
As Garotas de Gastown Livro 2
Author
S. L. Adams
Reads
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Chapters
31
Prólogo
LIVRO 2: ESPÍRITO LIVRE
ALEXIS
DEZESSETE ANOS ANTES
Corri pela sala grande com móveis muito antigos, olhando por cima do ombro para ter certeza de que ele não estava me seguindo. O chão rangia a cada passo, ameaçando revelar onde eu estava.
Alcancei a maçaneta da porta e então a girei devagar. A sala de caixões era o lugar perfeito para me esconder.
Eu não sentia mais medo. Eu já passava o tempo em funerárias havia quase um ano.
Entrei em um dos caixões abertos e esperei Paddy me encontrar.
Quando soube que a irmã mais velha escolhida para mim trabalhava na funerária, não tive muita certeza se gostava dela. Mas ela não era nada assustadora. Muito pelo contrário.
Meus pais diziam que Daisy e o marido dela, Silas, eram hippies.
Eu não sabia o que isso significava. Eu tinha apenas sete anos, mas infelizmente, já sabia o que era a morte. No verão antes do segundo ano da escola, minha melhor amiga morreu em um acidente de carro.
Meus pais me levaram ao funeral. Acho que eu não tinha entendido direito a ideia da morte até o momento em que a vi deitada em seu caixão rosa.
Aquela imagem ficou gravada na minha mente para sempre. Existem algumas coisas que a gente nunca esquece.
Eu não sabia como lidar com o meu luto. Meus pais tentaram ajudar, mas não sabiam o que fazer. Além disso, eles já tinham muito trabalho com a minha irmã autista, Cleo.
Ela é dez anos mais velha do que eu, mas eu tinha raiva da Cleo. Ela recebia toda a atenção, e eu não recebia nada.
Eu tenho outra irmã. Existe uma diferença de cinco anos entre mim e Hannah, e nós não tínhamos nada em comum. Ela era uma santinha que fazia tudo certo.
Comecei a me comportar mal na escola. Tudo o que eu queria era um pouco de atenção.
O programa Irmã Mais Velha foi a melhor coisa que já me aconteceu.
Era para ser uma amizade só entre mim e a Daisy. Mas a minha irmã mais velha não era muito fã de regras. Ela me apresentou ao marido e ao filho dela.
Paddy tinha a mesma idade que eu. Nós nos demos bem logo de cara e viramos melhores amigos.
Fiquei deitada naquele caixão por um tempão. Será que o Paddy tinha desistido? Ele tinha a mania de fazer isso quando eu encontrava um esconderijo muito bom.
Eu dei uma risadinha quando ouvi passos.
Mas não eram os passos do Paddy. Era a Daisy. E uma cliente! Talvez elas não me notassem.
Eu não tive essa sorte.
De todos os caixões na sala, a moça decidiu dar uma olhada logo naquele em que eu estava escondida. Ela deu um grito de gelar o sangue antes de sair correndo da sala.
***
“Nada de brincar de esconde-esconde na funerária”, Daisy ordenou, colocando dois copos altos de leite na mesa. O leite ficava muito mais gostoso em um copo de vidro do que nos copos de plástico que tínhamos em casa.
“Desculpe, mamãe”, Paddy disse, pegando dois biscoitos de aveia do prato que ela colocou na nossa frente. “O papai disse que não havia agendamentos ou funerais hoje.”
“Às vezes, os clientes aparecem sem avisar, Paddington”, ela explicou, bagunçando os cachos castanhos dele. “Eu tenho que descer e fazer umas ligações. Posso confiar que vocês dois vão se comportar?”
“Sim, Daisy”, eu disse. “Me desculpe.”
“O que vamos fazer agora?”, Paddy perguntou antes de virar o copo para beber.
“Vamos brincar de casamento”, eu sugeri.
“O que é isso?”
“Nós nos vestimos de noiva e noivo e fingimos nos casar”, eu expliquei. “A Hannah brincava disso comigo. Ela era o noivo, e eu era a noiva.
“Aí os peitos dela cresceram e agora ela não brinca mais comigo.”
“Eu posso ser o seu noivo”, ele se ofereceu.
“Tá bom! Vamos lá!”
***
“Tem certeza de que não tem corpos mortos aqui embaixo?”, sussurrei enquanto descíamos escondidos pelas escadas dos fundos até o porão da funerária.
“Não.”
“O quê?”, sibilei.
“Claro que tem corpos mortos, bobinha”, ele riu, balançando a cabeça. “Isso é uma funerária.”
Eu congelei no último degrau. “Não vou dar mais nem um passo, Paddy.”
“Tudo bem”, ele sussurrou, segurando a minha mão. “Eu vou proteger você, Alexis. Para sempre.”
Nós andamos de fininho pelo corredor até o armário onde eles guardavam roupas extras para os corpos que chegavam sem nenhuma.
“Isso vai servir como meu vestido”, eu disse, puxando uma blusa branca de um cabide. “Eu só preciso de uma fronha branca para a minha cabeça.”
Paddy pegou um paletó, e nós subimos de volta para o apartamento que a família tinha em cima da funerária.
Eles não ficavam lá o tempo todo. A família Wallingford-Yargey morava em uma mansão grande em Shaughnessy Heights.
A família do Paddy era rica. Eles eram donos de várias funerárias em Vancouver, incluindo uma enorme no centro da cidade que me lembrava o castelo da Disney World.
Eu estava procurando fotos da Disney na internet desde que Daisy e Silas me convidaram para ir com eles.
Faltava menos de um mês para a viagem, e eu estava super animada. Hannah e Cleo estavam morrendo de inveja.
Nós fomos para o quarto do Paddy para colocar nossas roupas de casamento.
Eu tirei a roupa e fiquei só de calcinha para vestir a blusa. Ela descia até abaixo dos meus joelhos, o que era perfeito.
Paddy me entregou a fronha branca da cama dele. Eu a enrolei na cabeça e amarrei o lençol dele na minha cintura para fazer a cauda do vestido.
“Você com certeza é uma noiva linda, Alexis”, ele disse.
“E você é um noivo muito bonito, Paddington.”
“Vamos nos casar?”, ele perguntou, oferecendo o braço.
Eu dei o braço para ele, dando uma risadinha quando nós dois tropeçamos na minha cauda e caímos de cara no chão.
“O que diabos está acontecendo aqui?”, Daisy perguntou, aparecendo na porta do quarto do Paddy.
“Nós estamos nos casando”, Paddy avisou.
“Acho que você pode ser um pouco novo demais, filho”, Silas riu por trás de sua esposa.
“É só de brincadeira”, eu disse.
“Eu prefiro pensar nisso como um ensaio”, Paddy disse. “Quantos anos a gente precisa ter para casar?”
“Pela lei, dezoito”, Daisy respondeu. “Mas isso é muito cedo. Vocês deveriam esperar até terem pelo menos vinte e cinco anos.”
Ele se virou para mim e se ajoelhou. “Alexis Annabelle Taylor, você quer se casar comigo quando tivermos vinte e cinco anos?”
“Sim, eu quero”, eu declarei.















































