
Bilhetes de Ódio
Author
Zainab Sambo
Reads
664K
Chapters
48
Capítulo 1
IRIS
Hortênsias precisam de muito cuidado.
Água demais? Ficam tristes. Água de menos? Morrem. Hoje elas fazem barulho contra minha mão como se quisessem reclamar. Abro uma rosa com o polegar e finjo que é a única coisa na minha vida que precisa ser consertada.
A sineta acima da porta da Davis Florals toca. Faz um som para me avisar que tem um novo cliente.
“Já vou te atender” eu digo. Continuo trabalhando. Tem um jeito certo de montar um arranjo baixo: flores viradas para fora, peso equilibrado, nada se destacando demais. Queria que essa habilidade funcionasse com pessoas também.
Passos. O cheiro doce de uma garota que acha que Bath & Body Works a torna especial.
“Vim buscar minha amostra. Para minha festa de noivado” ela diz com voz animada. O celular já está na mão dela. A câmera aponta para mim como se eu fosse um bicho no zoológico. O moletom dela diz NOIVA no peito. Sem disfarçar.
“Mesa dos fundos” eu digo, apontando para trás de mim. “Não mexe. Devolve do mesmo jeito que encontrou, ou eu quebro seus dedos e te faço pagar por isso.”
Ela ri como se eu fosse engraçada e vai embora. Termino o buquê. Está lindo. Lindo demais para o mundo em que vivemos. Limpo o balcão e pego meu celular para entrar em contato com o cliente.
Quatorze notificações aparecem como uma fileira de dançarinas.
X: nove notificações.
Instagram: três.
Mensagens: Mãe, Mãe, Mãe, Jason, Kelly.
Meu estômago dá um pequeno salto preocupado que não tem nada a ver com café.
Abro o X. Porque sou idiota.
O primeiro post é um print.
As palavras parecem familiares e fazem meu sangue gelar.
Eu odeio que você estraga cada ambiente que entra. Eu odeio que você respira como se o ar pertencesse só a você. Eu odeio que ainda procuro por você quando vai embora.
Minha letra. Meus bilhetes de ódio. De... não sei. Cinco anos atrás? Dez? Tanto faz. É minha. Era minha. Agora não é mais.
QUE PORRA?
Rolo a tela.
Post atrás de post. Prints. Bordas cortadas. Cem versões dos meus piores pensamentos com minha pior honestidade na minha pior letra.
Eu odeio que minha mãe diz seu nome como uma oração.
Eu odeio que você controla a gravidade na minha casa.
Eu odeio que meu corpo sabe o que sua voz significa.
Minha boca fica seca. Minhas palmas ficam molhadas. O ambiente gira, e me seguro firme no balcão. Meus dedos ficam brancos na beirada.
“Hum” a Garota Noiva diz. O rosto dela brilha branco-azulado pela luz do celular. “Isso é você?”
Olho para cima. Ela está segurando o celular. O post no topo é minha frase sob as hashtags em alta #BilhetesdeOdioHistoriadeAmor e #IrisDavis. Tem uma foto embaixo dele de Jesse Ellison. Ele está coberto de suor em algum túnel de estádio. Está sorrindo como se o mundo fosse um placar e ele estivesse ganhando.
Um som sai da minha garganta que pode ser uma risada e pode ser um engasgo. “Não” eu digo. “É a outra Iris. A que escreve com Y.”
Ela não entende sarcasmo. Nenhuma delas entende.
Ela se afasta do balcão como se eu tivesse começado a falar em aramaico. “Eu deveria... voltar depois? Meu noivo, ele ama o Jesse. Postamos seu mood board mais cedo, e agora todo mundo está... tipo... comentando. Talvez a gente devesse, tipo, esperar até isso se acalmar.”
“É” eu digo, “volta quando o inferno congelar. Vou estar aqui fazendo arranjos de centro de mesa para pinguins.”
A sineta acima da porta toca quando ela sai correndo. O arranjo fica esquecido, ali parado como uma piada.
Minhas mãos tremem. Abro o Instagram. Minha conta comercial tem uma pilha de DMs que parece uma pinhata que explodiu.
Noivas cancelando. Uma mãe da noiva me dizendo que ela “não pode em sã consciência contratar alguém tão negativa numa época de alegria”. Uma colega de quarto da faculdade com quem não falava desde o primeiro ano perguntando se estou “bem, amor”, como se ela não tivesse roubado minhas moedas da lavanderia em 2013.
Me forço e mudo para minhas mensagens.
Mãe
Precisamos conversar. Hoje à noite. 18h. Não se atrase.
Mãe
Por favor me diz que você não escreveu aquilo.
Antes que eu possa responder, outra mensagem ilumina meu celular.
Jason
KKKKKK você surtou. A mãe tá andando de um lado pro outro como se isso fosse ajudar. Ah, e o Jesse ligou.
Minha pele fica tensa. “Claro que ligou” digo para a loja vazia, porque falar com minha própria desgraça é aparentemente o que sei fazer de melhor.
Volto para o X e rolo a tela, porque sou idiota duas vezes.
Um cara qualquer: “Quem é ESSA garota e por que ela tá metendo o pau no meu quarterback? #BilhetesdeOdioHistoriadeAmor”. GIF de uma lixeira pegando fogo.
Um blog de esportes: “Mulher misteriosa escreve cartas de ódio para Jesse Ellison por uma década. Vamos shippar?”
Uma garota com verificado: “Todas nós já escrevemos rascunhos bagunçados sobre ex. Só não tivemos o péssimo julgamento de acumular eles como um rato de porão”.
Minhas mãos ficam mais frias. Meu rosto fica quente. Digito “fechar” na caixa registradora, porque não consigo lidar com pessoas, e minha loja não merece me ver desmoronar.
A sineta toca antes que eu possa virar a placa. Um cara de colete de fleece enfia a cabeça para dentro. Ele olha em volta com olhos brilhantes e um sorriso pronto para câmera. “Iris Davis?”
“Fechado” eu digo. “Para sempre.”
Ele ignora como homens fazem. “Sou do” ele diz o nome de um site de esportes com a confiança de um homem com podcast. “Queremos ouvir seu lado...”
“Meu lado” repito. “Dos meus bilhetes privados que alguém transformou em trending topic?”
Ele se anima. “Então, são suas.”
Olho para ele tempo suficiente para fazê-lo suar. “Sai. Daqui.”
Ele volta pela porta. O celular na minha mão vibra como uma colmeia.
Um vídeo de Instagram Live aparece. Jesse. A legenda: falando sobre isso.
Não deveria tocar. Mas toco mesmo assim.
Tem bloco de concreto atrás dele, e ele está iluminado por luzes fluorescentes fortes. Está úmido e corado e estupidamente lindo do jeito que pessoas que são pagas para serem deuses são. Os comentários voam como confete.
@mulherdejogador83: Fala o nome dela, rei.
@garotadoellison: Vou escrever bilhetes de amor sem ódio, senhor.
A boca dele se curva, como se ele estivesse lendo e não ao mesmo tempo. “Gente” ele diz, voz baixa, divertida. “Vocês ficaram criativos hoje.”
Meu Deus, a voz dele. Não mudou. É um gatilho, e eu odeio que meu corpo conhece a segurança dela de cor.
Ele continua: “Não tenho muito a dizer sobre poesia.” Piscada. “Respeito uma mulher que consegue escrever uma frase completa.”
A seção de comentários perde a cabeça. A nuca esquenta como se eu estivesse sob holofotes. Não estou. Estou sob a mesma lâmpada cansada que coloquei mês passado com uma escada que queria me matar.
Jesse olha para fora da tela. “Vou estar na cidade amanhã” ele diz para alguém que não conseguimos ver, então lembra que tem uma câmera nele e acrescenta para o feed: “Tempo em família. Mantenham-se hidratados.”
Encerro o vídeo. Meu coração está batendo rápido, e essa loja parece pequena, e alguém acabou de arruinar tudo.
A sineta toca de novo. Dessa vez é realmente um cliente que conheço, Sr. Han do caminhão de hortaliças. As sobrancelhas dele se franzem quando vê meu rosto. Ele coloca dois tomates feios no balcão como um presente. “Você parece que precisa de julho.”
“Preciso de um coma” eu digo. “E uma máquina do tempo. E uma personalidade diferente.”
Ele acena, coloca uma mão sobre a minha por exatamente um segundo, do jeito que homens velhos fazem quando querem te dar coragem sem fazer disso uma coisa grande. “Tomates” ele diz, e vai embora.
Tranco a porta atrás dele e viro a placa. Todo mundo na internet viu meu interior, e eu acabei de virar um pedaço de plástico como se isso importasse.
Vou para os fundos da loja, para a mesa velha no canto. A gaveta emperra. Sempre emperra. A madeira inchou na primavera passada, e não lixei porque gosto de dor que posso controlar.
Dentro: elásticos, um estilete, recibos que cheiram a poeira, papel de impressora barato. Minha letra em pilhas. Minha espinha numa prateleira.
Por um segundo, acho que vou colocar fogo na gaveta inteira e chamar de sagrado. Mas não sou tão dramática. Puxo uma folha. Minhas mãos estão tremendo, e sento no banco como se estivesse fazendo uma prova para a qual não estudei.
Querido…
Bufo. Certo. Não querido. Não mais.
Babaca é mais próximo. Querido Atleta Profissional Manipulador Que Deveria Engasgar é longo demais.
Pressiono a caneta até meus dedos doerem.
Eu odeio que você me tornou interessante para pessoas que odeiam ler.
Eu odeio que ainda sei como é sua boca quando está mentindo.
Minha mão empurra as letras mais juntas. Tinta borra onde meus dedos tremem.
Meu celular vibra no balcão. Grupo da família explodindo.
Mãe
Você ligou pro Jesse?
Mãe
Iris.
Mãe
Iris.
Jason
NÃO leva uma faca.
Kelly
Leva uma faca se precisar. Vou esconder quando sua mãe entrar.
Mãe
Kelly.
Solto uma risada que vira um som na garganta. Lágrimas ardem, e pisco forte o suficiente para doer.
Outra mensagem. Número desconhecido. Não deveria tocar. Toco.
Desconhecido
Você tá bem
Sem pontuação. Sem nome. Como se meu corpo precisasse de assinatura.
Deleto. Minhas mãos não param de tremer.
Entro no banheiro minúsculo e jogo água no rosto. O espelho é cruel e honesto. Meus olhos estão vermelhos. Minha boca é uma linha. Pareço o tipo de mulher que a internet adora odiar até precisarem dela para vender suas velas.
Pego minhas chaves. Bolsa. Orgulho. O que sobrou dele.
Lá fora, o mundo está brilhante demais para meu humor. Dois adolescentes passam de bicicleta. Os rostos deles estão iluminados com fofoca. “É ela” um diz, nem sequer sussurrando. “A garota que odeia o Jesse.”
Meu carro parece uma jangada. Sento no banco do motorista e coloco a testa no volante, porque hoje pode ir à merda.
Meu celular vibra de novo. Vou jogar ele no trânsito.
Notificação do X. Trending.
Não deveria olhar. Não consigo não olhar.
A tela ilumina com uma caixa branca e uma mentira: Trending Topics: #1 - BILHETES DE ÓDIO DE IRIS DAVIS.
Meu nome.
Número um.
Mundial.
Como se eu tivesse feito algo digno de aplausos e não isso.
Minha garganta aperta em volta de algo feio e afiado. Tiro print, porque meu cérebro é doente, aparentemente. O pequeno som de câmera clica, e soa como um prego num caixão.
Mando uma única palavra para o grupo da família porque sou covarde, e porque se não disser algo, minha mãe vai explodir meu prédio.
Iris
Indo.
O celular vibra mais uma vez, como se tivesse mais alguma coisa para tirar.
Desconhecido
Te vejo já já
Sem pontuação. Sem nome.
Como uma moeda caindo no fundo da minha garganta.
Coloco o carro em movimento e saio mesmo assim, porque a única saída é atravessar, e porque se eu ficar aqui sentada muito mais tempo, vou acabar numa livestream chorando num Honda, e não acordei hoje de manhã para virar meme.
Os tomates rolam no banco do passageiro como uma piada sobre julho. Seguro o volante e olho direto para frente e não checo os retrovisores, porque não quero ver se já tenho alguém me seguindo.
O mundo inteiro está olhando para mim, e não sei o que vou fazer quando entrar na cozinha da minha mãe e encontrar ele sentado na mesa dela como se pertencesse ali.
Spoiler: Posso colocar fogo nas hortênsias.








































