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Temperança

CAPÍTULO 3: Não Tão Humano

“Pai, acho que você realmente não está entendendo o que está acontecendo aqui.” Soltei um suspiro profundo. “Você não pode acreditar de verdade que minha loba, que eu nem tenho, está aparecendo, pode?”
Meu pai solta nosso abraço e olha para mim. Seu rosto mostra confusão. “Temperance, achei que você fosse ficar feliz.”
Minha mãe se levanta devagar e puxa meu pai para longe. Seu braço está entrelaçado no dele. Eles ficam a alguns passos de distância. Os dois me olham de um jeito que nunca vi antes.
“Eu sou humana, pai” digo, tentando deixar claro o fato que todos sabemos que não pode ser mudado. “Não tem como eu ser uma loba. Os médicos da matilha já disseram várias vezes que eu tenho o gene humano. Não o de loba.”
Antes de me terem e aos meus irmãos, meus pais tiveram dificuldade para ter filhos. Eles consultaram todos os especialistas e médicos num raio de cento e cinquenta quilômetros da matilha. Mas nada ajudou.
Meu pai diz que foi a Deusa da Lua, a Deusa dos lobos, que finalmente os ajudou a me ter.
Eles se preocupavam que eu pudesse ser a única filha deles. Então meu pai realmente esperava por um filhote de lobo.
Mas quando eu tinha dois anos, não havia sinais dos comportamentos animais que um filhote normal mostraria. Coisas como proteger seus brinquedos ou comida dos outros.
Ele parou de esperar por isso depois que meus irmãos nasceram. Eles tinham o gene de lobo.
Isso não fez com que ele me amasse menos. Mas eu sempre sentia sua tristeza quando ele olhava para mim quando eu era pequena.
Apenas uma criança humana comum. Parece que sua tristeza não passou como eu achava que tinha passado.
A raiva me invade. “Achei que você tivesse aceitado eu não ter uma loba.”
“Querida, aceitamos!” minha mãe diz com firmeza. “Seu pai só ficou empolgado demais e...”
“Você sempre diz isso!” grito. As lágrimas embaçam minha visão. “O pai nunca disse isso! Eu quero ouvir dele!”
Meu pai olha para o chão. Minha mãe está implorando para ele me confortar. Mas ele fica quieto. Meu coração dói.
“Então você nunca aceitou de verdade, aceitou?” Dou aos meus pais um sorriso frio.
Minha mãe começa a dizer algo, mas fecha os olhos. É como se ela soubesse o tempo todo.
“Gostando ou não, eu sou humana!” grito. “Essa coisa de lobo nunca se encaixou na minha vida! Eu só sigo as regras da matilha porque moro aqui!”
“Temperance...”
“Você não vai mais precisar se preocupar em ter uma humana na matilha, pai.” Faço uma pausa enquanto meu pai olha para mim. Mas continuo. “Vou me mudar assim que a cerimônia acabar.”
***
“Meu Deus, Temperance.” Talia coloca um café na minha frente e se senta ao meu lado.
Assim que disse que ia me mudar, saí correndo da minha casa direto para minha melhor amiga. O apartamento dela fica dentro do território da matilha, do outro lado da cidade. Cheguei aqui sem problemas.
Meu celular acende. A tela mostra “Mãe” em letras grandes com uma selfie nossa usando o filtro de cachorro do Snapchat. Mas deixo ir para a caixa postal — de novo.
São dez ligações perdidas dela. E duas de cada um dos meus irmãos. Mais umas trinta mensagens não lidas do meu pai.
“Você deveria pelo menos avisar que está segura.” Walker passa pela sala de jantar e dá um beijo na testa de Talia.
“Agora não, amor.” Minha melhor amiga empurra seu parceiro para fora da sala. “Não precisamos de homens agora.”
“Tal, o que eu faço?” Envolvo minhas mãos na xícara quente de café e encaro a bebida. “Meu pai tem mentido para mim a vida inteira.”
Talia solta um suspiro profundo. “Seu pai é um lobo. Então ele quer passar isso para todos os filhos dele. É natural para ele. Mas também é sobre te manter segura.”
Faço um som rude. “A matilha não vai me machucar.”
“Não é a matilha que me preocupa, Temperance.” Talia pega minha mão e me dá um olhar sério. “São os renegados — lobos machos fora da matilha. E isso é só o começo.”
“Você é uma humana num mundo de lobos. É perigoso.”
“Talia, minha mãe viveu a vida inteira em um. Não tem como eu estar em tanto perigo assim.” Argumento. “Quando eu me mudar, o mundo dos lobos vai ser só meio período.”
“Não, não vai.” Walker volta para a sala e se senta ao lado de Talia. Bem na minha frente.
“Walker, eu pedi sua opinião?” Respondo rispidamente ao lobo macho que acha que sabe tudo.
Walker e eu nunca nos demos bem. Não desde que ele e Talia se conheceram. Ele sempre foi ciumento e grudento quando estou por perto.
Talia e eu quase terminamos nossa amizade por causa das brigas constantes que isso causava entre nós três.
Enquanto minha melhor amiga tem cabelo ruivo brilhante com olhos azuis oceano e pele linda, Walker é um macho alto, musculoso e nojento — como a maioria dos machos lobos da matilha.
Seus olhos são de um marrom sujo que sempre parecem frios e maldosos. Seu cabelo loiro comprido está sempre preso num coque apertado no topo da cabeça grande. Como se estivesse tentando parecer descolado.
“Quando alguém deixa a matilha, seja humano ou lobo, é visto como um estranho.” Walker diz como se tivesse certeza. “Se você se mudar para fora do território, você vira alvo fácil para qualquer um. Dentro ou fora do mundo dos lobos.”
Talia intervém antes que eu possa responder. “O que Walker está tentando dizer é que alguém pode descobrir que você é irmã do nosso novo Alfa e te usar como alvo.”
Reviro os olhos. “Essa é a coisa mais idiota que já ouvi, Talia. Meu irmão vai liderar uma matilha pequena. Não temos inimigos.”
“Você está subestimando demais meu conhecimento do nosso território” digo. Minha voz mostra irritação. Ele ri. Sua voz soa como se ele achasse que é melhor que eu. “Nossos campos de caça e solo são os melhores para cultivo no estado.”
“Não importa quão pequena nossa matilha é. Uma matilha maior e mais forte sempre vai tentar nos machucar e pegar o que temos.”
“Walker, eu não pedi sua opinião” respondo rispidamente.
A raiva invade meu peito. Minha visão começa a ficar embaçada. Meu aperto na xícara nas minhas mãos fica mais forte até ela quebrar. O cheiro dele, um cheiro forte de homem, está mais intenso que antes.
“Temperance!” Talia corre para o meu lado. Ela pega minhas mãos enquanto o café escorre delas. “Walker, pega o kit de primeiros socorros!”
Walker revira os olhos, mas faz o que foi mandado. Eu o observo sair. Meus nervos estão à flor da pele. A vontade de despedaçá-lo fica mais forte.
“Aquele café estava muito quente!” Talia diz alto. Ela se vira para mim com o kit de primeiros socorros. “Como você pôde...”
Ela para de falar. Ela encara minhas mãos. As queimaduras que deveriam estar lá — não estão. Minhas mãos nem estão vermelhas. Estão apenas ali, perfeitamente normais.
“Que porra?” Walker volta. Ele olha para minhas mãos. “Temperance, como você não está queimada?”
Meu celular vibra de novo. Dessa vez é meu pai. Talia atende o telefone por mim enquanto fico ali, chocada.
“Temperance? Onde você está?” Ouço a voz do meu pai do outro lado. Como consigo ouvi-lo de tão longe?
“É a Talia.” Ela olha para mim. Seus olhos mostram incerteza sobre o que fazer. “Temperance está...”
“Talia, você precisa trazê-la para casa — agora” meu pai a interrompe. “Estou sentindo algo. Não é normal.”
“Mas...”
“Agora, Talia.”
A ligação cai.
Walker recua quando me levanto. Meu corpo se move sozinho. Como se algo dentro de mim estivesse guiando. Há outra presença na minha mente. Não sei o que — ou quem — é.
“Preciso ir para casa...”
“Vou pegar o carro.” Walker tira as chaves do bolso e sai correndo do apartamento.
“Temperance, está tudo bem.” Talia envolve sua jaqueta em mim e me guia em direção à porta.
A dor atravessa meus ossos e nervos.
Meu coração bate na minha garganta. A comida que comi mais cedo parece que pode voltar. Mal consigo andar enquanto os ossos dos meus pés se movem de formas estranhas sob meu peso.
“Está doendo...” Choro baixinho enquanto sou ajudada a entrar no banco de trás do Toyota cinza do Walker. Talia desliza para dentro ao meu lado enquanto Walker pisa no acelerador. Disparamos pela estrada.
Quando chegamos à minha casa, minha mãe e Talia me ajudam a sair do carro. Quase caio nos braços delas enquanto meu pai sai correndo de casa.
Minha visão fica embaçada. Meus músculos ficam pesados. Algo nas minhas costas estala. Mas estou cansada demais para reagir. Tudo que quero é dormir.
“Acho que não sou tão humana assim afinal...”
Qualquer esperança que eu tinha de ser normal, de viver uma vida humana normal, se quebra enquanto meus ossos começam a se deslocar e estalar.
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