
Brigando com o Destino Livro 2: Fúria Brutal
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Prólogo
Livro 2: Fúria Cruel
CLARA
“Hoje à noite, você está encarregada da cozinha.”
Clara se virou rapidamente, com os olhos arregalados ao encarar sua mãe. “Mãe, não! Eu estava planejando sair com a Lucy!” Ela se arrependeu do seu tom de voz na mesma hora. Soou muito dura e irritada. Ela queria poder retirar o que disse. Mas, a julgar pelo rosto vermelho da sua mãe, já era tarde demais.
Sua mãe ficou imóvel na cozinha, segurando duas canecas. Ela estava no meio da preparação dos tradicionais chocolates quentes de sexta-feira à noite. “Você chegou a me perguntar sobre sair com a Lucy? Porque eu devo ter perdido essa conversa.”
“Bem... não...” Clara se jogou de volta no sofá, cruzando os braços irritada. Ela sabia que já tinha perdido essa batalha, mas isso não significava que deixaria de tentar. “Eu ia perguntar depois do filme. A Lucy realmente precisa de um tempo entre garotas. E eu sei que você quer que eu seja a amiga incrível e prestativa que sou.”
Ela quase podia ouvir a mãe revirando os olhos do outro lado da sala. “Jesus, querida, força mais um pouquinho, vai?”
Houve uma pausa, e Clara bufou. Ela se arrependeu de ter descido para ver o filme, em primeiro lugar. Ela não se importava com as tarefas da cozinha na maioria dos dias, mas não hoje à noite.
“Eu achei que você fosse gostar. Você está se tornando uma ótima confeiteira.” Sua mãe fez uma pausa antes de acrescentar: “O pior que pode acontecer é você perder um dedo. Ou dois.”
Clara revirou os olhos. Como filha única, ela estava acostumada com a superproteção dos pais. Mas, se ela desse uma brecha, eles a enrolariam em plástico bolha e nunca a deixariam sair de casa.
“Mãe, eu sou péssima na cozinha, e você sabe disso. Ou eu coloco muito tempero, ou coloco pouco, ou esqueço os ingredientes por completo. O Henry estava reclamando no outro dia que eu sou a única pessoa que ele conhece capaz de queimar água.”
“Você queimou água?” sua mãe repetiu. Ela entrou na sala com duas canecas fumegantes e uma sobrancelha erguida. “Como você consegue...?”
Clara a interrompeu com um bufo. “Eu só estava fervendo água para o macarrão!” Ela desviou o olhar do sorriso divertido da mãe, tentando conter o próprio sorriso. “Eu meio que, talvez, tenha esquecido a panela no fogo. A água secou, e a panela começou a soltar fumaça.”
Sua mãe mordeu o lábio, com os olhos brilhando enquanto colocava as bebidas na mesa de centro e se sentava ao lado de Clara. “Isso realmente parece algo que você faria.”
Ela esticou a mão, alisando o cabelo de Clara. “Eu só quero que você seja confiante no seu papel dentro da matilha. Eu sei que às vezes é difícil para você. Mas se preparar cedo significa que você sempre terá um lugar seu, um lugar onde não vai se machucar. Deve haver alguma outra coisa que te interesse agora, algo que não envolva ir embora ou se transferir quando você for maior de idade.”
“Eu já te disse, o pai tem me ensinado...”
“Olha, você sabe o que eu acho dessas coisas de tecnologia”, sua mãe a interrompeu, lançando um olhar severo para Clara. “Isso tem a sua utilidade, mas não pode ser a única coisa que você faz. Também não é a única coisa que o seu pai faz”, ela lembrou Clara de forma direta.
Clara suspirou, puxando os joelhos contra o peito. “Por que estamos falando sobre isso agora? Eu só tenho dezessete anos. Eu tenho tempo.”
Ela apoiou o rosto nos joelhos, olhando para a mãe com desconfiança. “Com quem você andou conversando?”
Sua mãe pegou o chocolate quente, soprando a bebida e evitando o olhar de Clara.
“Mãe.”
Ela bufou, imitando Clara perfeitamente, antes de resmungar: “Theresa.”
Clara suspirou, encostando a cabeça no ombro da mãe. “Nada está decidido. Eu só tenho curiosidade sobre os cursos que eu poderia fazer e quais exigiriam presença física. Eu sou boa com computadores e sei que poderia encontrar um jeito de usar isso para ajudar a matilha.”
“O seu pai faz isso por diversão, Clara”, disse a mãe, com a voz carregada de uma pitada de frustração. Ela largou a bebida e passou o braço ao redor da filha. “Não é um trabalho, nem mesmo na nossa matilha. Você precisa encontrar um papel onde possa contribuir. Todo mundo tem uma responsabilidade...”
“Na matilha. Eu entendi, mãe.” Clara suspirou. Essa conversa já era familiar até demais. “Eu só queria que você me deixasse provar o meu valor.”
“Isso é muito bonito, mas o seu pai e eu ficaríamos mais tranquilos se você ficasse perto de casa.”
Clara endireitou o corpo, olhando para a mãe com surpresa. “O pai concorda com você? Desde quando?”
Sua mãe fugiu da pergunta com habilidade, uma tática que ela costumava usar quando não gostava do rumo da conversa. “Você é minha única filha, querida, e só tem dezessete anos. Você não faz ideia do quanto significa para mim. Para nós.”
“Eu sei”, Clara murmurou, mas sua mãe continuou falando por cima dela.
“Se você decidisse ir embora ou se transferir, não ficaríamos com raiva de você. Todo metamorfo deve explorar o mundo e encontrar o seu lugar. Mas você sabe o quanto a família e a matilha significam para nós. Ficaríamos perdidos se você fosse embora...”
Clara soltou um suspiro pesado quando a voz da mãe foi sumindo, parando antes de se aprofundar ainda mais naquela velha chantagem emocional. Ficou claro que ela sabia que estava testando os limites da Clara.
Ela estendeu a mão, colocando-a sobre a de Clara. “Querida, nós só estamos preocupados com você. Se você fosse estudar fora, e se acontecesse alguma coisa? Quem iria te proteger? Os humanos podem ser imprevisíveis. Você estaria a horas de distância, e não saberíamos se estivesse em apuros.”
Clara bufou com o pensamento, e sua loba achou graça da ideia de humanos serem uma ameaça. Ela podia ser uma jovem submissa, mas não era indefesa. Os humanos costumavam desconfiar daquilo que não entendiam, o que significava que geralmente evitavam os metamorfos.
Os metamorfos eram guiados por seus instintos animais, muitas vezes priorizando-os em vez da razão humana. Silver River era uma matilha de lobos metamorfos, e os humanos geralmente mantinham distância de qualquer metamorfo predador. Não que a matilha dela passasse muito tempo perto de humanos, de qualquer forma.
Antes que Clara pudesse responder, um alarme começou a soar pela casa. O barulho ecoou pelos cômodos, fazendo-a dar um sobressalto.
Sua mãe pulou de pé e depois congelou. O olhar dela ficou distante enquanto se comunicava mentalmente com alguém. Clara a observou, esperando. O som estridente do alarme já estava lhe dando dor de cabeça.
Sua mãe ofegou, jogando a cabeça para trás. Ela empalideceu ao se virar para Clara, com a voz firme. “Fique aqui.”
Em um instante, a mãe superprotetora de Clara deu lugar a uma soldada dominante. A mãe dela foi em direção à porta. “Eu preciso encontrar o seu pai. A matilha inteira está em confinamento, então certifique-se de trancar a porta da frente depois que eu sair. Use a fechadura de segurança e não abra a porta para ninguém além de nós, mesmo que ache que pode confiar na pessoa.”
Era muita coisa para assimilar. Clara foi rápido atrás da mãe, tentando alcançá-la antes que ela saísse.
“O que isso quer dizer? O que está acontecendo? Onde está o pai?”
“Eu não tenho tempo para explicar. Só faça o que eu estou mandando, Clara.”
Ela se virou para dar a Clara um sorriso trêmulo, que não serviu em nada para tranquilizá-la, e depois tocou suavemente o rosto da filha. “Eu volto o mais rápido que puder. Fique aqui e fique segura.”
Clara ficou paralisada perto da porta muito tempo depois que a mãe saiu. O coração dela batia forte enquanto tentava entender o alarme que ainda tocava. Finalmente, ela respirou fundo várias vezes antes de esticar a mão e trancar a fechadura de segurança.
Ela se afastou da porta bem devagar, quase esperando que alguém a arrombasse a qualquer momento. O que era um absurdo, porque eles estavam nos seus aposentos, bem no fundo da toca de Silver River. Aquele era o lugar mais seguro para qualquer um deles, mas o alarme continuava soando. E, em algum lugar do lado de fora, Clara podia ouvir gritos e uivos, mas não conseguia decifrar o que diziam.
Ela deu mais um passo para trás, abraçando o próprio corpo enquanto tremia. Sua loba estava quieta, mas em alerta. Ela já tinha ouvido aquele alarme tocar antes, mas apenas durante os treinamentos, para prepará-los para uma possível emergência.
Aquilo não era só um treinamento. Clara sentiu um aperto no estômago, sabendo que algo terrível estava acontecendo.
Seus pais eram guerreiros da matilha, uma característica comum para dois lobos dominantes. O que era incomum, no entanto, era que esse casal de parceiros tivesse tido apenas uma filha, a Clara, que era o extremo oposto deles.
Clara era uma loba submissa, uma característica que ficou evidente desde muito cedo. Todos na matilha já tinham aceitado que ela não seguiria os passos guerreiros dos pais.
Não era impossível que um lobo submisso treinasse para ser guerreiro, mas estava claro que esse não era o destino de Clara. Ela era muito gentil e tinha um coração bom demais. Seus pais nunca a fizeram se sentir inferior por causa disso, mas ela ainda sentia o peso, principalmente quando se comparava aos jovens da sua idade.
Ela odiava a sensação de ser uma decepção para os pais, como se a sua genética tivesse falhado com eles de alguma forma, e ela os estivesse decepcionando só por ser quem era.
Clara se afundou no sofá de novo, com o olhar fixo no seu chocolate quente que esfriava rápido. Quanto tempo já tinha passado desde que sua mãe saiu? Dez minutos? Quinze?
Com certeza, a sua mãe voltaria a qualquer instante. Ela só estava procurando o pai, descobrindo o que estava acontecendo, e então estaria de volta.
Ao olhar para o relógio pendurado em cima da TV, Clara se encolheu. Só tinham se passado seis minutos.
Seus joelhos tremiam de ansiedade enquanto ela pensava nas palavras da mãe. Clara não era do tipo que desobedecia ordens, mas a curiosidade e o medo estavam lutando contra os seus instintos submissos naturais.













































