
Filha do Fogo Livro 1: Ligados Pelas Chamas
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Prólogo
“LUCIUS VOLTAIRE,
Você está sendo convocado para a Montanha da Visão pelas Observadoras do Destino.
“Apresse-se e não conte a ninguém sobre esta carta.
O futuro de toda Ignolia depende disso.
Estamos esperando por sua chegada…”
SEVERINA.
Lucius
Lucius Voltaire sabia que nada de bom vinha de ser chamado para a Montanha da Visão. Mesmo assim, ele caminhou pela caverna antiga, um lugar que nenhum mago comum jamais tinha conseguido ver em sua longa existência. Ele passou os dedos com luvas pelas paredes cheias de pedras enquanto descia mais fundo na escuridão, examinando os desenhos a carvão que mostravam a história do seu mundo.
Eles mostravam na maior parte os melhores magos de Ignolia; os reis e as rainhas que lutaram contra os perigos que ameaçavam o reino, ou as grandes conquistas que os magos fizeram ao longo dos séculos. Ele reconheceu uma das imagens, um borrão preto de uma figura lutando contra um dragão pintado de vermelho. Lucius segurou o riso, pegando seu frasco e dando um grande e bom gole. Fazia muitos anos desde que Lucius era aquele tipo de mago.
Ele só estava ali agora porque as Observadoras do Destino exigiram sua presença. Ele ignorou os desenhos e continuou andando pelo cascalho solto, com o ar pesado ficando mais quente com as poucas luzes de velas que ele via aqui e ali. Um nervosismo cresceu em seu estômago ao pensar em estar na presença das lendárias irmãs. Ninguém devia brincar com aquelas três bruxas poderosas.
Os deuses deram a elas a magia de ver o futuro; no entanto, as visões delas só eram passadas para poucos escolhidos. Isso deixava Lucius muito confuso, já que ele não era um mago ativo há décadas. Ele ainda tinha seus poderes fortes dentro de si, mas eles estavam adormecidos, e desde aquele dia, ele se recusava a fazer o menor tipo de magia.
O caminho escuro dava muitas voltas até que, finalmente, Lucius a viu; uma abertura para uma grande caverna, iluminada por estranhas pedras brilhantes penduradas no teto. A câmara esculpida na pedra parecia uma sala do trono redonda, com três tronos de pedra enfileirados um ao lado do outro no topo de alguns degraus esculpidos. No centro, havia um único altar quadrado de pedra com rostos de olhos fechados cravados nas laterais.
Nos tronos, estavam sentadas as irmãs sagradas, três rostos quase iguais olhando de cima para Lucius. Elas eram de tirar o fôlego, quase divinas, e Lucius sentiu um aperto na barriga por causa daquela beleza de outro mundo. “Lucius, seja bem-vindo…” A do meio, que ele achou ser Severina, levantou-se devagar. Ela tinha cabelos brancos e sedosos que chegavam aos joelhos. A pele dela era da cor de mel escuro e os lábios eram num tom ainda mais escuro. O vestido prateado marcava bem o corpo magro e maravilhoso dela.
Embora tivesse os mesmos traços de suas irmãs, havia uma autoridade em sua voz que dizia a Lucius que ela era a líder. “Faz muito tempo que não o vemos,” ela disse, inclinando a cabeça para analisá-lo. Eles nunca tinham se encontrado, claro, mas as Observadoras do Destino podiam ver qualquer pessoa em qualquer lugar do reino. No presente, no passado ou no futuro.
Por pura educação básica, Lucius tirou seu chapéu preto e pontudo e o apertou contra o peito. Ele deu um sorriso fraco. “Bem, eu estive ocupado.” Ele olhou ao redor e notou um pedestal alto de mármore perto da bruxa da direita. Havia uma bola branca e brilhante, cheia de energia girando no topo. Era a única fonte de luz na caverna. Era algo magnífico e assustador ao mesmo tempo, como se o menor movimento pudesse fazê-la explodir.
Severina continuou: “Minhas irmãs e eu temos algo urgente para compartilhar com você.” “Se for uma missão,” disse Lucius, balançando a cabeça, “vocês sabem que existem outros magos mais jovens que são mais adequados—”
“Esta ordem não vem de nós, Lucius,” a da esquerda o interrompeu, que ele supôs ser Liegia. “Vem dos deuses…” Ao ouvir isso, Lucius ficou em completo silêncio. Aquilo não era um bom sinal. A última vez que os deuses se meteram nos assuntos dos magos, o resultado foi uma guerra de dez anos. Uma guerra na qual Lucius perdeu coisas demais. Mesmo assim, a vontade dos deuses nunca devia ser questionada.
“O que os deuses poderiam querer de mim?” ele perguntou. Severina olhou para a irmã da esquerda, Varinia, e fez que sim com a cabeça. De repente, as bruxas fecharam os olhos e começaram a cantarolar juntas, e a bola brilhante no pedestal subiu pelo ar…
Havia um toque de magia no ar, e a força era tão grande que os pelos dos braços de Lucius se arrepiaram. A esfera começou a tremer muito, balançando e brilhando cada vez mais, como se fosse explodir. Lucius levantou uma mão para proteger os olhos. Por fim, a bola parou de tremer, descendo devagar até o altar de pedra e, com um estalo muito alto, rachou ao meio, deixando apenas uma gosma branca derretida.
“Veja, Lucius,” anunciou Severina. “Sua missão.” Ali, deitado na superfície dura, estava um bebê com apenas um ou dois dias de vida, enrolado em cobertores. O choro e os gritinhos ecoavam pelas paredes da caverna, mas não eram tão altos quanto as batidas aceleradas do coração de Lucius.
Ele nem se lembrava da última vez que tinha ouvido um bebê chorar. Ele quase não ia à cidade, apenas para comprar bebida na taverna local, e duvidava que houvesse bebês por lá. Mas aquele sentimento ruim estava fundo na barriga dele e piorou quando Severina desceu os degraus e pegou a criança no colo.
A imagem de uma mulher balançando um recém-nascido trouxe memórias que Lucius não queria lembrar, então ele tentou desviar o olhar. “Lucius, minhas irmãs e eu recebemos um presente maravilhoso dos deuses,” Severina declarou, levantando a voz. “Uma Slifer!”
Essa era a última palavra que Lucius esperava ouvir. Uma Slifer?! Ele achava que isso era apenas um mito. Magos que podiam controlar um dos quatro elementos da natureza. Aquele poder sobre os elementos era algo que apenas os deuses podiam fazer…
Ele já tinha ouvido histórias sobre alguns deles andando pelo mundo há séculos. E também havia a lenda do Slifer da Terra, que tinha ajudado o Rei James de Imarnia na última guerra. “O que vocês querem que eu faça com isso?” ele perguntou, com a voz falhando um pouco.
Severina fechou a cara, chegou mais perto e mostrou a criança a ele. “Segure-a,” ela ordenou. Ele hesitou no começo, apenas porque uma parte dele não suportava a ideia de segurar outra criança, e em um momento de loucura, ele até pensou em recusar o pedido da bruxa. Mas Severina não estava perguntando, e ele sabia que não devia teimar com seres como ela.
Lucius pegou a menininha e olhou para ela. Ele nunca tinha visto nada parecido em todos os seus novecentos anos de vida neste mundo. As histórias sobre os Slifers diziam que eles eram diferentes dos magos na aparência, mas ele não tinha uma imagem clara dessas diferenças. Agora, porém, ele entendia muito bem.
A garota tinha olhos vivos e brilhantes da cor do fogo, uma mistura de dourado, vermelho e laranja, com cílios escuros. A pele dela era parda, e os poucos cabelos eram pretos na raiz, mas viravam um tom de fogo nas pontas. Ele sabia, sem a menor dúvida, que estava segurando uma Slifer de Fogo. Só de saber o que aquela coisinha poderia fazer no futuro, já era algo além da imaginação. Os Slifers não apenas controlavam os elementos. Eles eram os próprios elementos.
“Sua tarefa será criá-la. Cuidar dela. Protegê-la de qualquer mal que possa acontecer. E você fará isso até o vigésimo aniversário dela,” Severina ordenou. “O quê?!” Lucius ficou de boca aberta.
“Eu sei que isso deve ser difícil para você,” disse Severina, com compreensão. “Mas você precisa fazer isso, Lucius. Por Ignolia. Pelo seu povo. Esta criança é importante. Ela será uma guardiã, uma protetora.” “De quem?” “De Sua Alteza Real, o Rei Gabriel de Imarnia.”
Lucius piscou, espantando o choque. Ele não falava com Gabriel há anos, desde o dia em que se mudou para Vera e deixou sua vida em Imarnia para trás. A única vez que ele pisou novamente naquele reino foi no funeral do falecido Rei James, e isso já fazia quase quarenta anos. “O que ele tem a ver com tudo isso?” perguntou Lucius.
Severina trocou um olhar com as irmãs antes de responder: “A Slifer não poderá alcançar todos os seus poderes a menos que se una a ele. Ela precisará de uma fonte de magia muito forte para fortalecer a dela. Afinal, o destino dela é ser a espada e o escudo dele.” “E por se unir a ele, você quer dizer…?” Os lábios escuros da bruxa deram um leve sorriso. “Uma união física. E, para isso, ela deve permanecer intocada até atingir a maioridade e ser entregue ao rei. Confiamos que você a manterá segura até lá.”
A cabeça de Lucius estava cheia de pensamentos confusos, mas ele ainda teve coragem de perguntar: “E se eu recusar?”
“Você não pode. Foi decidido pelos deuses que você seria o guardião dela.” Havia uma firmeza na voz de Severina que mostrava que ele não poderia discutir para escapar disso.
“Relaxe, Lucius,” disse Liegia, enrolando uma mecha de cabelo prateado com um dedo. “Não é como se você fosse o único a receber essa tarefa. Nós já entregamos outros três Slifers para seus devidos protetores.”
Lucius quase recuou de susto. Mais três?! O que diabos os deuses estavam tramando?
Apesar da firmeza das irmãs, ele perguntou: “Por que eu?”
Ele já tinha sido um mago brilhante. Mas agora passava os dias afundado na tristeza e na bebida. As irmãs com certeza sabiam disso, e ele tinha certeza de que qualquer outro mago se sentiria honrado com a chance de criar uma Slifer.
Mas para ele? Era apenas mais um peso para carregar.
“Porque você é forte o bastante para protegê-la,” respondeu Severina.
“Mas eu não sou o único…”
“Verdade,” ela sorriu. “Mas você é o único que precisa disso.”
Lucius olhou mais uma vez para a criança. Naquele momento, ele prometeu a si mesmo que faria o que os deuses mandaram, mas que não se apegaria. Ele daria a ela tudo o que fosse necessário e, quando chegasse a hora, a entregaria ao rei.
Ela seria sua aprendiz e nada mais.
Ele pensou em um nome para ela, e um nome gritou alto em sua mente. O nome exigia ser usado, deixando-o na dúvida se aquilo era alguma piada de mau gosto dos deuses. Contudo, ele tinha que admitir que combinava com ela.
Lydia.
^***^
E assim, ano após ano, Lucius continuou cuidando da criança. Fiel à sua própria vontade, ele manteve distância. Ele escondeu o próprio coração em um canto escuro e empoeirado, onde ela não pudesse alcançar.
Chegou um dia em que ele contou a ela sobre o seu destino com o rei e, como esperado, a garota deu um pequeno chilique e o encheu de perguntas para as quais ele não tinha respostas.
Ele manteve uma verdade em segredo.
A verdade de que ela precisava da magia do rei para tornar a dela completamente inteira. E quanto a isso, Lucius não sabia por que simplesmente não contava a ela.
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