
O Tormento do Lobo
Author
Suze Wilde
Reads
2,3M
Chapters
72
Capítulo 1
JUNO
Corri mais rápido, pedrinhas atravessando meus tênis. Não olhei para trás. Podia sentir o Harry se aproximando. Corri entre os vagões. Ouvi ele soltar um palavrão. O som das pedras me disse que ele quase caiu.
Mudei de direção. Tive vontade de chorar quando vi a cerca de metal. Havia uma placa velha que dizia PROPRIEDADE PRIVADA. Não tinha outra escolha. Me joguei na cerca. Meus tênis entraram nos buracos da cerca enquanto eu subia até o topo. Passei uma perna por cima, depois a outra. Então me deixei cair no chão. Olhei em volta. Vi um trem por perto. O vagão já estava começando a se mover.
O vagão estava longe demais quando ouvi um tiro. Uma bala passou por mim e cortou minha orelha. Fiquei apavorada. Isso me fez correr mais rápido. Minha mão agarrou a lateral da porta. Usei toda minha força para puxar minha perna para cima. Rolei para dentro. Estava ofegante. Fiquei deitada no chão de madeira. Minha mochila estava presa embaixo de mim e doía.
Meu coração batia rápido e alto nos meus ouvidos. Sentei para olhar em volta. O vagão estava meio cheio. Tinha plataformas de madeira empilhadas dentro. Toquei minha orelha e recuei de dor. Meus dedos estavam com sangue. Olhei para o sangue. Esfreguei entre os dedos. Depois limpei os dedos na minha calça jeans. Meu Deus! Eu podia estar morta agora. Senti enjoo no estômago.
Rastejei até a porta aberta. Olhei para fora com cuidado. Me senti melhor. Não havia sinal do Harry. Ele provavelmente não ia me seguir. Parecia um trem de carga. Não estava indo muito rápido, mas era mais rápido do que ele conseguia correr.
Tirei minha mochila. Torci para que o trem não parasse logo. Não queria que ele viesse atrás de mim. O Harry Lipton morava três casas depois da minha. Todo mundo sabia que ele era um tarado. Mas nunca pensei que ele mataria alguém.
Depois que meu pai morreu, tive uma sensação estranha de que alguém estava me observando. Será que era o Harry?
Hoje de manhã, fui andando até a farmácia buscar meus remédios. Precisava fazer isso a cada três meses. Não podia esquecer. Enquanto caminhava em direção à minha casa, estava com meus remédios novos na mão. Vi o Harry na minha porta da frente. Parei de me mover porque fiquei com medo.
Ele estava batendo na porta. Estava usando uma arma para bater.
Fiz um som alto na garganta. Ele se virou quando ouviu o som. Foi quando comecei a correr.
Por que ele queria me machucar? Eu sabia que ele cometia pequenos crimes. O papai tinha apontado ele anos atrás. O papai me disse para ficar longe dele. Mas carregar uma arma durante o dia? Ele tinha enlouquecido e piorado?
E por que eu? Sempre tive cuidado de ficar longe dele. Ouvi o conselho do papai. Fiquei bem longe dele. Havia algo nos olhos dele que eu não gostava. Algo que me fazia pensar que ele não era normal. Algo que me fazia pensar que ele gostava de machucar as pessoas.
Ir à farmácia provavelmente salvou minha vida.
Eu era muito cuidadosa em tomar minha medicação. Tinha ficado sem apenas uma vez desde que meus problemas começaram. Nunca quis que isso acontecesse de novo. Quando meu pai estava vivo, ele sempre garantia que tínhamos nossos remédios. Ele tinha a mesma doença que eu. Sabia como podia ser ruim.
Eu podia estar fugindo de um maluco com uma arma, mas pelo menos tinha noventa dias antes de precisar de mais remédios.
Ainda estava confusa enquanto sentava encostada na parede do vagão. Podia sentir ele balançando.
Por que o Harry Lipton me queria morta?
Quando eu descesse desse trem, ligaria para a polícia. Contaria a eles sobre ele. Não podia ir para casa até pegarem ele. Se precisasse, encontraria algum tipo de emprego. Encontraria um lugar novo para morar até ser seguro voltar.
Casa. A casinha suja que meu pai me deixou provavelmente estava quebrada demais para consertar. Alguém devia simplesmente derrubá-la. Mas eu era dona dela. Não precisava pagar aluguel. Isso era bom porque não tinha emprego há alguns meses. Parecia que não voltaria para lá tão cedo.
Minha vida já ruim tinha acabado de piorar.
Meu pai costumava dizer que arrependimento sempre chega tarde demais. Concordava com isso. Mas não sabia do que deveria me arrepender. Não tinha feito nada para deixar nosso criminoso local irritado.
Puxei a mochila para perto de mim. Olhei dentro. Torci para ter um pouco de água na garrafa que não tinha jogado fora. Puxei ela para fora e sacudi. Tinha alguns goles sobrando. Era melhor que nada. Tomei dois goles pequenos. Minha garganta seca se sentiu melhor. A água estava morna, mas estava molhada.
Tinha menos de cinquenta reais na minha bolsa. Tinha algumas centenas de reais na minha conta bancária. Minhas economias estavam diminuindo rápido porque não tinha emprego. Não tinha muito dinheiro para começar. Fiquei surpresa quando encontrei pouco mais de setecentos reais escondidos no armário do meu pai depois que ele morreu. O papai também não tinha muito dinheiro.
Ainda não conseguia acreditar que o papai estava morto.
Acordei uma manhã seis meses atrás. Encontrei ele dormindo no sofá. Cobri ele com um cobertor. Foi quando vi que ele estava muito frio e não estava respirando.
Sentia tanta falta dele. Ele estava sempre feliz, não importava o que acontecesse. Era a única pessoa que sempre estava lá para mim. Pelo menos sua morte foi pacífica. Esperava que um dia, eu morresse do mesmo jeito. Quieta e sem dor.
O Harry Lipton não teria tentado me machucar se o papai ainda estivesse vivo.
O papai era a pessoa mais importante da minha vida. Nunca conheci minha mãe. Meu pai também não a conhecia de verdade. Ele só ficou com ela uma vez.
Ela me deixou na porta dele logo depois que nasci. Havia um bilhetinho colado no meu peito. Juno. O papai e eu conversamos sobre essa questão muitas vezes. Ela se importou o suficiente para me dar um nome? Perguntei a ele uma vez qual era o nome dela. Pela expressão triste no rosto dele, pude perceber que ele não sabia. Talvez o nome dela fosse Juno. Talvez meu pai só achasse que era meu nome.
Deitei. Usei a mochila como travesseiro. O balanço e o som de cliques do trem fizeram meu cérebro agitado desacelerar. Me mexi para poder ver a paisagem passar. Logo me senti pegando no sono.
O trem parou de repente. Isso me acordou. Coloquei minha mochila no ombro e olhei para fora. Parecia que estávamos num desvio. Era o fim da linha. Estava prestes a pular quando ouvi vozes. Rapidamente me escondi contra o lado de metal do trem.
Além de pegar carona, não tinha feito nada de errado. Talvez pudesse simplesmente me misturar com outras pessoas? O problema era que minha olhada rápida me disse que não haveria outras pessoas. A estação parecia vazia.
Escolhi o lado que estava mais perto de um campo aberto. Pulei. Me movi ao longo do vagão. Estava abaixada. Cheguei na parte que conectava os vagões. Dei uma olhada rápida. Não vi ninguém. Me movi para o próximo vagão.
Só mais um, e estaria ao ar livre. Tinha certeza de que ninguém estaria vigiando a parte de trás do trem.
“Ei” uma voz chamou atrás de mim.
Droga!
Ideias diferentes passaram pela minha cabeça muito rápido. Iam me pegar. Iam me acusar de entrar escondida num trem. Iam me fazer pagar milhares de reais. Teria que vender a casa para não ir presa.
Fugir parecia minha melhor escolha.
Levantei e corri. Corri através dos trilhos em direção a uma bilheteria minúscula. Tinha acabado de cruzar os trilhos quando alguém me agarrou. Um braço grosso me puxou contra um corpo duro. O braço apertou em volta da minha cintura. Uma voz áspera riu enquanto eu tentava me soltar.
Droga. Saí de uma situação ruim e entrei em outra situação ruim.















































