
Desejos da Floresta Sombria
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Caçada
O único som na pequena cabana era o tilintar de metal contra metal, o som abafado de lâminas deslizando contra o couro, enquanto eu me armava meticulosamente com uma faca após a outra. Seis na minha cintura. Uma em cada bota.
Uma amarrada bem no alto da coxa. Outra na base da minha coluna.
E uma última adaga minúscula deslizada em meu cabelo, onde a maioria das outras mulheres usaria um pente. É claro que meu pequeno acessório pontudo funcionava muito bem para prender meu cabelo longo e escuro longe do pescoço, com o benefício adicional de ser afiado o bastante para deslizar por entre as costelas de alguém.
Depois de deslizar a pequena adaga em meu cabelo, virei-me e me examinei no espelho, passando as mãos sobre o couro justo em minha pele. Eu sempre suspeitei que o uniforme fosse parte do motivo pelo qual as mulheres nunca tinham tido permissão para se juntar aos Caçadores antes.
Dificilmente é próprio de uma dama usar calças, muito menos umas tão justas que abraçavam cada curva. E espartilhos deveriam ser usados apenas por baixo das blusas — não por cima delas, onde acentuavam muito claramente a minha feminilidade.
Ainda assim, isso dificilmente parecia justo. Afinal, aquelas calças justas chamavam tanta atenção nos homens quanto nas mulheres; bastava ver para onde as mulheres da vila direcionavam seus olhares quando os Caçadores passavam para saber disso.
Mas o resto da vila podia guardar suas opiniões sussurradas e olhares contundentes para si. A Floresta Sombria era um lugar perigoso, e eu não precisava de saias longas e blusas esvoaçantes prendendo nos galhos das árvores.
Ou nas garras de monstros, na verdade. Suponho que essa fosse a outra parte do motivo para as mulheres nunca serem Caçadoras.
Afinal, nós éramos delicadas demais para enfrentar monstros. Dei ao meu reflexo um sorriso irônico enquanto passava os dedos pelos cabos de cada lâmina na minha cintura.
Os outros Caçadores haviam tentado de tudo para me manter fora de suas fileiras. Mas eu era a única filha de um mestre Caçador, e ele havia me ensinado tudo o que teria ensinado a um filho, se tivesse tido um.
Eu sabia que estava pronta. Afastei-me do espelho e fui em direção à porta, marchando para fora, rumo à vila.
A luz do sol poente transformava as casas do outro lado da rua estreita em sombras escuras e agachadas, com suas janelas brilhando como olhos na crescente escuridão. Desci a rua e marchei em direção aos limites da vila, onde uma escuridão muito mais profunda me aguardava.
Enquanto as construções invasivas ficavam para trás, a Floresta Sombria surgiu no horizonte, com suas árvores altas e finas se estendendo de forma ameaçadora em direção às cores cada vez mais intensas do céu crepuscular. Senti um formigamento percorrer minha pele ao olhar para os galhos mais altos.
Mas não era um formigamento de medo. Não, era uma onda de empolgação — a mesma empolgação que pulsava em meu sangue desde que me entendo por gente, sempre que eu olhava para a Floresta Sombria.
Quando criança, eu me sentava na cama à noite, observando as copas das árvores distantes pela janela, ouvindo o vento sussurrar em seus galhos. E onde outras crianças tinham ouvido ameaças sussurradas e motivos para temer, eu ouvia… um chamado, como uma música sendo sussurrada na noite, apenas para mim.
Eu sabia que, de alguma forma, eu pertencia àquele lugar.
— Você realmente apareceu.
Meus olhos se desviaram rapidamente na direção da voz, avistando a outra figura vestida de couro que havia se aproximado da beira da floresta. Ele parou ao meu lado, e nós dois ficamos de frente para as árvores.
— Você achou que eu não viria? — perguntei inocentemente.
— Ah, eu sabia que viria — ele respondeu. — Uma garota mais esperta teria ficado em casa, mas você sempre foi uma maldita tola, Morgana.
— Eu poderia dizer o mesmo de você, Callum — retruquei. Então, após uma pausa, acrescentei: — E muitas coisas piores também.
Ele bufou de um jeito divertido e desinteressado.
Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, no entanto, o som de passos se aproximando fez com que nós dois virássemos nossas cabeças para longe das árvores. Mas não nossas costas. Você nunca dava as costas para a Floresta Sombria.
Os outros Caçadores avançaram, e eu me peguei erguendo o queixo um pouco mais, endireitando meus ombros. Que olhem para mim. Que zombem de mim. Recusei-me a demonstrar vergonha.
Eu pertenço a este lugar muito mais do que vocês, sussurrou algo em meu sangue. Encarei seus olhares duros com um olhar de aço da minha parte, e todos eles desviaram o olhar, voltando sua atenção para o Caçador líder, Bram.
O velho falou sem nem olhar na minha direção; pelo visto, ele havia decidido se ater ao seu método habitual de lidar comigo — ignorando o fato de que eu havia superado todos os seus Caçadores nos testes, fingindo que eu não tinha conquistado minha admissão em suas fileiras. Melhor apenas fingir que “a garota” não estava lá.
— Não vou falar muito — ele disse. — A noite está caindo rápido, e a vila precisa de nós lá fora, impedindo que aquelas criaturas cheguem perto de nossas fronteiras. Fiquem de olhos abertos. Lembrem-se do seu treinamento. Não hesitem em matar, nem por um instante. Se hesitarem, esses monstros vão estripar vocês sem pensar duas vezes. Sejam espertos, e vocês podem sair de lá vivos pela manhã. Entendidos?
Todos nós assentimos. Ele retribuiu o gesto, a lua cheia refletindo em seus cabelos brancos em uma luz prateada e brilhante.
— Muito bem, homens.
Revirei os olhos brevemente para cima. De jeito nenhum aquilo havia sido um acidente.
— Podem ir.
Armas deslizaram de cintos e costas — espadas, arcos, machados —, e os Caçadores se viraram para a Floresta Sombria. Eu me virei também, deslizando uma lâmina para cada mão, e comecei a avançar.
Um ombro esbarrou bruscamente em mim por trás, e eu lancei um olhar furioso para o homem de cabelo cor de areia que passou por mim. Callum, é claro.
— Tente não desmaiar quando você vir o seu primeiro licano — ele disse, seu sorriso formando um crescente branco na paisagem que escurecia.
— Tente não se mijar quando você vir a sua primeira Fae — retruquei rispidamente.
Ele era tão inexperiente quanto eu. Nós dois havíamos passado nos testes no mês passado.
Mas não era dele que todos duvidavam. Ele riu da minha observação e começou a trotar à frente, olhando brevemente por cima do ombro para mim e gritando: — Você sempre pode gritar o meu nome se entrar em apuros, Morgana. Eu não me importaria de ouvir você gritando meu nome, sabia?
Senti meu rosto queimar e meu lábio se curvar em um rosnado, mas Callum não viu.
Ele já havia desaparecido por entre as árvores. Eu sabia que não deveria deixar que isso me incomodasse.
Eu já deveria estar acostumada com isso. A maioria dos Caçadores me tratava daquele jeito — oscilando entre insultos e sugestões indecentes com toda a regularidade do balanço de um pêndulo.
Callum era o pior deles. Mas eu iria lhe mostrar.
Iria mostrar a todos eles. Quando eu saísse da floresta hoje à noite com a prova de que havia matado um monstro, ninguém questionaria minhas habilidades como Caçadora novamente.
Segurando minhas adagas com mais força, aumentei meu passo, deslizando para a escuridão por entre as árvores imponentes da Floresta Sombria.
A luz da lua cheia desapareceu com surpreendente velocidade, engolida pelas sombras sob as árvores.
Meu olhar disparava de um espaço escuro para outro, em busca de qualquer sinal de movimento na noite impenetrável da Floresta Sombria. Enquanto eu caminhava rapidamente mais fundo na mata, tive a certeza de que o ar ao meu redor estava esfriando.
Ignorei a sensação, não permitindo que meu passo vacilasse enquanto avaliava as outras armas presas ao meu corpo. Embora cada Caçador tivesse uma arma preferida, nós também carregávamos um pequeno arsenal com outros itens essenciais para combater as feras nas Florestas Sombrias.
Estacas para vampiros aninhavam-se nos meus antebraços, por baixo das mangas soltas da minha blusa, e lascas de ferro para desorientar as Fae ficavam guardadas em pequenos frascos no meu cinto.
E, é claro, algumas das minhas próprias adagas tinham pontas de prata para matar licanos. Eu estava fazendo uma contagem mental de cada arma à minha disposição quando ouvi algo.
Eu congelei, com meus pés deslizando levemente no solo macio enquanto olhava ao meu redor. Embora eu estivesse de certa forma acostumada à escuridão, uma névoa prateada havia penetrado na floresta, obscurecendo ainda mais minha visão.
Meu coração martelava em meus ouvidos, e eu implorei que fizesse silêncio, esforçando-me para tentar ouvir aquele som novamente, mas escutei apenas o silêncio.
E então, um sussurro suave, quase gentil. Não um chiado, mas um som como o de um tecido de seda deslizando sobre a pele.
Eu me virei, levantando rapidamente as adagas. Registrei apenas um rosto pálido e olhos escuros antes de deixar as duas lâminas voarem da ponta dos meus dedos.
Mas onde a figura de rosto pálido estivera um momento antes, havia agora apenas sombra e névoa, rodopiando suavemente em razão do movimento recente. Fitei sem fôlego o local onde minhas facas haviam se cravado na casca escura da árvore, com o coração batendo violentamente contra minhas costelas.
— Ora, isso lá é jeito de dizer olá? — uma voz sussurrou em meu ouvido.
Dei um pulo e me virei mais uma vez, puxando mais duas adagas do meu cinto, ao mesmo tempo que eu recuava como se estivesse dançando sobre as folhas úmidas que cobriam o chão da floresta.
A figura diante de mim não se moveu desta vez. Ele permaneceu anormalmente imóvel, seus olhos escuros me observando com diversão em seu rosto pálido.
Olhei de volta, com meus olhos disparando pela sua figura. Ele parecia quase normal.
Cabelos pretos e um tanto desgrenhados se enrolavam sobre suas orelhas. Um casaco longo, muito mais fino do que qualquer coisa que os homens da vila tivessem, pendia de seus ombros, com as mãos afundadas nos bolsos.
Botas altas de montaria abraçavam suas panturrilhas, e uma blusa branca e solta estava enfiada por dentro das calças de couro pretas de montaria.
Ele parecia o filho de um lorde, perdido no caminho para casa após uma caçada. Exceto por seu rosto.
Sua pele pálida parecia acentuar a rigidez de suas maçãs do rosto, o corte forte de seu maxilar e a vermelhidão intensa de seus lábios. E, claro, seus olhos escuros, quase pretos.
Não, percebi. Não quase pretos. Pretos. Verdadeiramente pretos.
Porque, conforme aqueles lábios vermelhos e grossos se curvaram em um pequeno sorriso, eu vi o brilho de um único dente pontiagudo e soube, sem a menor dúvida, o que aquela criatura era.
Um vampiro.











































