
O Que Eu Odeio em Você
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Autumn Ferris
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Capítulo 1
SUSAN
Risadas ecoam pelo andar. Levanto o olhar da tela do computador. A luz ainda reflete nos meus óculos. Olho pelo corredor além do meu pequeno espaço de trabalho. O som é claro — alto, masculino e descontrolado.
Encontro a origem do som facilmente.
Um grupo de homens está em volta de uma mesa. Seus ombros tremem enquanto riem. A mesa pertence a Xavier Kama. Claro que pertence.
Ele está de pé agora, rindo com o grupo. Suas mãos se movem de um jeito que deixa claro sobre o que estão falando. Grosseiro. Esperado. Comportamento masculino idiota.
Solto o ar com força. Me afasto da mesa. Aliso as mãos na frente da minha saia cinza na altura dos joelhos. Minha blusa, um decote em V azul-bebê, de repente parece suave demais para o que estou sentindo.
Endireito as costas. Fecho meu notebook. Coloco na bolsa com mais força do que o necessário.
Saio. Meus saltos ecoam contra o chão. Passo por eles sem parar.
“Será que vocês, playboys, podem fazer menos barulho?” digo. Minha voz está afiada. “Isso aqui é um local de trabalho. Não uma fraternidade. Embora tenha certeza de que vocês confundem isso o tempo todo.”
A risada para na hora. O silêncio preenche o espaço. Parece denso e desconfortável.
Não olho para eles. Não preciso. Posso sentir seus olhos me seguindo enquanto passo. Ouço quando começam a falar de novo atrás de mim — baixo, divertidos e nada incomodados.
Chego ao elevador. Aperto o botão e espero. As portas deslizam abertas com um som suave. Entro.
Não preciso me virar para saber que ele me seguiu. Sinto sua presença antes de vê-lo.
Xavier está encostado na parede. Parece casual e satisfeito consigo mesmo. Fica entre mim e o painel de controle. Seus braços cruzados sobre o peito. Seus músculos pressionam contra a camisa social. Seus olhos âmbar brilham com diversão.
“Hmm” ele diz. Sua voz é suave. “Eu sempre soube que você era sexualmente carente, Susie Q, mas não sabia que também era intimidada pelo assunto.”
Estreito os olhos. Dou um passo à frente para me inclinar e apertar o botão do térreo. Meu ombro toca seu peito. Meu cabelo escorrega do ombro e toca seu braço. Eu capto o cheiro.
O cheiro dele.
Coco. Palmeira. Algo quente e praiano. Me atinge como uma lembrança que não quero ter.
Fecho os olhos. Respiro fundo demais. Me arrependo na hora. Meus nervos parecem elétricos. Meu pulso acelera na garganta. Me endireito. Dou um passo para trás. Olho para as portas do elevador.
“Você precisa sempre cheirar como um garoto de programa no trabalho, Xavier?”
Ele levanta uma sobrancelha. Um sorriso puxa seus lábios.
“Sério? Se eu não te conhecesse melhor, pensaria que você gostou do que cheirou. Você demorou para se afastar. Não que eu esteja reclamando. Rostos desaparecem quando bundas estão empinadas.”
Ele se afasta da parede assim que as portas do elevador se abrem. Suas mãos vão para os bolsos. Ele sai como se fosse dono do prédio.
“Babaca” digo baixinho, passando por ele com força.
Pego meu celular do bolso. Meus polegares se movem rápido enquanto mando mensagem para minha irmã.
Susan
Por favor, me diz que você está livre para almoçar. Preciso de uma pausa. E de uma bebida. Ou de uma pá.
***
O sorriso de Mindy é largo enquanto ela se inclina para frente. Seus cotovelos apoiados na borda da mesa do café. Seu chá gelado está molhado contra o guardanapo que ela enrolou em volta dele. Ela me observa como se eu fosse seu programa de TV favorito e ela já soubesse o que vai acontecer em seguida.
“Então deixa eu ver se entendi” ela diz, mexendo a bebida devagar com o canudo. “Ele cheira a puto — suas palavras — e você ainda lembra o cheiro exato?”
Reviro os olhos, mas não consigo impedir a risada que sai.
“Não é como se eu quisesse lembrar. É só que... é forte. Coco e palmeiras. Como se ele tivesse se banhado em férias tropicais.”
Mindy levanta as sobrancelhas, bebericando devagar.
“Você diz que o odeia” ela diz. Sua voz é leve, mas direta. “Mas lembra qual perfume ele usa. Isso não é ódio, Susan. Isso são preliminares.”
Quase engasgo com minha água.
“Sério?!”
Ela acena, rindo.
“Ele te seguiu até o elevador e se encostou na parede como se estivesse posando para um calendário. Ele quer te comer, com certeza absoluta. E pelo jeito que você está corando agora...” Ela aponta para meu rosto com o canudo. “Acho que você também quer provar um pouco dele.”
Pressiono uma mão no peito, fingindo ofensa.
“Eu com certeza não quero. Quer dizer, sim, ele é bonito. Vou admitir isso. Mas no momento em que ele abre a boca? Morte instantânea da atração. A personalidade dele é tipo repelente de buceta de grau industrial.”
Mindy bufa, quase derrubando a bebida.
“Meu Deus, Susan.”
“Estou falando sério” digo, me recostando na cadeira. “Ele é só sorrisinhos satisfeitos e frases arrogantes. É como se ele achasse que é um presente de Deus para as mulheres.”
“Bem” ela diz, colocando o copo na mesa e olhando o relógio “você sabe como resolver isso.”
Estreito os olhos.
“Nem pensar.”
Ela sorri, maliciosa e vitoriosa.
“Faz ele te comer.”
Minha mandíbula caiu enquanto o calor tomava meu rosto, subindo pelo pescoço e chegando às orelhas.
“Mindy!”
Ela já está de pé, jogando algumas notas em cima da conta.
“O que posso dizer além de ‘de nada’, mana.” Ela pisca, coloca a bolsa no ombro e sai saltitante, me deixando vermelha e sem palavras.
Fico sentada por um momento, encarando meu copo meio vazio, tentando fazer o rubor sair das minhas bochechas. Eu sabia no que estava me metendo quando mandei mensagem para ela. Mindy sempre foi ousada. Aquela que pula no caos e de alguma forma sai com o cabelo perfeito e uma história nova.
Não sou puritana. Já transei. Já tive relacionamentos.
Mas não faço casual. Não faço imprudências. Tenho padrões. Requisitos. Como namorar. Como confiança. Como não ser emocionalmente alérgico à vulnerabilidade.
Mindy teve seus episódios selvagens. Ela viveu as aventuras de uma noite, as viagens espontâneas e os momentos de “ops, beijei um estranho”. Mas agora ela está noiva do Greg, e estão planejando um casamento no Dia dos Namorados no ano que vem. Ela se acalmou. Mais ou menos.
Olho as horas e suspiro. Preciso voltar para o escritório. Nossa chefe deve anunciar a designação para o especial de Dia dos Namorados hoje.
Dois jornalistas, não apenas um. Ela nos disse que assim que os nomes fossem revelados, o resto dos detalhes viria em seguida.
E eu já sei o que estou esperando.
E o que estou temendo.
Porque se o nome de Xavier Kama aparecer ao lado do meu naquela lista de designação, eu posso ter que pegar emprestada a pá da Mindy.
EPISÓDIO: 2: Capítulo 2
SUSAN
Caminho pelos cubículos. Meus saltos fazem um barulho alto no chão. O escritório está cheio de conversas baixas, mas eu mal percebo. Só consigo me concentrar em uma coisa quando o vejo.
Xavier Kama.
Ele está encostado na parede ao lado do escritório da Jessica. Os braços cruzados. Um tornozelo cruzado sobre o outro. Parece que está posando para uma foto de revista. Seus olhos âmbar se fixam em mim no segundo em que dobro a esquina.
“Finalmente” ele diz. Ele se afasta da parede. Seus ombros se movem devagar. “Você voltou. A chefe quer nos ver. Ela disse que tem que ser juntos.” Ele bateu na porta três vezes. O som é alto.
Eu paro de andar. Meus olhos se estreitam. “Sério? Deve ser porque você não sabe falar como um profissional. Ótimo trabalho, Kama. Se você me ferrou nessa matéria, eu juro que...”
Minhas mãos se fecham em punhos ao meu lado. Eu o encaro com raiva, mas ele só sorri de lado. Parece que está se divertindo.
A porta se abre antes que eu possa terminar de falar. Nós dois mudamos na hora. Colocamos sorrisos como se nos déssemos muito bem.
Jessica sorri para nós. “Entrem, vocês dois.” Ela caminha até sua mesa.
Xavier passa por mim. Seus lábios tocam minha orelha enquanto ele diz baixinho: “Você saberia se eu te comesse, Susie Q.”
Não consigo respirar por um segundo. Meu rosto esquenta. Eu pisco forte. Tento fazer meu cérebro funcionar de novo enquanto ele entra na sala como se fosse o dono do pedaço. Ele se senta em uma das cadeiras do outro lado da mesa. Parece confortável. Ele levanta a perna. O tornozelo descansa sobre o joelho. Ele se recosta como se tudo isso fosse um jogo.
Eu o sigo. Meu corpo está rígido. Meu rosto ainda está quente. Eu me sento na outra cadeira. Cruzo os tornozelos embaixo de mim. Dobro as mãos no meu colo. Mordo a parte interna da bochecha para me impedir de gritar.
“Quando voltei do almoço” eu digo. Minha voz está firme, mas tensa. “Xavier me disse que você queria nos ver. Desculpe por ter saído um pouco mais cedo. Eu tinha terminado tudo e tive a chance de encontrar minha irmã. Espero não ter feito você esperar.”
Jessica acena com a mão. “Ah, não se preocupe com isso. Eu queria falar com vocês dois sobre algumas coisas.” Ela para de falar. Ela olha para nós dois. Nós dois acenamos e esperamos.
“Vocês sabem que precisamos de uma equipe forte” ela diz. “Uma que possa usar os pontos fortes um do outro.”
“Sim, Jessica” eu digo rapidamente. Aceno de novo. Meus dedos apertam minha saia com força. Olho de lado para Xavier. Penso em todas as vezes que brigamos. Na copiadora. Na sala de descanso. Até quando estávamos trabalhando no andar.
Nunca perdemos a chance de irritar um ao outro. Nunca.
Xavier faz um som pelo nariz. “Bom, ela com certeza tem personalidade forte. Se nada mais.”
Eu chuto a perna dele embaixo da mesa. Não com força. Só o suficiente para fazê-lo pular e me olhar com um sorriso de lado.
Jessica ri baixinho. “Ah sim, vocês dois têm personalidades muito fortes. Mas na escrita de vocês, vocês têm pontos fortes bem diferentes. Susan, você presta atenção aos detalhes muito bem. E Xavier, você consegue se aprofundar. Você encontra ângulos que ninguém mais vê. Isso é raro. Acredito que vocês vão se desafiar. Fazer um ao outro melhorar. E juntos, acho que vocês vão dar a este jornal uma das melhores matérias de fim de ano de todos os tempos.”
Minha boca se abre. Eu pisco para ela, depois para Xavier. Ele parece calmo. Como se ela tivesse acabado de pedir para ele pegar um café, não trabalhar juntos em uma matéria importante.
“O quê?” eu digo. Minha voz falha. “Você só pode estar brincando. Nós dois?”
Jessica junta as mãos. Seus olhos estão brilhando. “Sim. Acho que ter uma visão masculina e feminina vai tornar o artigo especial. Estou mandando vocês para o Alasca.”
Eu congelo.
Ela continua falando. Ela não parece preocupada. “Vocês vão ficar em uma pousada familiar. Eles dizem que são o lugar perfeito para romance durante a temporada de festas. Patinação no gelo ao ar livre, passeio de trenó com cães, tubing, esqui, snowboard... tudo.”
“Preciso que vocês façam as atividades como se fossem um casal. A família sabe por que vocês estão lá, mas só eles. Então vocês vão ter que fingir ser um casal. Acredito que a experiência será melhor se vocês agirem como se fosse de verdade.”
Eu a encaro. Depois Xavier. Depois ela de novo. “Você está falando sério” eu sussurro.
Jessica acena. “Vocês partem amanhã de manhã. Vocês dois podem tirar o resto do dia de hoje para se preparar. Parabéns.”
Eu olho para Xavier. Ele está me olhando. Pela primeira vez, ele não tem um sorriso de lado. Só olhos arregalados e uma expressão chocada que parece com a minha.
Vamos para o Alasca. Juntos.
Como um casal.
Acho que eu preciso mesmo daquela pá.
***
Eu saio do escritório da Jessica rápido. Meus saltos batem no chão com mais força do que precisam. Meu coração ainda está batendo rápido. Meus pensamentos são uma bagunça de cabanas cobertas de neve e atividades que temos que fazer como casal. Eu nem sei para onde estou indo. Só para longe daquela sala. Longe dele.
Mas não vou muito longe.
A voz de Xavier vem de trás de mim. É baixa e presunçosa. “Bom... Alasca. Você, eu, romance no ar. Você deve estar empolgada.”
Eu me viro rápido. Quase esbarro nele. Ele já está perto demais. Está encostado com um ombro na parede. Seus olhos são âmbar e irritantes. Eles brilham com diversão.
“Empolgada não é a palavra que eu usaria” eu respondo rispidamente. “Horrorizada. Chocada. Um pouco enjoada.”
Ele ri. É devagar e de propósito. “Você está corando de novo.”
“Não estou.”
“Está. É adorável.”
Eu cruzo os braços. Tento me proteger do calor subindo pelo meu pescoço. “Você é insuportável.”
“E ainda assim” ele diz. Ele dá um passo um pouco mais perto. “Você está presa comigo. No Alasca. Fazendo atividades juntos. Talvez até dividindo uma cabana.”
Eu faço um som de descrença. “Nós não vamos dividir uma cabana.”
Ele levanta os ombros. Seus olhos nunca deixam os meus. “Vamos descobrir.”
Eu tento passar por ele, mas ele se move e me bloqueia de novo. Sua voz fica mais baixa. É provocante, mas mais quieta. Soa íntima de um jeito que me faz prender a respiração.
“Sabe” ele diz. Sua voz está baixa. “Para alguém que me odeia, você passa muito tempo parecendo que está prestes a me beijar ou me matar. Ainda não decidi qual eu preferiria.”
Meu coração pula. Eu abro a boca, mas nada sai. Ele está me observando de perto demais. Como se estivesse memorizando cada sentimento no meu rosto. “Eu...” eu começo, depois paro. Eu balanço a cabeça. Tento clarear meus pensamentos. “Você está delirando.”
Ele sorri. “Você está nervosa.”
“Estou furiosa.”
“Mesma coisa.”
Eu passo por ele. Meu ombro toca seu peito. Ele não se move. Só vira um pouco para me ver ir embora.
“Você vai adorar o Alasca” ele grita atrás de mim. “Ar frio. Lareiras quentes. Eu.”
Eu não me viro. Não dou a ele o gostinho que ele quer.
Mas minhas bochechas estão queimando, e eu odeio que ele saiba disso.













































