
LILAC Irmandade 4: Uma Lembrança da Espanha
Author
Reads
114K
Chapters
42
Diferente
Livro 4: Uma Lembrança Espanhola
Excêntrica, diferente e desagradável são as três principais coisas que ouço sobre a minha personalidade. Não é o ideal, mas não posso dizer que fiz muito para mudar essas percepções ao longo dos anos. Cresci como filha única de dois pais supercontroladores e meio que simplesmente deixei isso acontecer.
Eu nunca fui como as outras pessoas da minha idade; sempre me senti atrasada. Meus pais dificultaram o aprendizado de como socializar. Eu não tinha permissão para assistir à televisão moderna ou ir para a escola quando era pequena.
Minha mãe me mantinha em seu escritório e me ensinava em casa até eu virar adolescente e lutar pela minha chance de ir para a escola. Papai disse à mamãe que era hora de me deixar ir, então entrei na cova dos leões pela primeira vez aos quinze anos. A escola já é assustadora o suficiente quando você tem habilidades básicas, mas eu não tinha nenhuma.
Antes disso, aprendi a conversar e socializar assistindo a dramas de época com a minha mãe. Digamos apenas que falar como se eu andasse com o Sr. Darcy não pegou muito bem com as crianças quando fui para o ensino médio. Levei alguns meses para descobrir o meu lugar.
Quando você é criança, é felizmente ignorante sobre o quão estranha você é. Às vezes, eu gostaria que ainda fosse assim. Acho que não percebi o quão pouco ortodoxa a minha criação realmente foi até entrar na faculdade. Tive muita dificuldade para me adaptar e até busquei a ajuda de um terapeuta.
Tenho uma boa noção de quem sou agora e por que sou do jeito que sou, mas isso não significa que não quero trabalhar em mim mesma. Agora que sou adulta, leio muitos livros modernos e assisto à televisão. Tenho a minha própria casa e muito mais controle sobre a minha vida do que quando eu era criança.
Até me sinto um pouco melhor socializando agora, especialmente em situações de negócios. Depois da faculdade, vim trabalhar na empresa da família, a Levine Souvenirs. Sempre amei o que meus pais fazem. Eles dão muita ênfase à família e à criação de memórias, e isso se reflete em todas as políticas da nossa empresa.
Eles estão vendendo um sonho que eu quero, e a empresa da família é tudo o que sempre conheci. O trabalho me proporciona um bom estilo de vida enquanto ainda tenho tempo para trabalhar em mim mesma e tomar atitudes para o meu futuro. Quando o negócio cresceu, meus pais me disseram para contratar uma assistente executiva.
Você pensaria que eu ficaria nervosa, mas eu sabia que a única pessoa com quem eu queria trabalhar era a Rhea. A única amiga boa de verdade que já tive é Rhea Lawson. Ela morava na minha rua e me convidou para brincar na casa dela quando éramos crianças.
Minha mãe deixava porque podia nos ver brincando pela janela para garantir que não estivéssemos fazendo nada que cruzasse os limites dela. Nenhuma TV ou videogame era permitido, mas nós brincávamos de pique-pega, caçávamos borboletas e coloríamos com giz de calçada. Felizmente, Rhea tinha diploma em administração, então, depois que lutei por um salário justo para ela, ela veio trabalhar comigo.
Rhea me entende porque ela é uma excluída à sua própria maneira. Ela é a mais nova de três filhos, e seus irmãos mais velhos sempre a mimaram. Claro, ela é linda e sabe conversar com as pessoas, mas ela teve dificuldades com as suas origens porque sua mãe é do Oriente Médio e se casou com um homem branco de cabelos loiros e olhos azuis.
Isso costumava ser um problema muito maior na sociedade do que é agora, então ela parece estar encontrando o seu caminho na vida, pelo menos bem melhor do que eu. No ano passado, fui promovida e agora estou apenas um passo abaixo dos meus pais. Rhea foi promovida comigo porque me recusei a trabalhar com qualquer outra pessoa, e ela realmente merecia o aumento salarial.
Agora, esta manhã, meus pais me chamaram para mais uma reunião e só posso imaginar sobre o que se trata. Continuo tentando me convencer de que eles são os meus pais e não deveria ter medo ou me sentir intimidada, mas estou apavorada. Minha criação rígida fez com que eles esperassem demais de mim.
Eles tentaram me moldar em algo que nunca poderei ser. Simplesmente não é alcançável. Sem nem perceber, me vejo andando de um lado para o outro no pequeno espaço em frente à minha mesa. Isso não pode continuar acontecendo. Preciso me impor e parar de deixar meus pais me controlarem.
— Calah, você está bem? — Rhea pergunta, olhando para mim da cadeira de sua mesa do outro lado da sala. Seus olhos castanho-claros parecem calorosos e reconfortantes.
— Ah, estou maravilhosa, minha querida. Só estou um pouco perdida em pensamentos — minto, enquanto me forço a parar de andar de um lado para o outro.
— É hora de ir para a sua reunião — ela me lembra com um sorriso. — Quer que eu vá com você para fazer anotações?
— Não, está tudo bem. Estou indo em uma missão para enfrentá-los — digo, porque uma vez que disse isso em voz alta, sinto que é mais provável que eu vá em frente.
— Bem, boa sorte. Sabe que estou aqui para você — diz ela, sorrindo.
O sorriso dela é genuíno e encorajador. Rhea é adorável. Ela é tão baixinha e animada que instantaneamente me faz sentir melhor. É difícil me sentir estressada com ela por perto, porque sei que ela me apoia.
— Obrigada, Rhea.
Depois de reunir minhas coisas, respiro fundo e caminho pelo longo corredor até o escritório dos meus pais. Este é o corredor mais longo do mundo. Entender tudo com o meu terapeuta me fez ter ressentimento dos meus pais.
Não consigo evitar a sensação de que estou marchando para a minha ruína. Claro, é fofo que eles ainda estejam apaixonados e dividam um escritório, mas não consigo evitar a sensação de que guardaram toda a doçura um para o outro e não recebo nada além de amor duro. Quando abro a grande porta de madeira rangendo, minha mãe pula de pé e vem me abraçar.
— Mãe, nós nos vemos todos os dias — protesto.
Fico rigidamente imóvel enquanto ela envolve os braços ao meu redor. Não consigo evitar. Entrei aqui soltando fumaça e preciso manter a minha coragem.
— Apenas dê um abraço na sua mãe. Não custa nada — repreende o meu pai de trás de sua grande mesa.
Passo os braços em volta dela e forço um sorriso antes de me sentar na cadeira em frente ao meu pai. Minha mãe se junta a mim. Já sinto que estou prestes a perder o controle, e eles ainda nem começaram a me dizer o que está acontecendo.
As tensões entre os meus pais e eu têm ameaçado transbordar desde que decidi me mudar para o meu próprio apartamento no ano passado. Não consigo mais lidar com o silêncio, então decido dar o pontapé inicial. Quanto mais penso nisso, mais provável é que eu enlouqueça.
— Sobre o que queriam se reunir hoje? — pergunto.
— Sua mãe e eu vamos sair do país por um tempo. Temos uma oportunidade que não podemos deixar passar — o papai explica.
— O quê? Onde? — pergunto sem fôlego.
As palavras são lançadas para fora e sei que não estou sendo muito profissional, mas não consigo evitar. Estou realmente chocada. Se eles acham que vão sair por aí passeando e me deixar aqui com toda essa papelada, estão muito enganados.
— Nós vamos para a Espanha. Conseguimos garantir uma reunião com uma família que é dona de um grupo de resorts de luxo — o papai continua. Ele parece feliz. As linhas ao lado de seus olhos se enrugam quando ele sorri.
— Tornar-se internacional não será um grande empreendimento? — pergunto. Sei que eles sabem o que estão fazendo na maior parte do tempo, mas não consigo deixar de me preocupar que serei a única deixada aqui segurando essa barra.
— Sim, é um grande negócio. É por isso que vamos para a Espanha, querida, e precisamos ficar até que o acordo seja fechado — minha mãe acrescenta com um sorriso tão suave quanto a seda. Isso meio que me dá arrepios.
Sinto que estava apenas começando a exercer algum controle sobre a minha própria vida. Finalmente me sinto confortável no meu apartamento e tenho trabalhado no meu relacionamento com Rhea.
Estou trabalhando para melhorar a minha vida, e agora eles vão me deixar aqui com toda essa responsabilidade. Não tenho tempo para gerenciar tudo o que eles fazem e também tudo em que estou trabalhando.
— E se eu for para a Espanha? Eu fecho o acordo — solto sem pensar. Não sei de onde isso veio, mas agora já saiu.
— Calah, você não está pronta para isso. Não podemos confiar no seu julgamento em um país estrangeiro! — minha mãe repreende. Ela parece uma gata pronta para dar o bote.
A reação dela serve apenas para acender a minha ira, então me viro para ela. — Eu consigo fazer isso. Eu abri mão da minha infância e de qualquer aparência de uma criação normal apenas para poder fazer isso, certo?
Dou um sorriso atrevido à minha mãe. Sei que estou sendo uma merdinha sarcástica, mas a verdade é que, agora, eu não me importo.
— Calah Elise! — o papai grita com a sua típica “voz de pai”. Acho que o meu tom não passou despercebido por ele, mas não há mais volta agora.
Na dúvida, queime tudo. Hora de usar a tática de terra arrasada nesta reunião agora mesmo. Eu tenho que sair daqui.
— Vou para a Espanha ou estou fora da empresa — anuncio.
— Do que você está falando? — a boca da minha mãe se abre de choque. Ela passou de gata a peixinho dourado em exatos vinte segundos.
— Por favor, me avisem da sua decisão até o final do dia. Bom dia — digo no tom mais neutro que consigo antes de me levantar e sair do escritório.










































