
Inimigos
Author
Violet Bloom
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Chapters
37
Prólogo
HALEY
Você já foi ensinada a odiar alguém? Você não sabia o porquê, mas desde que se lembra, mandaram você odiar essa pessoa?
Eu nunca fiz perguntas sobre isso. Não até já ter dezoito anos e ter passado a vida inteira odiando ele.
Eu me lembrava muito bem do meu primeiro dia no jardim de infância. Eu tinha acabado de fazer cinco anos. Esse era o problema de ter aniversário no verão. Eu ia ser a mais velha ou a mais nova da turma.
Snake, o filho do melhor amigo do meu pai, era três meses mais novo, e meus pais queriam a gente na mesma turma, então me colocaram no jardim de infância como uma das alunas mais velhas.
Eu sempre seria a aluna mais velha, exceto por Will. Will era três dias mais velho que eu.
Quando entrei no ônibus para a escola, sentei com Snake e Sassy, nós três apertados no banco grande. Não estávamos nervosos. Nós três tínhamos passado todos os dias das nossas vidas juntos.
A casa de Sassy ficava na outra ponta do trailer park, e a de Snake era bem ao lado da minha. Snake e eu éramos importantes no trailer park.
Meu pai era o líder da Southside Gang. Mesmo aos cinco anos, eu sabia disso. O pai de Snake era o braço direito dele.
Tínhamos atravessado o lado pobre da cidade, aquele com o trailer park, as casas caindo aos pedaços e os parques abandonados.
Assim que cruzamos os trilhos do trem, foi como se tivéssemos realmente entrado em uma cidade diferente.
As casas eram grandes e novas. Os parques eram chiques com pisos macios, tendo sido reformados para impedir que as crianças ricas se machucassem.
Na época, eu não pensava nada sobre as diferenças. Eu não tinha entendido que as coisas eram mantidas daquele jeito de propósito.
Eu estava sentada entre Sassy e Snake. Não tinha espaço para mais ninguém, mas eu tinha reparado no Will assim que ele entrou no ônibus.
Ele era barulhento, mesmo criança. Chamou atenção na hora.
Quando chegamos na escola, Sassy e eu fomos separadas de Snake. Ele foi colocado na outra turma do jardim de infância. Will estava na nossa. Eu não sabia o nome dele na época, mas logo aprendi.
Quando nossa professora, Ms. Stillwater, chamou nossos nomes, olhamos um para o outro e demos um sorrisinho antes de caminhar até a turma juntos.
“Oi” ele disse alto para mim. “Eu sou Will.”
“Eu sou Haley” eu disse a ele.
Mesmo naquela época, o sorriso dele era grande e brilhante, e eu achei ele bonitinho. Na época, eu não sabia que esses pensamentos seriam forçados a mudar.
“Haley e Will têm aniversário no verão. O de Will é dezoito de agosto, e o de Haley é vinte e um de agosto” nossa professora disse para a turma.
“Então vou dar o cartão e o presente especial de aniversário deles hoje. O resto de vocês vai receber no aniversário de vocês.”
O resto da turma reclamou, também querendo o presente especial, que era um docinho pequeno que podíamos escolher. Will comemorou alto, correndo e mostrando para todo mundo.
Quando eu tinha cinco anos, achei aquilo bonitinho. E mesmo quando ficamos mais velhos, eu ainda era de alguma forma atraída por como ele era barulhento e irritante. Mas ao longo dos anos, eu aprendi a empurrar esses sentimentos para longe porque eu tinha que odiá-lo.
Era uma regra da família.
Mas eu não sabia disso no meu primeiro dia do jardim de infância. Ms. Stillwater, que chamávamos de Ms. S, nos sentou juntos, bem na primeira fila. Quando foi hora do almoço, ele guardou um lugar para mim ao lado dele.
“Minha mãe colocou cenouras. Eu não gosto delas.” O nariz dele enrugou, e ele me ofereceu.
“Eu troco elas pelos meus tomates” eu disse a ele.
“Fechado.”
Will e eu dividimos o almoço naquele primeiro dia, trocando o que não gostávamos pela comida do outro.
Quando foi hora da sobremesa, dividimos o biscoito dele ao meio e compartilhamos uma colher para o meu pudim de chocolate.
“Sua mãe fez isso?” eu perguntei quando dei uma mordida no biscoito gostoso.
“Ela sempre faz biscoitos” ele disse.
“Está uma delícia. Minha mãe nunca faz” eu disse a ele. “Ela sempre compra na loja, mas nunca são tão bons assim.”
“Ela diz que é porque ela faz com amor.”
Amor? Eu conhecia a palavra mesmo que ninguém nunca tivesse dito isso para mim.
“Talvez você possa vir fazer com a gente algum dia” ele ofereceu. “Ela sempre me deixa lamber a massa do batedor. Mas não podemos contar pro papai. Papai diz que faz mal pra mim. Mas é a melhor parte.”
“Mães e pais são estranhos.”
Ele riu enquanto balançava a cabeça grande para cima e para baixo concordando.
Sassy tinha sentado do outro lado de mim, mas ela passou o almoço todo conversando com Snake. Isso foi antes de Snake e Sassy entenderem que deveríamos odiar Will também.
Quando voltamos para a aula, tivemos que fazer fila de dois em dois e dar as mãos com nossos parceiros. Antes que Sassy pudesse dizer que eu era parceira dela, Will pegou minha mão.
Amigos davam as mãos o tempo todo. Eu dava as mãos com Sassy e Snake o tempo todo, mas eu gostava mais de dar as mãos para Will.
Ms. S teve que continuar dizendo para Will e eu pararmos de conversar durante a aula. Quando a aula acabou naquele primeiro dia, eu sentia que Will era meu melhor amigo, assim como Sassy e Snake.
Na volta de ônibus para casa, sentei ao lado de Will, só nós dois no banco. Sassy e Snake sentaram no banco do outro lado do corredor.
Sassy sempre dizia que Snake tinha piolho, mas mesmo assim, ela sorria para ele o tempo todo.
Com o passar dos anos, ela sorriria para ele cada vez menos, e eu acabaria me sentindo boba por quanto tempo levei para entender o porquê.
Will desceu primeiro.
“Te vejo amanhã, Haley” ele disse enquanto acenava tchau para mim.
“Vou guardar um lugar pra você” eu disse a ele.
Sorri feliz o caminho todo para casa, sabendo que tinha feito minha primeira amiga que eu não conhecia a vida inteira e que não morava no trailer park comigo.
Minha mãe estava esperando a gente quando descemos do ônibus naquele primeiro dia.
“Como foi a escola?” ela perguntou.
Ela não me abraçou. Nenhum dos meus pais tinha sido muito carinhoso, mesmo quando eu era mais nova, e isso não mudou com os anos.
Minha irmãzinha, Chloe, estava no quadril dela. Ela tinha quase três anos na época.
“Fiz um amigo!” eu gritei animada.
“Você tem amigos” ela disse, soando irritada.
“Fiz um amigo novo” eu disse a ela seriamente. “O nome dele é Will.”
“Will o quê?” ela perguntou rispidamente.
Eu estava confusa sobre por que fazer um amigo deixaria ela brava.
“Will Roberts.”
“Você não pode ser amiga dele!”
O som da voz dela e o quão alto ela gritou me assustaram. Não foi até eu ser muito mais velha que ela não me assustava mais, mesmo quando usava aquele tom de voz.
“Por quê?” eu perguntei. Não quis irritá-la mais com a pergunta. Tinha sido uma pergunta de verdade. Por que eu não podia ser amiga de um menino legal?
“Ele é filho do Sheriff Roberts” ela disse. “O pai dele é o motivo do seu pai ter passado o fim de semana na cadeia.”
Aquela foi a última vez que meu pai passou algum tempo na cadeia. Quando fiquei mais velha, finalmente entenderia o porquê.
“Ah.”
Ela soltou o ar pesadamente antes de virar e se afastar de nós três. Eu tinha seguido atrás dela, minhas perninhas correndo atrás dela.
Eu queria que ela ficasse feliz comigo. As coisas eram sempre melhores quando ela estava feliz comigo.
“Tudo bem” Sassy disse. “Ainda somos suas amigas.” Ela passou a mão nas minhas costas de forma reconfortante enquanto eu me sentia triste por perder um amigo.
“Vamos ser melhores amigos para sempre” Snake disse.
No dia seguinte, mesmo tendo prometido guardar um lugar para Will no ônibus, sentei apertada com Sassy e Snake de novo.
Quando Will entrou no ônibus, com o resto das crianças do lado rico da cidade, ele sorriu brilhantemente para mim.
“Oi, Haley. Quer sentar comigo?”
Eu nem dei uma resposta a ele.
Eu era tão nova que não entendia direito o motivo da minha mãe. Tudo que eu sabia era que não queria deixá-la brava. Então, ignorei ele.
Com o passar dos anos, nos ignoramos cada vez menos e começamos a implicar um com o outro. Ele era o menino de ouro da cidade, o filho do xerife, esperado para ser o próximo xerife.
Os professores eram legais com ele porque queriam ficar do lado bom do xerife. Ele era mediano na melhor das hipóteses em esportes e escola, mas era elogiado e tratado como um deus.
Eu estava julgando ele com muita dureza baseada na forma como eu tinha que odiá-lo? Talvez.
Mas o sentimento era o mesmo dos dois lados.
Nós dois nos odiando fez com que fôssemos mandados para a diretoria mais de uma vez durante o fundamental, o ensino médio e o colegial.
Ele fazia comentários maldosos sobre meu pai ser o líder da Southside Gang, que era basicamente todo o lado sul.
Eu fazia comentários sobre ele ser um certinho cujo futuro só estava garantido por causa de quem era o pai dele.
Mas todo ano, eu lembrava do aniversário dele. Três dias antes do meu tornava difícil esquecer.
E ele não sabia, ninguém sabia, especialmente não meus pais e certamente não meus amigos, mas todo ano no aniversário dele, eu mandava um cartão de aniversário para ele.
Quando éramos mais novos, da primeira até mais ou menos a sexta série, eu levava um cartão comigo no primeiro dia de aula e colocava na mochila dele ou no armário dele.
Quando fiquei velha o suficiente para pagar, parei de fazer e comecei a comprar.
Nunca assinei meu nome, e não fazia ideia se ele sabia de quem eram, mas eu sempre me sentia sozinha no meu aniversário já que era no verão.
Achei que poderia fazer ele se sentir bem ter um cartão no dia especial dele.
No último ano do colegial, porém, algo mudou. Paramos de brincar de inimigos. Eu não tinha entendido que ainda estávamos fingindo pelos últimos treze anos.
Mas o menino que eu gostava tanto naquele primeiro dia de aula ainda estava enterrado lá em algum lugar, embaixo do exterior arrogante que eu fingia odiar.
Eu sempre achei que pessoas que diziam que havia uma linha tênue entre amor e ódio estavam falando besteira clichê. Parei de pensar isso quando entendi que, mesmo sendo clichê, era verdade.
Fiquei mais chocada que qualquer um quando ele se apaixonou por mim. Não fazia nenhum sentido. Não depois de treze anos de ódio acumulado.
Não era para ser amor.
Era para ser uma coisa de uma vez só, algo para nunca ser repetido. Era para ser um momento curto de julgamento ruim que levou a uma decisão idiota.
Aquela mesma decisão idiota não era para acontecer de novo e de novo e de novo. Era uma decisão que eu não era para querer que acontecesse de novo, uma que ele não era para querer e encorajar.
Não deveríamos contar para ninguém. Isso nos arruinaria.
Eu tinha planos, planos secretos. E nada ficaria no caminho deles, nem mesmo um homem-menino alto, de cabelo loiro e olhos azuis que eu odiava.
Mas não existia segredo guardado a menos que você fosse a única pessoa que soubesse do tal segredo.
Sexo levaria ao amor? Ódio mudaria para amor?
Mas ainda assim. A resposta para a maior pergunta mudaria nossas duas vidas e possivelmente seria o fim de uma delas.
Eu seria o amor da vida dele, ou seria a causa da pior desilusão amorosa dele?










































