
Arranjos de Amor
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Capítulo 1: A loira burra
Adeline
Minha vida acabou. Eu sei que sim. Perdi tudo, e a situação só está prestes a piorar. Ao dar mais uma olhada ao meu redor, percebo que cheguei ao fundo do poço — vestindo uma camisa de força em um quarto acolchoado. Em um movimento rápido, tudo foi por água abaixo. E, neste momento, eu posso aceitar meu destino e me render a quem planejou isso ou lutar. Lutar como se não houvesse amanhã... porque não há garantias de que sairei dessa viva. Não se depender deles.
Embora você possa se perguntar como eu vim parar nessa situação, isso é algo que eu também adoraria saber. Nada do que fiz justificaria uma sentença dessas.
Mas posso te contar quando as coisas começaram a dar errado. Talvez possamos entender isso juntos.
Tudo começou ontem de manhã. Como em qualquer sexta-feira normal, eu estava tomando café da manhã com a minha avó enquanto ela lia o jornal e eu rolava por uma enxurrada de novos artigos de fofoca sobre mim no meu celular. Ainda assim, algo me deixou mais ansiosa do que o normal. Chame de pressentimento, mas eu estava inquieta, e isso tinha pouco a ver com todos os artigos desagradáveis a meu respeito. Eu já estava acostumada com eles a essa altura.
Para a imprensa, eu era Adeline, a aspirante a artista loira e burra, herdeira de um império farmacêutico multimilionário. Uma rebelde sem causa, igual à minha mãe. Na realidade, isso estava tão longe da verdade que nunca parecia que eles estavam falando de mim.
A única coisa que a minha mãe e eu tínhamos em comum era o fato de que nós duas éramos cópias exatas da minha avó, que, na respeitável idade de 80 anos, ainda era um baita mulherão. Bem, não exatamente, mas você entende o que eu quero dizer.
No entanto, em seus dias de juventude, Alitta Roberts era a personificação do conceito de femme fatale. Ela definitivamente tinha tudo: beleza etérea, uma mente brilhante e o toque de Midas quando o assunto era ganhar dinheiro. Ela pegou o mundo dos negócios de surpresa, usando seu charme para passar por quaisquer portas trancadas, agarrando qualquer oportunidade pelo pescoço e depois colocando-a de joelhos. Qualquer coisa na qual ela colocasse os olhos, ela ia atrás com a força de um furacão: imprevisível e imparável. Gosto de pensar que essa foi a única coisa que a minha avó me passou. Quero dizer, além de genes espetaculares.
Claro, teria sido legal se esse pacote incluísse 10% de seu talento para os negócios; isso teria deixado as nossas vidas muito mais fáceis. Diferente da minha mãe, eu teria adorado ser o braço direito da minha Vovó, aprendendo todos os macetes com ela.
E eu tentei com todas as minhas forças, acompanhando-a desde que eu era adolescente, passando todo o meu tempo livre no escritório dela e tentando absorver seus conhecimentos a cada chance que tinha. Mas, no fim das contas, apesar de dominar a parte teórica, no que dizia respeito à prática de socializar, ler o ambiente e fechar o melhor negócio, eu não fazia a menor ideia.
Hã, será que eu sou mesmo a garota burra que todo mundo acha que eu sou? Como se sentisse que eu estava mais uma vez à beira de ter um ataque de pânico, Vovó se levantou, agarrou a minha mão e sorriu calorosamente para mim.
“Você é perfeita do jeito que é, minha querida”, ela me disse suavemente. “Nunca deixe ninguém lhe dizer o contrário”, e então me puxou para um abraço e, com um último beijo na testa, seguiu com o seu dia. E isso era tudo que eu precisava para me sentir melhor instantaneamente.
Com a minha confiança restaurada, espantei a nuvem de inseguranças, voltei para o meu estúdio e retomei a minha pintura. Me perder na minha arte é o que me ajuda a superar a maioria dos dias, e esse não foi diferente.
Então, num piscar de olhos, já era noite, e Lory e eu estávamos entrando de mãos dadas em uma festa barulhenta e lotada, comigo desejando estar em qualquer lugar menos ali. E como não queria estragar o clima com meu mau humor, voltei a observar as pessoas, contando os minutos até poder ir embora.
“Terra para Adeline! O que deixou você tão perdida em seus pensamentos?” Sua voz aguda cortou o barulho ao nosso redor. “Você parecia estar a quilômetros de distância. Na verdade, deixa para lá; me conte depois. Vi uns gostosos no canto; eles acabaram de chegar. Faça a sua mágica e os traga para cá. Isso estava começando a ficar chato.”
Despertando dos meus pensamentos desconexos, deparei-me com um par de olhos azuis me encarando com uma expressão confusa. Emoldurada por um longo cabelo preto perfeitamente penteado e uma pele de porcelana, ela é exatamente o meu oposto em termos de aparência. Em suma, é inegavelmente uma mulher linda. E minha melhor amiga. Na verdade, não, ela é mais que isso. Lory é minha parceira para todas as horas.
Nós praticamente crescemos juntas, já que o pai dela era o contador da minha avó. Para Lory, que foi criada por um pai solteiro, a Vovó foi uma figura materna tão importante quanto foi para mim. Tê-la na minha vida foi uma bênção, e eu fiquei tão feliz por ela simplesmente me entender — a verdadeira eu.
No entanto, minha melhor amiga é muito mais extrovertida do que eu jamais serei. Não posso dizer que estar no centro das atenções seja muito a minha praia, mas, sendo quem eu sou, isso era certo de qualquer maneira. Lory, por outro lado, brilhava quando tinha todos os olhares voltados para ela, e eu nunca me importei em ajudá-la a se destacar. Eu não estava muito no clima de festa ontem à noite, mas ela me convenceu a sair e conferir essa nova e promissora balada chique. Festas caseiras mais tranquilas — onde você pode realmente conversar e ver as pessoas — faziam mais o meu estilo, e eu a arrastei para várias delas, então eu meio que devia essa a ela.
“Claro, Lo”, respondi, tentando reunir algum entusiasmo. “Primeiro, vamos pegar umas bebidas. Preciso liberar um pouco desse estresse acumulado na pista de dança. E eu definitivamente quero ficar um pouco alta antes de dançar.”
“Menina, o que você precisa é que alguém desentupa a sua chaminé”, ela praticamente gritou. “Quando foi a última vez que você gritou até ficar rouca por causa de um cara aleatório com um pau enorme?”
Isso me fez cuspir a última gota restante do meu coquetel e, em seguida, cair na gargalhada, antes de finalmente responder, envergonhada: “Você sabe muito bem que isso nunca aconteceu comigo. E esse não é o meu modus operandi. Eu preciso de mais do que apenas noites passageiras. E desde o Bruce... bem...”
“Adeline Marie Roberts, você está me dizendo que, desde que terminou com aquele fuckboy do Spruce há um ano, você tem estado... abstinente?” Ela cuspiu as palavras, com o rosto franzido de nojo. “Achei que você só fosse tímida comigo ou tivesse vergonha das suas aventuras sexuais, mas isso é pior do que eu pensava. Sua louca, como você ainda está viva?? Eu nunca conseguiria...”, ela concluiu, enquanto um calafrio de repulsa percorria seu corpo. Ela consegue ser tão exagerada às vezes, mas não era o momento nem o lugar para os teatros dela.
“Fala mais baixo, por favor?”, eu disse, puxando-a para mais perto de mim, tentando silenciá-la antes que mais algum dos meus segredos fosse transmitido para a balada inteira ouvir. Em seguida, acrescentei: “A coluna de fofocas já tem material impresso suficiente sobre mim. E não é como se o Bruce fosse algum tipo de guru do sexo, de qualquer forma; eu fazia a maior parte do trabalho, então não faz muita diferença agora. Eu tenho os meus brinquedos. Eles me mantêm... sã.”
“Não, tsc tsc. Temos que acabar com essa seca hoje à noite, e colocar um pau de respeito em você é exatamente o que o médico receitou. Espere aqui. Vou fazer um reconhecimento.”
E ela saiu antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. A verdade é que, quando Lory colocava algo na cabeça, era difícil contê-la; você só precisava seguir o fluxo. Esse era o principal motivo pelo qual nos metíamos em tantos problemas juntas. Era também algo que eu admirava nela: ela sempre sabia como conseguir o que queria e satisfazer suas necessidades, mesmo que precisasse quebrar algumas regras. Isso, combinado ao fato de que ela é um gênio da matemática, faria dela a candidata perfeita para o cargo de CEO que minha avó ocupava no momento. Nós duas já havíamos sugerido essa ideia à Vovó várias vezes, mas ela sempre a recusava educadamente, dizendo que a diretoria tornaria a vida de Lory desnecessariamente difícil.
Então, a temida ligação aconteceu... Olhando para a noite passada, eu gostaria que ela tivesse terminado comigo fingindo um orgasmo na cama de um cara aleatório antes de voltar para tomar meu café da manhã com a minha avó. Caramba, eu teria até concordado com qualquer ideia absurdamente louca que a Lory pudesse ter tido para o afterparty. Ou talvez se eu tivesse simplesmente ido para casa, ou nem tivesse saído em primeiro lugar... talvez, se eu estivesse lá, eu poderia tê-la salvado.
No entanto, há uma coisa que sei com absoluta certeza: ontem à noite, a Vovó não foi a única que morreu. A velha Adeline, a loira burra, com sua ingenuidade e candura, também se foi. Era uma necessidade, caso eu quisesse ter alguma chance de sair dessa viva. E estou prestes a arriscar tudo.
















































