
Arquivos Kemora 3: Uma Assistente e Tanto
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Humi
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CAPÍTULO 1
SOHNI
“Sinceramente, acredite em mim quando digo isso, Sera.” Ofereço meu guardanapo a ela, que imediatamente o usa para assoar o nariz. Também tenho lenços extras na bolsa, só por precaução. “Não é você. É ele.”
E eu quero matá-lo.
“Pare de dizer isso.” Seus ombros tremem e mais lágrimas rolam por suas bochechas. “Pare de tentar me fazer sentir melhor.”
Ela enxuga os olhos em vão, abaixando o queixo até o peito por um segundo para se recompor. Quando volta a olhar para cima, um sorriso triste brinca em seus lábios.
“Eu achei que o que tínhamos era especial. Achei que poderia mudá-lo, acabar com essa mania dele de encontros em série e—” sua voz falha e ela dá um balançar de cabeça fraco que paira entre nós.
“Sikandar não serve para namorar, Sera.” Minha voz é suave. “Eu que o diga. Eu trabalho para ele.”
Eu também deveria saber que não devo confraternizar com as garotas com as quais ele me manda terminar em seu nome, porque ele é meu chefe e de alguma forma me fez concordar que isso também faz parte do meu trabalho como sua assistente pessoal.
“Sinto muito mesmo e odeio que ele tenha te magoado.” As palavras simplesmente continuam saindo porque, ao olhar para os olhos marejados de Sera, algo aperta meu coração com força e uma queimação desce da raiz do meu cabelo até a sola dos meus pés. “Por que você se apaixonou por ele? Você conhecia a reputação dele.”
Sera dá uma risada curta e cheia de lágrimas. “É o charme de bad boy. Você se ilude pensando que será a única a mudá-lo. Mas você nunca é.” Seus olhos transbordam de novo enquanto repousam na caixa retangular que eu havia empurrado para o seu lado mais cedo. “Eu não queria o dinheiro dele. Eu só queria ele.”
“Eu sei, Sera, você é uma das boas.” Espere até eu colocar as mãos no pescoço dele na próxima vez que ele me pedir para arrumar a gravata idiota dele! “Mas eu escolhi esta pulseira para você. Eu sei que a granada é a sua pedra de nascimento e você gosta de usá-la.”
Geralmente, as conquistas de Sikandar não são tão sentimentais. Elas apenas pegam o presente de despedida, cospem alguns xingamentos para eu repassar a ele com grande honra e satisfação, e vão embora furiosas.
Mas Sera é diferente. Ela sempre foi, e eu realmente queria que uma garota legal como ela não tivesse se envolvido com meu chefe galinha. Ou que ele pudesse ter visto a mina de ouro que encontrou, percebido a sua sorte e consertado seus modos de mulherengo.
Infelizmente, uma pulseira de granada e ouro é tudo o que tenho para mostrar a ela o quanto eu me sinto arrasada com toda a situação.
“Não posso aceitar, Sohni.” Seus olhos estão suaves e vermelhos, e parte meu coração quando ela respira fundo e endireita os ombros. “Eu sabia onde estava me metendo. Ele me disse que não tem relacionamentos e que isso era apenas sexo. Foi minha culpa envolver meus sentimentos.” Ela gentilmente empurra a caixa de joias para mim e sorri. “Obrigada por ser tão gentil. Eu sempre gostei de você.”
Nós duas nos levantamos, e eu não me afasto quando ela me abraça, mas tiro alguns minutos para esfregar o rosto com as mãos e repensar minha vida enquanto o garçom traz a conta da água.
Sim, não existe água de graça neste lugar caro. A regra de Sikandar é sempre terminar num bom restaurante para minimizar o impacto.
Babaca.
Pego a caixa de veludo indesejada, deixo uma gorjeta generosa e saio marchando do restaurante gelado com o celular grudado na orelha. Holly já deve estar no escritório agora com tudo pronto para a reunião de Sikandar, mas eu só quero um resumo por puro hábito.
Faz pouco mais de um ano desde que meu antigo chefe, Taj Dempsey da TD Constructions, me entregou ao seu filho para que eu pudesse ajudar o herdeiro do maior e mais antigo império da construção de Kemora a se estabelecer em seu novo cargo como diretor de operações da empresa, ficando pronto para assumir as rédeas executivas de seu pai quando o magnata decidir se aposentar.
Eu ainda amaldiçoo o dia em que disse sim a esse acordo.
Ser a assistente pessoal do Sr. Dempsey era uma coisa. Foi meu primeiro emprego logo depois da faculdade, e eu amei cada segundo. O homem sabia respeitar as mulheres, ser profissional e compassivo ao delegar autoridade, me ensinando as manhas e confiando em mim para gerenciar todo o seu dia.
Além disso, não havia namoradas de coração partido com quem eu tivesse que lidar.
Taj Dempsey é notoriamente monogâmico e está felizmente casado há trinta e cinco anos com a mesma mulher — a mãe de Sikandar. Onde o casal errou na criação do seu único filho é um mistério para mim. Mas, como meu irmão Asher sempre diz — o cara já nasceu um babaca; ninguém pode ser culpado por isso.
“Garota!” O sotaque falso e carregado de irlandês da Holly espalha meus pensamentos. “Onde você está? Onde está o chefe?”
“Eu estava com uma das... espere, o que você quer dizer com onde está o chefe?” Um peso afunda na boca do meu estômago. “Ele não está aí? A reunião começa em...” Luto para checar o relógio do celular, mas a voz de Holly confirma meu medo.
“Em menos de uma hora!” Ela soa tão exasperada quanto eu me sinto. “Ele chegou esta manhã e então desceu para pegar um café e não voltou desde então. Ele não está nem atendendo o celular.”
Merda.
“Quanto tempo faz isso?”
“Duas horas.”
Merda em dobro.
“Ok, o Ali está aí?” Ela confirma que sim, o que faz meu coração bater um pouco mais tranquilo ao saber que pelo menos o diretor financeiro e a gerente de projetos são pontuais, mesmo que o diretor de operações esteja desaparecido. “Ótimo, então vocês começam a preparar as coisas e eu vou procurá-lo e trazê-lo.”
“Chegue a tempo, Sohni”, Holly avisa. “A conta de Kokyo é a nossa maior até agora.”
“Eu sei.” Já estou dando ré para sair do estacionamento. “Vou ligar para ele agora.”
No minuto em que Holly desliga, disco o número de Sikandar e mais uma vez me lembro de sincronizar meu celular ao meu Mazda. O telefone chama, mas ninguém atende. Aborto essa missão e, em vez disso, procuro sua localização. Ainda bem que eu resolvi isso na segunda semana em que o perdi para uma bela distração que o forçou a fugir cedo de um jantar da empresa, me deixando com cara de uma secretária incompetente que não conseguia encontrar seu chefe quando necessário.
O ponto vermelho no mapa marcando sua localização envia outra onda de ansiedade subindo pela minha espinha.
Ele está em casa?
Ainda não é nem meio-dia e é cedo demais até para ele evitar seu trabalho como se fosse a praga que ele considera ser. Talvez ele tenha ficado doente ou algo assim. Acelero, fazendo a distância de quinze minutos em cinco e parando bruscamente bem do lado de fora do arranha-céu reluzente que abriga sua cobertura neste bairro nobre.
“Bom dia, Srta. Mehr.” Ricky tira o boné, sorrindo para mim de sua maneira habitual e estendendo a palma da mão para pegar as chaves do carro. “Quão confortavelmente você quer que ele seja estacionado? Vamos parar o trânsito hoje?”
“Estarei de volta num segundo, Ricky!” Grito por cima do ombro enquanto corro para dentro, desviando das pessoas, acenando um olá urgente para Marina na recepção, e deslizando para dentro do elevador bem antes das portas se fecharem.
“Suave.” Alexander, o vizinho loiro e bonito de Sikandar, que é investidor de risco, sorri para mim. “Um pouco cedo para vir buscá-lo, não é?”
“E por que você está em casa a esta hora?” pergunto, alisando meu coque e minha saia, checando o brilho branco do meu piercing de nariz na parede espelhada quando suas palavras me atingem. “Como você sabe que ele está em casa?”
Há momentos em que venho buscar algo para Sikandar enquanto ele está no escritório. Alexander sabe disso porque foi em uma dessas ocasiões, há três meses, que ele tomou dez minutos do meu precioso tempo para me chamar para sair.
“Bem, primeiro...” Alexander levanta o dedo indicador, “...estou trabalhando de casa esta semana e a Naomi vem almoçar.”
Ele levanta as sacolas de compras que estava segurando, me fazendo sentir boba por não ter notado antes. Meu estômago ronca com a ideia da comida de Alexander, que o prédio inteiro sabe que é épica.
Esse almoço caseiro poderia ter sido para mim.
Tenho vontade de chorar pela oportunidade perdida, porque Naomi aconteceu depois que eu o recusei gentilmente naquela noite.
“E segundo...” ele levanta um segundo dedo, “...eu o vi quando eu estava saindo para a loja.”
Minhas entranhas se retorcem. “Como ele parecia?” Por favor, Deus, não deixe que ele esteja doente. Este é um dia muito importante! “Ele parecia bem? Com uma cor verde de doente ou um bronzeado saudável?”
As portas do elevador se abrem antes que Alexander possa responder e, como este é o nosso andar, saio correndo com um adeus rápido, sem esperar pela sua resposta. Tenho uma chave da cobertura do Sikandar que não hesito em usar, especialmente agora que ele pode estar doente na cama e talvez não queira andar desde o quarto para atender à porta.
“Sikandar?” Tento não gritar e assustá-lo enquanto cruzo o saguão e o elegante layout preto e branco que envolve uma cozinha moderna, espaços de estar e jantar, e subo as escadas até o seu quarto. “Tudo bem com você?”
É só depois que eu abro sua porta e ouço um grito feminino atingir meus tímpanos com toda a ferocidade de um desastre de trem, que meu cérebro me obriga a primeiro olhar boquiaberta, depois me virar com as mãos sobre os olhos e me preparar para repreender um Sikandar muito nu, tentando puxar as calças para cima atrás de mim.
Assim que as palavras me vierem à mente, é claro.
“Que porra você está fazendo aqui?” Ele parece irritado, e o farfalhar de tecido e um zíper indicam que, felizmente, ele já deve estar apresentável. “Vire logo para cá e olhe para mim, Sohni!” Eu viro, e sim, seu rosto tem todos os tons da fúria dos Dempsey, mas nada de vergonha. “E então? Explique-se!”
“Explicar?” Ah, sim, as palavras estão fluindo agora. “Você deveria estar em uma reunião com Kamil Kokyo no escritório e não estar aqui fazendo aquilo!”
“Do que você está falando?” Ele parece pronto para me expulsar fisicamente de sua vida, seus olhos cor de avelã brilhando dourados como os de um leão furioso. “A reunião é só às três!”
Dou a ele o olhar que costumo dar quando ele faz merda, o que acontece pelo menos dez vezes ao dia. E então esfrego meu celular na cara dele. “Tivemos que reagendar porque o Kamil não pode vir às três. Mandei uma mensagem lembrando você ontem e anteontem.”
A sua mandíbula se torna menos rígida enquanto ele pega meu celular e lê a mensagem que enviei. “Ah, merda, eu esqueci.”
“Não me diga. Eu até enviei por e-mail o convite para a reunião, só por precaução, e deixei um post-it na sua geladeira e no seu carro.”
“Ah, aquela caligrafia era sua? Tão bonita.” A garota no quarto escolhe este momento para se apresentar e contar como conheceu meu chefe. “Oi, eu sou Chloe. Nós nos conhecemos na cafeteria hoje de manhã e ele comprou a última rosquinha para mim. Espera, você é a namorada dele?”
Eca.
“Deus, não, prefiro me matar”, respondo e então decido acabar com isso de uma vez por todas, para não ter que enxugar as lágrimas dela daqui a duas semanas — ou dois dias. Aperto a mão dela. “Sou a assistente dele, mas estava com a ex mais recente dele logo antes de vir para cá. Tive que dar a ela o discurso de término e tal, você sabe como é. Ela durou cerca de um mês porque se fez de difícil.” Dou uma olhada severa no corpo esbelto e tonificado de Chloe, vestida em um top estilo lingerie. “Você pode até passar do segundo dia.”
“Sohni.”
Eu ignoro o aviso de Sikandar e o encontro dele também, porque agora ela está franzindo a testa com as mãos nos quadris. “Como assim você estava dando a ela o discurso de término?”
“Faz parte do meu trabalho.” Abro o zíper da minha bolsa, tiro a caixa de joias que Sera não quis e a ofereço para Chloe. “Quando ele ficar entediado com você, vai me mandar entregar algo assim. Então eu sugiro que você pegue agora e poupe o tempo que desperdiçaria com ele. Encontre alguém que te aprecie, Chloe.” A sinceridade na minha voz traz à tona um brilho suave nos olhos dela. “Você merece coisa melhor.”
“Oh.” Suas mãos apertam o coração antes de agarrar a caixa de joias e abri-la rapidamente. “É de verdade?”
Seu suspiro de surpresa é adorável, mas a maneira como Sikandar aperta a ponte do nariz é um presente por si só.
“Sim. Ouro de verdade, granadas de verdade.” Eu sorrio. “Aproveite, Chloe. Foi um prazer conhecê-la.” Que nunca mais nos encontremos. Mas não digo isso e aceno entusiasticamente quando ela junta suas coisas e sai saltitante do quarto, deixando meu chefe me fuzilando com o olhar mais um pouco. “Por favor, penteie seu cabelo. Você parece um sem-teto.”
Não que o cabelo dele alguma vez fique ruim.
Veja bem, sou muito orgulhosa do meu cabelo. Acho que ele é glorioso e digno de aparecer em um comercial de shampoo para morenas exuberantes, mas o cabelo de Sikandar? É uma juba grossa e escura com um bico de viúva, que eu amo e gostaria de ter, caindo em ondas praianas e brilhantes logo acima de seus ombros largos. Neste momento, está deliciosamente despenteado e me faz desejar poder transformá-lo numa peruca para usar nos dias em que o meu não colabora.
O dia em que ele começar a ficar careca será, sem dúvida, um dia de luto universal.
“Você é uma empata-foda”, ele diz, ainda franzindo a testa.
“Com licença, mas pegar meu chefe com as calças abaixadas também não é como eu gostaria de começar o dia.”
“Ela queria retribuir o favor por eu ter comprado o café dela.”
“Então você a trouxe de carro para sua cobertura? Você tem vinte minutos para chegar em uma reunião que fica a quarenta minutos de distância.”
“Vamos no meu carro. Pare de gritar.” Ele passa por mim para pegar sua carteira na mesa de cabeceira. “Você pode deixar aquela sua lata velha na minha garagem.”
“Ugh, o que é isso?” Aproximo-me quando ele se vira para mim e inspeciono seu pescoço. “Você tem uma mancha de batom no colarinho. Tire a camisa.” Já estou pulando de cabide em cabide no armário dele, procurando uma camisa que combine com o terno cinza-chumbo que ele está usando. “Só consigo ver brancas.”
“Não, usei branco ontem.” Ele vem atrás de mim e tenta mexer nos cabides. “Pegue aquela verde-limão ali.”
Eu a puxo e me viro para entregá-la, mas meu nariz bate direto no peito dele. Abdômen duro como pedra e tudo mais; sim, eu já vi antes o quanto ele é definido, mas toda vez eu levo um momento para agarrar minha mente flutuante e socá-la de volta no meu crânio — ou empurrar a bile de volta pelo esôfago. A sensação é basicamente a mesma.
“Você está encarando.” O sorrisinho convencido dele também não ajuda. “Fique à vontade para... Eu não me importo.”
“Que nojo.” Empurro a camisa em suas mãos e me afasto para sair do closet. “Você me fez partir o coração de uma garota adorável hoje enquanto estava aqui putanhando com outra. Você não tem ideia do que faz com essas mulheres?”
Ele veste uma manga e depois a outra. “Elas sabem como funciona, Sohni. Não faço promessas que não pretendo cumprir.”
“Mas elas têm esperança de poder mudá-lo.” Meu cérebro está no piloto automático, então meus dedos começam a abotoar a camisa dele por conta própria. “Eu realmente gostava da Sera. Esperava mesmo que ela fosse a mulher certa.”
Uma risada ecoa por ele, o que sinto piorar o meu humor já péssimo. “Se você está tão magoada assim, talvez você mesma devesse namorar com ela.”
“Sabe, Sikandar...” meus dedos apertam a frente de sua camisa num punho irritado, “...o karma é uma vadia, e um dia ele virá morder a sua bunda — e quando vier, estarei lá para assistir com um balde de pipoca amanteigada e um cobertor quentinho e felpudo.”
Ele se aproxima, com a sua colônia invadindo meu nariz. “Você está amassando meu colarinho, boneca.”
Eu preciso seriamente arrumar um emprego novo.
“Eu dirijo.” Pego as chaves do carro dele na mesa de cabeceira e abro a bolsa pela última vez para tirar um tablet e entregá-lo a ele. “Você deveria dar uma olhada na proposta e refrescar a memória antes de ver o Kamil. O homem é extremamente perfeccionista quando se trata de fatos e números, e garantir essa conta é o seu teste definitivo, Sikandar. Você não pode estragar tudo. É assim que você mostra ao Sr. Dempsey que pode fazer o seu trabalho e lidar com tudo. Existe uma chance—”
O toque alto do meu celular me interrompe, e o nome de Ali na tela faz minhas sobrancelhas saltarem, alertando meu chefe.
“O que foi?”, ele pergunta, mas eu faço um gesto silencioso para ele se apressar e sair pela porta e ler os documentos, enquanto eu atendo a ligação.
“Como assim eles estão adiantados?” Pego minha bolsa e corro atrás de Sikandar pelo corredor, entrando no elevador.
“A esposa do Kamil vai conduzir a reunião”, Ali soa à beira das lágrimas. “Ele teve que pegar um voo para a Suécia ou seja lá para onde for. Sohni. Ele nem veio para esta reunião; isso não é um bom sinal.”
“Eu sei.” Esfrego as têmporas e lanço um olhar furioso para Sikandar continuar lendo enquanto eu resolvo essa bagunça. “Quão capaz ela é de lidar com isso? Ela tem o poder de selar o acordo?”
“Ela certamente parece ter poder suficiente para fazê-lo não assinar caso não goste de nós.”
“Isso não é bom.”
“O que não é bom?”, Sikandar pergunta, mas eu o empurro para o banco do carona do seu conversível esportivo-qualquer-marca-cara-com-um-tridente — sim, é um Maserati. “Sohni? Que porra está acontecendo?”
“Você consegue mantê-la ocupada e feliz enquanto nós chegamos aí, Ali?”
“Holly parece ter encontrado uma fofoca em comum que ela está absolutamente adorando.”
“Bom, continuem assim. Chegaremos aí em...” Checo o relógio na tela do painel, “...cinco minutos.” Ou algo do tipo. Que sejam dez.
Sikandar estreita os olhos para mim. Fica claro que ele ouviu partes da conversa. “O escritório fica a mais de meia hora daqui. Reagende, já que o Kamil nem se deu ao trabalho de aparecer.”
“Você também não se deu ao trabalho de aparecer.” Desligo a chamada e ligo o motor. “Você deveria estar lendo.”
“Eu já sei disso. Eu repassei com a Hol—”
Mas o resto da sua frase é sequestrado pelo vento quando o carro rasga as ruas de Kemora numa corrida louca para chegar ao nosso agitado centro da cidade. Quando chego ao arranha-céu com a placa imponente da TDC TOWER estampada acima da entrada, os nós dos dedos de Sikandar estão brancos de tanto segurar a maçaneta.
“Vai”, digo a ele. “Eu vou estacionar o carro e me junto a você.”
Ele dá uma olhada no relógio do painel antes de levantar os olhos para mim. “Bom Deus, mulher. Onde você aprendeu a dirigir assim?”
“Meu namorado na faculdade era piloto de corrida. Ele me ensinou.”
Suas sobrancelhas se arqueiam. “Por que terminaram? Excesso de infrações de trânsito?”
“Eu não quis dormir com ele.” Dou risada quando o queixo dele cai. “Vai logo, você está atrasado!”
Sikandar pula para fora e eu dou a volta pela entrada circular em direção às vagas do estacionamento. É uma caminhada rápida do estacionamento até o prédio principal e mais um milhão de minutos da entrada até os elevadores e depois para o escritório no vigésimo andar.
Quando finalmente passo pelas portas duplas da sala de conferências, um silêncio arrepiante toma conta de mim. Holly está parada perto da tela em branco do projetor, com o rosto tão pálido como se tivesse caído em um tanque de água sanitária, enquanto o de Ali está enterrado nas mãos, com seus óculos de aro preto sobre a mesa e ele escorregando na cadeira ao lado da de Sikandar.
Sikandar está passando a mão pelo cabelo e abrindo a boca como um bacalhau.
“O que está acontecendo?” Olho ao redor da sala vazia. “Onde está a cliente?”
“Foi embora.” Ali recosta na cadeira, travando seus olhos nos meus de uma forma que diz claramente o quanto está infeliz com a única pessoa para a qual ele está evitando olhar. “As palavras exatas dela foram: ‘Não tenho como respirar o mesmo ar que este idiota’.”
“Oh, não.” Meus olhos imediatamente se voltam para Sikandar. “O que você fez?”
“Nada!”
“O que ele sempre faz.” Ali se levanta, empurrando os óculos pelo nariz e fuzilando Sikandar com o olhar em seu estilo educado de Clark Kent. “Deixe-me adivinhar. Você esqueceu de ligar para ela depois?”
“Eu não fiz nada”, Sikandar rebate. “Eu sei que, na maioria das vezes, são meus flertes que causam o problema, mas desta vez foi porque eu realmente disse não.” Ele olha de volta para mim, com seus olhos da cor de eu-não-estou-mentindo. “Eu a conheci no baile de gala de inverno da empresa há três anos, mas ela estava lá com outra pessoa, então eu recusei muito educadamente ter a língua dela enfiada na minha garganta.”
“E então?”, Holly pergunta.
“E então eu fui para casa.”
“Sozinho?”
“Com alguma... quem quer que fosse a modelo da capa da Svelte na época.”
“Mina Komal”, diz Ali, encolhendo os ombros ao sentir todos os nossos olhos sobre ele. “O quê? Eu acompanho a moda.”
“Seu numpty.”
“Que porra é um numpty?”
“É você, seu idiota do caralho!”
“Holly, pelo amor de Deus”, Sikandar geme. “Só porque você passou um ano na Irlanda não significa que pode falar num idioma que não entendemos.”
“Bem,” Holly mexe nas pontas soltas do seu cabelo loiro, “foi um ano muito longo.”
“E Sr. Mezher...” Sikandar fuzila Ali com o olhar, “...você é o meu diretor financeiro. Eu entendo os números envolvidos e nunca vou colocar isso em risco. Juro que não sabia quem era a esposa do Kamil antes de vir para cá.”
“E agora?” Falo antes que Ali ou Holly possam desviar a conversa para outra espiral sem fim. “Kamil está fora do país e a pessoa designada para assinar odeia você. Qual é o seu plano de jogo?”
“Talvez seja a hora de alertar o Sr. Dempsey sobre isso”, diz Ali. “Nós temos que conseguir esse projeto.”
“Não, não vamos contar nada ao meu pai.” Sikandar bate o dedo na mesa. “Eu posso lidar com isso.”
“Ah, já sei!” Holly levanta a mão como se ainda estivéssemos no ensino fundamental. “Você deveria transar com ela.”
“Como é que é?”
“Bem, ela claramente está irritada por você tê-la rejeitado, então se você a satisfizer, talvez ela faça o marido assinar o contrato.”
Ali esfrega o queixo. “Ela tem um ponto aí.”
“Como é que é?” Sikandar franze a testa. “O que eu sou? Um gigolô de aluguel?”
“Ah, qual é. Na única vez em que os seus flertes poderiam ser úteis para ajudar a empresa, você está dizendo não?”
“Você perdeu a porra da—”
“Ok, parem com isso, pessoal”, levanto a voz acima do tom absurdo deles. “Essa é uma ideia péssima e não, não vamos fazer isso.”
“E por mais que isso possa surpreender vocês, eu não acho mulheres que não sejam solteiras atraentes. Solteira é o meu único tipo. Agora, calem a boca enquanto eu falo.” Sikandar pega o celular e disca para um contato. Leva apenas um segundo para quem quer que esteja do outro lado da linha atender. “E aí, Kamil, como vão as coisas? É uma má hora? Ouvi dizer que você está indo para a Suécia. Já esteve lá antes? Não? Ah, é lindo nesta época do ano. Eu queria ter sabido antes... sim, eu tenho um apartamento em Estocolmo. Adoraria hospedar você lá... ah, sim, claro! A qualquer hora. Como está a sua mãe?”
Holly me lança um olhar, murmurando a palavra ‘A MILF?’ enquanto os lábios de Ali se contorcem como se ele tivesse provado bile. Eu simplesmente balanço a cabeça para que eles saibam que foi apenas mais uma noite assustadora que nosso chefe se divertiu imensamente me fazendo passar, mas que nada escandaloso aconteceu.
Graças a Deus.
“Receio também não ter entendido completamente o que aconteceu...” A voz grave de Sikandar ecoa pela silenciosa sala de conferências. Ele sempre soa como se estivesse com um resfriado sexy ou tivesse acabado de rolar da cama — ou os dois. “Sinto muito, mas esses não são os números que temos para você. Ali Mezher, meu CFO, os apresentou para a...”
Ele ergue as sobrancelhas para mim, obviamente esperando que eu leia sua mente e descubra o que ele está tentando dizer. Pego a caneta e o bloco de notas de Ali, escrevo um nome em letras garrafais e o levanto para o Sr. Chique ler como um cartão de memória.
“...Bianca, a sua esposa.” Ele me dá um sinal de positivo com o polegar. “Sim, foi enviado por e-mail para você na semana passada... sim, Holly Simmons é a gerente do projeto... isso mesmo, ela trabalhou no projeto da praça da cidade.”
Seu reconhecimento acompanhado de um sorriso deslumbrante faz Holly ficar corada e fazer uma pequena dancinha com os braços e os ombros, que combina perfeitamente com a atmosfera carregada da sala. Passam um pouco mais de dois minutos, e Kamil Kokyo ainda está na linha. A expressão chocada de Ali tem tons de felicidade, os quais também posso sentir em meus ossos.
Isso é bom!
“Claro, eu adoraria repassar os números mais uma vez. Quando você estará disponível?” Sikandar ri. “Sim, claro, você pode usar o apartamento. Mitt hem är ditt hem.” Outra risada calorosa. “Sim, eu falo um pouco de sueco. Só o suficiente para me virar... claro que eu te ensino. Me ligue quando quiser!”
Puta merda. Ele acabou de tocar o Kamil Kokyo como um instrumento.
Ali já está socando o ar, e Holly estende a mão para um toca-aqui que eu aceito. Sikandar encerra a ligação e se recosta na cadeira, deixando um sorriso presunçoso abrir seu rosto.
“Bem, crianças”, ele diz, “espero que tenham tomado notas.”
“Chefe! Você é o cara!”, Ali berra.
“Você tem um apartamento em Estocolmo?” Holly pergunta, toda animada como uma criança.
“Não, ele não tem. Ainda não”, respondo, com a alegria dela já me dando nos nervos porque me lembra das ligações a serem feitas prontamente para pessoas que têm propriedades em Estocolmo, caso Kamil Kokyo realmente queira ficar no apartamento de Sikandar na Suécia. “Ei, Annabelle, como você está? Como está o bebê? Escute, eu tenho um grande favor a pedir...”
Os olhos de Sikandar me acompanham pela mesa, com seu sorriso nunca desaparecendo, enquanto providencio para que nosso cliente com certeza garantido fique em um país estrangeiro por nossa conta.
O resto do dia passa sem problemas, e Sikandar até mesmo fica em seu escritório revisando gráficos, planos, plantas, orçamentos e números, como deveria. Não há muitas reuniões agendadas, mas as poucas que há exigem sua presença, e ele também não me dá nenhuma dor de cabeça em relação a isso.
“Você foi nota seis hoje”, digo a ele no nosso caminho de volta para o seu carro.
Meu Mazda ainda está na sua cobertura, e ele precisa me levar de volta para que eu possa pegá-lo. Tecnicamente, meu dia ainda não acabou porque eu ainda posso ver meu chefe a menos de um metro de distância. Na verdade, meu dia nunca acaba porque estou sempre a um telefonema de distância para cumprir as suas ordens, e isso é simplesmente errado.
“Seis?” Ele arqueia uma sobrancelha. “Nunca pensei que você me avaliaria tão bem.”
“Você recuperou o Kokyo depois que a esposa dele explodiu tudo na nossa cara.” Abro a porta do passageiro e me acomodo. “E você também foi um bom chefe pelo resto do dia, então isso é um seis.”
Ele põe o cinto no banco do motorista e se inclina levemente na minha direção, prendendo o seu olhar no meu. “O que eu tenho que fazer para chegar num dez?”
“Você sabe o que tem que fazer, Ishki. Você só não quer fazer.”
Ele suspira e se afasta, acelerando o motor e dando ré para a rua. “É muito chato, Sohni, eu... não poderia ter mais alguns anos para mim mesmo?”
“Você não é mais um garoto da faculdade, Sikandar. Todos os seus amigos têm empregos fixos. Vários deles são casados e alguns até têm filhos.” Tenho certeza de que a minha expressão é semelhante à forma como o pai dele o olha durante esses sermões, mas então um pensamento suaviza a minha postura. “Você está tendo um momento Zavyar Velshi, no entanto? Onde você abandona a empresa da família e vai trabalhar com o amigo do seu pai? Lembre-se, Zavyar tinha o Adam para assumir as rédeas depois de sair. Você é filho único.”
Ele ri, o som gutural retumbando no espaço entre nós. “Não, eu não quero abandonar o negócio da família, mas seria apropriado, não seria? Todos continuam me comparando com o Zav, de qualquer maneira.”
“Você quer dizer por causa dos escândalos dele.”
Outro suspiro profundo enquanto ele vira à esquerda no semáforo. “Sim, Sohni, por causa dos escândalos. Aparentemente, eu sou o queridinho dos tabloides agora.”
“Enquanto isso, Zavyar está felizmente casado com uma princesa de Faramin e agradavelmente humilhado pelas mãos da sua filhinha de vez em quando.” O pensamento do outrora famoso solteirão de Kemora se submetendo tão completamente ao amor em todas as suas formas me faz sorrir. “Você poderia aprender uma coisa ou duas com ele.”
O cara é como um tufão assustador de se lidar, mas a forma como ele derrete só de ver a esposa — pela qual eu pessoalmente tenho uma grande paixão de fã — é digna de contos de fadas. E, então, há meus irmãos — a mesma história também. É seguro dizer que os homens da minha vida são todos muito poderosos e não amam nada mais no mundo do que agradar suas mulheres.
“Com fome?” Sikandar diminui a velocidade enquanto nos aproximamos de uma pequena hamburgueria no meio do caminho entre o escritório e a sua cobertura. “Estou com vontade de comer porcaria.”
“Não, eu tenho que estar na casa da minha tia hoje à noite. Prometi que iria jantar lá.” Viro-me no assento para encará-lo. “Ei, por que você não vem comigo? Faz um tempo e eles sentem a sua falta na mansão.”
“Seus irmãos idiotas também vão estar lá?”
Dou risada. “Sim. E eles vão te dar uma surra toda vez que você flertar com as esposas deles.”
“Ou da Ayzal.” Ele me dá uma piscadinha. “Sua tia é uma baita gostosa e, assim que Zubin morrer, eu fico com ela.”
“Sikandar.” Não consigo evitar bater no braço dele com as costas da mão. “Isso é tão rude. É do meu pai adotivo que você está falando.”
“Ah, por favor, o cara nem te deu o sobrenome dele.”
“Eu tenho o meu próprio sobrenome. Não preciso do de mais ninguém.”
“Eu te darei o meu.”
“O quê?”
Ele parece endurecer por um microssegundo, como se finalmente ouvisse as bobagens que saem da sua boca — ele tem seus momentos de sorte, às vezes —, mas depois revira os olhos. “Quero dizer que, quando eu me casar com Ayzal e antes de levá-la para um destino exótico na lua de mel, vou adotá-la e dar-lhe o direito ao meu sobrenome. É claro que Yanni e Asher não serão convidados para o casamento, por serem filhos do Zubin e tudo mais, mas suas lindas esposas poderiam comparecer.”
“Oh, uau, isso com certeza iria agradar muito a eles.”
“Não é?”
Esse homem.
Tudo o que posso fazer é balançar a cabeça. “E então? Jantar com os Tahars hoje à noite?”
“Não, acho que vou para a casa da mamãe. Pedir para ela encomendar alguma porcaria para mim.”
“Aww, você é um bebê tão fofo. A mamãe adoraria isso.”
“Cala a boca.” Ele não consegue conter o sorriso que apenas um orgulhoso filhinho da mamãe daria. “Você é uma empata-foda irritante.”
“Você é um chefe horrível.”
“Se você não fosse a irmãzinha do meu melhor amigo, eu te demitiria.”
“Por favor, me demita para que eu possa voltar a ajudar seu pai incrível.”
“Isso é tão perturbador em tantos níveis que nem consigo contar.”
Isso lhe rende outro soco, mas Sikandar Dempsey é como um pote de barro bem vitrificado. Nada nunca gruda. Mas ele é legal. Tendo trabalhado intimamente com ele por cerca de um ano, com seu pai antes disso, além das nossas interações sociais por causa de nossas famílias, nossa dinâmica chefe-empregada é tudo menos convencional, e sua presença me deixa confortável o suficiente para brincar, tirar sarro e apreciar o seu senso de humor.
Quando ele me deixa no meu carro, na garagem dele, nós dois estamos às gargalhadas enquanto o resumo do seu terrível problema com o guarda-roupa chega ao fim, com a garota roubando suas roupas e deixando-o trancado num armário de casacos em alguma festa de fraternidade.
“Yanni me resgatou, e eu tive que buscar café para ele por um mês.” Ele bate as mãos no volante enquanto eu tento colocar um pouco de oxigênio em meus pulmões em meio às gargalhadas. “O seu irmão é mau.”
“Você deveria namorar mulheres melhores.” Ainda estou rindo enquanto saio de seu carro e ando em direção ao meu. O pequeno e doce Mazda azul apita quando chego perto. “Obrigada pela carona, Ishki. Vejo você amanhã. Dê um oi para o seu pai e para a sua mãe.”
“Sohni.”
Viro-me para olhá-lo. Ele está de pé, de braços cruzados acima do teto retrátil de seu carro, que ele fechou antes porque eu odeio vento no meu cabelo. O paletó do seu terno já se foi e descansa no banco de trás, e as mangas da camisa estão arregaçadas para revelar antebraços impressionantes. Veiudos. Como o sonho de uma enfermeira que esteja procurando enfiar uma ou duas agulhas.
Mas que porra, Sohni, de onde veio isso?
Talvez aquele médico bonitinho que eu conheci no casamento do Asher no ano passado tenha deixado uma impressão mais duradoura do que eu pensava. De qualquer forma, é hora de expulsar o médico bonitinho da minha mente e prestar atenção no chefe subitamente sério, que está me olhando como se estivesse... realmente olhando para mim.
“Sim?”, eu o incentivo, pois a sua expressão é um tanto enervante e estranha.
“Você...” ele para como se fosse puxar o ar lentamente, “...você é sempre nota dez.”
Deus, achei que ele estivesse morrendo.
“Claro.” Dou de ombros e angulo meu corpo para posar como uma modelo presunçosa. “Eu sou uma baita assistente.”
O rosto de Sikandar se abre em um largo sorriso. “Você é. Vejo você amanhã.”
Pulo no meu carro e dou ré. Sikandar ainda está lá parado, me observando, com as mãos enfiadas nos bolsos enquanto eu viro a esquina e deixo o prédio dele para trás.











































