Esta história chegará em breve à Galatea — fique ligado!
Arrisque Algo
Eu estava me esforçando ao máximo para não escorregar na calçada congelada com as botas de salto alto que Catherine me obrigou a usar, quando meu celular tocou e me fez tropeçar.
“Merda, merda, merda”, Cat sibilou e agarrou meu antebraço, me estabilizando. “Me diga quem está ligando e eu quebro o pescoço dessa pessoa.”
“Shhh”, eu sussurrei de volta e coloquei o celular no silencioso, notando brevemente o nome de Ben na tela. “Se meus pais me virem, vão descobrir que não vou dormir na sua casa.”
“O quê?” Ela tirou a franja longa e castanha do rosto. “Eu digo a eles que me mudei para o Old Joe's.”
“Sem papo. Só anda.” Fui em direção à rua, deixando minha casa para trás.
Catherine me seguiu, e nós duas conseguimos andar pelo meio da rua, onde o sal impedia o asfalto de congelar. Neve e gelo cobriam a cidade de Esterford, em Michigan.
As luzes de Natal coloridas e exageradas davam um toque de conto de fadas à cidade. Eu só conseguia sonhar em como seria ver isso de dentro de uma casa, onde não estivesse esse frio do caramba. Da última vez que chequei, fazia menos dez graus. Minha parca não era o suficiente para impedir que meus dentes batessem, especialmente quando Catherine me convenceu a usar um vestido. Véspera de Natal, ela disse, hora de ficar alegre.
A praça da cidade ganhava vida com as pessoas. Elas começavam a se reunir em frente à Igreja de St. Paul para a missa do galo, mesmo que ainda não estivesse nem perto da meia-noite. As pessoas chegavam cedo para o nascimento de Cristo e para as fofocas mais quentes.
“Não acredito que estou indo para o Old Joe's na véspera de Natal.” Puxei o capuz felpudo sobre a cabeça, me importando menos com o meu cabelo e mais com a chance de alguém me reconhecer e dedurar para os meus pais.
“Lila, nós já conversamos sobre isso.” Cat parecia muito mais firme em seus saltos, e eu desejei ter aquela confiança toda no meu equilíbrio. “Você faz tudo o que eles mandam. Caramba, você não foi a nenhuma festa comigo este ano! E eu sei que provavelmente é porque sua mãe acha que eu sou uma puta—”
“Cat”, eu resmunguei. “Isso não é verdade. E você sabe que não posso sair tanto para festas este ano. Mal estou conseguindo dormir o suficiente, especialmente agora que também entrei para a equipe de debates.”
“É, porque seus pais querem que você vá para Princeton”, ela disse. “Porque seu pai foi para Princeton.”
Eu ri. “Ok, eu já entendi. Nós saímos de casa, não saímos? Eu até menti para os meus pais. Você está orgulhosa?”
Cat ergueu sua sobrancelha bem-feita para mim. “Tem certeza de que sua mãe não tem medo de que eu transforme você numa vadiazinha?”
“Ai, meu Deus, ela não acha que você é assim.”
“Acha sim.” Cat se agarrou ao meu braço. “E ela não está totalmente errada.”
O Old Joe's apareceu no nosso campo de visão meio minuto depois.
“A Emma me mataria se soubesse que vim aqui com você”, eu disse. “E o Ben também.”
“Ele estava te ligando mais cedo, não estava? Essa é a única razão pela qual ele estaria na sua cabeça, espero.”
“Ele está na minha cabeça porque tem me ligado todos os dias nas últimas três semanas.” Parei em frente aos três degraus que levavam à entrada do Old Joe's. Um som abafado de música vinha lá de dentro.
“Sinceramente, isso só prova o meu ponto; você só estava com ele porque seus pais gostavam dele.” Cat agarrou a maçaneta. “A propósito, onde a Emma está nesta noite adorável?”
“Seu argumento é inválido porque eu terminei com ele.” Tombei a cabeça para o lado. “E a Emma está com o Timothy. Eles vão me matar se descobrirem que estou aqui.”
“Ugh.” Cat fez uma careta antes de abrir a porta do bar, e a música e a conversa ficaram mais altas. “Você tem sorte de eu ser sua amiga.”
Catherine passou pela porta de madeira com facilidade, enquanto eu tive que respirar fundo. Meu Deus, o que diabos me fez vir ao Old Joe's na véspera de Natal? Eu até menti para os meus pais, o que eu tinha certeza de que voltaria para dar merda pro meu lado mais tarde.
Eu entrei mesmo assim. As paredes de madeira do corredor que levava ao bar me engoliram em seu abraço caloroso, e o som de Johnny Cash me fez esquecer que eu estava congelando. Segui Cat até o centro do bar, onde a banda local tocava meio desafinada.
As cabines de couro enchiam a área ao redor do palco, e bancos alinhavam o balcão onde o Joe mais novo servia as bebidas. O pai dele, o atual Velho Joe, estava sentado no banco ao lado do bar, fumando um charuto e observando a situação.
O Old Joe's era o único lugar na cidade que servia bebida alcoólica para menores, porque era melhor tentar beber em casa do que em outro lugar. Além disso, o Velho Joe era um homem responsável e expulsava qualquer um que ficasse muito bêbado.
“Vem, temos uma mesa.” Catherine pegou minha mão e me puxou junto com ela.
O bar não estava lotado, mas tinha bastante gente. Todos os lugares estavam ocupados, exceto uma mesa de bar com duas banquetas. Ficava perto da cabine onde estavam as pessoas que acenaram para Cat. Meu coração errou uma batida. Eu não conhecia aquelas pessoas bem o suficiente para andar com elas.
“Ei, Cat!”, gritou uma garota ruiva com vários piercings no rosto. “Aqui!”
“Vem logo.” O aperto de Cat no meu pulso ficou mais forte.
A prima da Cat, Natalie, estava na cabine com os amigos dela. Mesmo que eles parecessem familiares, eu não conseguia me lembrar deles. Felizmente, Cat não me incomodou com apresentações. Ela se sentou no banco mais perto deles, e eu me juntei a ela no outro lado.
Enquanto ela conversava com o pessoal, eu observei o ambiente. Eu conhecia todas aquelas pessoas, de nome ou de rosto. Havia um grupo de homens de meia-idade no canto oposto a nós. Um deles era o mecânico do meu pai. Eu engoli em seco, esperando que ele não soubesse como eu era fisicamente.
Um grupo de jovens do nosso colégio ocupava a maior cabine, mais perto da banda, e eles tinham a maior quantidade de bebida. Notei as garotas mais velhas também, que se formaram há alguns anos, e o jeito como estavam sentadas, como se estar ali fosse uma obrigação. Eu as entendia. Eu estava aqui por obrigação também.
Havia algumas pessoas que eu conhecia melhor: Sophie, a líder de torcida que namorou meu irmão Kyle por um segundo; a amiga dela, cujo nome eu não conseguia lembrar de jeito nenhum; e o Stanley Maconheiro, que não parava de rir das piadas do Jake Miller.
Meu olhar se fixou na Cat. “Então, é por isso que estamos aqui.”
Ela parou de conversar com a Natalie e olhou para mim. “O quê?”
“Jake Miller? Você não cansou de correr atrás dele?”
Cat se virou totalmente para mim, com as bochechas coradas. “Fica quieta. E para responder à sua pergunta, isso vai acontecer uma hora dessas. Eu sei que vai.”
Eu ri alto. “Ele não está namorando aquela modelo que foi embora para Detroit um ano atrás?”
“Simone Parker.” Cat disse o nome dela com nojo. “Eles terminaram há um mês.”
“Bom para você.” Eu dei uma risadinha.
“Isso vai acontecer.” Cat tirou a jaqueta. “Só espera pra ver.”
“Vou deixar você aproveitar suas ilusões.” Tirei minha parca e a coloquei no encosto da cadeira, tentando não me sentir tão desconfortável nas minhas roupas.
Cat disse que eu tinha que usar um vestido, então escolhi um vermelho de renda, na altura do joelho e de mangas compridas, por causa da época de Natal.
Minha melhor amiga me avaliou. “Ah, não, você devia ter escolhido algo mais modesto”, ela disse com sarcasmo.
Eu apertei os olhos. “Como assim? Ele valoriza o meu corpo, e por acaso eu gosto de golas altas.”
“Alguém com peitos como os seus nunca deveria cobri-los.” Cat apontou para o próprio decote. “Eu estou dando o meu máximo para mostrar essas frutinhas, e você está escondendo os seus.”
Cat era bem reta, mas combinava com ela, principalmente porque os vestidos que ela usava pareceriam muito vulgares em alguém com peitos grandes.
“Eu só estou tentando arrumar alguém diferente do Ben para você.”
“Não preciso de ajuda nesse departamento, obrigada.”
“Eu duvido muito.” Cat apertou os olhos, e sua sombra dourada brilhou.
Catherine era incrivelmente sexy. Ela sabia como se portar, conhecia o jeito certo de jogar os cabelos castanhos e piscar os cílios escuros para parecer sensual, mas não muito intensa. No entanto, ela só se interessava pelos piores caras. Como o Jake Miller, a antiga estrela de futebol americano do Colégio Esterford, até ele estourar o joelho. Ele usou isso como desculpa para jogar todo o seu futuro no lixo, então ele reprovou no segundo ano. Não que ele já não fosse um babaca antes disso.
“Ei.” Cat se inclinou para frente, e sua sombra brilhante ficava muito boa contrastando com seus olhos cor de chocolate. “Me avisa se o Jake estiver me olhando.”
Eu revirei os olhos e lancei um olhar na direção de Jake por impulso. Mas acabei pegando outra pessoa olhando diretamente para mim, avaliando o meu vestido.
Cole Harrison.
Eu desviei o olhar imediatamente. E como Cat já estava no celular, peguei o meu também. Meu coração estava disparado no peito. Ele não tinha apenas dado uma olhada na minha direção; ele estava olhando para mim. Ergui os olhos de novo, e lá estavam aqueles olhos escuros outra vez. Ele deu um sorriso de lado, depois se virou para Jake e prestou atenção no que o ex-jogador de futebol americano estava lhe dizendo.
Baixei o olhar para o meu celular, mas eu estava perto o suficiente para espiá-lo por trás de uma mecha do meu cabelo loiro que caía sobre os meus olhos.
Cole Harrison parecia a encarnação de uma péssima decisão.
Vestindo jeans e uma camisa branca com as mangas arregaçadas, com algumas mechas do seu cabelo escuro penteado para trás caindo sobre os seus olhos igualmente escuros, ele era irresistivelmente sexy. Um sorriso torto brincava em seus lábios, com um charme canalha. E a barba rala cobrindo o seu maxilar marcado sugeria que ele não tinha se barbeado hoje, o que o deixava com um visual descolado sem nenhum esforço.
Eu conheci Cole Harrison há dois anos, quando chorei para a orientadora da escola por não ter trabalho voluntário o suficiente no meu currículo, e ela tentou me fazer dar aulas de química para ele.
Eu aceitei, achando que o transformaria em um aluno exemplar até o final do ano letivo. Ele me buscou na minha casa para a nossa primeira aula. Então, ele dirigiu pela cidade por vinte minutos, dizendo que tinha que pegar um negócio, antes que eu percebesse que ele estava vendendo maconha para universitários que tinham voltado para as férias de Natal.
Nem preciso dizer que me recusei a dar aulas para ele de novo. Ele se formou, então talvez tenha encontrado outra pessoa.
“E aí, ele tá olhando?”, Cat sussurrou.
“Desde quando ele anda com o Cole Harrison?” Mantive meu olhar fixo na Cat. Eu estava muito ciente da presença do Cole e com medo de acabar olhando sem querer, e ele achar que eu era uma esquisitona.
“Desde que ele começou a fumar maconha no porão do Cole.” Cat deu de ombros. “Todos os amigos dele se mudaram depois do ensino médio.”
“Não acredito que eles não estão fazendo nada com as próprias vidas”, eu murmurei.
“Ei, não seja tão preconceituosa.” Cat franziu a testa, e uma irritação real brilhou em seus olhos. “Só porque eles não foram para uma faculdade chique, não quer dizer que a vida deles seja uma merda.”
“Você sabe o que eu quis dizer.” Tombei a cabeça para o lado. “O Jake poderia ter chegado a algum lugar.”
“Lila”, Cat alertou. “Nem todo mundo tem a capacidade mental ou a vontade de estudar sem parar.”
Abri a boca, mas não era a hora nem o lugar.
“Eu devia saber que você queria vir aqui por causa do Jake”, eu disse no lugar daquilo, ainda me sentindo desconfortável no bar.
“É, e daí? Você veio pra cá porque não pode mais andar com os amigos do Ben.” Cat arqueou a sobrancelha. “Nós duas temos os nossos motivos. Vamos só curtir a noite. Pelo menos nenhuma das pessoas com quem você anda está aqui. Nós somos as intocáveis.”
O insulto disfarçado não passou despercebido por mim, mas deixei para lá esta noite. Cat e eu éramos melhores amigas desde a primeira série, quando ainda éramos cegas para as nossas diferenças.
Eu, por exemplo, era cega para a insatisfação da minha mãe cada vez que eu dizia a ela que ia sair com a Cat, e ela era cega para a riqueza que meus pais tinham comparada à dela. Nós não deixamos que isso nos destruísse, mas eu tinha medo de que isso fosse mudar uma hora ou outra.
“Que tal você ir pegar algo para a gente beber, e eu fico aqui sozinha para que talvez ele venha falar comigo?” Cat agarrou meu antebraço, e eu soltei um longo suspiro.
“Tudo bem, mas você paga a próxima rodada.” Desci da banqueta e peguei meu celular. Estava tocando de novo, mostrando o nome do Ben.
“Ai, meu Deus, me deixa atender, por favor.” Cat tentou pegar o celular, mas eu o afastei rapidamente.
“Eu não vou atender”, eu disse, com a raiva pulsando nas minhas veias. “Eu já disse umas dez vezes para ele que acabou; não vou mais falar com ele.”
“Bom para você.”
Lembrei do verdadeiro motivo pelo qual deixei a Cat me arrastar para o Old Joe's na véspera de Natal. Eu não conseguiria aguentar mais um minuto da minha mãe me enchendo o saco por ter terminado com o Ben. Ele beijava feito um peixe e falava sobre Yale o maldito tempo todo. Eu precisava ficar longe de todo mundo me dizendo como viver a minha vida.
“Vou buscar as bebidas.” Joguei o celular na minha bolsa.
Se mais alguém me ligasse esta noite, eu diria na manhã seguinte que tinha pegado no sono.