
No Calor
Author
Abigail Lynne
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Chapters
28
Capítulo Um
Livro Quatro: No Calor
‘A Guerra Feral acabou. Tyler, que tem sido o Alfa e um guerreiro desde o começo, volta para casa para uma matilha que desconfia dele, um beta com sede de poder e um assentamento humano próximo que está causando tensão. Ele não sabe em quem confiar, está de luto por sua companheira perdida e precisa de uma nova luna para ajudá-lo a liderar.’
***
‘Tyler recorre a Caroline, a única outra integrante da matilha que consegue entender sua dor. Mas, à medida que o frágil tratado de paz entre humanos e lobisomens coloca a segurança da matilha em risco, Tyler e Caroline percebem que o “acordo” deles está fadado ao fracasso — a menos que consigam acender uma paixão que estava adormecida há muito tempo.’
Caroline Ryder
Respirei fundo, mas o ar estava úmido demais para encher meus pulmões direito.
O ar ficava preso na minha garganta e nos meus pulmões antes de conseguir chegar às partes do meu corpo que mais precisavam dele. Como as minhas pernas. Elas estavam queimando de dor.
Encostei dois dedos na garganta, contando minha pulsação mais por hábito do que por qualquer motivo real.
Checar minha pulsação depois de correr era mais para me acalmar do que por motivos de saúde. Eu nem sabia qual deveria ser o meu ritmo cardíaco.
Estiquei os braços acima da cabeça, admirando a vista.
Eu estava na beira de um grande penhasco na encosta do Monte Timbre, olhando para o Vale Blue Maple. A montanha era território dos lobos; o vale era uma mistura.
Eu geralmente ficava na montanha.
Eram apenas dez da manhã, mas o calor já estava intenso.
Este verão tinha começado com uma onda de calor de duas semanas que deixou a maioria das pessoas deitada com um copo de limonada equilibrado no peito.
Limpei o suor da testa e soltei um longo suspiro. A dor aguda na minha garganta e no peito estava começando a passar enquanto eu ficava ali.
Acompanhei com o olhar as linhas das árvores, colinas e outras montanhas que se estendiam pelo céu azul.
Sem nenhuma nuvem para bloquear o sol, tive que proteger os olhos para seguir o caminho do rio, que cortava o coração do vale.
Eu corria bastante, e dava tiros de velocidade mais ainda. O exercício era a única coisa que mantinha minha mente clara.
Se eu ficasse muito tempo sem sentir aquela dor ardente no peito, o mesmo sentimento rastejava para dentro da minha mente e bagunçava tudo. Era melhor correr sempre do que tentar correr atrás do prejuízo depois.
A montanha onde eu morava tornava a corrida um desafio. Eu gostava disso.
Toda manhã, eu pulava riachos, desviava de galhos baixos, contornava pedras grandes e evitava buracos e quedas bruscas.
Obstáculos eram outra boa maneira de afastar minha mente de pensamentos pesados.
Fechei os olhos por um instante, respirando o ar pesado, e me permiti pensar nele por apenas um momento doloroso.
Quando abri os olhos, o momento tinha passado, e todos os pensamentos tinham fugido da minha mente, exceto um: ir para casa.
Virei as costas para o vale e comecei a andar num ritmo constante, sem acelerar até sentir que minhas pernas estavam aquecidas.
Corri o mais rápido que pude até chegar ao limite da minha propriedade, diminuindo para uma caminhada ao entrar no quintal dos fundos.
Minha mãe estava cuidando do seu pequeno jardim, com as mãos e o rosto sujos de terra.
Ela olhou para cima quando saí do meio das árvores, sorrindo. Rugas se formaram nos cantos dos seus olhos enquanto ela vinha até mim, guardando as luvas no bolso da frente do macacão.
“Até onde você correu, Caroline?”
Dei de ombros, beijando sua bochecha. “O lugar de sempre.”
Minha mãe tocou meu cotovelo. “Libby e Mick passaram aqui.” Ouvir isso sempre me dava a sensação de que havia gelo correndo pelas minhas veias.
Olhei para os fundos da minha casa por um momento antes de me forçar a sorrir. “Eles estão lá dentro?”
Minha mãe era a única que conseguia me decifrar. “Oh, Caroline. Você não precisa entrar, pode sair. O Mick vai entender; você sabe que ele entende.” Ele não entendia.
Mordi a parte de dentro da bochecha. “Mãe, pare de se preocupar. Eu estou bem.”
Só para provar isso a ela, fui para a varanda dos fundos. Subi os degraus com todo o entusiasmo falso que consegui reunir antes de abrir a porta de tela e deixá-la bater atrás de mim.
Senti o cheiro deles quase na mesma hora. Companheiros têm um cheiro único. O cheiro dos dois se mistura para formar um só, embora o cheiro do macho seja sempre mais forte.
Libby e Mick tinham uma mistura estranha de cheiro de lilás e menta.
Me apoiei nas costas do sofá por um instante antes de me endireitar e ir em direção à cozinha. Eu ouvia as vozes deles, mas as risadas pareciam socos no meu estômago.
Eu amava o meu irmão, mas vê-lo com sua companheira era quase insuportável.
“Caroline!” Mick exclamou, correndo para me abraçar. Por cima do ombro dele, vi Libby. Ela me olhou nos olhos por um breve momento antes de desviar o olhar e se virar.
Senti uma onda de calor no estômago. Eu queria ser forte o bastante para ficar perto dela, mas ela era um lembrete constante do que eu não tinha. Eu me odiava por ter ressentimento dela.
Me virei para Mick, colocando um sorriso no rosto. Era uma emoção que eu sabia fingir, mas tinha esquecido como sentir.
“Micky”, eu disse docemente. “Quanto tempo! Como você está?” Fazia tanto tempo porque eu tinha fugido dele na última vez que ele veio nos visitar. Mick tinha entendido a mensagem que eu nunca quis enviar.
Se o Mick estava pensando a mesma coisa, não demonstrou. “Nós estamos muito bem, Care, muito bem.”
De alguma forma, consegui não demonstrar dor. Companheiros têm um jeito próprio de falar. É quase sempre no plural e com certeza é subconsciente.
“Que bom”, eu disse a ele. Ignorei a sensação de uma faca girando nas minhas costelas e sorri mesmo assim.
Ouvi um bufo vindo da minha esquerda. “Bom seria se eu já tivesse alguns netinhos.” Meu pai estava sentado no balcão, com um sorriso agradável no seu rosto simpático.
O cabelo do meu pai era totalmente prateado e tinha sido assim desde que ele era adolescente. Por incrível que pareça, isso o deixava mais bonito do que velho.
Mick abriu um sorriso. “Estamos tentando, pai.”
O rosto da Libby ficou vermelho, fazendo seu cabelo loiro parecer mais escuro. “Mick”, ela repreendeu.
Mick estava empolgado com a ideia. “Eu não aguento mais esperar para começar uma família. A Lib e eu já começamos a falar sobre nomes e tudo mais.”
Eu não sabia dizer se foi aquele sorriso de sempre ou o jeito que os olhos escuros dele brilharam que me fez sair da sala, mas eu saí.
“Puta merda”, Mick murmurou baixinho, “eu sempre esqueço.” E ele sempre esquecia mesmo. Mas esse era o Mick; ele estava sempre tão preso no seu próprio mundo. Ele não era convencido nem superficial. Era apenas a natureza dele.
“Você é muito idiota, Mick”, Han resmungou. Han era meu outro irmão, mais velho que eu, mas mais novo que Mick. Ouvi os passos dele antes de sentir sua mão no meu ombro.
Assim que ele me tocou, eu me afastei. “Eu estou bem”, garanti a ele. “Só preciso me trocar.”
“O Mick é um babaca”, Han disse. Seus olhos escuros eram um grande contraste com seu cabelo prateado: ele tinha herdado a genética do nosso pai. “Ele fica tagarelando como se ninguém pudesse ouvi-lo.”
“Não é grande coisa, Han, ele só estava empolgado.”
“É, mas ele sabe que não deveria dizer essas coisas perto de você”, Han argumentou.
Ergui uma sobrancelha. “E por que não?”
“Porque...” Han se enrolou com as palavras. “Não me faça dizer isso, Caroline, ele também era meu amigo.” Às vezes, parecia que tinham arrancado os meus joelhos e eu lutava para conseguir ficar de pé.
“Eu estou bem”, repeti quando vi que ele não estava acreditando no meu fingimento. Dei um soco no braço dele. “Sério, Hanna, eu estou de boa.”
Han franziu o nariz. “Não me chame de Hanna.”
“Tá bom, Hanna.”
Han olhou feio para mim o máximo de tempo que conseguiu antes de deixar escapar um sorriso. Ele desistiu depois de um momento e seus ombros tremeram de rir.
Depois de um momento, Han se recompôs, mas o clima daquele momento já não podia mais ser desfeito.
Cutuquei a barriga dele. “Agora não pode haver nenhuma dúvida sobre qual de nós é o mais durão. Eu levo essa coroa.”
Han revirou os olhos. “Você está sendo rabugenta há um ano; eu venho trabalhando nisso desde que nasci.”
O som de passos interrompeu a minha resposta. Tanto Han quanto eu nos viramos quando Libby veio arrastando os pés pelo corredor, vindo na nossa direção.
Ela hesitou quando olhou nos meus olhos, parando completamente. “Uh, desculpa, eu só precisava usar o banheiro.” Ela colocou o longo cabelo loiro atrás da orelha. Um gesto de quem estava sem graça.
Eu não sabia muito sobre a namorada do meu irmão. Principalmente porque eu nunca tinha feito muito esforço para saber.
Não falei nada enquanto Libby passava por nós, indo para o pequeno banheiro no fim do corredor.
Han deu um assobio baixo quando a porta se fechou atrás dela. Me virei para ele e ergui uma sobrancelha, esperando o comentário que ele tivesse em mente.
Han levantou as mãos. “Você poderia tentar sorrir para a garota.”
Revirei os olhos. “Não tem nada de errado com a Libby.”
“É por isso que você foge dela como se ela fosse contagiosa?”, Han desafiou. Não respondi.
Han suspirou e colocou as mãos na cintura. “Eu sei que é difícil para você ver a Libby, mas pense nas nossas vidas. As namoradas sempre vão estar por perto.
“Nós não somos uma matilha de solitários. Somos um grupo construído com base em casais. Você vai ter que superar isso alguma hora, Caroline.”
Dei um passo rápido na direção de Han e senti meu lábio superior se erguer. “Não entre nesse assunto, Han.”
Meu irmão não recuou. “Já faz mais de um ano desde o incêndio, Caroline. Todos nós seguimos em frente. Está na hora de você fazer o mesmo.”
“Seguimos em frente?”, repeti, com a voz aguda. “Nós não seguimos em frente. Nós fomos embora. Nós nem estamos mais dentro do território da matilha. A mãe e o pai se afastaram completamente da vida na matilha desde que o Alfa Vex morreu!”
Han revirou os olhos. “Pelo menos eles tentam, Caroline! Você foge dos seus sentimentos.”
Cruzei os braços na defensiva. “Você também, Han.”
Os olhos escuros de Han se estreitaram. “Isso não é verdade, Caroline. Eu sinto as coisas. Eu deixei a morte dele me machucar. Eu só estou tentando me recuperar agora.
“Eu acho que nem vi você chorar por ele. Você nem chorou depois que o seu próprio namorado morreu...”
Estiquei o braço e dei um tapa no rosto dele. O som oco ficou no ar entre nós enquanto ele segurava o rosto ardendo e eu segurava minha mão traidora.
Depois de um momento, Han passou a língua por dentro da bochecha e deu um sorriso sombrio para mim.
Meu rosto inteiro ficou vermelho de calor e depois todos os meus sentimentos sumiram. Empurrei meu irmão para passar, batendo meu ombro no dele.
Ele segurou o meu pulso, mas eu me soltei de um puxão, lançando-lhe um olhar furioso antes de desaparecer no meu quarto.
Quando a porta estava fechada, escorreguei por ela, batendo no chão com um baque suave, e então abracei os joelhos contra o peito. Fechei os olhos, repetindo para mim mesma sem parar para não deixar aquilo entrar.
Se você se permitisse sentir uma coisa, nunca mais conseguiria fechar os portões e então seria atropelada. Eu não ia deixar que emoções rebeldes tomassem conta do meu corpo. Eu não podia.
***
Saí do meu quarto horas depois para me juntar à minha família na mesa de jantar. Me sentei de frente para Han, mas fiz questão de olhar para outro lugar.
Mick e Libby davam as mãos enquanto comiam, e o polegar de Libby fazia círculos lentos na palma da mão do meu irmão.
Meu pai conversava alegremente, sem perceber a tensão na sala ou sendo teimoso demais para deixar que isso arruinasse sua refeição.
Os olhos da minha mãe vagaram até mim várias vezes ao longo da noite, e a boca dela ficava tensa quando nossos olhares se encontravam.
“O jantar está muito bom, mãe”, Mick elogiou. “Não lembro quando foi a última vez que comi tão bem.”
Libby deu um tapa de brincadeira na mão dele. “Eu cozinho para você quase toda noite.”
Mick se inclinou e deu um beijinho no canto da boca de Libby. “Você tenta, amor.”
A risada da Libby me forçou a olhar para baixo. A felicidade deles quebrou alguma coisa dentro de mim, e fiz de tudo para que os cacos de vidro não perfurassem meu estômago.
“Seus bolinhos são maravilhosos, Libby!”, meu pai exclamou. “Devo confessar que roubei um dos seus muffins antes do jantar; eles estavam irresistíveis demais!”
Libby corou. “O senhor é muito gentil.” Segurei meu garfo com força.
Mick colocou o garfo na mesa e se inclinou para frente, chamando nossa atenção. “Eu tenho uma ótima notícia, pessoal!” Ele fez uma pausa para dar um efeito dramático. “O verdadeiro alfa está voltando!”
Minha mãe foi a primeira a responder. “Tyler Trip? De volta ao Monte Timbre?”
Mick assentiu. “Ele terminou o serviço dele e está pronto para retomar a matilha.”
“Já estava na hora”, meu pai resmungou. “O beta dele esteve no comando por muito tempo. Esta matilha precisa de um alfa forte.”
Han revirou os olhos. “Nós não sabemos que tipo de alfa ele é, pai. Ele nunca ocupou o título de verdade.”
Minha mãe mordeu o lábio. “Como você sabe que ele voltou, querido?”
“Eu estava conversando com o terceiro no comando, o Rowan. Vai ter uma cerimônia amanhã. Todos devem estar lá”, Mick explicou.
Vi o rosto do meu pai ficar pálido. Ele era próximo do último alfa, Vex. Depois da morte dele, meu pai decidiu se afastar da vida na matilha.
Linhas de preocupação apareceram no rosto da minha mãe. “Vamos precisar nos arrumar para amanhã. Caroline, você ainda tem aquele vestido azul?”
Olhei para cima, surpresa por ser incluída na conversa. Era a primeira vez que alguém falava comigo desde que o Han e eu brigamos naquela manhã.
Engoli a porção de batatas que estava na minha boca antes de responder. “Pode estar apertado demais.”
Minha mãe suspirou. “Você pode tentar entrar nele?” Encontrei o olhar de Han brevemente antes de concordar com a cabeça.
Libby interveio suavemente. “Eu tenho um vestido que pode servir em você se o azul não der, Caroline. Talvez você possa experimentá-lo depois do jantar?”
Eu queria poder ter agradecido a ela ou sorrido, mas ao ver o sorriso do meu irmão para ela, tudo o que consegui fazer foi encará-la.
Minha mãe preencheu o silêncio. “Isso é muito gentil da sua parte, Libby.”
“Bem, eu não vou me arrumar para um alfa de meia-tigela que abandonou sua matilha para lutar em uma guerra que já estava praticamente acabada”, Han resmungou.
Meu pai quase explodiu. “Foi uma decisão nobre! Se eu estivesse em forma, teria me juntado à causa com o maior prazer! Aqueles humanos tiraram tudo de nós, tudo!
“Você vai se arrumar e vai mostrar respeito!”
Han parecia pronto para pular da cadeira. “Ele deixou uma matilha ferida nas mãos de um beta! Que respeito ele merece?”
Dessa vez, meu pai realmente pulou da cadeira. “Ele foi vingar o nosso antigo alfa; para garantir que nenhuma outra matilha enfrentasse a mesma destruição que nós enfrentamos!”
Minha mãe parecia estressada. “Por favor, Rick, apenas sente-se.” Nenhum dos dois deu atenção a ela.
Han se levantou, com o rosto vermelho sob o cabelo prateado.
“De que adianta vingança quando a matilha dele estava sofrendo, reduzida pela metade, e sem lar ou líder? Para mim, o Tyler Trip é um covarde.”
“Já chega”, Mick rosnou. “O Trip é meu amigo.”
“Faz sentido vocês dois se darem bem”, Han cuspiu as palavras. Mick se levantou, mas ficou calado. Os três homens ficaram se encarando, com a tensão pesada no ar.
Após alguns momentos tensos, Han chutou a cadeira para trás e saiu furioso da sala.
Minha mãe tomou um longo gole de água e então sorriu para Libby. “Querida, você poderia pegar os muffins?”
***
Acordei com o som de uivos.
Ainda febril do meu sonho, joguei os cobertores para o lado e me vesti depressa, amarrando os tênis no escuro e pegando uma jaqueta leve, antes de sair pela porta dos fundos.
Os uivos paravam a cada poucos minutos, apenas para recomeçar em seguida. Fui correndo, me aproximando aos poucos do som.
O céu estava começando a clarear quando cheguei ao pico para onde eu costumava correr, bem na fronteira do território da Matilha Timbre.
Parei um pouco para recuperar o fôlego e depois estiquei os braços acima da cabeça, aproveitando o ardor familiar nos meus músculos.
Os uivos recomeçaram, perto o bastante para arrepiar os pelos dos meus braços e agitar a minha própria loba.
Avancei por entre as árvores de olhos bem abertos enquanto avistava alguns lobos com as cabeças jogadas para trás, cantando.
Observei suas orelhas se mexerem enquanto uivavam, ajustando suas notas conforme outros lobos, a quilômetros de distância, mudavam o tom.
Fui para a esquerda e olhei para cima da montanha, vendo lobos espalhados pelo caminho que levava ao coração do território Timbre.
Após observar por alguns instantes, entendi o que eles estavam fazendo. Eles estavam dando as boas-vindas ao seu alfa.
A rodada seguinte de uivos foi tão forte que quase forçou a minha transformação. Me curvei para a frente, me agarrando à minha forma humana quando ouvi o som de passos se aproximando.
O primeiro lobo era um que eu reconheci: pelo amarelo claro com apenas uns toques de marrom, olhos cor de mel intensos e patas pesadas. Esse era Ryan Steller, o lobo que atuava como alfa, mas que era o beta do Tyler Trip.
Logo atrás do Ryan, havia um lobo de porte médio com olhos alertas e pelo marrom desgrenhado que escurecia para o preto ao redor do focinho e das patas. Rowan Moss era o terceiro no comando de Tyler.
Ryan e Rowan estavam servindo de escolta pessoal para o último lobo, que só podia ser Tyler Trip, o verdadeiro alfa que estava ausente desde que o último alfa morreu.
Olhando para ele, ficava claro por que ele era o alfa. O lobo era gigante.
Seus músculos saltados sustentavam a cabeça e os ombros, enquanto as laterais do seu corpo eram fortes e elegantemente esculpidas.
Ele era coberto por pelos castanho-claros com mechas brancas e avermelhadas. Seus olhos eram focados, sinceros e passavam confiança.
Tyler Trip era tudo que um alfa deveria ser.
Por um momento dolorosamente longo, o olhar de Tyler Trip encontrou o meu. Seus olhos eram verdes e incrivelmente sinceros. Não importava que tivesse sido só um olhar rápido; eu senti como se tivessem me virado do avesso.
E então ele se foi.
Os uivos pararam quando os líderes seguiram em frente, e os lobos que estavam naquela área começaram a subir a encosta da montanha, seguindo o alfa de longe.
Um minuto depois, mais uivos ecoaram de mais alto na montanha.
Quando cheguei de volta em casa, a família toda estava na maior correria.
Minha mãe me viu no corredor da entrada enquanto colocava um brinco. Ela deu um grito quando me viu, correndo para segurar o meu braço.
“Onde você estava, Caroline? Nós vamos nos atrasar!”
Tomei banho o mais rápido que pude e me apertei dentro do meu vestido azul, me xingando por não ter aceitado a oferta da Libby enquanto lutava para fechar o zíper do vestido até o fim.
Depois de cinco minutos encolhendo a barriga e pulando de um lado para o outro, consegui fechar o zíper do vestido e enfiei os pés nos tênis.
Minha mãe estava arrumando a gravata do meu pai, seus olhos se voltando para mim com uma expressão de desaprovação. “Caroline, você não podia ter secado o cabelo? Ele está todo molhado e enrolado!”
Dei de ombros, tocando o meu cabelo úmido. Nós estávamos com pouco tempo e o calor ia secá-lo logo.
Libby saiu do quarto do meu irmão, radiante em um vestido branco de verão que fazia a pele dela brilhar.
O cabelo dela estava arrumado numa trança boêmia, com fios castanho-dourados e loiros claros misturados. Ela estava deslumbrante.
Olhei para a minha própria pele cheia de sardas e pernas pálidas, desejando poder simplesmente desaparecer. Han cutucou o meu ombro, me tirando do meu transe provocado por Libby.
Han ficava bem de preto. Ele sempre ficava.
“Vamos logo, lerda”, ele provocou. “Não queremos perder o alfa que chega atrasado com estilo e que não impressiona muito.”
Meu pai lançou a Han um olhar de aviso da porta do quarto dele. “Olha a língua, Han.” Minha mãe puxou a gravata dele, tentando mantê-lo na linha.
Mick saiu do quarto, passando a escova no seu cabelo ruivo, com a gravata solta no pescoço.
Ele me deu um sorriso quando me viu, os olhos dele avaliando meu vestido. O elogio dele só me deixou mais insegura.
“Pessoal, vamos lá!” Minha mãe nos apressou, nos guiando para o carro como um rebanho de ovelhas. Nós quase nunca usávamos a velha SUV estacionada nos fundos, mas não fazia sentido nos transformarmos depois de termos nos arrumado todos.
Nos apertamos no carro quente e abafado, ficando mais impacientes enquanto meu pai lutava para ligá-lo. O calor era insuportável e nós seis espremidos no veículo não ajudava nem um pouco.
“Eu vou chegar lá cozido”, Han resmungou.
O rosto do Mick estava vermelho por causa do calor, uma gota de suor escorrendo pela têmpora. Ele sorriu mesmo assim. “Eu nem sinto o calor”, ele afirmou. “Ontem estava mais quente.”
Não estava.
O carro finalmente ligou e todos nós respiramos aliviados — até percebermos que o ar-condicionado estava quebrado.
O carro velho não andava rápido o bastante para gerar uma brisa decente, então nós suamos durante todo o caminho montanha acima.
A altitude mais alta ajudou a diminuir a umidade, mas o sol continuava castigando enquanto estacionamos o carro e nos juntamos perto do porta-malas.
As pessoas estavam indo na direção da casa do alfa, com um clima de animação e expectativa no ar.
Enquanto caminhávamos, meu pai conversou com alguns membros mais velhos da matilha que não via há um tempo, e minha mãe fez o mesmo com as mulheres mais velhas.
Mick encontrou um grupo de amigos dele, com Libby feliz ao seu lado.
Han esbarrou no meu ombro enquanto andávamos, parecendo tão desconfortável quanto eu. Eu só tinha ido ao novo território Timbre algumas vezes e metade dos cheiros ali me era desconhecida.
“Desculpe pela noite passada”, Han murmurou. “Eu passei dos limites.”
Olhei para cima para o meu irmão. “Eu que passei dos limites. Eu não devia ter batido em você. Foi errado.”
“Foi mesmo”, Han concordou. Nós dois rimos depois de um momento.
Quando a risada acabou, meu rosto voltou à sua típica expressão séria. Eu encarei qualquer lobo que olhasse na minha direção, evitando qualquer possível conexão. Han fez o mesmo, então nós ficamos juntos.
Depois de alguns minutos caminhando, a casa do alfa apareceu. Era uma construção grande e moderna. Ninguém tinha morado nela ainda; o alfa interino, Ryan Steller, não tinha permissão.
Olhei para cima para a casa, notando uma cortina se mexer e um rosto aparecer. A cortina voltou para o lugar rápido demais para que eu pudesse ver quem era.
Meu olhar caiu para a varanda da frente, que estava servindo como um palco improvisado. De pé em frente à grande escada estava Ryan Steller.
“Bem-vinda, Matilha Timbre! Obrigado a todos por virem! Hoje, tenho a grande honra de dar as boas-vindas não só a um amigo, mas ao verdadeiro alfa desta terra, desta matilha e do nosso legado.
“Depois de servir na Guerra Feral, o Alfa Trip retornou para nós, pronto para assumir seu papel como líder.”
Ao lado do Ryan, o terceiro no comando, Rowan Moss, estava radiante. Rowan não devia ser muito mais velho que eu.
Ele era alto e de corpo atlético, com cabelo castanho e grosso que caía em ondas, e grandes olhos azuis que o faziam parecer mais doce do que intimidador.
“Foi uma honra e um privilégio servir a todos vocês como alfa interino. Espero ter feito um bom trabalho.
“Agora, deixo o posto para retornar ao meu papel como beta da Matilha Timbre, me dedicando como um servo leal ao nosso novo alfa.”
Os lobos reunidos aplaudiram, uivaram, ou fizeram as duas coisas.
Han me deu uma cotovelada e sussurrou no meu ouvido: “Conversa fiada.”
A multidão ficou em silêncio quando a porta da frente se abriu e um homem saiu para a varanda.
Ele era alto, com mais de um metro e noventa de altura.
Seu queixo era quadrado e coberto por uma barba rala. Seu cabelo era curto, levemente bagunçado na frente, e de um castanho escuro.
Seus olhos eram lindos; tão verdes quanto a grama sob os nossos pés, e passavam confiança.
Alfa Tyler Trip.












































