
Discrição: O Adormecido Noturno
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Capítulo 1
Eu sempre tive um pouco de inveja de quem já tinha a vida toda planejada. Digo isso porque eu não fazia a menor ideia do que queria fazer com a minha.
Eu tirei uma nota quase perfeita no SAT e meus pais tinham condições de me mandar para quase qualquer faculdade que eu quisesse. Mas o problema era que eu não sentia uma faísca de interesse por nada em particular.
Meu pai era um orgulhoso ex-aluno de Hargrave e agora ocupava o cargo de COO na Helix, uma famosa plataforma de streaming de música. Apesar da inclinação da minha mãe para gastar dinheiro e de seu leve problema com bebida, eles tinham um casamento bem sólido.
Meu pai costumava ser muito ausente durante a minha infância devido ao seu trabalho exigente. Talvez seja por isso que eu hesitava tanto em escolher uma carreira. Não queria acabar como ele, consumido pelo trabalho.
Minha mãe não ficou nada empolgada com meu plano, mas meu pai achou brilhante. Ele confessou que queria ter feito a mesma coisa depois do ensino médio, mas que os pais dele foram contra.
Então, duas semanas depois, eu me vi num avião para Londres, pronto para embarcar numa aventura de um mês de mochilão pela Europa.
***
Eu havia planejado uma boa parte da viagem antes de sair dos Estados Unidos, mas também deixei espaço para espontaneidade. Queria a liberdade de ficar mais tempo nos lugares que amasse e ir embora rápido dos que não gostasse.
Amsterdã acabou sendo o máximo, então estendi minha estadia por quatro dias. A próxima parada da minha lista era Roma, e imaginei que a melhor rota seria passando pela Suíça.
Meu novo amigo holandês, Sjoerd, sugeriu que eu pegasse um trem para Hanôver, na Alemanha, e de lá um trem noturno para a Basileia, na Suíça. A partir de lá, eu poderia decidir se visitaria Zurique, Genebra ou pularia ambas e iria direto para a Itália.
Tentei reservar uma cabine individual no trem noturno, mas já estavam todas ocupadas. A segunda melhor opção era uma reserva individual numa cabine dupla. Eu já tinha feito um monte de amigos novos nessa viagem, então pensei: por que não mais um?
***
Eu estava examinando o cardápio de lanches quando ele entrou. Ele era alto, de cabelo loiro quase branco e olhos azuis penetrantes. Parecia ter pouco mais de vinte anos, mas havia uma certa maturidade nele.
Seu terno tinha um caimento perfeito e parecia caro. Fiquei especialmente encantado com seus sapatos pretos da Vero.
Ele olhou para mim e se apresentou em inglês. Eu era tão obviamente americano assim?
— Roland — disse ele, estendendo a mão como se estivéssemos numa reunião de negócios.
— Ty — respondi, apertando a mão dele. A Europa estava cheia de caras bonitos, e Roland com certeza era um deles.
— Tipo *tie*, gravata em inglês? — ele perguntou, estendendo sua gravata azul-escura para explicar.
— É o apelido para Tyler — expliquei, rindo um pouco.
— Prazer em conhecê-lo, Tyler! — disse ele, ignorando o apelido que eu preferia.
Ele organizou seus pertences, tirou o paletó do terno e sentou-se com o celular na mão.
Tentei não ficar encarando enquanto ele digitava, mordendo a parte interna da bochecha.
***
Quando o serviço de lanches chegou, eu estava faminto. Pedi uma caçarola de frango e uma cerveja. Roland ou não estava com fome ou preferia um jantar líquido, assim como a minha mãe.
Ele pediu quatro minigarrafas de vinho tinto, o que lhe rendeu um olhar curioso do comissário. Roland não pareceu notar e pagou as bebidas com uma nota de duzentos euros. Notei que ele tinha um maço delas na carteira.
Afinal de contas, quem era aquele cara?
Aproveitei meu jantar tardio e fiquei ouvindo música até Roland chamar a minha atenção.
Tirei um fone de ouvido para ouvi-lo oferecer: — Aceita um pouco de vinho?
Como era mesmo o ditado? Cerveja antes do vinho?
— Claro — aceitei, pegando a garrafa com ele. Ele não tinha um copo extra, então esvaziei o meu.
— O que o traz à Alemanha? — ele perguntou, provavelmente só puxando assunto. Tenho certeza de que ele tinha notado a minha mochila enorme.
— Só fazendo a clássica viagem pela Europa — respondi, erguendo o copo num brinde.
— Entendi! — ele respondeu, assentindo. — Onde você já esteve até agora?
— Só Londres e Amsterdã — respondi. — Estou animado para conhecer Roma, mas achei melhor dar um pulo na Suíça antes.
— Você não foi a Berlim? — ele perguntou, parecendo surpreso.
— Não, não, não. Pretendo visitar na volta — garanti a ele, não querendo ofender.
Ele terminou seu copo de vinho e abriu outra minigarrafa.
— Mais um pouco? — ofereceu.
Estendi o copo, e ele serviu um quarto da garrafa para mim.
— Então, o que você faz da vida? — perguntei, tentando manter a conversa fluindo.
Seu rosto era uma obra de arte, com total simetria e uma pele impecável. Seus lábios estavam levemente franzidos, e seus olhos escaneavam os meus como se ele estivesse em busca de algo oculto.
— Trabalho com finanças — disse ele, com um tom envolto em mistério.
***
Antes que percebêssemos, o estoque de vinho do Roland havia se esgotado, e eu estava morrendo de rir de uma história que ele contava sobre sua primeira visita aos Estados Unidos.
— Droga, acabou! Volto num piscar de olhos — anunciou, ficando de pé e pegando a jaqueta.
— Deixa que eu vou — ofereci, sentindo-me culpado. — Acho que bebi metade do seu estoque.
— Sem problema, preciso dar uma caminhada — ele respondeu, com o equilíbrio levemente alterado.
Ele voltou dez minutos depois, armado com mais duas garrafas e um sorriso de orelha a orelha.
— Vamos fazer um jogo — sugeriu. — Quem perder paga a próxima rodada.
A próxima rodada?! Quanto ele achava que ainda aguentaríamos beber? Já passava da meia-noite, e eu estava lutando para manter os olhos abertos.
Mas bastou um olhar para aquele rosto lindo para saber que eu não conseguiria recusar.
— Tudo bem, qual é o jogo? — perguntei, preparando-me para algo simples.
— É muito divertido — ele garantiu, com o sotaque alemão mais pronunciado do que antes. — Eu costumava jogar com os meus amigos na L’Ecole Hotelier de Sion.
Esperei que ele elaborasse enquanto me entregava uma das garrafas.
— O jogo se chama 'Você Sabia?'. O objetivo é compartilhar um fato comprovável. Se a outra pessoa não souber daquilo, você ganha a rodada.
— Mas o que impede alguém de dizer que já sabia só para ganhar? — questionei, cético quanto à justiça da brincadeira.
— Isso não seria nada cavalheiro, não acha? — ele retrucou, franzindo a testa.
— Beleza — concordei. — Qual era a nacionalidade da Cleópatra?
— Essa é fácil. Ela era egípcia — respondeu ele, com desdém.
Ele provavelmente presumiu que eu não tinha entendido as regras do jogo, mas essa era uma pergunta de conhecimentos gerais que a maioria das pessoas errava.
— Na verdade, Cleópatra era uma Ptolomeu; nascida no Egito, mas de ascendência grega macedônia. Depois que Alexandre, o Grande, conquistou a maior parte do mundo antigo conhecido, ele morreu aos trinta e dois anos. Seu império foi dividido entre seus generais, e Ptolomeu se tornou o governante do Egito.
Roland ficou me encarando, com o interesse despertado.
— Quase três séculos depois, Cleópatra se tornou a última faraó Ptolomeu a governar o Delta do Nilo. Ao lado de Marco Antônio, ela foi derrotada por César Augusto, que posteriormente transformou o Egito num estado vassalo de Roma.
— História nunca foi o meu forte — admitiu Roland, com um dar de ombros indiferente. — Você ganhou a primeira rodada!










































