sutiã foi apenas momentâneo, enquanto ela ligava relutante o modelador de cachos e pegava sua bolsa de maquiagem. Levou quase uma hora só para encontrar um vestido decente, escolhendo uma peça vermelha escura na altura do joelho, com mangas compridas e um decote generoso.
Ela domou as madeixas pretas em cachos bonitos e aplicou um batom com o mesmo tom carmesim do seu vestido.
***
O intenso sentimento de mal-estar que ela havia sentido de manhã retornou e se intensificou quando ela chegou ao Vixen's, piorando ainda mais quando ela foi levada a uma das mesas na sacada, com vista para o jardim do restaurante.
Ela teve que admitir que a kitsune tinha um bom olho para a beleza. Já sentada, Vee deu um gritinho para chamar a sua atenção, levantando-se empolgada e fazendo a cadeira de metal raspar de forma violenta pelo chão. Nonali sorriu e a abraçou antes de ocupar a cadeira em frente a ela.
O garçom chegou rapidamente, colocando um cardápio diante dela e uma taça para a garrafa de vinho no centro da mesa, recomendando que ela não tivesse pressa.
“Você sabe que é você quem paga, né?” Nonali comentou casualmente enquanto enchia sua taça com o vinho tinto de cheiro doce. Verdade seja dita, ela nunca ligou para vinho, mas seu dia tinha sido longo, e aquilo aliviaria o sentimento ruim do qual ela não conseguia escapar.
“Naturalmente,” Vee revirou os olhos. “Eu queria que você conhecesse o Ezra, e sabia que o único jeito de fazer você vir era atrai-la com comida cara.”
O estômago de Nonali embrulhou com a ideia de conhecer mais um dos infelizes passatempos de Vanessa, e ela não queria nada além de se levantar e ir embora. Percebendo seu desgosto, Vee rapidamente colocou a mão sobre a dela para impedi-la de se levantar. “Qualquer coisa que você quiser. Você pode pedir qualquer coisa do cardápio. Não importa o preço,” ela barganhou.
Nonali recostou-se na cadeira.
“Bom, seria muito rude não dar uma chance a ele, além disso, eu me arrumei toda e tudo o mais,” ela concordou maliciosamente.
“Nonali!” Vee ofegou, consternada com a facilidade com que havia sido enganada.
“Então, onde está esse homem misterioso afinal?” Nonali a cortou.
“Ele precisou atender uma ligação, mas deve voltar em um minuto. Ah! Lá está ele agora!” Sua amiga apontou.
No momento em que Nonali se virou na cadeira, seu coração caiu no estômago e bateu rápido de medo.
Por fora, ele era de tirar o fôlego: um coque grosso e bagunçado de cabelos ruivos, largo e muito musculoso, e com olhos verdes que lembravam a primavera, mas ela podia vê-lo. O seu eu verdadeiro.
O homem tinha asas negras quebradas e esfumaçadas, e chifres de carneiro adornando cada lado do crânio. Cicatrizes cobriam cada centímetro daquela pele pálida, e seus olhos eram mais escuros que piche de ponta a ponta.
O terror congelou seu sangue.















































