
Descendente Original 4: Sebastian
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Capítulo 1
SEBASTIAN
O cheiro dela me atinge antes mesmo de eu pisar na livraria. Aperto o passo, quase começando a correr. Passei a minha vida inteira dentro dos limites das terras reais, protegido do público e dos perigos à espreita que estão sempre ansiosos por um vislumbre meu — o último descendente.
Não consigo esconder. Não consigo reprimir o poder que pulsa da minha pele. Todos sabiam que eu nasceria como o rei e descendente mais poderoso do nosso mundo sobrenatural. O que eles não sabiam era até onde teriam que ir para me proteger daqueles que querem me aniquilar desde o meu nascimento.
Minha mãe também é uma descendente. Ela tem o dom da premonição, mas nunca compartilha suas visões. Existe um motivo para ela ter me mandado ficar com a minha prima e melhor amiga, Scarlett, no castelo do Rei Alaric. Entendo a necessidade de proteção, mas a mamãe não é a única com habilidades. Posso não ver o futuro infinito, mas tenho o dom de sentir o que acontece dentro das pessoas. Chame isso de meu sexto sentido, meu terceiro olho. E Scarlett não é o único motivo de eu estar aqui.
Alaric é o companheiro de Scarlett. Ele daria a vida por ela. E quase já deu. Eles são inseparáveis, e agora estão esperando seu primeiro filho — um vampiro. Graças a ele, provei o gosto da liberdade. Devo a esse vampiro mais do que jamais poderei pagar. Ele não é nada parecido com Xavier e é tudo de que Scarlett precisa. Ele me deu a habilidade de andar por aí despercebido, ocultando meus poderes e minha identidade. Claro, é com uma capa marrom horrorosa impregnada de magia, mas quem sou eu para reclamar?
Minha respiração trava na garganta. Sinto meus olhos começarem a brilhar. Não posso me aproximar dela desse jeito. Não consigo nem respirar direito. Exige toda a minha força reprimir meus instintos, mas controlar meu coração é outra história. A droga do meu coração está martelando no meu peito, e juro que, se eu não me acalmar logo, ele vai explodir.
“Posso te ajudar? Você parece que precisa se sentar antes que desmaie.”
Ela dá uma risadinha. Deusa, ela dá uma risadinha. O som vai direto para onde não preciso que vá. Ainda bem que estou usando uma capa.
“Hum... sim, claro. Sentar parece uma boa ideia agora.”
Ela se vira para me guiar até uma mesa, seu cabelo comprido balançando com a brisa. Maldição, Sebastian, prenda a respiração. Apenas prenda a maldita respiração. Que se dane. Respiro fundo e meus olhos ficam azul-elétricos — a cor que adquirem quando meus poderes são invocados.
Ela tem cheiro de lírios e jasmim. Se eu não me sentar logo, vou fazer papel de bobo e provavelmente assustá-la no processo. Quem diabos fica excitado apenas com o cheiro?
Estou péssimo e empolgado ao mesmo tempo. Agora entendo todos aqueles banhos gelados dos quais Alaric costumava reclamar antes dele e Scarlett acasalarem. Um banho gelado viria a calhar agora, e eu não estaria reclamando. Preciso de um, desesperadamente.
“Posso pegar alguma coisa para você?”
“Um banho gelado.”
“Como é?”
“Água... água gelada, com muito gelo.”
Ela dá outra risadinha e eu solto um gemido.
“É pra já. Eu jurava que você tinha pedido um banho gelado. Devo estar ouvindo coisas.”
Observo enquanto ela se afasta. Deusa, ela é linda. A garota mais linda que já vi. Seu longo cabelo branco cai até o meio das costas e forma cachos nas pontas. Ele balança enquanto ela anda, atraindo meus olhos para a sua bunda.
Maldição, isso não está ajudando a minha situação. Tenho que desviar o olhar antes que ela me pegue a encarando. Sua pele é perfeita, como um cetim cremoso. Mas seus olhos são a melhor parte. São de uma cor verde-água brilhante que me pegou de surpresa. Nunca vi olhos dessa cor antes. Têm a cor dos oceanos mais bonitos, como vistos em fotos. Um dia, eu os verei pessoalmente.
“Aqui está, bonitão. Uma água com muito gelo.”
“Sebastian.”
“O quê?”
“O meu nome é Sebastian.”
“Ah. Muito prazer, Sebastian. Eu sou a Rhea.”
Tenho voltado quase todos os dias para ver se ela está aqui. Alguns dias ela não está, em outros apenas nos sentamos e conversamos entre um cliente e outro. Estou tentando descobrir se ela sente alguma coisa. Me surpreende que eu sinta.
Ainda não tenho o meu lobo. Ser um descendente faz o meu lobo ficar profundamente escondido até eu encontrar a minha companheira. A mamãe disse que podia sentir o cheiro do papai e sentir os arrepios entre eles, mas o laço de companheiros não existia até a loba dela aparecer. Eu soube quem ela era no momento em que senti o cheiro de lírios e jasmim.
“Você está aqui por mim ou apenas pelos livros?”
Olho para cima, sorrindo.
“Para falar a verdade, eu não leio muito.”
“Que bom, porque isso seria um pouco estranho.”
Ela estende a mão, tirando o livro das minhas mãos. Eu tinha esquecido que o peguei, com a intenção de devolvê-lo à estante, quando ela se aproximou e se sentou.
“Parto normal, passo a passo?”
“Ah, droga. Eu peguei o livro errado.”
Sua risada ecoa, um som que eu adoro.
“Eu imaginei isso quando você o fechou com força e ficou branco. Então, Sebastian, onde você está hospedado?”
“Com a minha prima e melhor amiga por enquanto. Ela está grávida e não temos passado muito tempo juntos recentemente. Mas, eventualmente, vou ter que voltar para casa.”
“É bom que você seja próximo da sua família.”
“E você?”
Ela olha para baixo, seus dedos torcendo a saia. O tecido sobe até o meio da coxa sem que ela perceba. O que noto não é a sua pele macia, mas o hematoma recente espiando por debaixo do tecido. Um hematoma tão grande que cobre a parte de cima de sua coxa de tons pretos e roxos.
“Rhea, quem fez isso com você?”
Ela olha para cima, assustada, seus olhos verde-água arregalados. Percebendo o que revelou, puxa a saia para baixo. Ela estende a mão, tocando a minha, e então recua.
“Ah, me desculpe. Eu não queria assustar você.”
Não consigo evitar um sorriso. Ela sente isso. Ela sente a faísca entre nós.
“Fique à vontade para me assustar quando quiser.”
Ela se levanta, desviando o olhar com um pequeno sorriso. Posso ver que suas bochechas ficaram rosadas.
“Você precisa de mais alguma coisa? Eu tenho outros clientes para atender.”
“Eu estou bem... por enquanto.”
Tenho duas coisas que preciso fazer. A mais importante é descobrir quem machucou a minha companheira e fazê-los pagar. Fazê-los sentir a dor que ela sentiu. Ninguém toca na minha companheira, e ninguém a machuca sem ter que se entender comigo.
A segunda é conversar com meu pai, o rei alfa. Estive evitando isso por tempo demais. Preciso de sua sabedoria, seus conselhos. Ele é um homem bom. Um homem forte que governa todos os lobos com punho de ferro, mas eles o amam. Eles o seguem sem questionar. Ele me criou bem, mas não sei como ele vai reagir quando eu lhe disser que encontrei a minha companheira.
E que ela é humana.














































