
Os Rejeitados
Author
Ruth Robinson
Reads
1,2M
Chapters
44
Capítulo 1
Livro 1: O Colega de Quarto
SAM
A campainha continua tocando e me tira do transe de ficar encarando a tela do computador. Já faz quatro horas que estou olhando para ela. Estou esperando ter uma ideia do que escrever para o trabalho da faculdade.
“Tá bom, tá bom! Droga.”
Minha voz já é naturalmente grave. Agora está ainda mais rouca por causa do café e dos cigarros que consumi enquanto ficava sentado na frente do meu notebook Acer. Olho com raiva para a pessoa que agora está batendo uma musiquinha do outro lado da minha porta.
“O quê!”
Minha voz irritada faz a garotinha fofa congelar. Ela está parada na minha porta. A mão ainda está no ar, pronta para bater. Os olhos dela são de um azul claro. Parecem olhos de cervo. Ela tem cílios grossos e algum tipo de sombra brilhante. Os lábios carnudos estão abertos de surpresa. Ela me olha de cima a baixo.
Tenho um metro e noventa e três de altura. Sou bem mais alto que ela. Tenho cabelo comprido, cara de bravo e estou vestindo roupas totalmente pretas. Acho que pareço assustador.
“Hum...” A garota balança a cabeça. Está tentando pensar com clareza. Eu me esforço para fazer minha cara parecer menos assustadora, mas não consigo. “Você estava, hum, procurando um colega de quarto?”
Vejo que ela está segurando o anúncio que coloquei no jornal da faculdade.
“Eu também coloquei meu número de telefone ali” digo com voz irritada “para que as pessoas não aparecessem do nada. E como você descobriu o endereço?”
O rosto dela fica vermelho por causa do meu olhar irritado. “Já te vi no campus. Vi seu nome no anúncio. Não foi difícil encontrar alguém que soubesse onde você morava.”
Ela ergue os ombros. Me dá um sorriso tímido. “E também, quando tentei ligar para o número, caiu na caixa postal. Eu realmente preciso de um lugar para ficar, tipo, amanhã.” Ela ri um pouco.
Tiro meu celular do bolso de trás. Olho para ele. A droga está sem bateria. Acho que esqueci de carregar nos últimos dias. Não tem muita gente que me liga ou manda mensagem, então nem percebi.
“Que droga” digo com um suspiro cansado. Me afasto da porta. “Vou te mostrar o lugar.”
“Ótimo!” Ela se levanta na ponta dos pés e bate palminhas. Reviro os olhos enquanto me viro. Odeio esse jeito falsamente animado que as garotas têm hoje em dia. “A casa é tão linda.”
Tento conter o som que sai do meu peito. A casa é igual a todas as outras casas desta rua. É uma casa de um andar só. Foi construída há muito tempo. Tem paredes externas cor de laranja-avermelhado e uma grande parte de pedra onde fica a chaminé na parede da frente.
Acho que as roseiras que meu irmão plantou ao lado do caminho fazem ela parecer um pouco diferente das casas dos vizinhos.
“Cozinha. Sala. Este seria seu quarto. Banheiro compartilhado.”
Aponto para todos os cômodos enquanto a levo pela casa rapidamente. Ignoro seus sons animados. “Você pode colocar o que quiser no seu quarto para deixar bonito. Tem duas prateleiras vazias para você no armário do banheiro. Tem dois armários na cozinha para suas coisas.”
“Então, o quarto é meu?! Meu Deus! Isso é tão incrível!”
Ela gira no meio do quarto vazio. Os olhos parecem que vão saltar da cabeça de tão arregalados. “Achei que ia precisar responder perguntas ou algo assim.”
Balanço a cabeça. Olho para ela com cara de bravo de novo. Se mais gente tivesse respondido ao anúncio, talvez eu tivesse feito perguntas e tal. Mas ela foi a única pessoa que respondeu. Eu só não quero mais ter que pensar no problema de pagar todo o aluguel sozinho.
“Só preciso do primeiro e último mês de aluguel como depósito.”
“Ok, sim, sem problema!” Ela sorri para mim. “Tudo bem se eu trouxer minhas coisas hoje à noite?”
Dou de ombros. Realmente não me importo. Quero voltar para o meu computador.
“Ah, e a propósito, meu nome é Elizabeth. Ou Liz. Ou Lizzy. Ou Beth.”
Ela ri. Estende a mão. Fico olhando por um segundo. Depois seguro com um aperto firme.
“Sam.”
Ela ri de novo. Começo a pensar se é um hábito irritante. Me pergunto se realmente consigo morar com alguém que faz um som tão irritante depois de cada frase que diz. “Eu já sabia disso, bobinho!”
“Do anúncio, é.” Fico ainda mais irritado. Idiota.
“Bem, sim, mas como eu disse, também já te vi pelo campus. Quer dizer, olha para você, você é meio difícil de não notar!”
“Mm-hmm.”
Já estou de saco cheio dessa conversa. Começo a voltar para a sala. Meu notebook e minhas anotações estão espalhados pelo sofá grande que ocupa a maior parte do cômodo pequeno. Lembro quando chego na porta que não tinha dado uma chave para ela. Me viro.
“Omph!” O corpinho dela bate no meu peito e ricocheteia. Ela cai de bunda. Com força. O barulho alto do tombo me faz sentir um pouco mal. Vejo lágrimas surgirem nos olhos dela.
“Droga! Nem ouvi você.” Estendo a mão para ela. Ela aceita com um sorriso que parece que vai chorar.
“Meu pai sempre dizia que eu seria uma ótima ladra. Leve nos pés.” Ela ergue os ombros como se estivesse pedindo desculpas.
“Talvez a gente coloque um sininho em você.” A risada alta dela me faz sentir mal de novo. Mas fico um pouco aliviado que as lágrimas parecem ter ido embora. “Tá bem?”
“Sim.” Ela revira os olhos com um sorriso de deboche de si mesma. “Vou ficar bem. Tenho bastante amortecimento aí atrás mesmo!” Ela bufa enquanto bate na própria bunda. “Bom, acho que vou buscar minhas coisas!”
***
Olho para o horário no canto inferior do meu notebook. Fico um pouco chocado quando vejo que é uma da manhã.
Passo a mão pelo rosto. Bocejo de cansaço. Tento alongar o ponto tenso no meu pescoço. Olho para a parte inicial que finalmente consegui escrever.
Quinhentas palavras prontas. Só faltam mais dez mil palavras.
Ouvi Elizabeth indo e vindo a noite toda. A voz animada e a música animada dela circularam pela casa até algumas horas atrás.
Enquanto estou fechando a casa e me preparando para ir dormir, ouço um estrondo vindo do banheiro. Depois ouço uns palavrões bem femininos.







































