
Algo Assim
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Chuva
LIA
Lia ajeitou a sua roupa de trabalho, dando uma última olhada em si mesma antes de sair para o seu primeiro turno no Medford General Hospital.
Caixas estavam espalhadas pelo quarto, meio desempacotadas.
O seu irmão, Nathan, tinha lhe cedido o seu antigo quarto de adolescente enquanto ela procurava um lugar. As paredes ainda estavam forradas com pôsteres de country rock e fotos dos anos em que ele morou lá com o pai, depois que os pais deles se separaram.
Enquanto arrumava uma mecha rebelde do seu cabelo castanho-claro no espelho, o seu olhar pousou numa tira com quatro fotos de cabine, com as cores desbotadas pelo tempo.
Ela se inclinou para olhar mais de perto.
Em cada foto, o seu irmão loiro fazia uma expressão boba diferente, com o braço ao redor de outro jovem. O amigo de Nathan tinha cabelo escuro e um sorriso deslumbrante, mas a tristeza no seu olhar chamou a atenção dela.
Lia desviou o olhar da foto e andou pela casa silenciosa, pegando as suas chaves. Nathan tinha saído para jantar com a sua noiva, Dani.
“Ah, não, chuva”, ela reclamou, puxando o capuz da jaqueta.
Quando Lia saiu com o carro da entrada de casa, luzes fortes brilharam no escuro no fim da estrada de terra. Ela virou à esquerda, querendo evitar uma cena de acidente, e mexeu no celular para achar um caminho alternativo.
As estradas de terra de Medford eram como um labirinto. Xingando a chuva, ela se aproximou de um carro parado.
Antes que ela pudesse sequer pensar, uma jovem bateu na janela do seu carro.
“Por favor, precisamos de ajuda!”
Lia estacionou o carro.
“O meu bebê não está respirando, e a ponte foi levada pela água... Eu... Nós... Por favor, você pode ajudar?!” a mãe chorou.
“Onde ele está?”
Lia pulou para fora do carro e abriu a porta de trás do passageiro.
Uma garotinha, de não mais que cinco anos, estava sentada segurando um pequeno bebê mole nos braços. A preocupação e o medo distorciam o seu rostinho.
Pegando a criança, Lia começou as compressões torácicas.
“Ligue para o 911!” ela gritou.
“Eu... eu... eu não tenho celular”, a mulher chorou.
“No meu carro, no console, o meu celular, ligue para o 911 agora!” Lia instruiu.
A chuva caía mais forte e a encharcava à medida que os minutos passavam. Ela continuou a fazer a RCP no chão frio de concreto, e os faróis do seu carro forneciam a única luz.
Como enfermeira de pronto-socorro, a morte não era estranha para Lia, mas hoje era diferente.
De jeito nenhum ela pensou. Isso não pode acontecer hoje à noite!
Lia segurou as lágrimas, continuando as compressões e checando a pulsação.
Vinte minutos se passaram devagar, e depois trinta.
A garotinha se abaixou ao lado de Lia, observando. “Ele tem um cobertor?” Lia perguntou. A menina acenou com a cabeça e lhe entregou a pequena manta de bebê.
“Obrigada, querida. Agora volte para o carro, feche a porta e fique quentinha, está bem?” Lia sussurrou, não querendo que ela presenciasse mais nenhum trauma.
Lia levantou o corpo sem vida do bebê e o enrolou no cobertor. Então, ela começou a andar devagar até o seu carro.
Faróis quase a deixaram cega, e ela parou quando duas pessoas se aproximaram. A mãe desesperada do bebê se virou, com o celular na mão.
“Eles chegaram, a ajuda chegou!” a mulher chorou.
Na escuridão, um homem com quase a idade de Lia se aproximou, com um homem mais velho logo atrás dele. O homem mais jovem parecia estranhamente familiar. A sua mandíbula ficou tensa enquanto o seu olhar se fixava em Lia segurando o bebê.
“Bebê menino”, Lia informou, “sem sons de respiração e não responde a compressões torácicas. Eu... Eu acabei de encontrá-los. Fiz RCP nos últimos 30 minutos, mas...”
Todo o seu treinamento a abandonou no momento em que ela entregou o bebê mole para o jovem.
“Droga”, ele murmurou. As suas sobrancelhas escuras se juntaram em concentração, enquanto ele puxou o cobertor para o lado e colocou dois dedos na artéria braquial, na parte de dentro do braço do bebê.
Lia andou até a mãe, que lhe devolveu o celular.
“Sinto muito”, Lia disse, num tom pouco mais alto que um sussurro.
A mulher ficou parada na chuva forte, com os braços pendurados em choque, enquanto assistia ao jovem começar outra rodada de RCP.
***
“Aqui, isso vai esquentar você”, disse o homem mais velho, entregando-lhe uma xícara de café enquanto estavam sentados numa sala vazia do Medford General Hospital.
“Obrigada”, ela disse com uma voz rouca.
“Eu sou o Steven.” Ele estendeu a mão e Lia pegou, apertando-a com educação, apesar do seu estado de choque.
“Lia.” Ela tentou sorrir. “Nossa. Eu deveria estar trabalhando aqui agora. Eu preciso procurar a Cameron...”
Ela se levantou, deixando cair o cobertor que lhe tinham dado.
“Ah, você é a irmã do Nate?” Steven perguntou com um sorriso.
“Sim.”
“Cameron, você pode vir para a sala de exame 4 do pronto-socorro?” Steven disse no seu walkie-talkie.
Lia sentou de novo, tentando colocar os pensamentos em ordem. Em todos os seus anos como enfermeira de viagem, ela nunca tinha ficado tão abalada. Tentando se recompor, ela prendeu o cabelo encharcado num rabo de cavalo e respirou fundo bem na hora que Cameron entrou na sala.
“Lia! Ai, meu Deus!” a enfermeira-chefe exclamou no seu clássico sotaque do sul, puxando Lia para um abraço.
“Que primeira noite, não é?”
“Me desculpe, eu não queria começar o meu emprego assim”, Lia disse. “Você foi muito gentil comigo no telefone quando fiz a entrevista e—”
“O Cody acabou de me atualizar. Você foi muito bem. Não havia mais nada que pudesse ser feito: vocês dois deram o seu melhor.”
Lia soltou a respiração.
“Como estão a mãe e a garotinha?” ela perguntou baixinho.
“Elas estão bem. Obviamente, não muito bem, mas da forma esperada.” Cameron olhou para Steven, que estava sentado e observando quieto. “Quando o condado vai consertar aquela maldita ponte?! Quantas vidas terão que ser perdidas antes de fazerem algo sobre isso?”
“Eu sei, eu sei.” Steven concordou com a cabeça.
“Eu não espero que você trabalhe hoje à noite. Metade do turno já passou de qualquer maneira. Eu vou ajustar a escala, e você pode começar no domingo no lugar de hoje.”
“Não, está tudo bem. Eu estou pronta para trabalhar”, Lia teimou.
“Menina, aqui não é Nova York. Você não tem que provar nada a ninguém aqui. Está tudo bem. Vá para casa e irrite o Nathan.”
Lia se encolheu um pouco com a menção a Nova York. Ela só tinha memórias ruins de lá, e as coisas não estavam começando muito bem aqui também.
“Está bem.” Lia aceitou; ela já estava cansada e ainda tremendo de frio. “Se eu não estivesse muito molhada, eu brigaria com você sobre isso.”
“Anotado.” Cameron sorriu.
“Desculpe interromper, mas onde está o Cody?” Steven perguntou, se levantando e ajeitando a calça. Ele usava um boné de um escritório de agricultura, uma barba escura cheia, bigode e roupas de trabalho. Lia não tinha sequer percebido até agora que ele não estava de uniforme e que eles não estavam num veículo de emergência médica.
“Lia, eu vejo que você conheceu o Steven. Ele é um bombeiro voluntário, assim como o Cody. Receio que Medford não seja como a cidade grande. Nós vivemos do trabalho voluntário por aqui. Há muita gente boa”, Cameron disse. “O Cody está terminando a papelada dele e depois vocês todos estarão livres para ir.”
Lia pegou as suas coisas, pronta para ir embora e esquecer aquela noite. Enquanto ela caminhava na direção da porta, ela se abriu e o jovem bombeiro voluntário de antes entrou.
Quando o olhar dele pousou nela, o reconhecimento brilhou nos seus olhos azuis.
“Você deve ser a enfermeira que parou na estrada.” Ele estendeu a mão para ela. “Eu sou o Cody.”
Ela estudou o rosto dele. Ele era bonito, quase um sonho. Ele tinha um bronzeado avermelhado, cabelo escuro e uma sombra de barba por fazer, talvez devido à longa noite. A mão dele era grande, de pele grossa, mas gentil enquanto pegava a dela.
“Lia. Eu sou a Lia”, ela gaguejou, surpresa consigo mesma.
“Ah, sim, a irmã do Nate!” Ele sorriu.
“Nossa. Eu não sabia que já falavam de mim.”
“O Nate e eu somos amigos há anos”, ele disse, e a lembrança do rosto dele veio à mente da Lia: a foto de cabine.
“Bem-vinda a Medford”, Cody disse. “Sinto muito que a gente tenha se conhecido desse jeito.”
“Sim, eu também. Eu vou embora agora, mas tenho certeza de que vamos poder nos conhecer melhor numa outra hora”, Lia disse suavemente, se virando para a porta.
“Lia, espere—” A voz dele fez ela parar. “Você precisa de uma carona para o seu carro?”
“Droga. Sim!” Ela se virou rápido nos seus calcanhares, frustrada. “Desculpe pelo incômodo.”
Ela o seguiu até a caminhonete dele, mordendo o lábio inferior.
“Não é nenhum incômodo”, ele respondeu. “O mínimo que eu posso fazer é te dar uma carona, você é quem parou para tentar ajudar alguém.” Cody abriu a porta da caminhonete para ela, fazendo um sinal para ela entrar.
“Um, eu não tive muita escolha. Dois, eu sou enfermeira, e três, eu não ajudei muito”, ela disse com tristeza. Lia não sabia por que estava encarando aquilo de forma tão dura; perder um paciente não era novidade para ela. Ela culpou os seus sentimentos por ser nova ali, pela tempestade e agora pelo cansaço.
“Nós fizemos tudo o que podíamos”, ele disse, como se tentasse se consolar. A sua voz ficou um pouco rouca. “As coisas nem sempre estão no nosso controle, e contanto que tenhamos feito absolutamente tudo o que podíamos, isso é o que importa.”
Cody fez algumas curvas pela velha estrada de terra e parou num bloqueio da polícia posicionado antes da ponte destruída. Ele abaixou o vidro, explicando a situação e sobre o carro de Lia para o policial antes que os deixassem passar.
“Bom, aqui está você.” Ele sorriu para a Lia. “Por favor, tome cuidado ao ir para a casa.”
“Eu tomarei. Obrigada, Cody. Tenha uma boa noite.” Lia retribuiu o sorriso dele e saiu do veículo.
Quando ela entrou no seu carro, o motor se recusou a ligar.
“Você está brincando comigo agora?!” Lia disse em voz alta para si mesma.
A caminhonete de Cody ainda estava ligada do outro lado da rua. Ela estava à beira das lágrimas a essa altura, e, assim que uma pequena lágrima escorreu, ela ouviu batidas no vidro.
“Está tudo bem?”
Ele ficou ali de pé, com as sobrancelhas franzidas de preocupação.
Lia tentou esconder as lágrimas, mas ver aquele rosto bonito quebrou algo bem no fundo do seu peito. Enquanto ela começava a chorar, Cody abriu a sua porta e se ajoelhou do lado dela. Embora a chuva tivesse diminuído, ainda caía uma garoa fria.
“Eu estou bem...”, ela falou chorando. “Essa foi a pior noite de todas.”
“Sinto muito. Venha comigo e eu vou levá-la para casa. Nós daremos um jeito no seu carro depois”, Cody disse suavemente, ajudando Lia a sair pela porta do passageiro. Ela concordou com a cabeça, se sentindo muito derrotada.
“Onde você está morando?” ele perguntou com a sua voz suave do sul.
“Você sabe onde o Nathan mora? Eu estou na casa dele por enquanto”, Lia disse com uma voz fininha.
“Sim, claro que eu sei. Eu não sabia que você já estava na cidade. No outro dia, ele disse que você viria em breve.”
“Eu estou aqui há apenas três dias e quase não o vi por causa do seu horário de trabalho. Você trabalha com ele?” Lia perguntou, tentando se recompor.
Se controla, mulher! ela pensou.
“Sim, infelizmente eu trabalho.” Ele riu.
“Então, você é um policial e um bombeiro voluntário?” Lia perguntou, surpresa.
“Sim, senhora.”
“Nossa. Você é tipo um verdadeiro super-herói, não é?”
“Mais ou menos isso.” Cody piscou um olho para ela.
Pequenas borboletas esvoaçaram no seu estômago. Antes que pudesse responder, ela percebeu que eles já estavam na entrada de casa, onde todas as luzes estavam acesas e a caminhonete do Nathan estava estacionada.
“Falando no diabo. Acho que vou acompanhá-la até lá dentro e dizer um oi.”
Cody estacionou a caminhonete e desceu. Antes que Lia pudesse abrir a porta, Cody abriu por ela e estendeu a mão para ajudá-la a descer.
Um choque de eletricidade a percorreu quando a sua mão tocou na dele. Ela olhou para cima, tentando ler a sua expressão, mas Cody apenas sorriu de volta. Se ele sentiu alguma coisa diferente, o seu rosto não demonstrou.
“Obrigada”, ela disse bem baixinho.
Lá dentro, Nathan estava em pé na cozinha, terminando de tomar uma bebida depois do trabalho.
“Então, em uma noite, você tentou salvar um bebê, conheceu o meu melhor amigo, ganhou folga no trabalho e o seu carro quebrou?” ele perguntou, chocado e surpreso. Os botões de latão do seu uniforme de policial brilharam na luz fluorescente.
Lia parou perto da bancada da cozinha, esfregando as têmporas.
“Mais ou menos isso, sim”, ela reclamou.
“Sempre fazendo além da conta”, ele bufou, colocando a sua garrafa de cerveja na reciclagem.
“Eu preciso me trocar. Ainda estou encharcada.” Lia foi para o seu quarto, tirou o seu uniforme de trabalho molhado e olhou para o relógio, que marcava quase três horas da manhã.
Ela fez um som de cansaço.
Ela mal conseguia ouvir o Cody contando os detalhes sobre o bebê para Nathan. Ela fechou os olhos, suspirando enquanto sacudia o cabelo, vestindo uma blusa grande e um short antes de voltar para a sala.
“Me desculpe, maninha. Eu não queria fazer piada com tudo isso”, Nathan se desculpou, sentado no sofá.
Lia sempre achara que Nathan se parecia com ela, pois ele tinha o mesmo cabelo castanho-claro e olhos castanhos, além de os seus narizes e lábios serem iguais. A mãe deles sempre se referia a eles como os seus gêmeos irlandeses quando eram mais novos.
“Eu sei. Tudo bem.” Ela se jogou no sofá perto dele, tentando não encarar Cody, que estava bem relaxado na poltrona reclinável.
“Eu queria ver ela bater em você, cara”, Cody riu.
“Faz apenas três dias, então espere um pouco. Ela vai me pegar, tenho certeza. Ela e a Dani vão se juntar contra mim bem rápido, e eu vou ter que manter você por perto para me ajudar”, Nathan brincou de volta. Lia ficou estranhamente animada ao pensar em ter Cody por perto.
“Quem disse que eu vou te ajudar?” Cody piscou um olho para Lia, e aquelas borboletas voltaram a esvoaçar.
“Onde está a Dani?” Lia perguntou.
“Ela voltou para a casa dela depois do jantar, já que eu tinha que trabalhar, e ela assumiu que você ia trabalhar também”, Nathan respondeu, se levantando. “Eu vou me trocar. Cody, você vai dormir aqui hoje?”
“Bom, como não tem ninguém me esperando em casa, pode ser que eu fique”, ele deixou escapar, dando uma olhada rápida para Lia.
Por algum motivo, o coração dela bateu muito rápido.
“Vai ser mais fácil ajudar a Lia com o carro dela depois também”, ele disse.
Ele tirou as botas e reclinou ainda mais na cadeira.
“Sinto muito que a sua primeira noite tenha sido tão dura, Lia, mas eu sei que você vai se estabelecer bem aqui.”
“Obrigada. Só pode melhorar agora, não é?” Ela riu nervosamente, colocando o cabelo atrás da orelha.
“Mhmm”, Cody cantarolou, e os seus olhos ficaram gentis.










































