
O Pastor das Filhas
Author
Jeannie Sharpe
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Chapters
46
Antes de Corey conhecê-lo, as meninas conheceram Luke
Camden, Maine
“A gente tem que ir para a igreja?” A voz de Hailey soou irritada. Ela cruzou os braços, parando cara a cara com a mãe.
Corey suspirou ao se virar, fechando o zíper da jaquetinha rosa de Sarah Anne. “Acho que vai ser bom para vocês. Faz um tempo que não vão.”
“Não para mim”, Hailey resmungou. “Eu fui à igreja com a Grace na semana passada.”
Corey ignorou o tom de voz dela. “Sarah Anne, onde estão seus sapatos?”
“Desculpa, mamãe.” Sarah Anne desapareceu.
Corey foi ajudar, e Hailey a seguiu pelo corredor. Corey parou na porta do quarto. Os sapatos de Sarah Anne estavam trocados nos pés, e ela estava sentada na beirada da cama, segurando sua Bíblia com força, com os olhos cheios de lágrimas.
“Eu amo Jesus, mas não quero ir sem você, mamãe.”
O coração de Corey apertou. Ela se ajoelhou, tirando o cabelo do rosto molhado da filha. “Querida, você vai aprender muitas coisas. Você pode voltar para casa e me contar tudo, está bem?”
Os lábios de Sarah Anne tremeram. “Por favor, mamãe. Vai com a gente.”
“Talvez um dia”, Corey sussurrou, forçando um sorriso. “Mas não hoje.”
Ela se levantou, tentando parecer firme em vez de destruída. Destruída? É, aquele pastor do outro lado da cidade destruiu o meu espírito.
“Vamos, meninas, a escola dominical começa em vinte minutos.”
Elas dirigiram os dois quarteirões até a Igreja Batista de Camden em silêncio, apenas com o zumbido dos pneus preenchendo o espaço entre elas. Quando Corey estacionou, Sarah Anne começou a chorar de novo.
“Lembrem-se, eu vou trabalhar na lanchonete hoje de manhã. Devo terminar e voltar para buscar vocês assim que a igreja acabar, então fiquem de olho. Não vou me atrasar.”
“Tá bom, mamãe”, Hailey disse enquanto abria a porta do carro e descia, puxando a irmã pela mão. “Não seja um bebê chorão, Sarah Anne.” Ela se virou para limpar o rosto da irmã com a manga da blusa. “A mamãe não quer ir.” Ela bateu a porta do carro. “Tchau, mamãe.”
Corey ficou olhando as duas até chegarem à grande entrada da igreja.
“Eu queria que a mamãe viesse”, Sarah Anne fungou.
“Ela não quis. Esquece isso.” Hailey a puxou para dentro.
Corey piscou para segurar as próprias lágrimas enquanto dirigia até a lanchonete. Eu queria que as coisas fossem diferentes, Sarah Anne.
Assim que ela estacionou, seu celular vibrou. Scott Freeman, seu senhorio, por enquanto.
Scott
Seu aluguel está atrasado. Se você não quitar o aluguel do mês passado e o deste mês até amanhã, não terei outra escolha a não ser despejar você.
Scott
Suas coisas estarão na rua assim que você sair para o trabalho.
As palavras doeram como um soco. Seu coração apertou, e o celular escorregou da sua mão, caindo no banco ao lado.
Não posso perder outra casa. Não de novo.
Ela estacionou em uma rua lateral perto da lanchonete e escondeu o rosto nas mãos. Deus, eu preciso de um milagre.
***
O sol da manhã entrava pelos altos vitrais da Igreja Batista de Camden, banhando os bancos com faixas de luz vermelha e dourada. Luke Anderson estava perto das portas dos fundos. Sendo muito mais alto que a maior parte da congregação, ele esperava a próxima onda de famílias sair da escola dominical.
Com quase um metro e noventa de altura, cabelos loiro-escuros e um maxilar quadrado que poderia ser de um astro de cinema, Luke se acostumou com a atenção que recebia. As mulheres reparavam nele. Os homens reparavam nele. Mas a verdade era que ele preferia ser invisível. Ser bonito era legal, e útil às vezes, mas o caráter importava mais.
Ele era o pastor principal da igreja, mas ultimamente vinha questionando toda a ideia da religião, depois de ver muitos rostos perfeitos escondendo segredos demais. Mesmo assim, ele vinha semana após semana, pregando a palavra de Deus para ajudar aqueles que estavam com o espírito machucado.
As crianças saíram de suas salas em uma agitação barulhenta de risadas e conversas enquanto iam para o culto infantil. Foi quando ele as viu: duas meninas afastadas da multidão, uma segurando a mão da outra no fim do corredor.
A mais velha, talvez com doze anos, era alta e de olhos brilhantes. Parecia ter muita atitude e ser bem protetora com a irmã mais nova, já que eram muito parecidas. A menina mais nova não devia ter mais de seis ou sete anos. Ela estava com o rosto manchado de lágrimas e se agarrava à irmã.
Luke se agachou na frente delas, com uma voz suave. “Olá. É a primeira vez de vocês com a gente? Gostaram da aula da escola dominical?”
A menininha passou as mãos nas bochechas. “Gostei. Eu aprendi sobre Jonas e o grande peixe.”
“Os pais de vocês já estão no salão principal?”
Ela balançou a cabeça negativamente. “Não, senhor. Nós não temos mais papai. Ele morreu.”
Luke ficou espantado. “Nossa... Eu sinto muito.”
Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, a irmã mais velha o encarou rapidamente. “Minha irmã está enganada. O nosso pai não está morto. Nossa mãe e nosso pai são divorciados, e nós moramos com a nossa mãe.”
Luke concordou devagar, surpreso com a maturidade dela. “Obrigado por me contar.” Ele abriu um sorriso leve e acolhedor. “Parece que a mãe de vocês está fazendo um bom trabalho. Vocês duas parecem ser mocinhas muito fortes. O meu nome é Luke, e o de vocês?”
“Eu sou a Hailey, e esta é minha irmã, Sarah Anne.” Ela esticou o braço para apertar a mão dele e deu um sorriso tímido.
Sarah Anne apertou a mão da irmã e virou o corpo na direção dela, escondendo o rosto.
“Bem”, Luke disse, ficando de pé novamente, “vocês são sempre bem-vindas aqui. E se precisarem de alguma coisa, ou quiserem um segundo biscoito antes do culto, é só me procurar.”
Isso arrancou uma risadinha de Sarah Anne.
“Eu dou aula para a turma de seis anos, mas não pude estar lá hoje.”
“Eu tenho seis anos.” Sarah Anne sorriu para ele.
“Olha só que coincidência. Então, você vai estar na minha turma no próximo domingo?”
Elas começaram a sair. “Até lá.”
“Acho que a gente vai voltar. A nossa mamãe quer que a gente venha agora.” Sarah Anne acenou para ele.
Luke observou enquanto elas subiam os poucos degraus apressadas para o culto infantil. Hailey virou de repente. “Pastor Luke, quem tem doze anos vai para o salão principal?”
“Sim. Quer que eu espere você?”
“Não. Não vai ser necessário. Eu vou entrar e posso sentar com alguns amigos. Mesmo assim, obrigada.”
Ela é tão educada. Muito impressionante.
Mas algo mexeu com ele bem lá no fundo. Ele não conseguia afastar a sensação de que aquelas duas carregavam um peso muito maior do que seus ombros deviam suportar. E, por algum motivo desconhecido, ele queria saber mais.
Enquanto as pessoas seguiam para o salão principal, Luke continuou perto das portas de vidro, cumprimentando as últimas famílias que chegavam. Quando o culto começou, os primeiros acordes do coral ecoaram pelas vigas do teto. Os louvores eram majestosos, e a banda acompanhava as vozes perfeitamente.
***
O clima estava pesado e cinzento enquanto ela caminhava rápido para a porta da lanchonete. Era um daqueles domingos com cara de chuva.
A lanchonete do Herb estava agitada com o zumbido baixo da televisão e o barulho dos talheres. O cheiro de café e bacon a envolveu assim que ela começou seu turno. Ela serviu café, limpou os pratos e sorriu para todos os clientes. Na hora de fechar, seus pés doíam, mas o bolso estava cheio: cento e noventa e oito dólares.
Quando ela e os outros estavam batendo o ponto de saída, ela se ofereceu para levar o lixo. “Eu faço isso”, ela disse para Vicki e Rob. “Vocês dois podem ir.”
“Você foi ótima”, Rob garantiu a ela. “Deveria trabalhar mais aos domingos.”
“As gorjetas foram ótimas. Bem melhores que o normal.” Ela pegou o avental. “Eu até poderia, já que as minhas meninas estão indo para a igreja agora.”
Eu preciso ir buscá-las.
Rob riu. “Você não precisa ir à igreja com elas?”
“Eu não posso.” Ela pegou os sacos pesados, empurrou a porta dos fundos e saiu para o beco. A porta se trancou atrás dela.
Pingos de chuva bateram no seu rosto enquanto ela caminhava com dificuldade até a lixeira. O chão estava muito escorregadio e cheio de lama ali atrás. Ela escorregou ao jogar um saco na caçamba, depois o outro. Ao se virar para ir embora, notou um envelope pardo, meio encharcado e sujo, preso contra a roda da caçamba.
Ela franziu a testa. “Mas o que é isso...”
Tinha uma lama velha e seca em cima e era estranhamente pesado quando ela o pegou. Com as mãos trêmulas, ela abriu a aba e congelou.
O quê?
Pilhas de dinheiro começaram a cair no chão quando o papel rasgou. Seu pulso começou a acelerar, e sua garganta secou enquanto ela pegava os dois maços de dinheiro amarrados e os enfiava na bolsa. Ela olhou em volta. O beco estava vazio e o estacionamento estava quieto. Ela rapidamente enfiou o envelope até a metade da bolsa e saiu correndo para a sua caminhonete Tahoe.
Ela deu uma olhada no estacionamento; não havia ninguém à vista. Ela ligou o motor, engatou a marcha à ré, saiu da vaga e entrou devagar na rua. Enquanto dirigia, seus olhos não paravam de se voltar para o envelope meio escondido em sua bolsa. Em um semáforo, ela pegou a ponta do envelope.
Havia algo fraco escrito na borda inferior. Ela esfregou a lama seca com a unha até que as letras formaram devagar a palavra Missões.
Seu peito apertou. Ai, meu Deus... O que é isso?







































