
A Saga da Irmandade: King
Author
Jassy Doe
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Chapters
41
Capítulo 1
KING
A primeira coisa que notei foi o calor. Aquele sol forte e cruel da Califórnia já estava entrando pela minha janela, queimando direto através das minhas pálpebras fechadas. Soltei um gemido baixo contra o travesseiro, e o movimento fez minha cabeça latejar. Os lençóis estavam encharcados de suor. É. Bebi demais de novo.
O pensamento surgiu da névoa confusa da ressaca da noite passada. Sem motivo especial — só mais uma festa de motoqueiros onde o objetivo era ficar bêbado para caramba, só porque a gente podia.
Virei de lado para fugir da luz e meu ombro bateu num corpo quente e adormecido ao meu lado. Um monte de cabelo ruivo comprido estava espalhado pelo meu travesseiro. Candy.
O nome voltou à minha mente. Uma das garotas do clube que ficavam rondando meu bar, esperando que um dia se tornassem uma ol' lady — escolhidas, respeitadas, ficando de vez. A coisa toda era idiota.
Essas garotas nem se respeitavam, transando com um prospect atrás do outro, trocando sexo por um pedacinho daquele pertencimento que queriam tanto. Mas elas tinham utilidade. Eram fáceis, disponíveis, e conheciam a regra número um: você vai embora de manhã.
Sem ligações, sem despedidas constrangedoras, sem conversar sobre minha coleção de discos. Só um entendimento simples que nós dois tínhamos. A gente usava um ao outro para se divertir e aliviar um pouco o estresse.
Joguei as pernas para fora da cama, o chão de madeira velho gelado sob meus pés descalços. Encontrei meu jeans numa pilha bagunçada, minhas botas jogadas num canto. Me vesti em silêncio, não porque me importava com ela, mas porque cada movimento mandava uma nova onda de dor pela minha cabeça.
Quando vesti meu colete, o couro pesado parecendo uma segunda pele, ela ainda estava completamente dormindo. Deixei ela lá, nua e sonhando, e desci.
A sede do clube já estava começando a acordar. O cheiro velho de cerveja da noite passada e fumaça antiga estava sendo empurrado para fora pelo cheiro rico e maravilhoso de café. Quando desci para a área principal do bar, vi minha irmã, Alice, sentada num banquinho no balcão.
Bem ao lado dela estava Wrath, o marido dela, meu irmão, e o tesoureiro do nosso clube. O colete dele, com o mesmo patch do motoclube No Limits que o meu, parecia igualmente gasto e usado.
“Café?” Alice perguntou, um sorriso sabido nos lábios enquanto despejava aquele líquido escuro e salvador numa caneca de cerâmica pesada.
Só soltei um resmungo em resposta, pegando a xícara e me jogando no banquinho ao lado deles como um homem acabado.
Aquele primeiro gole foi como uma bênção. Amargo. Quente. Perfeito. Apoiei os cotovelos na madeira brilhante, meus olhos olhando além das placas de neon e pela janela grande que dava para nossa rua.
Era isso. Esse era nosso mundo.
Um mundo completo bem no meio de Las Flores, um lugarzinho não incorporado minúsculo em Orange County que mal tinha quatro mil pessoas. Meu tataravô ajudou a fundar esse lugar, e essa história estava misturada na própria poeira das ruas. Éramos respeitados aqui. Não só como motoqueiros, mas como fundadores. Como gente importante.
Ao longo dos anos, o nome da cidade mudou, mas nosso controle sobre ela nunca mudou. Nossa sede não era só uma sede de clube; era o coração pulsante de uma vila pequena e protegida. Nossa rua principal tinha nossos negócios — meu bar, a oficina, o estúdio de tatuagem — e saindo dela havia ruas menores, como veias, levando às casas onde meus irmãos moravam com suas famílias.
Tudo era protegido por um muro alto e um único portão vigiado. Alguns dos caras até transformaram seus terrenos em pequenas fazendas, plantando vegetais e criando galinhas. Mas essa vida nunca foi para mim. Minhas mãos já estavam cheias com o clube.
Meu pai, J.J. — um nome pelo qual todo mundo o conhecia, impresso bem ali no patch de “Membro Original” — tinha passado o cargo de presidente para mim, o mais velho dos quatro filhos dele. Bom, três de sangue, e Ace, que podia muito bem ter sido. Ele cresceu com a gente, e eu confiava nele com minha vida.
A maioria dos homens no meu motoclube cresceu bem aqui na poeira. Os pais deles eram os membros aposentados, o grupo antigo que ainda fazia trabalho para a comunidade, mesmo que tivessem trocado seus patches ativos pelo status de “Original”.
O peso do meu próprio colete parecia mais pesado que o normal essa manhã. Presidente do motoclube No Limits — King. O couro estava gasto e liso em alguns lugares, os patches desbotados. Era mais que um título; era uma promessa. Uma promessa de proteção e ordem que ia muito além dos nossos muros.
E essa promessa incluía a casa segura. Um acordo feito muitos anos atrás entre meu avô e um jovem e ambicioso chefe de polícia de Laguna Beach chamado Tom Carter. Carter subiu alto no FBI, e aquela velha amizade se transformou num arranjo lucrativo e secreto.
A gente oferecia um esconderijo muito seguro para testemunhas, para vítimas, para qualquer um que precisasse desaparecer das piores pessoas que o mundo tinha a oferecer. Quer dizer, quem é idiota o suficiente para começar problema no coração do território de um motoclube armado e organizado? Ninguém com um pingo de juízo.
Hoje em dia, meu pai e Alice cuidavam da casa segura. Duke, meu irmão mais novo e nosso VP, lidava com o lado bagunçado e nem tão legal das coisas — fazendo documentos falsos novos, arranjando transporte seguro. Ele trabalhava com Wrath, nosso tesoureiro, e Void, nosso secretário e nosso gênio hacker.
Void e a esposa dele, Erin, eram especialistas em tecnologia. A coisa que parecia sem sentido numa tela para mim era uma língua totalmente diferente para eles. O filho deles, Mike, já estava seguindo os passos deles, um pequeno nerd em treinamento.
Do outro lado, a filha de Alice e Wrath, Drew, era uma garota selvagem em duas rodas, uma verdadeira princesa motoqueira, e minha criança favorita no mundo todo.
“Você parece que foi atropelado” Alice disse, me tirando dos meus pensamentos. Wrath tossiu, escondendo uma risada no punho.
Só revirei os olhos, o movimento fazendo minha cabeça rodar.
“Me sinto assim também” murmurei para o meu café.
A porta da frente se abriu, cortando uma linha de luz forte pelo chão. Ace entrou, parecendo alerta e arrumado demais.
“Bom dia, King” ele disse, a voz alegre demais.
“Como você já tá de pé?” resmunguei, apoiando a testa de volta no balcão gelado. “A gente bebeu o suficiente para derrubar um cavalo.”
“Eu tinha trabalho a fazer. Preparei a casa segura. A Alice não te contou? A gente vai receber uma nova hoje” Ace disse, se jogando no banquinho ao meu lado como se fosse dono do lugar.
Levantei a cabeça, olhando para minha irmã. “Vamos?”
Ela assentiu, o sorriso sumindo, substituído por uma expressão séria e profissional.
“A situação tá complicada. O velho Tom ligou para o pai. Disse que perderam contato com ela. Tem algo errado” Alice explicou.
Como se chamado pela virada séria na conversa, meus pais entraram. Meu pai, J.J., tinha aquele mesmo sorriso tranquilo, mas não chegava bem aos olhos dele essa manhã. Minha mãe deu uma olhada em mim e levantou uma sobrancelha crítica.
“O que aconteceu com você?” ela perguntou.
“O que parece, mãe?” disse com uma risada fraca. “Vida de motoqueiro.”
Papai ignorou a brincadeira e sentou com a gente, a presença dele imediatamente mudando o clima da sala.
“Alguém tem que ir ver o Tom. Ele não vai falar sobre isso por telefone. Diz que tem coisa demais em jogo” ele disse, pegando um café da Alice. “Parece que é sobre um peixe grande. Um traficante. Mulheres.”
Um silêncio frio caiu sobre nós, mais frio que a ressaca. A gente já tinha ouvido tudo antes, visto as pessoas vazias e quebradas que apareciam no meio da noite. Mas nunca, nunca ficava mais fácil.
“Eu odeio esses desgraçados” Alice sussurrou, a voz tensa com uma raiva silenciosa e ardente. “Pobres mulheres.”
“O cara supostamente tá operando daqui até Las Vegas” Wrath acrescentou, abrindo uma pasta que estava no balcão. “Local, mas conectado.”
“É inteligente trazer ela para cá, então?” mamãe perguntou, a preocupação clara na voz.
Era uma pergunta justa. Mas o sistema era perfeito. As pessoas chegavam sob o manto da escuridão e saíam do mesmo jeito. Ninguém entrava ou saía do nosso portão sem escolta e permissão clara. As pessoas que protegíamos eram fantasmas dentro dos nossos muros; nenhum estranho nunca as via ou falava com elas.
“Claro que é” papai disse, a voz não deixando espaço para discussão. Ele puxou a mamãe num abraço de um braço só. “A gente nunca falhou antes. Não vamos falhar agora. Vamos encontrar um novo lar para ela.”
“Eu vou com o Duke assim que ele acordar” Alice disse, toda profissional.
Na hora certa, um gemido baixo e sofrido veio da escada. Todos viramos para ver meu irmão mais novo, Duke, descendo os degraus. Ele parecia ainda pior do que eu me sentia, o rosto pálido e os olhos apertados contra a luz fraca.
Ace soltou uma risada alta. “Olha só o que o gato arrastou. Ele tá vivo.”
“Certo” papai disse, levantando. “Vocês dois vão assim que ele conseguir funcionar. E me liguem no segundo que voltarem.” Ele levou a mamãe para fora, nos deixando com isso.
Levou mais meia hora e mais dois cafés antes de Duke estar pelo menos meio humano.
“Vamos, raio de sol. A gente vai no meu carro” Alice disse com voz seca, já pegando as chaves.
Fiquei na porta e vi Duke subir devagar no banco do passageiro da caminhonete “pega-eles” da Alice, como ele chamava.
Eu sabia que ele odiava — preferia enfiar a Harley direto num muro — mas você não pode exatamente transportar uma mulher assustada e possivelmente machucada na garupa de uma moto.
Assisti eles irem embora, o sedã levantando uma pequena nuvem de poeira enquanto rolava em direção ao portão principal. O café no meu estômago tinha assentado o pior da sensação de enjoo, deixando para trás uma dor surda e latejante atrás dos meus olhos e um nó frio de preocupação no estômago. Isso era mais que só mais um trabalho. Algo no ar parecia diferente. Carregado.
O sol estava subindo mais alto, assando a estrada lá fora. Virei as costas para a estrada vazia e entrei no conforto escuro e familiar do meu bar.
“A gente precisa conversar” Ace disse no momento em que sentei no banquinho do bar ao lado dele.
“Sobre o quê?” perguntei.
Ele apontou com o queixo em direção à escada, e eu lembrei — Candy ainda estava dormindo lá em cima na minha cama.
“A palavra é que a Candy tem andado com uns motoqueiros do motoclube de Laguna Beach” ele disse, servindo um café. O tom dele era sério.
“O quê?” A palavra saiu de mim, afiada de descrença.
Ace encontrou meus olhos e deu um aceno lento e confirmador.
“Storm viu ela ontem em Laguna” ele explicou. “Ela estava andando com um dos Sons of the Pacific.”
Respirei fundo. Não era ciúme se retorcendo no meu estômago — era a percepção assustadora de que ela podia explodir nossa cobertura se atraísse o tipo errado de atenção. Candy era nova, só procurando um lugar para ficar, mas eu não tinha ideia do que ela era realmente capaz.
“Merda” soltei com rispidez.
Ace só assentiu de novo, depois jogou a cabeça em direção às escadas. Ele sabia, assim como eu, o que tinha que acontecer.
Quando empurrei a porta do meu quarto, ela ainda estava enrolada debaixo dos cobertores.
“Candy” chamei, minha voz cortando o silêncio.
Ela se mexeu mas não acordou.
“Levanta.” Arranquei os cobertores dela.
Ela acordou rápido, sentando depressa, confusão por todo o rosto.
“Você precisa ir. Agora” disse, minha voz fria e sem emoção.
“O quê?” ela disse, a voz grossa de sono.
“Eu gaguejei?” disparei. “Você precisa sair daqui.”
Ela se apressou para juntar as roupas do chão, os olhos fixos em mim o tempo todo.
“Você estava com os Sons of the Pacific” afirmei.
O rosto dela ficou pálido, olhos arregalados de pânico.
“Só uma vez” ela implorou. “Não vou fazer de novo.”
“Cai fora daqui” sibilei.
Ela vestiu o vestido curto e brilhante, depois virou para mim na porta.
“Não vou te causar problema nenhum... prometo” ela disse baixinho.
Ela não tinha ideia de quanto problema já podia estar causando.
“Merda, Candy!”













































