
Fada Madrinha Ltd 8: Caos e Loucura
Author
F. R. Black
Reads
1,3M
Chapters
39
1: Capítulo 1
Livro Oito: Caos e Loucura
. . . . . .
15 anos após a ocupação da Associação Legacy, também conhecida como Legacy LTDA.
A Fada Madrinha LTDA está parada desde os últimos julgamentos, quando os tribunais da UIC assumiram o controle. Encantado foi exilado em um mundo vazio depois que foi considerado culpado. Ninguém nunca mais o viu desde então, e hoje ele foi declarado morto, oficialmente.
Agora, o Encantado é só uma história nos livros didáticos.
April
Hoje, faz quinze anos.
Por isso, é um dia muito importante.
Olho com cuidado pela janela da minha sala, com o coração batendo forte. Tenho medo que um dia me peguem e me mandem embora por quebrar as regras. Eles podem me levar, me machucar, atirar em mim e depois me jogar pros monstros assustadores que moram depois do portão 6, num lugar tão ruim que nem consigo imaginar.
Já ouvi falar das punições terríveis para quem quebra as regras. Há anos eu tomo muito cuidado, sempre estou com medo de ser descoberta.
Respiro fundo enquanto vejo os robôs armados passarem pelo meu escritório. Dá para ouvir as botas deles batendo no chão branco e brilhante em um ritmo perfeito, como se estivéssemos no meio de uma guerra espacial. Fecho os olhos, aliviada por ninguém desconfiar que estou fazendo algo errado, por ninguém vir bisbilhotar aqui na minha sala.
Sei que não tenho muito tempo, e estou esperando a hora certa. As pessoas ficariam chocadas se mexessem nas minhas coisas.
Suspiro. Observo todas as provas que juntei ao longo dos anos, sempre fui muito cuidadosa. Posso ser a última esperança de todos, se ainda der tempo. Já faz tanto tempo que sinto que ninguém liga mais para o meu trabalho. Até a Zoya fica entediada quando falo das coisas ruins que descobri. Ultimamente, ninguém está interessado nas minhas ideias sobre o que está rolando de verdade, como se já estivessem cansado de ouvir.
Não importa porque eu ainda acho que o Encantado está lá fora, em algum lugar.
Vivo.
Ele tem que estar…
Respiro fundo, não quero ficar triste pensando que ele teve que viver por quinze anos em um planeta vazio. Sei que uma coisa dessas nunca aconteceu antes. Geralmente, as pessoas morrem de sede ou são comidas por bichos. É loucura pensar que depois de quinze anos ele ainda está vivo. Mas eu sei que o Encantado não desistiria tão fácil.
Na minha cabeça, eu digo pra ele não desistir desde o dia em que ele foi algemado e levado daqui. Tentar não custa nada, né?
O Dion e a Zoya foram os únicos funcionários importantes que não perderam o emprego, mesmo depois do Dion ter ajudado o Encantado com a Partícula de Deus naquele fatídico dia. Aquela missão que mudou tudo e piorou a vida de todo mundo. Eles quiseram utilizar o conhecimento do Dion sobre IA e robôs, e ninguém é melhor que ele nesse assunto. Ele era valioso demais para ser descartado. Então, o mantiveram na empresa e usaram o cérebro inteligente dele ao máximo, e por isso a Zoya e a família deles também ficaram.
Mas, claro, eles eram constantemente ameaçados. Se fizessem algo errado, coisas ruins aconteceriam com os filhos deles, e por isso eles seguiram as regras. É assim que o Vincent geralmente faz as pessoas obedecerem. O cara virou um líder bem cruel desde que o Encantado foi mandado embora. Eu poderia falar por horas como ele acha que controla tudo com as mentiras e omissões dele.
Mas aqui está a grande surpresa.
Ele nunca prestou atenção em mim, sem saber que sou o maior pesadelo dele.
Fiz uma promessa para mim mesma quando fui ao tribunal e assisti ao homem que eu admiro desde pequena ser condenado à morte. Eles enganaram a Zora pra ela se virar contra o Encantado e a usaram para magoá-lo. Mas essa história fica para depois, não quero pensar nessa dor agora. A cara do Encantado quando a Zora depôs para mandá-lo embora... O Vincent e as irmãs fadas controlaram a Zora como uma marionete.
Respiro fundo, afastando as lembranças da minha mente.
Vamos voltar à surpresa…
A pequena, tímida e feia April. Ela não faz nada demais.
Nada mesmo.
"Olhem pro outro lado, seus malditos," sussurro, me virando para ir até a minha mesa. Eles me transferiram para o departamento financeiro, que otários. Assim, eu pude usar os computadores e examinar os arquivos do sistema, tive anos para achar erros nos documentos deles.
E nossa, eu achei muitos.
Informações que me matariam na hora - informações tão incriminatórias que me surpreende que eles não tenham queimado. Mas por que eles deveriam ser cuidadosos quando todo mundo foi demitido, menos a nerd April, que não machucaria ninguém? Eles precisavam de alguém para treinar os novos funcionários, alguém que conhecesse os programas. Então, escolheram a última pessoa que causaria problemas para eles.
Eu.
Péssima escolha.
Eles foram descuidados com os papéis e contas. Agora mesmo eles estão mentindo, dizendo que as missões Alfa estão indo bem. Cem por cento de taxa de sucesso vai para a Legacy LTDA, quebrando recordes e recebendo grandes honras da alta Corte Celestial…
Eu rio, que mentira descarada. Só o Encantado conseguia números assim.
Eles têm sorte de estarem conseguindo quarenta por cento de taxa de sucesso - se alguém soubesse, o Vincent seria mandado embora tão rápido que o sistema solar implodiria.
Minha maior prova é o Projeto Sapatinho de Cristal, achei papéis no ano passado com todos os detalhes. Uma grande descoberta, mas a Zoya bocejou quando contei. Bom, quero deixar a Zoya de lado, vou explicar sobre ela depois. Isso aqui é algo que nunca aconteceu antes.
Todo mundo que trabalhava na Fada Madrinha LTDA sabia que matar os vilões de propósito poderia causar problemas enormes. O Vincent não vai ter como esconder isso para sempre. Mundos vão ser afetados como uma reação em cadeia, existe um motivo para esse tipo de coisa não ser permitida. A energia ao redor do universo em que os vilões foram assassinados é danificada de tal modo que talvez nunca dê para consertar.
É chocante.
Vai contra as regras do Destino e é tão terrivelmente errado que demorei para entender o quão absurda é a mentira. Parece que o único jeito do Vincent fazer qualquer coisa na vida é trapaceando. Não acho que ele tenha ajudado ninguém a se apaixonar ultimamente, sempre manda os agentes de volta para a casa tristes e com raiva. É uma bagunça. O Projeto Sapatinho de Cristal é meu jeito de derrubar o Vincent definitivamente. Quero fazê-lo sofrer pelo que ele fez com a Fada Madrinha LTDA e com o Encantado. Quero que ele viva numa prisão e sinta vergonha pelo resto da vida dele - sem uma morte rápida para aliviar o sofrimento. E pensar que, no julgamento, ele de algum jeito tinha provas falsas de que o Encantado roubou os projetos dele por anos. Quase caí da cadeira, tendo que tapar a boca para não gritar de raiva.
Todo mundo perdeu a cabeça?
As pessoas saíram dizendo que o Encantado era um mentiroso e o Vincent era o verdadeiro estilista inteligente, sendo elogiado e homenageado. As roupas que o Vincent cria são horríveis e nada parecidas com as que o Encantado fazia. São lisas, simples e básicas - não se ajustam ao corpo da mulher. O Encantado é um estilista super diferente e corajoso, enquanto o Vincent é tão... sem graça.
Quero ele vivo e sofrendo. Mas algo assim faria o Vincent morrer. Se a Alta Corte Celestial soubesse - a corte suprema do Universo - a vingança seria completa.
Então eu realmente não quero que eles vasculhem a minha sala.
Eu sou a pessoa mais perigosa para o Vincent, e ele não faz ideia que coisas ruins estão prestes a acontecer. Sento na minha mesa e solto um suspiro longo.
Venho trabalhando junto com o Jensen, que prometeu derrubar o Vincent, e hoje é um dia especial pra gente. Esperei por esse dia por quinze anos. Destranco a minha gaveta e puxo um compartimento escondido, tirando um colar místico antigo da Fada Madrinha LTDA. Uso minha mente para me conectar a ele, chamando mentalmente o Jensen na linha mágica de telefone que ainda funciona. O Dion fez de tudo para as linhas ficarem ativas todo esse tempo. Nada supera a tecnologia da FM, mesmo que o Vincent diga que tudo foi substituído.
Ele é quem vai ser substituído.
Eu espero.
Sorrio, não consigo esconder a minha empolgação. "Jensen," sussurro. Ouço um suspiro. "Finalmente, porra," ele faz uma pausa, e ouço uma voz ao fundo. "O atestado de óbito do Encantado saiu hoje," então ele diz, um pouco mais alto, "é hora de agir, April!" "Sim!" Então, abaixo a minha voz. "Oi, April!" Ouço a voz simpática dele à distância.
Sorrio. "Oi," sussurro de volta. "Avisa o Jack sobre as informações e fala pra ele começar a preparar tudo pra achar o Encantado, incluindo uns agentes metamorfos. Não dá pra fazer isso sem eles.” Ele ri e depois xinga. "O Babsi... esse pestinha tem que colaborar, tô cansado daquele sabe-tudo. Vou nessa. Agora, temos que ser cuidadosos. Trabalhamos duro demais pra sermos pegos - não temos escolha, tem que dar certo." Dá para ouvir como ele está cansado.
Respiro fundo, me sentindo nervosa. "Queima qualquer coisa que não tenha a ver com o Projeto Sapatinho de Cristal. É isso que vai botar ele na cadeia." "Pode deixar. A gente se liga mais tarde, quando tivermos notícias daquela maldita lagosta." Sorrio quando ouço a Delilah irritada ao fundo e a voz distante dele a responde. "Foi mal... é, eu sei. Ele é brilhante. Não. Não tô sendo sarcástico," ele faz uma pausa. "Melhor que um caranguejo…" Então, a ligação acaba.
Reviro os olhos.
Esses dois tornaram a espera longa mais fácil, mas o Vincent também os machucou. Sei que a equipe dele pegou o último pedaço do medalhão e escondeu em algum lugar porque não está onde devia estar - passamos quinze anos procurando e não achamos nada, o que não faz sentido.
O Vincent odeia o Jensen, e tenho certeza que ele está com o medalhão.
Mesmo com esse problema, eles vivem bem com os pedaços do medalhão que eles têm, por sorte. A única coisa ruim é que o Jensen não pode ter filhos até achar a última parte, o que torna essa questão muito pessoal para eles. Eles querem muito ter filhos, mas o Jensen e a Delilah se amam tanto que seguiram em frente assim mesmo. Num minuto eles estão brigando - no outro, se pegando. Funciona, afinal é assim que eles se amam.
Meu rosto fica quente, eu não sei como seria ter esse tipo de relacionamento com alguém. Sou apenas uma nerd virgem que só deu uns pegas poucas vezes. Fui protegida demais a vida toda, então não é surpresa que eu seja tão desajeitada. Penso no cara... Jared era o nome dele, meu ex-namorado, que eu só deixava segurar a minha mão. No dia em que ele tocou no meu peito e tirou os meus óculos, fugi de um jeito bem estabanado.
Mas eu tenho um segredo. Um segredo que colocaria toda essa missão para achar o Encantado em risco.
April
Meu rosto fica quente, eu não sei como seria ter esse tipo de relacionamento com alguém. Sou apenas uma nerd virgem que só deu uns pegas poucas vezes. Fui protegida demais a vida toda, então não é surpresa que eu seja tão desajeitada. Penso no cara... Jared era o nome dele, meu ex-namorado, que eu só deixava segurar a minha mão. No dia em que ele tocou no meu peito e tirou os meus óculos, fugi de um jeito bem estabanado.
Mas eu tenho um segredo. Um segredo que colocaria toda essa missão para achar o Encantado em risco.
Ouço a porta da minha sala abrir e fico tensa. Meu coração para, mas logo relaxo quando vejo a Zoya parada no batente, com seu terno preto. "Nossa," suspiro, "você me assustou."
Ela parece ter a mesma idade que tinha quando a conheci anos atrás, com o cabelo sempre preso no mesmo coque alto. A maioria das pessoas nesse Universo não envelhece muito, exceto em alguns planetas e, claro, no nosso planeta natal, a Terra.
Olho para ela e sinto o meu coração acelerar.
"A certidão de…"
"Óbito do Encantado," digo, cortando-a com um sorrisinho. "A pena dele acabou. Se ele estiver vivo, não podem mais encostar nele. O tempo dele naquele inferno terminou."
Ela concorda e olha para baixo, sem falar, mas dá para sentir a tensão crescendo no ar. Sei que ela está cansada de me ouvir falar do Encantado, mas essa situação é diferente. "Podemos agir agora, finalmente."
Ela sorri, olhando para cima com os olhos marejados, me deixando nervosa. Sei que ela passou por muita coisa desde que o Encantado foi condenado à morte. Ela não lidou bem com isso, como todos nós. "Você realmente acha que ele tá vivo depois de quinze anos, April?" Ela me olha como se eu fosse uma criança inocente.
Considerando que unicórnios existem, as minhas ideias sobre o Encantado não são tão loucas assim.
Engulo em seco. "Sim," sussurro, querendo soar mais confiante.
Ele tem que estar vivo.
Ela balança a cabeça, fazendo uma pausa enquanto olha para cima. "Ninguém quer que ele esteja vivo mais do que eu." A voz dela é firme, o que me faz franzir a testa enquanto nos encaramos. "Mas sei o que vai acontecer quando vocês não acharem ele!" A voz dela fica triste, e então ela olha em volta, engolindo em seco. "Não vai ser bom, April. Eu temia tanto esse dia… Tô com medo por você, pensando no que vai rolar quando esse plano desmoronar. Não posso passar por isso de novo… levei anos pra aceitar que ele se foi."
"Eu sei, mas vou achá-lo."
"Você precisa estar preparada, porque pode se machucar muito…"
"Eu sei…"
"Escuta aqui!" ela diz alto, entrando mais na sala e fechando a porta. "Você adora esse homem desde que aprendeu a falar," ela sussurra, com seus olhos azuis me encarando. "Eu te amo April, e sei que o Encantado era… é o seu herói. Sempre foi. Mas você precisa ser esperta e considerar que ele pode estar morto."
Quase pulo, odiando os sentimentos que estão surgindo dentro de mim. Meus olhos e mandíbula doem só de pensar nessa possibilidade. "Valeu, eu não sou burra, Zoya. Sei que ele pode estar... morto."
"O Jensen também tem que considerar isso," ela acrescenta, "todos precisam ser realistas. Vocês acham mesmo que vão trazer ele de volta pra cá? Como?"
Tenho tanta coisa para dizer, mas quando abro a boca, nada sai.
"Vocês não podem simplesmente trazer ele de volta… todos disseram que ele era um mentiroso. Todo o crédito pelo trabalho dele foi pro Vincent e ele vai ser expulso! Ridicularizado!" Ela balança a cabeça como se quisesse me sacudir. "Tanto estrago foi feito, tantas vidas..."
Sei que ela está falando dos agentes metamorfos e como eles foram forçados a abandonar as vidas que tanto amavam. Esse lugar parece tão errado sem eles e com os robôs de IA andando por aí. Que horrível. O Vincent apagou tudo o que remetesse ao Encantado.
Ela continua falando, vindo na minha direção. "Se por algum acaso o Encantado estiver vivo, ele passou quinze anos num planeta vazio, April. O que você acha que vai encontrar? Um cara destroçado!"
Fico de pé com a cabeça erguida. "Vou trazer ele de volta."
"Espero que sim. De verdade," ela diz, com a voz trêmula, "mas é um jogo muito perigoso que você tá prestes a jogar. Mesmo que as pessoas não saibam que você tá procurando ele, você vai acabar na cadeia por algum motivo inventado. O Vincent sabe que a pena do Encantado acabou. Ele acha que o Encantado ainda tá vivo? Nem a pau. Mas mesmo assim, ele não pode saber que você tá procurando. Se ele sonhar com isso já vai ficar puto da vida."
"Preciso falar com a Zora." Ela deve saber detalhes importantes pra acharmos o Encantado.
A Zoya ri. "Pra quê? Ela tá muito fraca… não faz mais sentido. É triste."
"Preciso falar com ela."
A Fada Madrinha nunca se perdoou pelo que ela fez. Depois que o Encantado foi condenado e levado embora, ela percebeu o grande erro que cometeu. Ela foi enganada da pior maneira, e não acho que o Encantado a culpou. Parte de mim pensa que alguém lançou um feitiço nela naquele dia, porque ela parecia diferente e estranhamente robótica.
Nunca vou acreditar que ela fez aquilo de propósito. Ela foi convencida de que o Encantado estava tentando tomar a Fada Madrinha LTDA e expulsá-la. O que, ironicamente, era exatamente o que o Vincent estava fazendo.
Um monte de mentiras.
O Encantado não ficou nem um pouco irritado quando a Zora se virou contra ele, só ficou com a cara fechada. Ele não estava chocado e nem bravo. É como se ele soubesse que ela foi enganada e já tivesse perdoado, quase como se soubesse o que iria acontecer e estivesse preparado para isso.
É difícil entender como funciona a mente do Encantado.
A Zora não usa mais a varinha dela, que a mantém jovem e poderosa - ela quer morrer lenta e dolorosamente, que nem o Encantado. Ela está se matando aos poucos para se punir, o que eu entendo. Se eu tivesse mandado o Sr. Encantado para a morte, me sentiria igual. Mas sei que não foi realmente ela, e preciso dizer isso para ela.
"Não sei se vai ajudar..." ela para de falar, pensativa.
"Quero fazer umas perguntas pra ela."
"Sobre?"
"O Encantado."
Ela ri. "Claro que é sobre o Encantado. Sobre quem mais você perguntaria?" Ela balança a cabeça e me olha por uns minutos. "Por que você nunca tentou chamar a atenção dele?" Ela me olha de cima a baixo. "Por que você usa roupas tão feias? Eu já te enchi o saco tantas vezes por causa das suas roupas e você nunca mudou. Se você era tão obcecada pelo Encantado, por que nunca tentou ser notada?"
Fico pálida. "Chamar a atenção do Encantado? Você tá louca?!" Só de pensar nisso minhas bochechas ficam quentes. Eu mal conseguia me controlar quando ele olhava para mim. Só de lembrar dele me segurando nos braços, tantos anos atrás na missão do Jensen, meu corpo começa a formigar.
Se ele realmente estivesse interessado em mim... nossa, eu morreria. Sempre vou dizer que ele é o homem mais bonito que já vi, mas não é só isso. Eu posso desmaiar só de pensar nele, ele é tudo pra mim.
Por onde começo?
Ela sorri para mim como se pudesse ver o quanto eu gosto dele, estampado na minha cara. "Ele não era tão intimidador assim, April. Sei que você tem um corpão debaixo dessas roupas feias. Você devia ter se mostrado mais."
Eu rio.
Ela me olha e levanta uma sobrancelha. "Entendo que ele era poderoso e tal. Mas você também não facilitou com esses seus terninhos horríveis," ela aponta, fazendo uma careta.
"Tá bom." Olho de lado para ela, lembrando as minhas razões. Sempre tive meus motivos pra me vestir assim, eu fui ensinada desde pequena. Eu me tranquei numa caixa há muito tempo. "O cara namorou as mulheres mais gatas do universo… ele pode estalar os dedos e ter qualquer deusa de qualquer galáxia." Balanço a cabeça e olho para as minhas mãos. "E ele acha que o meu nome é Pam…"
"April, ele é o Encantado. Você não pode culpá-lo, tá no sangue dele. Ele é um vampiro da beleza. Você já ouviu esse termo?"
Vampiro da beleza.
Ergo uma sobrancelha. "Não, nunca ouvi..." digo, franzindo a testa.
A Zoya sorri. "Você, que é obcecada pelo Encantado, não sabe de onde ele veio?! Pensei que soubesse…" Ela ri.
"Eu nunca tive acesso a esse tipo de informação, Zoya, e tô surpresa que você tenha tido. Tentei bisbilhotar…" respondo, me sentindo interessada até demais. "Tudo sobre o Encantado é tão secreto que é quase impossível achar qualquer informação. Na última missão," faço uma pausa, pensando, "vi ele fazer uma coisa que nunca tinha visto antes. Ele tinha um poder antigo… É por isso que quero falar com a Zora."
Quero respostas, se estou entrando numa missão para achá-lo. Ou, ao menos, para ter alguma esperança.
"Bom, agora não tem nada aqui sobre ele. Todas as informações foram apagadas, tirando a parte em que ele é chamado de traidor e mentiroso," ela para, "e acho que as coisas pessoais não estavam disponíveis pros funcionários de baixo escalão da FM quando ele trabalhava aqui," ela pensa. "Sem ofensas. Mas ele vem de uma família famosa — os Charming. É por isso que o sobrenome dele é Charming," Ela diz, como se eu devesse saber disso.
"Charming? Bom, além de ser o sobrenome dele, não sei nada sobre essa família," digo, absorvendo a nova informação como se fosse uma droga. Vivi numa caixa, protegida desde pequena. Então, não é surpresa que eu não saiba de nada. "Sei que é o sobrenome dele. O que mais?!" pergunto. "Por que você nunca me contou nada disso antes?"
"Ai meu Deus." Ela balança a cabeça. "Vou deixar a Zora te contar… não gosto de contar histórias longas." Ela parece desconfortável. "Não sou boa em contar histórias, pergunta pros meus filhos. Eu odeio, e tenho que ir embora logo."
Eu rio. "Já ouvi falar disso," e digo com a minha melhor voz de imitação da Zoya. "Era uma vez uma princesa. Ela era uma boa menina pra mãe dela. Comia todos os legumes. Conheceu um príncipe mas decidiu focar no trabalho primeiro. Viveu feliz pra sempre. Vai dormir."
Ela parece impressionada. "Muito bom. Vou contar essa pra Layla hoje à noite."
A Layla tem quatro anos e é a filha mais nova dela, e muito parecida com a mãe. Embora a Zoya pareça durona, ela é uma ótima mãe. Mas talvez precise tomar cuidado com o vocabulário perto da pequena. A Layla mandou um dos homens do Vincent ir se foder outro dia com uma cara séria, e depois continuou chupando o dedo.
O Dion deu um soco nele logo na sequência. Eu vi e morri de rir.
Olho para cima e vejo a Zoya me observando. "O que foi?"
"Tenho que te contar uma coisa."
Minhas sobrancelhas se erguem. "Sério? Sobre o Encantado?" Meu coração acelera.
"Não."
"Sobre quem?"
"Sobre você."










































