
Cidade Sem Memória
Author
Ebony Clarke
Reads
176K
Chapters
26
Sobrevivi
PROLOGUE
Querido Austin,
Você se lembra daquela noite em que ficamos olhando as estrelas juntos? Você me pediu para escrever tudo.
Você disse que eu não era boa em escrever, mas era boa em sentir. Me pediu para colocar meu coração no papel. Você me entendia melhor do que eu mesma.
Então aqui está: as palavras que você me ajudou a encontrar. Os pensamentos e sentimentos que eu não conseguia expressar em voz alta. Tudo o que você precisava ouvir, mas eu estava machucada demais para dizer.
Austin, você me amou por inteiro. Tudo o que tenho para oferecer de volta sou eu mesma. Então aqui estou, aqui estamos nós. Coloquei nosso amor bagunçado e lindo em palavras.
Nossa grande história. A história longa que prometi a você.
A gente sempre dizia “para sempre” como se nunca fosse acabar. Pois bem, eu te amo pelo tempo que durar o nosso para sempre. Até a gente virar nada além de velhas histórias que as pessoas contam.
SAMANTHA
Estou sentada num balanço no quintal da frente, olhando para minha casa vazia. Fiz esse balanço num verão e costumava passar horas e horas aqui.
Mas a grama cresceu de volta onde antes havia um espaço sem vegetação. Deve ser a primeira vez que me sento aqui em anos.
O balanço estava esperando uma garotinha voltar. Mas aquela garotinha se foi, cresceu rápido demais. Agora me sento aqui, toda crescida, pensando onde foi parar aquela menina.
Coloquei todas as minhas coisas na van vinte minutos atrás, mas não consigo sair deste lugar. Minha cabeça está cheia de pensamentos.
Não há nada que me prenda aqui. Não tenho motivo para ficar e tenho ainda mais motivos para ir embora. Esta é a casa da minha infância, onde cresci.
Foi aqui que aprendi a andar, que subi pela janela do meu quarto, que dei meu primeiro beijo e aprendi a nadar. Essas lembranças logo estarão perdidas para sempre.
Mas então começo a sorrir — algo que não faço com frequência. Não há nada que me prenda aqui. Não vou ter que ver os buracos na parede ou as janelas quebradas.
Não vou ter que passar pela mesa da sala de jantar e lembrar da minha cabeça batendo nela. Ou olhar para a minha porta e pensar se devo trancá-la esta noite.
Não vou ver as garrafas de cerveja vazias na sala ou sentir o cheiro metálico de sangue. De repente, não consigo parar de sorrir enquanto entro no carro.
Livre. Estou livre.
A maioria das pessoas sai de casa com lágrimas nos olhos porque vai sentir falta da comida da mãe ou do aluguel grátis. Mas para mim é diferente.
Tenho lágrimas nos olhos, mas não vou sentir falta desta casa ou das pessoas nela. A maioria das crianças sai de casa para ir para a faculdade ou um apartamento novo.
Mas o que estou fazendo não é tão normal assim.
Consigo me lembrar de uma época em que eu era uma daquelas crianças felizes. Aquelas que cantam e dançam sem música, que brincam nos campos e correm nos balanços até as pernas ficarem cansadas.
Mas como qualquer criança, parei de brincar em balanços. Agora ouço música sozinha, com o volume no máximo, abafando os gritos.
Minhas cortinas ficam fechadas para os campos onde eu costumava brincar. Em vez de colorir as paredes, agora vou para a cidade, tentando esquecer meus problemas e voltando tarde no dia seguinte com os olhos vermelhos.
Quando chego em casa, geralmente vou direto para o banheiro, onde procuro no armário até encontrar o que estou procurando. Meu vidro extra de comprimidos.
Em noites como essas, lágrimas caem dos meus olhos e escorrem pelo meu rosto, e eu rezo para que a noite acabe logo.
Mas hoje é diferente. Hoje nada está terminando. Pelo contrário, tudo está começando.
Hoje, quando estava caminhando em direção à porta da frente, uma pequena foto dobrada na prateleira chamou minha atenção. Era uma foto da minha mãe e eu.
Ela costumava olhar para ela às vezes, tocando nossos sorrisos com o polegar. Algumas noites ela a pressionava contra o peito e começava a chorar.
Eu não devia ter mais de cinco anos quando a foto foi tirada, rindo enquanto ela me empurrava no balanço, nossos sorrisos idênticos iluminando nossos rostos.
Caí mais tarde naquele dia e machuquei meu joelho. Lembro como sua voz calma me fez sentir melhor. Lembro de ter inveja da sua gentileza.
Eu sabia mesmo naquela época que nunca seria como ela. Que éramos diferentes. Isso costumava me deixar triste, mas agora é meu único desejo.
Quase levei a foto comigo, mas a coloquei de volta num momento de forte emoção. Sabia que tinha que ser assim: sem lembranças, sem despedidas.
Estou pronta para deixar este lugar e esquecer todos que já conheci. Estou cansada das lembranças que preenchem cada canto desta maldita casa.
Estou pronta para ir embora sem despedidas ou explicações. Enquanto ligo o carro, sei que estou pronta para recomeçar.
Meu plano é simples: dirigir até encontrar um lugar onde as lembranças não possam me encontrar. Um lugar onde eu possa dormir a noite toda, ou onde eu não pule toda vez que uma porta de carro bate.
Encontrar um lugar onde eu possa recomeçar. Se não houver tal lugar, então vou apenas continuar dirigindo. Apenas continuar fugindo.
Tive a ideia das histórias que minha mãe me contava quando criança. Nos dias ruins, ela me contava a história da cidade sem lembranças.
Ela falava sobre isso como um lugar real, onde as pessoas eram felizes e livres, uma cidade onde não havia necessidade de beber e não havia homens com punhos raivosos.
Uma cidade que pegaria todas as lembranças ruins e as substituiria por boas. Não importa o quanto você estivesse quebrado, esta cidade poderia te consertar.
Quando criança, sonhava que era uma cidade mágica feita de nuvens com pessoas dançando nas ruas.
Agora sei o quanto eu era inocente.
Anos depois, ouvi ela contando a história para si mesma numa de suas conversas bêbadas. Tentando se consolar com sua própria história.
E de alguma forma, se fecho os olhos, ainda é tão mágica quanto era naquela época.
Sabia no meu coração que era apenas uma cidade, e não havia como fugir da minha vida. Mas tudo que eu sempre quis foi um lugar que não me lembrasse das lembranças desta casa. Que não me lembrasse das lembranças deles.










































