
A Linhagem Amaldiçoada: O Guardião
Author
Salem Morgan
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Capítulo 1
LYRA
O porão cheirava a podre e mofo. O cheiro era tão forte que grudava na pele, no cabelo e na respiração. Eu não queria estar lá embaixo. Mas quando você é a filha bastarda do lorde e o lembrete favorito da lady de tudo que ela odeia, você vai para onde mandam.
Não importa o quanto fede. Não importa o que espera no escuro.
Ela me odiava. Sempre odiou. Meu rosto, minha voz, meu jeito, o fato de eu estar viva. Mas principalmente, ela odiava o sangue no meu corpo. Eu era a prova de que o marido dela um dia quis outra pessoa.
Minha mãe. Uma mulher que ela odiava o suficiente para deixar morrer devagar. A doença tinha cura. O médico tinha sussurrado baixinho, quando achou que ninguém podia ouvir.
Mas ele recebia ordens, e a lady o mandou olhar para o outro lado. Minha mãe gritou por dias, até não gritar mais.
A doença me atingiu semanas depois. Eu deveria ter morrido também. Talvez eu tenha morrido, de certa forma.
A febre me esvaziou, deixando algo estranho para trás. Desde então, a dor tinha me abandonado. Calor, frio, pressão — eu sentia tudo, mas não dor de verdade.
Sabe, aquele tipo que atravessa você, que faz as pessoas gritarem ou se dobrarem. Tinha ido embora. Assim como ela.
Empurrei o balde para dentro do primeiro cômodo e recuei. O ar me atingiu com força — denso, azedo, velho.
Tinha gosto de velho, como se o ar tivesse sido exalado há cem anos e esquecido. Poeira cobria tudo como cinzas depois de um incêndio, e as teias de aranha pendiam como cortinas, cobrindo cantos onde a luz não alcançava.
Se eu conseguisse abrir a janela, talvez pudesse respirar de novo, nem que fosse só um pouco. Exigiu toda a minha força — mais do que deveria — forçar a moldura enferrujada a se mover.
As dobradiças gritaram em protesto, como se não quisessem ceder, mas finalmente uma fresta se abriu, e o ar frio entrou correndo como se estivesse esperando. Trazia o cheiro de terra molhada e do rio colina abaixo, um pouco doce por baixo do podre.
Quase o suficiente para me sentir humana de novo. Quase.
“Melhor continuar logo com isso” disse baixinho, mergulhando um pano na água morna. Minhas mãos se moviam sem pensar, repetidamente.
Movimento significava vida. Eu tinha aprendido a medir minha vida em movimento há muito, muito tempo: se eu estava esfregando, não estava morrendo. Se eu estava me movendo, ainda estava aqui.
Lá em cima, a mansão fazia barulho com atividade — bandejas tilintando, ordens sendo gritadas, criados correndo apressados. Estavam se preparando para algo grande.
Uma celebração, chamavam. Os convidados do Lorde Peter chegariam ao anoitecer — guerreiros voltando da guerra, homens que tinham sobrevivido a coisas terríveis que eu não conseguia imaginar.
Não que eu fosse vê-los. Não de verdade. A não ser que andassem por onde não deviam, tipo aqui embaixo.
Eu não via o que valia a pena celebrar na guerra. Nada sobre ela me parecia bom.
Mas não era meu lugar fazer perguntas. Nunca foi.
Arrastei o pano pela parede, vendo-o escurecer com a sujeira. O colchão estava cheio de buracos, o enchimento saindo como algo com as tripas rasgadas.
Me inclinando mais perto, cutuquei a costura — e algo correu pelo chão. Rápido demais para ver — rato, aranha, sombra. Minha respiração parou brevemente, depois voltou.
Ratos não me assustavam. Não como as criaturas do céu, aquelas que não piscavam quando matavam.
Empurrei o colchão para fora da estrutura fraca, e ele bateu no chão com um som pesado e abafado, liberando podre fresco. Senti náusea mas continuei.
O próximo cômodo era pior. O ar pressionava contra minha pele, minha lanterna mal cortando a escuridão.
Prateleiras alinhavam paredes tortas, carregadas de tranqueiras esquecidas. Tudo parecia errado. Como se algo antigo estivesse sentado nos cantos, esperando.
Mas eu não podia me deixar ter medo.
Joguei vidro quebrado, ferramentas enferrujadas, metal que eu não conseguia identificar numa pilha crescente. Minhas mãos não pararam até a prateleira do fundo, onde símbolos fracos tinham sido entalhados.
Não eram letras, mas formas que se moviam, mudavam. Meus dedos os tocaram, e um arrepio — não de frio — passou por mim. Algo observava.
Recuei com cuidado. O silêncio se enrolou ao meu redor, pesado e expectante.
“Só um porão” sussurrei, agarrando a prateleira e puxando ela para baixo. Ela caiu com estrondo. A lanterna tremulou, quase se apagando antes de voltar à vida.
Esperei. O silêncio voltou, mas não era um silêncio seguro. Tinha uma sensação.
Continuei me movendo e a pilha de tranqueiras cresceu, mas então — perto do fundo da última prateleira — eu vi. Uma caixa pequena e suja. Meio enterrada num ninho de arame enferrujado e pano rasgado.
Limpei ela e peguei. Era mais pesada do que parecia. Fria. O tipo de frio que não vinha de pedra ou metal.
A superfície estava entalhada com mais daqueles símbolos.
Eu deveria ter deixado ela. Não deixei.
Meus dedos se moveram antes que eu pudesse pensar, abrindo o fecho. A tampa se abriu com um rangido como se não tivesse sido tocada em cem anos. Talvez mais.
Dentro, pano dobrado. E embaixo dele, uma adaga.
Não era aço. Não era nada que eu já tivesse visto. Brilhava como líquido preso ao luar.
O cabo estava enrolado em algo que parecia errado. Como se lembrasse de coisas.
Eu não pensei. Não questionei. Minha mão simplesmente se moveu.
Deslizei ela para dentro do bolso do meu avental.
Era quase sem peso. Mas de alguma forma, puxava por mim. Mais pesada que minhas roupas. Mais pesada do que deveria ser.
Eu não sabia por que a guardei. Só guardei.
Meu coração bateu mais rápido enquanto olhava por cima do ombro para a porta, a sensação de estar sendo observada não indo embora nem um pouco. Pelo contrário, estava pior agora, mais pesada, como se as próprias paredes estivessem se inclinando para mais perto.
Mas eu tinha trabalho para terminar. Os guerreiros da lady chegariam em breve, e se os cômodos não estivessem prontos, ela me faria sangrar por isso.
Símbolos, sombras, lâminas estranhas — nada mudava o que eu era.
Uma criada. Uma bastarda.
Uma garota que sabia que não deveria procurar demais.
***
A pilha de tranqueiras cresceu enquanto eu trabalhava, cada pedaço quebrado servindo como um lembrete de quanto tempo esse lugar tinha sido esquecido. Poeira arranhava minha garganta, ardia meus olhos, e o ar úmido encharcava minhas roupas como se planejasse ficar.
Peguei uma vassoura velha e comecei a varrer, o som repetido de raspagem me acalmando.
Quando a maior parte da sujeira tinha ido embora, voltei minha atenção para as lanternas que tinha arrastado da casa principal mais cedo — amassadas, desemparelhadas, lascadas, mas funcionavam. Como eu, suponho.
Pendurá-las exigiu esforço. As paredes eram irregulares, os tetos baixos. Me equilibrei num banquinho fraco, torcendo para que os ganchos não tivessem enferrujado completamente.
A primeira lanterna acendeu com um chiado fraco, seu brilho alaranjado cortando a escuridão. Soltei o ar, testando o gancho. Uma pronta. Mais cinco para ir.
O hábito me fazia olhar por cima do ombro o tempo todo, mas cada vez era só eu e a tremulação da chama na pedra. O silêncio pressionava perto, denso e pesado, então comecei a cantarolar uma das velhas canções de ninar da minha mãe — suave, gasta pelas memórias.
Não espantava as sombras, mas me lembrava de quem eu era. De quem ela tinha sido.
Na última lanterna, o cômodo parecia quase habitável. Rústico, frio, mas não mais ativamente hostil.
Coloquei um balde fresco de água perto do terceiro cômodo, pronta para continuar, quando passos pesados ecoaram escada abaixo. Lentos. Pesados.
Não era a lady — os saltos dela tinham um ritmo hostil e maldoso que fazia a maioria de nós se encolher sem pensar. Isso era diferente.
Me endireitei imediatamente, alisando meu avental nervosamente.
A Sra. Branth saiu das sombras, parecendo ter sido esculpida em pedra.
“Lyra” ela soltou. “Quanto você terminou?”
“Só dois cômodos” disse, apontando atrás de mim. “O segundo foi devagar. Tem mais tranqueira do que eu esperava.”
Os olhos dela passaram pelas lanternas, o chão meio varrido, a pilha perto da porta. Ela fungou.
“Vai ter que servir. O lorde e a lady querem esses cômodos prontos dentro de uma hora.”
Abri a boca, depois fechei de novo.
Uma hora. Claro.
A Sra. Branth ergueu uma sobrancelha, como se tivesse ouvido meus pensamentos de qualquer jeito.
“Vou mandar uma das garotas mais novas para ajudar. Mas não espere milagres — estão todas correndo feito doidas com os preparativos do banquete. Você vai ter que se virar.”
“Sim, Sra. Branth.”
Ela ficou um segundo a mais do que precisava, me observando como se estivesse tentando descobrir se eu sobreviveria à noite. Então se virou e saiu, seus passos desaparecendo de volta no barulho lá em cima.
Assim que ela foi embora, soltei o ar devagar.
As tranqueiras esperavam. Assim como os entalhes que eu estava fingindo não ver.
Entrei de volta no cômodo, lanterna na mão. As sombras se moviam nos cantos como se tivessem respiração.
Como se me notassem. Mantive meus olhos no chão — não nas marcações, não no formato da lâmina no bolso do meu avental, puxando por mim como uma corda.
Mas eu não conseguia me impedir. Não de verdade.
Quando a pilha perto da prateleira do fundo foi limpa, afundei de joelhos atrás dela.
A adaga praticamente zumbia contra minhas costelas. Esperei só um segundo antes de puxá-la para fora.
Ela brilhava na luz da lanterna, lisa e luminosa. Os símbolos na lâmina combinavam com aqueles na caixa e na prateleira.
Girei ela devagar na minha mão, vendo-a capturar o brilho, e foi quando aconteceu —
Uma picada. Forte, súbita.
“Merda” sibilei, me afastando de repente.
Uma linha fina de vermelho apareceu na minha palma.
O corte era superficial, mas a sensação que seguiu não era. Não era dor. Não exatamente.
Era consciência. Como se algo antigo tivesse acabado de acordar dentro da minha pele, enrolando seus dedos nas bordas da minha mente.
Minha respiração prendeu. Por uma fração de segundo, o cômodo pareceu diferente. Mais brilhante e mais escuro ao mesmo tempo.
Então:
“Lyra?”
A voz da garota era suave, insegura.
Minha cabeça virou para a porta de repente, e me apressei para enfiar a adaga de volta no meu avental, enrolando o pano ao redor dela o mais rápido que pude.
“Aqui” chamei, limpando minha mão sangrando contra minha saia. “Cuidado com o vidro.”
Ela entrou no cômodo justo quando forcei meu rosto a ficar impassível. Meu coração estava disparado, mas sorri como se nada estivesse errado.
Porque o que quer que tivesse acabado de acordar aqui embaixo — não tinha terminado comigo.










































