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Nascida Humana

Licano Puro

Kiara olhou para o seu rosto no espelho e para os seus cansados olhos castanhos escuros. Seu cabelo ruivo e comprido estava bagunçado. Ela suspirou.
Ao ouvir o barulho da corrente ao redor de seu tornozelo, ela caminhou de volta para a sua cama. Fazia uma semana que ela tinha sido maltratada pelo Dominic, e ela finalmente se sentia ela mesma de novo.
Bem, ela se sentia ela mesma na medida do possível, claro.
Ele não voltou para visitá-la, e ela não conseguia parar de se perguntar por quê.
A porta se abriu e um homem loiro entrou. "Quem é você?" ela perguntou.
O homem sorriu. "Tá pronta pra falar sobre o que aconteceu com você e quem você é?" Ela revirou os olhos. "Olha... Nós podemos fazer isso..."
"Da maneira fácil ou da maneira difícil; Sim, eu sei. Já ouvi isso mais vezes do que você poderia imaginar."
O homem olhou para ela, surpreso. "Fala", disse ele. Ela manteve a boca fechada. "Eu tenho o dia todo."
"Eu também. Estou acorrentada a uma maldita cama, então não vou a lugar nenhum."
"Por que o Blake torturou você?"
Ela olhou para o homem com surpresa. "O Blake me capturou um dia antes do seu precioso alfa me trazer aqui. Ele não me torturou."
O homem parecia intrigado.
"Então, por que você tem uma mordida na perna e uma ferida de garra no peito?" Ela olhou para baixo.
"Você sabe que é proibido pelas regras das matilhas desse país capturar um humano que não tenha sido mordido, sob punição de morte?" ele perguntou. Ela olhou para ele.
As regras das matilhas foram estabelecidas pela maioria dos alfas do país. Havia três regras que todo bando precisava obedecer.
Poucas matilhas em todo o país tinham que lidar com as regras porque elas envolviam capturar e torturar humanos, o licano puro e outros lobisomens.
Era basicamente a mesma regra, só que para espécies diferentes.
Sua mente vagou para pensamentos sobre o licano puro. O licano puro era um lobo que a deusa havia criado para carregar o verdadeiro sangue de cada lobisomem. Se ele morresse, todos os lobisomens morreriam.
"Eu te fiz uma pergunta", disse ele, interrompendo os seus pensamentos.
"Sim, eu sei," ela respondeu.
O homem assentiu. "Como você ganhou as feridas?"
Ela congelou e viu o rosto do beta em sua cabeça. Lágrimas queimavam em seus olhos, e ela balançou a cabeça.
"É realmente tão difícil de nos contar?"
Seus olhos dispararam para a porta, onde o Dominic estava encostado no batente da porta.
"Alfa", disse o homem e inclinou a cabeça.
"É, sim", respondeu Kiara.
Dominic caminhou em direção a ela. "Por quê? Do que você tem medo?" ele perguntou.
De você.
Ela mentalmente sacudiu o pensamento da sua cabeça e olhou para os seus olhos castanhos. "Eu não tenho medo de nada."
Ele bufou. "Ah, sério? Se isso é verdade, por que você fugiu?"
"Porque eu estou de saco cheio dos malditos lobisomens!" ela estalou.
"Eu sou humana! Eu quero viver com os humanos e não ter que olhar por cima do ombro toda vez que quero dar uma volta! Eu não quero ver lobisomens por toda parte! Não quero ser lembrada de ser diferente e de tudo o que aconteceu comigo nos últimos quinze anos!"
Assim que ela gritou na cara dele, ela sabia que tinha falado demais. Lágrimas rolaram pelo seu rosto, e ela fechou os olhos.
"O que aconteceu com você nos últimos quinze anos?" ele perguntou. Sua voz estava calma e quase assustadora.
"Não me faça te contar", ela respondeu. Ela olhou para ele e viu que os seus olhos haviam mudado. Ele estava com os olhos do alfa.
"Por que você surtou quando pensou que eu tinha visto o seu corpo?" ele perguntou. Outra lágrima rolou pela bochecha dela. Ela apertou os braços contra o corpo. "Deixa eu ver o seu braço."
"Por favor, não me obrigue a fazer isso", disse ela.
"Deixa eu ver o seu braço, Kiara." Ela sabia que ele ia ver as suas cicatrizes. "Eu não quero te forçar."
Ela olhou para ele com olhos suplicantes, esperando que ele não fosse adiante. Ele agarrou o seu pulso e puxou o seu braço em direção a ele.
Ele arregaçou a manga e olhou para as três marcas de mordida e as inúmeras cicatrizes pequenas e grandes em seu braço. Ele apertou a mandíbula. O homem atrás dele parecia chocado.
"Quem fez isso com você?" A voz do Dominic ficou sombria e perigosa. Ela não disse nada.
Ele soltou o braço dela e apoiou as mãos de cada lado dela na cama e olhou diretamente nos olhos dela. "Quem. Fez. Isso. Com. Você."
"Provavelmente, foi a matilha Black Wood." Ela congelou ao ouvir o nome da sua matilha.
Dominic voltou o seu olhar para o Zack, que estava de pé na porta. Ele havia pedido para o Zack tentar descobrir se havia alguma matilha que parecia estar escondendo alguma coisa.
Dominic se endireitou e o seu beta entrou. "Esse é um nome que eu não ouço há muito tempo", disse ele.
Zack assentiu. "A última vez que ouvimos falar deles foi quando eles queriam saber o que sabíamos sobre os licanos puros. Há vinte anos."
Dominic disse: "O meu pai era o alfa naquela época". Zack assentiu, novamente.
"Por que você acha que eles fizeram isso com ela?" Dominic perguntou, apontando para o braço nu dela.
"Porque a matilha deles foi atacada há pouco mais de uma semana. Apenas três lobos escaparam. O Blake os atacou, de acordo com as nossas informações, e um dia depois, você a encontrou como prisioneira. Além disso, o olhar assustado no rosto dela confirma tudo."
Ambos olharam para a Kiara, que ficou pálida.
"Vamos deixá-la descansar. Nós podemos conversar no meu escritório," ele se conectou mentalmente com os dois homens, que imediatamente saíram da sala. Dominic olhou para ela, sentindo pena dela enquanto caminhava até a porta.
"Quem...", ela começou. Ele olhou de volta para ela. Ela se levantou e caminhou um pouco em direção a ele. Ela ainda estava em choque. "Quem escapou?"
Dominic fez a pergunta ao Zack em um link mental. Ele respondeu, "O alfa, o beta e outro lobo da matilha." ~
"Aparentemente o alfa, o beta e outro da matilha," Dominic disse a ela. Kiara viu manchas pretas e imediatamente perdeu a consciência.
A única coisa que ela conseguiu ouvir foi o Dominic gritando o seu nome.
"Venha aqui, pequenina." A menina de cinco anos correu para a sua mãe, que estava sentada perto do fogo. Ela se sentou ao lado dela e a olhou nos olhos.
A voz da sua mãe mudou. "Sinto muito, querida. Sinto muito por tudo o que está prestes a acontecer com você." Uma lágrima escorreu pelo seu rosto.
"Mamãe, o que você tá dizendo?"
Sua mãe sorriu e balançou a cabeça, não querendo dar mais explicações. "Há muito tempo, quando a Deusa da Lua nos criou, ela também criou uma espécie de lobo que era diferente de todas as outras."
"Mamãe, por que você tá me contando isso?"
Sua mãe continuou sem responder à sua pergunta.
"Esses lobos foram criados com um único propósito, que era manter a verdadeira linhagem de cada lobisomem. Eles eram chamados de licanos puros.
"Mesmo que eles carregassem a verdadeira linhagem dos lobisomens, a sua aparência e a transformação eram diferentes."
"Mamãe, eu tô confusa. Por que você tá me contando isso?"
"Os lobisomens podiam se transformar em lobos lindos, fortes e grandes, mas somente durante a lua cheia o lobo podia correr pela terra, e a forma humana ficava bem trancada dentro.
"Os licanos puros eram mais humanoides e podiam se transformar quando quisessem. Os lobisomens ficaram com inveja disso e imploraram à Deusa que lhes desse a habilidade de se transformar a qualquer momento."
Kiara se interessou pela história e ficou quieta.
"Quando a Deusa não respondeu, os lobisomens capturaram os licanos puros e planejaram matá-los.
"Então, a Deusa percebeu o que estava prestes a acontecer e ela veio à Terra pra confrontar os lobisomens e impedi-los de matar aqueles que garantiriam a sua sobrevivência.
"Ela concedeu aos lobisomens a capacidade de se transformarem sempre que quisessem.
"Os lobisomens liberaram os licanos puros, mas por causa da aparência monstruosa dos licanos puros, os caçadores humanos os perseguiram ao longo dos anos.
"Eles mataram muitos dos licanos puros até que restasse apenas um. A Deusa concedeu-lhe o corpo de um verdadeiro lobo, como se ele fosse um lobisomem. Só que ele era maior que um lobisomem normal.
"Seu pelo era branco, e seus olhos eram azul claro quando ele estava na forma de lobo e azul escuro quando ele estava na forma humana."
Kiara olhou para ela atentamente. "Ele devia ser lindo."
A mãe dela sorriu. "Ele era. A Deusa também se certificou de que sempre houvesse um licano puro vivo. Nem mais, nem menos.
"Ela estava com medo do ciúme dos lobisomens e da ganância dos caçadores humanos que os queriam por causa das suas peles. Pois se o licano puro fosse morto, todos os lobisomens morreriam junto."
Kiara olhou para ela com olhos grandes. "Então existe um licano puro vivendo agora?"
Sua mãe assentiu, e Kiara imediatamente pulou. "Ele tá aqui? Posso ver? Podemos falar com ele?"
Sua mãe riu. "Ninguém sabe onde ele está."
Kiara suspirou. "Como você tem certeza que é um macho?"
Ela sorriu novamente.
"O licano puro sempre foi macho. Se uma mulher nasce com o sangue puro dos licanos, ela será a mais poderosa, a mais forte e a mais rápida, e ela terá os sentidos superdesenvolvidos.
"Ela será o fim dos lobisomens e dos licanos puros."
Kiara abriu os olhos e viu um teto de madeira. Que estranho. Como ela poderia sonhar com uma coisa que aconteceu quando ela tinha cinco anos?
Como ela poderia se lembrar disso?
E por que ela se lembraria disso agora?
"Kiara?"
Ela ouviu a voz dele e virou a cabeça para o lado. Ela viu o Dominic sentado ao lado de sua cama.
Ela observou os arredores e notou que não estava mais na enfermaria. "Onde eu estou?" ela perguntou.
"No meu quarto," Dominic respondeu.
Ela sentou e viu que estava vestindo uma grande camisa preta que era longa o suficiente para cobrir a sua bunda, e estava sem calças. Seus braços e pernas estavam visíveis, bem como as cicatrizes.
Dominic olhou para ela com tristeza nos olhos. "Desculpa. Mas eu tinha que ver o que mais eles fizeram com você", ele disse.
Ela sabia que precisava ficar brava. Ela queria ficar brava, mas de alguma forma ela não estava brava. A sua raiva voou pela janela assim que ela viu o olhar magoado nos olhos dele.
"Eu só vi as suas pernas e os braços. Eu juro. Não fucei mais." Ainda bem. As piores cicatrizes estavam no torso e nas costas.
"Por que eles fizeram isso com você?"
Ela olhou para as próprias pernas. As memórias de cada cicatriz voltaram à tona. Uma lágrima rolou pela sua bochecha.
"Eu era uma humana vivendo entre os lobisomens. Esse era o motivo para eles me torturarem." Ela puxou os cobertores sobre as pernas.
"Por que você foi até eles?" ele perguntou
Ela olhou para ele. "Eu não fui. Eu nasci na matilha."
Os olhos de Dominic se arregalaram. "O quê? Humanos e lobisomens não podem ser companheiros."
Outra lágrima escorreu pela sua bochecha. "Eu não nasci de humanos. Ambos os meus pais são lobisomens."
Dominic congelou no lugar. Ele não disse nada até que se levantou e passou a mão pelo cabelo. "Isso não é possível." Ele continuou andando de um lado para o outro.
"É o que o meu bando costumava dizer. O médico da matilha me disse que eu matei o meu próprio lobo durante o parto.
Meu pai me mordeu várias vezes na esperança de acordar o meu lobo, mas nunca deu certo, e eu também nunca me tornei selvagem.
"Toda vez que eu era mordida, o meu corpo começava a se transformar, mas antes que qualquer coisa pudesse acontecer, meu corpo parava a mudança e voltava ao normal."
Ele parou e olhou para ela. "Foi isso o que eu vi há uma semana", disse ele.
Ela assentiu.
"Depois de anos, o meu pai finalmente parou e me rejeitou. Foi quando a matilha começou a me torturar. Eu não conseguia fugir. Eles sempre me encontravam. Eu quis morrer mais vezes do que quis estar viva."
Dominic podia sentir a dor dela, quase como se a estivesse vivendo. Ele se agachou ao lado dela. Ele começou a dizer alguma coisa, mas parou de repente e olhou pela janela.
"O que é isso?" perguntou Kiara.
"Os bandidos". Ele endureceu.
"O Blake."
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