
Minta para Mim Livro 5: Mentiras em Cativeiro
Author
Shala Mungroo
Reads
319K
Chapters
51
O Começo do Fim
Livro 5: Mentiras Cativas
KAIA
PARTE UM
CINCO ANOS ATRÁS (Kaia aos Dezoito Anos)
“Kaia, anda logo!” A voz de Irina ecoou pelo corredor.
Fechei o laptop depressa, me virando bem na hora em que minha irmã, Irina, entrou correndo no quarto que a gente dividia. As bochechas dela estavam coradas e os olhos brilhavam de animação.
Irina era quatro anos mais nova que eu. Aos quatorze, ainda estava se acostumando com o corpo alto e magro. O cabelo loiro, igualzinho ao meu, estava em tranças que caíam sobre os ombros finos e o macacão jeans.
Os olhos azuis eram arregalados e ainda tinham aquela inocência de criança, algo que eu tinha perdido fazia tempo. Ela era a minha cara quando eu tinha a idade dela, ou melhor, a cara da nossa mãe, Yana.
Todas nós agradecíamos por não nos parecer com o homem que era nosso pai. Akim Rostov era um Vor, um dos homens de maior confiança do pakhan.
Ele era quase sempre cruel, escolhendo a violência em vez de resolver as coisas de forma pacífica. A amizade próxima com o pakhan lhe dava um lugar na Mesa Alta, um grupo dos homens mais poderosos da Rússia.
Esse lugar lhe dava mais poder do que ele sabia usar. Mas para nós, ele era o homem que nunca nos reconheceu como filhas. Ele olhava através da gente como se não existíssemos, mas nos mantinha perto o suficiente para nos vigiar.
Ele nos usava para controlar Yana, caso ela tentasse ir contra ele. Yana trabalhava na casa dos Rostov desde os dezesseis anos. O cabelo dourado e o corpo curvilíneo, que herdei dela, tinham chamado a atenção de Akim mesmo sem ela querer.
Quando ele a chamava para o quarto, ela não podia recusar sem perder o emprego e trazer vergonha para a família. Foi assim que Irina e eu nascemos.
Nascidas em segredo, sem pai para nos assumir. A única coisa que nos ligava ao nosso pai era o nome dele nas nossas certidões de nascimento. Era a única coisa que Yana tinha exigido.
Ela esperava que um dia o nome Rostov nos desse algum tipo de proteção, mesmo que para todo mundo tivéssemos o sobrenome da minha mãe, Smirnova.
A esposa de Akim Rostov sabia das traições do marido e escolhia ignorar. Eu percebia pela maneira como olhava para Irina e para mim que ela sabia que éramos filhas do marido, mas nunca nos tratou mal.
Às vezes, eu achava ver um olhar de desejo nos olhos dela quando olhava para nós. Talvez porque ela não conseguia ter filhos com o marido. Ela morreu durante o parto, e Akim nunca se casou de novo.
Yana acreditava que a única razão pela qual ele não mandou nos matar era porque éramos parte dele. Ele uma vez disse a ela que encontraria alguma maneira de nos usar mais tarde.
Então, ele nos deu uma casinha perto da grande mansão onde vivíamos em segredo, e minha mãe continuou trabalhando para ele. Se os funcionários sabiam quem realmente éramos, nunca disseram nada.
O temperamento ruim de Rostov era bem conhecido, e qualquer conversa sobre filhos fora do casamento certamente o deixaria furioso. Então, fazíamos o que tinha que fazer para sobreviver. Fingíamos que ele também não existia para nós.
Irina puxou meu braço, tentando me tirar da cadeira.
“Tem uma festa na casa do Papa! Vamos ver!”
Parei na hora e dei a ela meu melhor olhar de irmã mais velha irritada, feliz por ela não ter perguntado sobre o que eu estava fazendo no laptop que tinha comprado algumas semanas atrás depois de economizar para um usado.
“A gente não deve chamar ele assim” disse com firmeza.
Ela soltou meu braço e pareceu chateada.
“Mas ele é.” Ela fez biquinho.
Respirei fundo e soltei o ar, olhando para a expressão teimosa no rosto dela. Eu sabia que ela ia crescer para ser uma pessoa forte.
Se ao menos ela conseguisse aprender a controlar a raiva. Ela não gostava de receber ordens, especialmente se não fosse justo. Eu gostava de pensar que ela herdou isso de mim.
Estendi a mão e coloquei no ombro dela, apertando de leve.
“Se alguém ouvir você chamando ele assim, você pode colocar a Mama em apuros” disse. “É isso que você quer?”
Ela balançou a cabeça rapidinho, o rosto de repente parecendo preocupado.
“Tudo bem.” Me endireitei, levantando uma sobrancelha. “Como você descobriu sobre a festa na casa? Andou se esgueirando com Ilya de novo?”
Ilya era filho da cozinheira dos Rostov, Ida, e estava na mesma turma que Irina. Ele seguia ela como um cachorrinho apaixonado desde pequenos, e os sentimentos só ficaram mais fortes conforme cresceram.
Um rubor subiu pelas bochechas de Irina, e ela de repente pareceu tímida.
“A gente estava só andando perto do lago e viu as tendas sendo montadas” disse. “Ilya disse que a mãe dele estava cozinhando para cem pessoas. Ele disse que o Pai estava ficando noivo.”
As palavras dela me deixaram tensa.
Conversas sobre nosso pai se casar de novo circulavam desde que éramos crianças. Mas nunca tinha realmente acontecido, então essa notícia era surpreendente.
“E daí se ele está?” respondi. “Não muda nada para a gente, muda?”
Irina brincou com a ponta da trança, mordendo o lábio inferior.
“E se ela tiver filhos? E se a gente tiver irmãos e irmãs...”
Puxei a mão dela para longe da trança, e ela fez um pequeno som de dor quando meu aperto ficou mais apertado.
“Chega” disse, minha voz firme. “Se você chamar ele de Pai de novo, vou contar para a Mãe.”
Os olhos de Irina se arregalaram. Ela odiava deixar a Mãe chateada, então assentiu rapidinho.
Irina queria a atenção da Mãe, mas eu achava que a Mãe tinha dificuldade em olhar para nós. Então, acabei cuidando de Irina enquanto a gente crescia, enquanto a Mãe passava o tempo na casa dos Rostov.
“Tá bom, tá bom” ela finalmente disse baixinho.
Soltei um suspiro de alívio, um pequeno sorriso vindo aos meus lábios quando pensei em uma maneira de fazê-la se sentir melhor.
“Vamos ver se Ilya consegue roubar um pouco de medovik para a gente antes que acabe tudo.”
Exatamente como eu esperava, ela sorriu, pegando minha mão.
Juntas, saímos da casa, subindo a colina em direção à grande mansão onde dava para ver muita movimentação.
Os guardas conheciam todos os filhos dos funcionários, então passamos pela porta dos empregados sem ninguém nos parar.
Caminhamos até o quartinho onde Ilya sempre se escondia para ler. Outras crianças zombavam dele por amar livros, então ele passava a maior parte do tempo ali.
Na maioria das vezes, eu encontrava Irina lá com ele, ouvindo ele falar sobre os livros que tinha lido.
Vi dois guardas nos encarando de jeito ruim enquanto passávamos. A gente tentou ao máximo não olhar para eles.
Era por isso que eu odiava vir aqui e vinha cada vez menos. Nos últimos anos, eu sentia os olhares demorados dos homens e tinha medo de que um dia não conseguisse passar por eles. Felizmente, eles tinham medo do que Akim poderia fazer se nos tocassem.
Todo mundo sabia que Yana costumava ser a amante favorita de Akim, o que fazia as pessoas se perguntarem se éramos filhas dele. Ninguém ousava dizer em voz alta, mas era nossa única proteção.
“Não quero que você venha aqui sem mim ou Ilya, entendeu?” sussurrei para Irina, que revirou os olhos.
Puxei a mão dela para chamar a atenção. “Me promete, Irina.”
“Tá bom, tá bom” ela reclamou enquanto chegávamos no quartinho.
Ilya estava sentado de pernas cruzadas num catre, lendo um livro. O cabelo preto caía sobre os olhos. Para um garoto de quatorze anos, ele já era alto, os ombros ficando mais largos a cada dia.
Eu não tinha dúvidas de que ele seria popular com as garotas em breve. Talvez até com Irina, pelo jeito que ela estava olhando para ele.
Ele levantou o olhar quando entramos. “Oi, mishka.” Os olhos verdes de Ilya pareciam brilhantes enquanto Irina empurrava o quadril dele, sentando ao lado dele na cama.
“Você consegue pegar um pouco de medovik para a gente?” Irina piscou os cílios grossos para ele, e revirei os olhos quando as bochechas de Ilya ficaram rosadas.
“Claro” Ilya disse, já se levantando.
BOOM!
De repente, uma explosão alta soou, seguida de tiros rápidos.
Ilya rapidamente colocou a mão sobre a boca de Irina quando ela estava prestes a gritar, balançando a cabeça para dizer a ela para ficar quieta.
“Rápido, debaixo da cama!” O sussurro dele era urgente, e não pensei duas vezes. Agarrei o braço de Irina e a puxei para o chão comigo.
Ilya já estava se movendo em direção à porta quando a voz de Irina chamou. “Ilya, não vai!”
Ele parou, virando para dar a ela um sorriso reconfortante. “Volto logo, mishka.”
Com isso, ele saiu pela porta, fechando com força atrás dele.
O som dos tiros estava mais perto agora, me fazendo pular a cada disparo. Coloquei minhas mãos sobre a cabeça de Irina, como se isso pudesse de alguma forma mantê-la segura.
“A gente não pode ficar aqui” disse a ela, sabendo que estaríamos presas se ficássemos. “A gente precisa encontrar a Mama!”
Antes que eu pudesse sequer me levantar, Ilya estava de volta, o braço estendido, acenando para seguirmos. “Vamos!”
Sem pensar duas vezes, seguimos ele.
“Onde está a Mama?” Irina perguntou, a voz tremendo.
Ilya apenas balançou a cabeça, não parando enquanto a gente se movia ao longo da parede.
A casa estava cheia do som de passos pesados enquanto guardas, carregando muitas armas, corriam para fora. Ilya rapidamente nos empurrou para dentro de um armário de vassouras, esperando até que os guardas se fossem antes de nos levar em direção à adega, onde Akim guardava os vinhos caros e carnes curadas.
“Por aqui” Ilya sussurrou, apontando para uma porta nos fundos. “Tem um túnel. Sigam por cerca de meia hora e vocês chegam na vila.”
A mão de Irina disparou, agarrando a manga dele quando as palavras fizeram sentido para ela. “Você não vem com a gente?”
O olhar de Ilya ficou mais suave, o sorriso parecendo triste. Ele passou o dedo de leve pela bochecha dela. “Estarei logo atrás de vocês, mishka” disse.
Ele me deu um aceno rápido. Peguei Irina pela cintura e a puxei para longe da porta bem na hora em que Ilya a fechou com força. O som da tranca clicando no lugar ecoou na adega.
O grito de Irina cortou o silêncio. “Não! Ilya!”
Mas mantive meu braço em volta da cintura dela, arrastando ela enquanto chutava e gritava. As unhas cravaram nos meus antebraços, e lágrimas corriam pelo rosto dela.
Só quando chegamos na vila percebi que eu também estava chorando.












































