
Minta para Mim
Capítulo 2
Na manhã seguinte, me arrumei para a reunião. Vesti meu terno azul-marinho com saia lápis.
Usei quase nenhuma maquiagem. Só passei delineador preto, rímel e um pouco de batom rosa. Estava bem diferente de como estava na noite anterior.
Vinha trabalhando nesse caso no último mês. Meu chefe, Jacob Kline, tinha me passado. Ele era um dos sócios do escritório.
Meu escritório trabalhava para as pessoas que estavam vendendo o StarFish Inn. A pousada estava vazia nos últimos cinco anos. Mas ficava numa propriedade de praia muito boa.
Recebemos mais de cinquenta ofertas pela pousada. Mas meus clientes eram difíceis de lidar. Diziam que iam reconhecer o comprador certo na hora que o conhecessem. Aí sim venderiam.
O problema era que a pousada estava na família deles havia três gerações.
Meus clientes não estavam felizes. Todas as ofertas queriam demolir a pousada completamente. Queriam construir prédios altos de apartamentos ou hotéis chiques no lugar.
Eu realmente queria atuar em direito civil. Mas tinha que admitir que gostava da emoção de fechar uma venda quando se tratava de direito imobiliário.
Estava até curtindo meu tempo trabalhando no departamento do Sr. Kline. Mas tinha problemas com o próprio Kline.
Despejei meu café numa xícara para levar comigo. Não me surpreendi ao ver a porta do quarto da Heather ainda fechada.
Pedi um Uber no celular. Era assim que eu costumava me locomover. Enquanto esperava, li sobre o comprador que estava prestes a conhecer.
North Shore Investments. Não tinha ouvido falar deles antes, então pesquisei.
Pareciam ser uma empresa bem nova. Tinham começado no último ano. Então não havia muita informação sobre eles online.
Vi que pareciam estar comprando todos os hotéis antigos perto da praia nos últimos meses. Interessante. A North Shore Investments tinha dinheiro.
Heather me ligou quando eu estava no Uber. Isso interrompeu minha pesquisa.
“O Justin vai me levar para Bermuda por uma semana de presente de aniversário!” ela quase gritou no telefone de tanta empolgação. Isso me fez afastar o celular da orelha.
“Que ótimo” falei para ela. “Quando vocês vão?”
“Hoje! Ele não é demais?”
Era mesmo. Até eu tinha que admitir que Justin era a melhor coisa que tinha acontecido com a Heather.
Ele podia parecer meio bruto, mas tratava a Heather como se ela fosse o mundo dele. Eu tinha um pouco de inveja do relacionamento deles.
Balancei a cabeça para mim mesma. Não podia pensar em amor ou relacionamentos.
Minha vida já era difícil demais. Com meu trabalho, mal tinha tempo de ir à academia. Tinha ainda menos tempo para entrar num relacionamento.
Além disso, eu conseguiria ser eu mesma de verdade? Quem era ela, afinal? Às vezes sentia que tinha deixado meu verdadeiro eu lá em casa, no Arizona.
“Sloane? Tá aí?”
A voz da Heather me trouxe de volta ao presente.
“Estou tão feliz por você, Heather. Se diverte, tá?” falei para ela. Era sincero.
“Obrigada, amor. E boa sorte hoje!”
Nos despedimos e desligamos. O Uber estava parando na frente do meu prédio no centro da cidade.
Peguei o elevador até o quinto andar. Dei um oi rápido para a Lynn, a recepcionista. Depois fui para minha mesa.
Estava olhando o arquivo quando senti uma sombra escura sobre mim.
“Precisa que eu participe dessa, Sloane?”
Olhei para cima e vi meu chefe, Jacob Kline, encostado no meu cubículo. Senti irritação por dentro. Jacob Kline era casado. Estava no final dos quarenta. A cabeça estava ficando careca. Era um tarado completo.
Se eu não soubesse que ele tinha dado em cima de metade das funcionárias, podia até achar ele meio atraente. Ele tinha dado em cima de mim uma vez. Eu tinha recusado educadamente.
Ele tinha sido babaca comigo desde então. Mas isso não impedia o jeito que os olhos dele olhavam meu corpo como se estivesse pensando sacanagens.
Dei um sorriso falso para ele.
“Estou bem, Sr. Kline.”
“Tem certeza?” ele perguntou de novo. Os olhos dele desceram para minhas pernas, que estavam cobertas por meias finas. “Você está trabalhando nesse caso há muito tempo. Já devia ter fechado isso.”
Fechei o arquivo e me levantei para encará-lo. Não gostava de me sentir fraca sentada com ele em pé sobre mim.
“O senhor sabe que foi decisão do cliente, Sr. Kline” falei calmamente. “Mas vou fazer o meu melhor para convencê-los a fechar esse.”
Ele assentiu, depois lambeu os lábios e foi embora. Respirei aliviada quando meu telefone tocou.
Eram meus clientes. O voo deles tinha atrasado na Europa. Não conseguiriam vir para a reunião da manhã.
Me contaram o que achavam da proposta da North Shore. Fiquei surpresa que estavam realmente considerando com cuidado. Só tinham algumas preocupações.
Passei mais dez minutos com eles no telefone, anotando. Depois respirei fundo. Peguei o arquivo e meu bloco de notas e fui para a sala de conferências.
Havia dez outros advogados comigo nesse andar. Mas geralmente ficávamos longe uns dos outros. Era um lugar muito competitivo.
A menos que estivéssemos trabalhando num caso juntos, geralmente nos mantínhamos isolados. Na verdade, eu não me importava com isso. Além disso, fazer amigos não era importante para mim.
Ser uma advogada de sucesso era importante.
Dei um passo pela grande porta de carvalho e parei de repente. Isso fez minha caneta cair no chão acarpetado e rolar silenciosamente.
Roman Braga estava sentado na cabeceira da grande mesa de conferências. Dois homens estavam de cada lado dele. Mas ele se levantou quando entrei.
Não tinha certeza de quem parecia mais surpreso.
Ele estava de terno cinza dessa vez e camisa branca aberta no colarinho. Sem gravata. O cabelo estava bagunçado como se tivesse acabado de sair da cama.
Me dei uma sacudida mental no rumo que meus pensamentos estavam tomando.
“Sr. Braga.” Recuperei minha compostura rapidamente. Mas não consegui controlar as batidas rápidas do meu coração no peito. Assenti para os outros homens enquanto caminhava para a outra ponta da mesa.
Não ousava ficar perto dele. Ele já era distraente o suficiente de longe.
Mas parecia que ele tinha outras ideias.
“Sloane St. James, presumo.” Aquela voz rouca soou divertida de novo enquanto ele dava dois passos que o colocaram na minha frente.
Estendi a mão profissionalmente e observei aquela sobrancelha escura se erguer de forma zombeteira.
“Advogada” acrescentei, observando os lábios dele se abrirem num sorriso enquanto pegava minha mão na dele. Ofeguei com aquela faísca de contato e soltei a mão dele como se estivesse queimando.
“Finalmente sei seu nome” ele sussurrou para que só eu ouvisse.
Me virei para a mesa e alisei minha saia enquanto sentava.
“Podemos começar?” perguntei, ignorando a declaração dele. Abri meu arquivo. Meu coração pulou uma batida quando Roman pegou o assento à minha esquerda.
“Por favor, Srta. St. James” ele respondeu. Juntou as mãos sobre a mesa e me olhou como se estivesse esperando.
“Presumo que seja dono da North Shore Investments.”
Como não tinha conectado os pontos? Já sabia que ele era empresário do ramo imobiliário. Me dei um chute mental.
Ele deu de ombros. Claramente não sabia da minha luta interna. “Sou dono de muitas empresas de investimento. Mas sim, a North Shore é uma delas. Gibbons e Toby ali são parte da minha equipe jurídica.”
Gibbons e Toby, que estavam estranhamente quietos, apenas deram um aceno rápido de concordância.
“Não há registro de que seja dono da North Shore” falei de repente.
Os olhos dele brilharam. “Você me pesquisou.” Era uma afirmação, não uma pergunta.
“Fiz minha pesquisa” corrigi rapidamente.
Limpei a garganta para me controlar e olhei para minhas anotações.
“Infelizmente, o voo dos meus clientes atrasou, então não puderam vir esta manhã. Mas revisaram a proposta e têm algumas preocupações com sua oferta” comecei.
De repente senti calor e quis puxar a gola da minha blusa de gola alta.
Tentei me livrar do problema.
“Sr. Braga, não há necessidade de estar aqui. Tenho certeza de que tem muitas coisas importantes para resolver, e seus advogados e eu podemos...”
“Cuido de todos os meus investimentos pessoalmente, Srta. St. James” ele interrompeu suavemente. “Minha equipe jurídica está aqui como formalidade, só isso.”
“Entendo.” Pensei nisso. Sabia que não havia jeito de o Roman deixar a propriedade dos meus clientes do mesmo jeito.
Ele era conhecido por comprar propriedades, demolir e vender por partes, ou construir hotéis chiques como o Aluxor. Isso não ia funcionar.
“Sinto muito, Sr. Braga, mas não acho que meus clientes estejam interessados em vender para a North Shore Investments.”
Observei ele franzir a testa enquanto pensava em mim. Depois a expressão dele ficou cuidadosamente neutra.
“Acho que não está entendendo, Srta. St. James, mas pretendo ter aquela propriedade. A qualquer custo.”
Lá vinha ele de novo com aquela atitude mandona que imediatamente me deixava irritada.
“E como acabei de dizer, Sr. Braga, meus clientes não vão vender para o senhor.” Deixei minha voz firme quando na verdade queria me contorcer sob seu olhar intenso.
A sala ficou em silêncio por um minuto inteiro. Parecia que até seus advogados tinham medo de fazer um som.
“Podem nos deixar a sós, por favor?”
Gibbons e Toby não hesitaram ao comando dito suavemente. Pegaram suas coisas e se levantaram rapidamente.
“Não, não. Estou indo embora. Desculpe ter desperdiçado seu tempo, Sr. Braga.” Fechei o arquivo e empurrei minha cadeira para trás.
“Sente-se, Sloane.” A voz dele ganhou um tom duro que me fez sentar lentamente na cadeira de novo.
Ele esperou até a porta fechar com um clique, nos deixando sozinhos, antes de sua expressão mudar. Recostou-se na cadeira, me observando com apreciação.
“Primeiro as primeiras coisas, Sloane” ele disse suavemente. “Tenho que dizer que essa é uma surpresa inesperada, ver você. Alguns podem chamar de destino.”
Conseguia ouvir o calor na voz dele e uma onda de prazer passou por mim. Mas não podia deixar isso me afetar, deixar ele me afetar, então reprimi.
“Sou advogada. Lido com fatos. Não acredito em destino, Sr. Braga.” Cruzei as pernas nervosamente, fazendo o olhar dele se mover em direção a elas.
Ele apertou os lábios. “Bom, que pena.” Encontrou meus olhos de novo. “Jante comigo hoje à noite.”
Ofeguei. “Está louco? É um cliente, Sr. Braga.”
“Então vamos fazer um jantar de negócios” ele respondeu com um leve dar de ombros. “Pode me contar todas as preocupações dos seus clientes então.”
“Acho que é uma péssima ideia.”
“Acho que é uma das minhas melhores ideias” ele rebateu.
“Não misturo negócios com prazer, Sr. Braga.”
“Me chame de Roman. E fico feliz que ache que estar comigo é prazeroso” ele disse.
Revirei os olhos e respirei fundo, me acalmando. Meu Deus, ele era desarmante.
Balancei a cabeça firmemente. “Não.”
Ele se inclinou para mim então, nos aproximando muito. Minha pele formigou em consciência.
“Me diga que não sente, Sloane.” A voz dele estava urgente. Dava para ver que estava se segurando. Parecia que queria me agarrar. Eu deixaria? Estava indecisa.
Mas depois de hoje não ia vê-lo de novo, então decidi ser honesta.
“Sinto, Roman. Mas isso não significa que tenho que agir” admiti suavemente.
Uma batida na porta me fez pular.
Ele suspirou com a interrupção.
“Vou entrar em contato.” E sem mais uma palavra, se levantou, abriu a porta e saiu da sala.
Só consegui encarar a porta numa mistura de confusão e algum outro sentimento que não conseguia descrever.
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