
Quebrando o Gelo
Author
Kiara Colón
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46
Capítulo 1
“Respire fundo e devagar. Concentre-se”, a treinadora de Bexley não parava de repetir. A voz dela era suave, mas muito firme. Bexley seguia as ordens da mulher. Ela fechava os olhos e prestava atenção apenas no que precisava fazer.
O chão congelado da pista sob seus pés servia de apoio. Ela deslizava pelo gelo com seus patins. Bexley estava se esforçando ao máximo naquele treino.
Era o seu último ano na faculdade e a temporada estava quase começando. Isso significava que agentes e treinadores da patinação artística profissional fariam visitas em breve. Eles estariam procurando por novos talentos. Ela esperava chamar a atenção deles. Participar das Olimpíadas sempre foi o seu maior sonho.
Bexley Evans tinha quatro anos quando ganhou seu primeiro par de patins. Seus pais, que a adotaram quando ela tinha dois anos, deram o presente. Eles a ensinaram a patinar no lago congelado. O lago ficava bem atrás da grande mansão deles em Connecticut.
Estudar em uma universidade perto de casa e da sua família era o que ela sempre quis. Ela era muito grata por eles terem lhe dado um lar.
Acompanhar o time de hóquei favorito deles era um passatempo que ela dividia com os pais. E ela sonhava em alcançar sua meta de se tornar uma patinadora profissional. Com muita facilidade e precisão, ela seguia a coreografia. Ela tinha treinado essa dança durante as férias de verão. Bexley teve sorte de encontrar uma pista de patinação com gelo para poder praticar.
A música suave do radinho perto dos bancos era a sua grande companheira. O som tocava no mesmo ritmo dos seus movimentos e saltos.
“Bom trabalho, Bexley. Mas você precisa melhorar os seus saltos. Você está caindo de mau jeito de volta no gelo”, disse Annah Cortéz, sua treinadora. Bexley se aproximou dela logo após o fim da dança.
A jovem de cabelos castanhos suspirou. “Eu imaginei. Até mesmo em casa, tem sido bem difícil. Não sei por que deixei de treinar esse movimento nas minhas férias”, ela respondeu. Ela colocou os protetores nas lâminas dos patins assim que saiu da pista. Bexley sabia que agora era a vez de o time de hóquei da faculdade treinar.
Bexley costumava ficar um pouco mais no local. Ela gostava de ver o time, principalmente o capitão deles, Michael Ricci. Ela adorava ver como ele deslizava como um especialista, segurando o taco de hóquei nas mãos. Era incrível ver quando ele batia no disco e o mandava direto para a rede do gol.
Mas o que ela mais amava era o cabelo escuro dele. O cabelo tinha várias ondas que ficavam presas atrás das orelhas. Ela também amava seus olhos azuis bem claros, que pareciam olhar lá no fundo da alma. Os lábios de Michael eram finos, mas bonitos o bastante para que ela tivesse vontade de beijá-los.
A altura dele era outra coisa que a atraía muito. Ela calculava que ele tinha mais de um metro e oitenta de altura. E ela era bem pequena, com pouco mais de um metro e cinquenta. Para ela, Michael era a perfeição em pessoa.
Ela se sentou no banco e vestiu seu suéter rosa bem macio. Então, ela ficou esperando o time e não se decepcionou. Os garotos apareceram segundos depois. Eles usavam camisas de hóquei limpinhas e bem ajustadas ao corpo. O mascote do time ficava na frente da camisa e o sobrenome deles ficava nas costas.
Bexley tirou os óculos que cobriam seus belos e raros olhos verdes. Ela também desfez o coque alto e soltou o cabelo. Os fios caíram sobre os seus ombros. Ela se levantou do banco e se apoiou na mureta da pista. Ela torcia para que, pelo menos, ele notasse a sua presença.
“Vejo você amanhã, certo?”, Annah disse. A treinadora deu uns tapinhas nas costas de Bexley antes de sair da pista.
“Vai, amor! Você consegue!”, ela ouviu do outro lado da pista. Era a sua irmã, Brooklyn, torcendo animada. Brooklyn também tinha sido adotada pelos mesmos pais. Bexley não ficou surpresa por ela estar lá. Afinal, Brooklyn era a namorada de Michael. Era normal que ela estivesse sempre nos treinos e jogos dele.
Eles eram a combinação perfeita um para o outro. Mas Bexley só podia ter a esperança de que, um dia, Michael olharia para ela do mesmo jeito.
Sentindo-se derrotada, ela decidiu ir embora. Foi então que percebeu que alguém estava olhando para ela. Ao dar uma olhada rápida para o time, ela viu Jeremiah Redd. Todos o conheciam como “Jezzah”. Ele acenou para ela com um belo sorriso no rosto.
Ele era o melhor jogador da defesa e também o melhor amigo de Michael. Algumas garotas da faculdade achavam que ele era até bem bonito. Jezzah tinha vindo de uma cidade pequena do Tennessee. Ele tinha ganhado uma bolsa de estudos esportiva. Isso deu a ele a chance de virar um grande jogador de hóquei.
Bexley achava que ele era um cara muito gentil, simples e honesto. A garota que virasse namorada dele seria muito sortuda.
Ela saiu do prédio da pista e caminhou até o seu carro. Brooklyn tinha ganhado um Tesla novinho de presente de formatura do colégio. Já Bexley tinha pedido apenas um Fusca azul brilhante do ano de 1970. Ela dizia que aquele era o carro dos seus sonhos.
O cabelo loiro da sua irmã estava sempre cortado bem curtinho. Brooklyn adorava usar muita maquiagem para destacar seus grandes olhos cor de âmbar.
“Bexley!”, ela ouviu a irmã chamar. Brooklyn deu um abraço forte nela assim que se aproximou. “Me desculpe por ter perdido o seu treino. Eu sei que prometi vir, mas eu estava um pouco ocupada.”
O rosto dela estava todo iluminado. Isso fez Bexley entender que o tipo de ocupação da irmã não era algo que ela queria saber. Bexley não podia mentir, as duas se davam muito bem. Porém, Brooklyn tinha uma alma rebelde e despreocupada. Já Bexley era sempre muito calma e quieta. Ela vivia muito mais na dela.
Uma trazia equilíbrio para a outra na família. Bexley era muito grata por ter uma irmã como ela. Ela a amava mais do que qualquer pessoa poderia amar um irmão.
“Isso é informação demais, Brooks!”, ela riu e balançou a cabeça. Bexley a chamou pelo seu apelido de sempre.
“Me desculpe. É que ele é tão…”
“Pare com isso!” Dessa vez, ela estava tentando não mostrar que ficou incomodada. Bexley gostava de Michael. Isso significava que ela não queria saber o quanto os dois estavam felizes juntos. Ela também não queria lembrar o quanto estava longe de fazer com que ele gostasse dela.
Brooklyn olhou para a irmã e franziu as sobrancelhas. Ela ficou curiosa para descobrir o que tinha deixado Bexley tão chateada.
“Me perdoe. Eu prometo aparecer na próxima vez”, ela sorriu, segurando a mão de Bexley. “Ah, mudando de assunto, eu notei o jeito que o Jezzah olha para você. Ele não é uma graça? Aquele charme do Sul com certeza atrai qualquer garota. Ainda mais com aquele sotaque bonitinho.”
Bexley revirou os olhos. Ela se virou para continuar caminhando até o seu Fusca. “Aquilo é um sotaque arrastado. E, sim, ele é uma graça, mas não faz o meu tipo.”
“Além disso, eu não quero pensar em namorar ninguém agora. Tudo o que eu mais quero é passar por esse último ano de faculdade. Eu preciso focar em chamar a atenção de um olheiro para virar profissional.”
Brooklyn resmungou e bateu o pé no chão, andando atrás dela. “Eu sei disso, sua nerd boba! Mas, é o seu último ano de faculdade. Aproveite um pouco a vida. Você vai me deixar em breve, e eu vou ficar presa aqui por mais um ano inteiro.”
Bexley deu um sorriso suave para ela e abraçou a irmã mais nova. “Nós vamos manter contato. E quanto aos olheiros, eu não tenho certeza se vou ter tanta sorte assim. Eu posso muito bem acabar presa por aqui trabalhando no supermercado.” Ela riu, tentando se sentir um pouco melhor.
“Eu amo você. Você sabe disso, não é?”, Brooklyn perguntou.
“Eu também amo você. Mais do que qualquer outra coisa no mundo”, Bexley respondeu.
Bexley abriu a porta do seu carro. Quando ela começou a entrar, ouviu a voz de Michael gritar lá da entrada da pista. Ele veio correndo até Brooklyn. Então, ele pegou a garota nos braços e deu um beijo bem apaixonado nela.
O coração de Bexley doeu ao ver aquela cena. Não era apenas porque ela gostava dele. Ela também queria muito ter alguém que fizesse aquilo por ela.
Era uma pena que aquele garoto já estava namorando. E justo com a própria irmã dela.
Ela deu um sorriso falso para os dois. Bexley olhou para o lado e só então percebeu que Jezzah também estava ali perto. Ele olhava para ela com muita doçura nos olhos.
“Eu preciso ir. Tenham um bom dia, pessoal!”, ela gritou, antes de olhar de volta para Brooklyn. “Vejo você em casa. Não se atrase, ou a mamãe e o papai vão ficar chateados.” Ela se apressou para entrar no carro. Bexley ligou o motor e deu ré no estacionamento.
Ela olhou pelo espelho retrovisor. Assim que todos sumiram do seu campo de visão, Brooklyn estava beijando Michael mais uma vez. Bexley finalmente deixou as lágrimas escorrerem pelo seu rosto. Ela sentia que estava perdendo a esperança a cada dia que passava.

















































