
Amor Perdido
Author
Reads
118K
Chapters
18
Capítulo 1
JONATHAN
PARTE 1, JUNHO DE 1996
Já faz seis meses que ela morreu.
Toda vez que eu acho que parei de sofrer, encontro coisas que me lembram dela — coisas bobas, como o garfo favorito dela de quando trazíamos comida para casa, ou cartas que escrevemos um para o outro quando ela estava na faculdade, tudo enfiado em uma gaveta na cozinha.
Eu não tirei nenhum tempo para mim desde que ela morreu.
Meus amigos e a minha família me disseram que eu preciso viver o luto. Bom, eu sofro no meu próprio tempo.
Eu vou para o trabalho e tento viver a minha vida um dia de cada vez.
Talvez o meu trabalho pudesse me dar uma folga para que eu pudesse limpar esta casa e me livrar de tudo e qualquer coisa que me lembre dela. Mas uma parte de mim não quer jogar nada fora.
Eu sentiria como se estivesse jogando as nossas memórias fora.
Eu não sei o que fazer.
Então, eu percebo que estou em pé na cozinha segurando o garfo, sonhando acordado com as coisas que fazíamos juntos.
Eu ando até a lixeira, piso no pedal e abro a tampa. Jogo o garfo lá dentro, e a tampa fecha sozinha.
Eu me afasto e vou para a sala de jantar, olhando para a minha mesa debaixo da janela. Lá, eu costumava escrever histórias curtas sobre as nossas aventuras. Eu não me sento na minha cadeira há meses, não desde que ela foi morta.
Eu me sento e limpo a poeira que se acumulou nos meus cadernos e no computador. Então, começo a ler o que eu havia escrito antes de Liz falecer.
Eu sorrio enquanto leio as minhas anotações. Escrever é a minha paixão. Com a minha imaginação, consigo criar histórias na minha cabeça e fazer com que pareçam reais. Quase sempre, o que eu escrevo é preciso. Eu pego algumas das aventuras reais que a Liz e eu tivemos e coloco no papel.
Sabe, as nossas aventuras não são apenas sobre viajar — elas também são sobre viajar com pouca ou nenhuma roupa.
Eu uso um pseudônimo, para que os outros não liguem os pontos e saibam que Liz e eu estamos nessas histórias. Quão vergonhoso seria se a família dela lesse o meu trabalho?
A minha mãe, por outro lado, não tem vergonha do que eu escrevo. Eu uso personagens fictícios, mas ela sabe que sou eu.
O meu pager começa a apitar no meu quadril enquanto olho para ver de quem é o número. É a minha mãe, que quer que eu ligue para ela. Eu pego o telefone da mesa e disco o número dela.
“Oi, querido. Como você está? Eu não sabia se você estava no trabalho, então mandei um bipe para você,” ela diz.
“Estou bem, mãe. Você precisa de mim para alguma coisa?” eu pergunto.
“O que está errado?”
“Como assim?”
“Eu consigo ouvir na sua voz,” ela diz.
A minha mãe me conhece só de ouvir a minha voz. Ela sabe dizer quando estou feliz ou em um momento ruim da minha vida. “Você está pensando na Liz de novo, não está?” ela pergunta.
“Como eu poderia não pensar? Todas as coisas dela ainda estão aqui. Toda vez que vejo algo dela, fico triste.”
“Talvez você precise—”
Eu a interrompo antes que ela termine a frase. “Eu decidi não me livrar das coisas dela agora. Acho que vou colocar tudo em um depósito por enquanto. Quando eu estiver pronto, vou doar tudo.”
“Isso parece uma boa ideia, querido.”
“Mãe, eu preciso me arrumar para o trabalho.”
“Vá em frente. Amo você,” ela diz.
“Também amo você. Tchau.”
***
Eu chego ao trabalho e estaciono o meu carro na minha vaga de sempre, debaixo da laranjeira.
Eu trabalho em um supermercado local chamado Jimmy’s como gerente de laticínios. Lá, eu reponho tudo relacionado a laticínios, incluindo ovos, leite, queijo e qualquer outra coisa relacionada ao departamento de laticínios. Eu também faço os pedidos quando o estoque fica baixo.
Eu ando até o relógio de ponto, pego o meu cartão e o passo na máquina enquanto ela carimba o meu horário.
“Jon!”
“Sim, senhor,” eu digo, entrando no escritório principal.
“Você quer a notícia boa ou a ruim?” ele pergunta.
“A boa.”
“Os seus dois caminhões chegaram lá atrás ao mesmo tempo. A notícia ruim é que o seu ajudante, o Tim, ligou avisando que não vem hoje. Isso significa que você vai ficar sozinho o dia todo.”
“Tudo bem por mim. Eu gosto de trabalhar sozinho.”
“Comece a descarregar esses caminhões. Se eu achar alguém para ajudar, mando para você.”
“Obrigado, senhor.” Eu saio do escritório.
Eu vejo uma garota usando luvas de tricô em frente ao balcão de atendimento ao cliente. Eu balanço a cabeça porque é o começo do verão aqui em Tampa, Flórida. Ou ela tem sangue fino e está sempre com frio, ou ela apenas gosta de usar luvas.
Depois de algumas horas de trabalho, preciso de um relatório de leite para mostrar o que foi vendido para que eu possa fazer um pedido para a minha próxima entrega de leite.
Eu passo pelos caixas e vejo a garota de antes sendo treinada no caixa rápido. Ela tem um crachá em um colete do Jimmy’s para caixas em treinamento.
Eu aceno com a cabeça e sorrio para ela quando ela olha para mim, e depois desvia o olhar para baixo de novo. Ela está usando apenas uma luva desta vez, que está na mão esquerda dela.
“Ei, Rob. Você pode me dar os—?”
“Já imprimi para você,” ele diz, me entregando os papéis pela janela dos funcionários.
“Obrigado, senhor. Quem é a garota nova trabalhando no caixa rápido?”
“O nome dela é Deanna. Ela é uma pessoa de passagem vinda da Colômbia que voltou para os Estados Unidos e precisava de um emprego,” ele diz.
“Eu me pergunto que tipo de calcinha ela usa debaixo disso?” ele adiciona, estalando a língua nos dentes.
Eu ignoro o comentário. “Por que ela está usando luvas?” eu pergunto.
“Eu não sei. Ela me disse que era um problema pessoal.”
“Certo. Obrigado pelos meus relatórios,” eu digo, levantando os papéis.
Eu termino os meus relatórios de leite no escritório dos fundos, de onde ouço muitas risadas. Então vou investigar o que é engraçado. Eu entro na sala de descanso e vejo a garota nova sentada sozinha com Ben, Brian e Stan de pé perto dela.
“Ela acha que é o Michael Jackson usando só uma luva,” Ben diz.
“Não a deixem chegar muito perto do fogo. O cabelo dela vai pegar fogo,” Brian diz, rindo histericamente.
“Talvez ela seja a Billie Jean da música. Mas você não é a garota dele,” Stan diz.
“O que vocês três estão fazendo? Acham que ainda estão no ensino médio e podem implicar com alguém por usar uma luva?” eu digo com uma voz severa.
Eles olham para mim como se tivessem sido pegos roubando.
“O intervalo acabou. Voltem lá para fora e peguem os carrinhos,” eu digo, apontando para os três. “Na próxima vez que eu pegar vocês enchendo o saco dela, farei com que sejam demitidos por assédio.”
Os três homens saem correndo da sala de descanso.
“Você está bem?” eu pergunto, olhando para ela.
“Estou bem, obrigada. Eu sei me cuidar,” ela diz, sem olhar para mim.
Eu dou um passo para mais perto dela. “Meu nome é Jonathan. Eu gerencio o departamento de laticínios,” eu digo, estendendo a minha mão.
Ela esconde a mão esquerda debaixo da mesa e olha para mim.
Eu ainda estou com a mão estendida quando ela a pega e a aperta.
“Eu sou a Deanna,” ela diz, segurando a minha mão bem de leve.
“Primeiro dia de trabalho?”
Ela balança a cabeça dizendo que sim.
“Não se preocupe mais com eles. Se eu descobrir que estão implicando com você de novo, vou acabar com o rabo deles.”
Ela sorri um pouco e olha para mim. “Desculpe. Eu sou nova aqui, vim do Texas. Estou aqui faz poucos dias.”
“O que traz você do Texas para Tampa?” eu pergunto.
“Eu precisava ir embora.” Isso é tudo o que ela diz.
“Certo. Vou voltar para o meu caminhão e provavelmente verei você antes de ir embora,” eu digo para ela.
Ela acena com a cabeça enquanto eu saio.
Levo várias horas para terminar de guardar o meu pedido, mas o trabalho está feito. Eu não vejo a Deanna quando bato o meu ponto, e ela já deve ter ido embora.











































