
Cães Loucos e Ingleses
Autor
Andreona C Garlid
Leituras
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Capítulos
50
Todas as donzelas do reino são convocadas a uma grande propriedade para uma quinzena de festividades deslumbrantes, onde um nobre — rico, recluso e com fama de ser louco — deve escolher uma noiva. Sussurros sobre mortes estranhas circulam pelos salões iluminados a velas, mas a promessa de poder, paixão e perigo mantém os corações acelerados. Por baixo da seda e dos sorrisos, todos escondem algo. À medida que os jogos de charme e dissimulação se desenrolam, uma pergunta brilha mais intensamente do que os lustres: quem sobreviverá à escolha do Lorde — e qual será o preço para conquistar sua mão?
Todas as Donzelas Elegíveis Devem Comparecer
“Mas dizem que ele é louco! Você não pode querer de verdade que a gente vá a esse evento, Madrasta. Você simplesmente não pode!” Charlotte quase chorava de frustração. Sua madrasta se recusava a escutar qualquer razão.
“Eu acho que, se não dissessem que ele é um pouco louco, ele já estaria casado com uma mulher rica de alguma cidade vizinha! Mas a loucura dele é a nossa chance! Minha filha pode virar a Lady Edenmorrow até o fim do mês.” A Sra. Church deu um gritinho de alegria.
Helena, a filha dela, também deu um gritinho e bateu suas mãos finas. Seus cachos loiros pularam ao redor do rosto. Ela quase tremia de tanta animação.
“Duas semanas inteiras de bailes, caçadas, jantares e festas na mansão com Sua Senhoria! E ele com certeza vai escolher uma de nós! Afinal, a nossa família é a que chega mais perto da nobreza. Não é como se Abigail Flagg ou Lucy Smith tivessem alguma chance.” Helena enrolou um cacho no dedo e suspirou fazendo drama. Suspiros dramáticos eram, talvez, o seu maior talento.
Charlotte apertou os dedos nas têmporas, muito frustrada. Ela se perguntou pela milésima vez por que amava tanto a sua meia-irmã. A garota tinha inteligência suficiente apenas para encher uma colher. E nem era uma colher muito grande. Era daquele tipo pequeno que se usa para mexer o chá em uma xícara chique.
“ELE É LOUCO! Um louco convidou doze donzelas para passar duas semanas na mansão dele para ‘um festival de prazeres’ antes de decidir casar com uma delas… apenas uma. Quantas dessas donzelas você acha que vão sair de lá ainda sendo donzelas? E será que a noiva dele vai ter mais sorte? Casada com um lorde louco cujo pai doente pode morrer a qualquer momento. Isso a deixaria totalmente à mercê de um filho maluco.”
“Esse é o jeito mais sem sentido que eu já vi vocês duas agirem. E olha que eu já vi vocês gastarem toda a fortuna do meu pai com besteiras e fitas. Vocês não têm comparação!” Charlotte terminou de falar… mas logo percebeu que tinha ido longe demais.
A Sra. Church apertou os lábios. “Eu vejo que você tem inveja da Helena. É por isso que está tentando fazer com que ela desista de ir a esse grande evento! Você sabe que é uma solteirona de vinte e dois anos que fala demais. Por isso, tem pouca ou nenhuma chance contra a sua meia-irmã muito mais jovem e simpática de dezessete anos.
“Você só não suporta a ideia de que ela será a sua patroa. Ela terá todo o prestígio enquanto você passa a vida solteira e sozinha nesta casa. Nenhum homem quer casar com uma garota… uma mulher… que tem uma língua como uma lâmina afiada.”
A Sra. Church puxou a cabeça loira de Helena para o seu peito. “Não ligue para a sua meia-irmã. Essa garota ruiva está apenas com inveja de como você com certeza vai ganhar o coração dele. Eu acredito que ele é um verdadeiro cavalheiro. Os boatos são apenas boatos! Não se preocupe, minha querida.”
Charlotte passou a mão pelos seus cabelos bagunçados. “Bem, nisso você está certa. A Helena é mais bonita e mais gentil do que eu. Sem dúvida, ela vai conseguir um casamento melhor. Esse é o exato motivo pelo qual eu quero protegê-la. Eu não desejaria que a minha irmã…”
“MEIA-irmã! A minha Helena não tem o seu sangue, sua pirralha,” cortou a Sra. Church com muita firmeza. Ela então olhou para Charlotte com muita atenção. Será que a Helena era mais bonita? Charlotte era alta, alta até demais. O seu olhar ficava na mesma altura dos olhos de muitos homens.
O cabelo dela era de um castanho-avermelhado escuro que brilhava vermelho na luz da vela. E os seus olhos cinzentos tinham uma força de inteligência que dava medo. Charlotte era uma grande beleza. Mas era bonita do mesmo jeito que uma cobra venenosa pronta para atacar é bonita.
Se o pai dela não tivesse feito questão de dar estudos demais a ela e de tratá-la como um filho por todos aqueles anos, a madrasta poderia ter a esperança de se livrar dela! Mas todos os pretendentes que ela tinha trazido para Charlotte ficaram assustados com a atitude rebelde da garota.
Charlotte se achava melhor do que o lavrador ou do que o filho do fazendeiro. Ela perguntava aos pobres homens (que não sabiam nem ler) o que eles achavam de Shakespeare e da Ilíada.
Sua Senhoria com certeza iria preferir o olhar doce de sua filha em vez do olhar forte de sua enteada. Não faria mal nenhum deixar que Charlotte fosse junto… desde que ela não usasse nenhum vestido muito bonito.
E se Charlotte estivesse certa sobre o lorde ter más intenções com as garotas que não iria escolher… então talvez fosse melhor que Helena fosse ao evento com algum tipo de protetora.
“Sim, ela é minha meia-irmã. Mas, como ela era só um bebê quando veio morar comigo, eu acho que não poderia gostar mais dela nem se ela fosse do sangue do meu pai.” Charlotte viu muita raiva e mágoa passarem pelo rosto da madrasta. Com uma voz calma e pacífica, ela completou: “Eu vejo que não posso fazer você mudar de ideia sobre nós irmos.” Charlotte suspirou.
A Sra. Church abaixou um pouco a cabeça, concordando de um jeito bem pequeno. Ela aceitou o que a sua enteada disse da maneira mais simples possível.
“Você vai, e vai ficar de olhos abertos. Agora vá pegar aquele anel de casamento da sua mãe que você guarda na sua gaveta de cima. Não ache que eu não sei que você ainda guarda isso enrolado em um lenço lá em cima. Ele deve ser vendido. A Helena precisa de um vestido novo de caça e de um vestido novo de baile. Não seria nada bom que a vissem duas vezes com a mesma roupa, e vocês vão ficar lá por duas semanas!” Os olhos de Charlotte se arregalaram de surpresa.
“Por favor, não faça isso! Essa é a coisa mais pessoal e importante que eu tenho. Você não pode levar o anel. Você simplesmente não pode. Eu me recuso a dar.” A madrasta dela pareceu crescer de tanta raiva.
“Você mora na minha casa e vai fazer o que eu mandar! Vá buscar o anel, ou eu vou expulsar você daqui e acabar com isso de uma vez por todas!” a sua madrasta gritou. Ela estava com o rosto vermelho e furioso. Helena colocou as mãos na boca.
“Ah, por favor, Mãe, não faça isso! Não expulse a Charlotte! Você vai dar o anel para ela, não vai, Charlotte?” Helena olhou para Charlotte quase implorando.
Charlotte virou as costas e saiu do quarto, tremendo de raiva. Helena precisava de roupas de caça e de baile para catorze dias. Charlotte só tinha três de cada e dois vestidos para usar de dia… e todos já estavam fora de moda há muitos anos.
Helena ia sair de casa com quatro malas enormes cheias com mais de trinta vestidos. O gasto era um absurdo. Ela duvidava que até mesmo a Princesa da Inglaterra tivesse tantos vestidos e enfeites quanto a sua meia-irmã mimada.
Todos os cômodos da casa delas pareciam um túmulo com paredes vazias. Os corredores não tinham tapetes porque a sua madrasta gastava dinheiro com tudo. Ela desceu as escadas devagar e colocou o anel na mão da sua madrasta.
“Viu só, isso não foi tão difícil, foi? Era fazer isso ou eu teria que vender você como empregada para pagar a conta.” Ela guardou o anel no bolso com um sorriso maldoso.
Charlotte olhou para ela com muita raiva e saiu de casa sem dizer nada. Ela tinha aprendido que, quando estava com muita raiva, era melhor ficar calada. Se ela falasse, com certeza iria arrumar mais problemas para si mesma.
A parte de baixo dos seus braços tinha vários machucados escondidos. Eram marcas de beliscões que a madrasta adorava dar quando Charlotte tentava se defender. Além disso, ela já estava há dois dias sem comer por ter reclamado desse baile antes. Se o castigo da fome continuasse por muito mais tempo, ela iria começar a desmaiar.
“Você já viu alguém ser tão mal-educada e ingrata desse jeito? Eu não tinha o dever de cuidar dela depois que o pai morreu! Eu poderia ter mandado ela embora. Ou simplesmente deixado a garota no orfanato mais próximo, pois é isso que ela é: uma órfã! Mas não. Ela prefere que você vá ver o lorde vestida como uma mendiga do que abrir mão de um anelzinho bobo que ela nunca vai usar. Um gênio ruim como esse não consegue arrumar marido.”
“Mas Mãe…”, Helena começou a falar de um jeito fraco. Depois ela parou.
Não ia adiantar nada discutir.
Algum dia, essa mulher teria que pagar por tudo o que fez. Charlotte só podia torcer para ser a pessoa a cobrar essa dívida.
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