
Além da Escuridão 2: O Lobo
Author
D.P. Mendes-Kelly
Reads
99,6K
Chapters
36
O Desafio
Livro 2: O Lobo
JACK
Eles trouxeram a filmadora porque Connor queria virar uma lenda.
Não virar famoso. Não como ator ou jogador de futebol, mas conhecido. Uma história da região. Um nome que as pessoas sussurrariam por trás das mãos, passado adiante com respeito e espanto.
Connor Bishop: o garoto que filmou o lobo.
Jack não tinha certeza do que acreditava. Fantasmas, monstros, alienígenas — sua mãe dizia que eram só jeitos de explicar coisas que as pessoas nunca iam conseguir entender. Mas Connor não precisava de explicações. Ele precisava de histórias. E essa, ele tinha decidido, ia ser boa.
“A gente pode fazer cópias da fita e vender”, Connor tinha dito naquela tarde, esparramado no sofá do quarto de Jack. “Centenas de cópias. Mais! As pessoas adoram essas coisas. Lendas urbanas. Quanto mais estranho, melhor.”
Jack tinha levantado o olhar do livro. “Mas não é real, né?”
E Connor tinha sorrido. “Não importa se é real. Filme de terror também não é real, mas as pessoas adoram.”
Agora eles estavam caminhando pela trilha dos fundos de Hanford, passando pelas lixeiras atrás do King's Head e entrando na floresta além. Connor carregava a filmadora como se fosse uma arma. Jack continuava olhando por cima do ombro, se perguntando se isso contava como invasão de propriedade.
A filmadora era do pai dele. Não emprestada, mas pega da prateleira da garagem, onde estava juntando poeira desde 1983. Ainda tinha uma etiqueta “PROPRIEDADE DO GRUPO DE TEATRO JUVENIL ST JOHN'S” colada na lateral com caneta marcadora preta desbotada. A bateria mal segurava carga, e a imagem saía borrada, mas isso só fazia parecer mais real e assustador.
Nada disso importava, porém. O que importava era ser aqueles que viram. Que provaram. Que gravaram em fita.
“O chalé é amaldiçoado, sabia?” Jack disse, mais por ter algo a dizer do que porque acreditava.
Connor riu. “A casa da sua avó também é.”
“Não é só lobisomem. Dizem que tem algo errado com a terra. Tipo... a área toda ficou ruim.”
“Você andou falando com aquele cara esquisito, o Sinclair, de novo?”
Jack deu de ombros. “Ele sabe das coisas.”
Eles escalaram uma cerca que estava podre e meio caída. A floresta ficava mais densa além, as árvores se inclinando como velhas fofocando. Gelo estalava sob os pés deles. O frio tinha chegado de verdade agora. Úmido, amargo, do tipo que entrava nos ossos.
Jack enfiou as mãos fundo nos bolsos do casaco e disse a si mesmo que isso logo ia acabar. Ele olhou para Connor, que estava assobiando baixinho entre os dentes.
Jack o conhecia desde os sete anos. Houve uma briga atrás do galpão de bicicletas. Connor contra um dos gêmeos Smith, e Jack tinha sido o único que não estava torcendo. Depois, Connor tinha perguntado se ele queria matar aula de geografia e ir nadar no reservatório.
Eles eram amigos desde então.
Mas Connor estava mudando. Usava o cabelo mais comprido agora, falava sobre garotas como se fossem quebra-cabeças que ele estava perto de resolver. Tinha começado a fumar, às vezes na frente de adultos, como se não ligasse para o que ninguém pensava.
Ele ainda era o mesmo Connor, porém. Só que... mais alto. Mais confiante.
E às vezes Jack sentia como se estivesse sendo arrastado atrás de uma lancha, segurando pelas pontas dos dedos.
“Você acha que a gente vai ver alguma coisa?” Jack perguntou, tentando soar casual.
Connor não respondeu por um momento. Então: “Não sei. Não ligo. Alguma coisa vai aparecer. Não precisa ser uma criatura de verdade pra fazer as pessoas falarem.”
Connor se virou, mexendo na mochila. Ele colocou algo sobre a cabeça e se virou, o rosto coberto por uma máscara assustadora de lobo.
Ele inclinou a cabeça para o lado de um jeito engraçado. “Junte-se a nós, Jacky!” Ele rosnou e avançou em direção a Jack, rindo.
Jack se afastou, sem achar graça. “Você vai falsificar?”
Connor lhe deu um olhar de lado. “Você acha que importa?”
Jack não respondeu. Ele observou a respiração deles se enrolar no ar frio e pensou nas histórias. Um homem que criava lobos nos velhos tempos. Uma garota que desapareceu numa lua cheia e apareceu semanas depois sem memória e com marcas de arranhões nas costas. O cachorro que se recusava a chegar perto da floresta. O garoto do ano acima deles que jurou ter visto olhos observando do topo das árvores.
As pessoas diziam muitas coisas sobre o chalé.
Mas nenhuma dessas pessoas tinha entrado lá com uma câmera.
À frente, o caminho curvava, e as árvores se abriam um pouco para mostrar uma clareira. O chalé ficava no meio, meio devorado por hera e neblina. Parecia pior do que Jack lembrava. A varanda caída, as janelas tapadas com tábuas, o telhado curvado sob anos de silêncio.
“Olha só isso”, Connor disse, erguendo a filmadora como um cavaleiro erguendo uma espada. “A casa do Homem Lobo.”
Jack parou. A clareira parecia diferente. De alguma forma carregada. Silenciosa demais, como se o ar tivesse ficado mais denso. Silêncio pressionando os tímpanos dele.
“Connor, cara, talvez a gente só filme o lado de fora, né? Filma a porta, faz um som de uivo, monta tudo lá na sua casa...”
Connor já estava andando. “Vamos. Você prometeu.”
“Eu não prometi. Eu só...”
“A gente já está aqui. Não desiste agora.”
Essa era a questão. Você não queria ser aquele que recuava. Não com Connor. Ele não era cruel, exatamente, mas nunca desistia. Se você dissesse não, ele riria. Zoaria você por anos. Nunca ia deixar você esquecer.
Jack o seguiu.
Eles atravessaram a clareira. O chalé estava à frente, apenas uma forma baixa na névoa, telhado como um ombro curvado. Não fazia parte da propriedade original de Stanwick, mas uma adição posterior, talvez dos anos 1920, quando o lugar era usado para festas de caça e outras bobagens de gente rica.
Alguém tinha morado ali uma vez. Depois ninguém. Depois talvez outra pessoa. Invasores. Crianças. Talvez outra coisa.
“A porta está aberta”, Connor notou. “Que conveniente.”
“Conveniente pra gente? Ou pro predador ou pervertido à espreita?”
Ele ergueu a filmadora e começou a gravar. “Chalé Stanwick", ele disse com voz falsa de documentário. “Antes uma cabana de caça. Agora a última localização conhecida do famoso Homem Lobo de Hanford.”
Jack revirou os olhos. “Você parece o David Attenborough.”
Connor o ignorou, pisando na varanda. Ela gemeu. A porta pendia meio fora das dobradiças, mostrando uma escuridão que engolia o feixe das lanternas deles.
“Eu dedico este documentário à busca da verdade", Connor disse seriamente, erguendo a filmadora ao rosto. “E ao Jack, que infelizmente será comido primeiro. Descanse em pedaços, meu velho amigo.”
“Valeu.”
Juntos, eles entraram no chalé.
***
Lá dentro, o ar estava úmido e viciado. Uma umidade densa que não apenas grudava nas roupas, mas entrava na garganta, nos pulmões. Os feixes das lanternas ricocheteavam nas paredes descascadas e nos cantos onde o papel de parede tinha caído como pele velha.
Jack engoliu em seco. “Cheira a coisa morta.”
Connor ajustou a filmadora no ombro. “Atmosfera, cara.”
Eles passaram por um pequeno corredor onde a tinta descascava dos rodapés e entraram numa área de estar com uma poltrona meio desmoronada, uma chaleira quebrada e um jornal que tinha amarelado até a cor de dentes podres.
O motor da filmadora zumbia baixinho. Connor escaneou o cômodo, movendo-se devagar, a boca pressionada numa linha de concentração.
Jack ficou perto da porta.
Ele ainda podia sair, ir lá fora, inventar uma desculpa. Dizer que precisava mijar. Dizer que achou que viu algo. Mas os pés dele não se moviam. O chalé era assustador e nojento, mas de um jeito que te desafiava a ficar.
Connor girou a filmadora e pegou Jack no feixe. “Diz alguma coisa pros espectadores.”
Jack semicerrou os olhos. “Espectadores. A gente vai morrer aqui dentro.”
Connor riu. “Brilhante.”
Eles se moveram para o cômodo dos fundos. Parecia que alguém tinha tentado dormir ali em algum momento. Havia um colchão mofado no chão, caixas velhas de comida pra viagem, uma fileira de latas vazias de Tennent's arrumadas em linha na prateleira da lareira. Uma pintura pendia torta acima: um cachorro, possivelmente, ou um lobo. Era difícil dizer. Os olhos estavam arranhados.
Jack apontou para ela. “Isso não é nada estranho.”
Connor fez um close-up.
Eles estavam no meio da filmagem do que podia ser uma mancha de sangue no chão quando o primeiro barulho veio.
Um rangido suave.
Jack se virou. “Você ouviu isso?”
Connor abaixou a filmadora. “Provavelmente só o vento.”
Outro rangido. Mais pesado dessa vez. Mais perto.
Jack deu um passo para trás. “Cara, sem zoeira, mas...”
Connor ergueu a filmadora de novo. “Tem que filmar. Esse é o objetivo todo.”
A nuca de Jack arrepiou. Havia algo por trás do som. Não apenas movimento. Uma presença.
Algo se mexeu no andar de cima. Um baque. Seguido de arrasto.
Connor sussurrou: “Jesus.” A filmadora estava tremendo de leve nas mãos dele.
“E se alguém estiver invadindo?” Jack sibilou. “Algum velho pervertido?”
Connor não respondeu. Ele deu um passo em direção ao pé da escada.
A luz da câmera pegou o corrimão, o tapete podre, a escuridão escancarada acima.
O próximo barulho não veio de cima. Veio de trás deles.
Uma respiração. Longa. Úmida.
Jack girou. A porta dos fundos ainda estava fechada. Mas algo estava no cômodo com eles.
Algo grande.
Ele agarrou a manga de Connor. “Corre.”
Connor não discutiu.
Eles correram pelo corredor, tropeçando em tábuas quebradas. A porta bateu na parede quando explodiram para fora. Jack tropeçou no degrau da varanda, escorregou no gelo.
Atrás deles, algo se moveu.
Connor não olhou para trás. Ele apontou a filmadora por cima do ombro, respiração irregular, capturando flashes de movimento: um borrão cinza, dois pontos de luz, a sugestão de pelo, de dentes.
Então a câmera escorregou da mão de Connor.
Ela caiu com força, deslizando pela grama congelada. Parou num ângulo torto, lente ainda aberta, luz vermelha piscando.
Continuou gravando, filmagem granulada enchendo o visor.
Por um momento, apenas o vento.
Então, uma forma. Fora de foco. Membros finos. Pés descalços.
O som era estranho, cuidadoso, quase curioso. Como se o que quer que fosse não precisasse perseguir eles. Sabia que tinha tempo.
A figura se aproximou devagar, e embora a imagem se quebrasse em linhas de estática, a filmadora capturou vislumbres: braços longos balançando soltos nas laterais, ombros curvados para frente, cabeça baixa como um predador decidindo se ataca.
Um rosnado fraco. Exceto que não exatamente. Havia algo errado com o som. Regular demais. Cortado demais.
Os pés passaram pela câmera. A lente capturou garras. Não falsas, não de plástico. Curvas. Escuras. Reais.
Uma voz, rouca, ofegante. “Saaaiam...”
Então uma mão entrou no quadro. Fina, desumana, dedos longos demais. Ela alcançou a câmera.
A tela tremeu. O áudio estalou num chiado agudo. Então, um último tremor de estática.
Corte para o preto.














































