
O Conto do Fae: Prelúdio - Antes do Destino
Author
Nicole Woodward
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Os Olhos da Sala do Trono
A Fae’s Tale Prequel—Before the Destiny: Aubrey’s Tale
O destino de Aubrey foi selado antes que ela pudesse falar.
O sol entrava pela imponente janela de pedras preciosas, lançando um caleidoscópio sobre o chão brilhante. Cada feixe de luz dançava pelos antigos tronos do Reino de Sablewood — símbolos de um legado que ela não tinha certeza se queria.
“No equinócio de primavera, Aubrey, você será coroada rainha.”
As palavras a atingiram como uma lâmina. Aubrey fez uma reverência precisa, mesmo com seus pensamentos a mil.
“Pai, meu rei”, ela disse com cuidado, “isso é daqui a apenas um mês.”
O Rei Galdor, geralmente tão imóvel quanto as montanhas que cercavam Sablewood, mexeu-se em seu trono. Foi sutil, mas Aubrey percebeu.
O peso de governar parecia maior hoje, com linhas vincando sua testa. Seus olhos cinza-aço se voltaram rapidamente para a Rainha Daena.
A rainha retribuiu o olhar com um sorriso trêmulo. Seu cabelo dourado, com fios prateados, estava preso com uma elegância ensaiada. Ela parecia uma verdadeira monarca, embora seus olhos luminosos — antes tão cheios de calor — estivessem opacos de preocupação.
“Querida”, ela disse, com a voz suave, “nós governamos por quase três séculos. Até nós estamos presos às leis deste reino.”
As asas de Aubrey se agitaram sob sua trança. Presos a leis? Seus pais, governantes de Elarion, acorrentados por decretos? Absurdo.
“Então as mudem”, ela disse.
As palavras escaparam, afiadas e limpas, cortando o silêncio. Suspiros de espanto ecoaram das alcovas sombrias onde o clero permanecia como espectros.
Eles não vaiaram, mas o farfalhar de pergaminhos e os olhos estreitos mostravam seu julgamento. O clero. Sempre observando. Sempre sussurrando.
Seus dedos percorriam as leis antigas como se apenas eles pudessem tecer os fios do destino. Eles desprezavam os Vampyrs, mas se moviam como eles — rastejando pelas sombras, alimentando-se da hesitação.
Um deles deu um passo à frente. Membro do Clero número quatrocentos e vinte e um — Rodney.
Seus dedos esqueléticos seguravam um pergaminho que se desenrolava como uma serpente. Sua voz soou áspera, tão seca quanto os escritos frágeis que ele carregava.
“Sua Alteza”, ele disse. “A questão da sucessão não é mutável. Está escrito: O herdeiro deve ascender ao trono de Sablewood até o seu ducentésimo primeiro ano. Ele deve então escolher um consorte, se um ainda não tiver sido selecionado, para preservar a linhagem e garantir o futuro do reino.”
Os olhos miúdos de Rodney brilharam quando ele enrolou o pergaminho, com um sorriso de escárnio curvando de leve seus lábios. Aubrey não olhou para ele. Seu foco permaneceu fixo em seus pais.
“Mãe. Pai”, ela disse, mais firme agora, embora houvesse fogo em seu tom. “Vocês ainda estão aptos a governar. Por que deveria importar que eu completei duzentos anos?”
Antes que pudessem responder, a voz de Rodney rastejou novamente. “De fato, Sua Alteza, parece que seus pais a mimaram como se ainda fosse um bebê.”
“Chega.” A voz da Rainha Daena soou como cristal quebrando contra a pedra. “A criação da nossa filha não é da sua conta. Você falará quando for chamado — e não antes.”
O silêncio caiu, denso e vigilante. Os membros do clero trocaram olhares, seus pensamentos se enovelando como fumaça. Eles não tinham terminado.
A rainha voltou-se para a filha. “Você tem duzentos anos, e nós estamos enfraquecendo. Você deve aceitar as coisas como são.”
A gentileza machucou mais do que uma repreensão. A garganta de Aubrey apertou.
“Vocês não estão velhos”, ela disse rápido demais.
Mas agora ela via. As mãos de seu pai, antes poderosas, descansavam pesadas no trono, os dedos traçando os sulcos desgastados na pedra. Sua mãe, radiante como sempre, parecia de porcelana — impecável, mas frágil.
O Rei Galdor falou novamente, com a voz mais baixa. “O tempo avança, Aubrey. Assim como nossos pais nos guiaram, nós também devemos guiá-la. Sem um consorte — sem um herdeiro — nossa linhagem termina.”
Suas asas se retesaram. “E se eu recusar?”
Antes que seu pai pudesse responder, uma figura deu um passo à frente saindo das sombras — um homem que não pertencia às fileiras do clero, não apenas pela aparência. Thalos.
Líder do clero de Sablewood. Seu cabelo castanho-claro não estava alisado com óleo para trás, nem ele se esgueirava como os outros. Ele se movia com uma graça antinatural, os olhos azuis-claros límpidos demais, sabendo de tudo.
“Sua Alteza”, ele disse, com a voz suave como vidro polido. “Em seis dias, um baile será realizado. Doze pretendentes se apresentarão. Entre eles, você escolherá o seu príncipe consorte — aquele que ficará ao seu lado como rei.”
O coração de Aubrey apertou. “Então isso não é uma discussão. Meu destino está selado.”
“Aubrey, minha flor,” a Rainha Daena disse gentilmente, “o povo adora você. Você será uma rainha radiante. Mas sem um consorte, sem um futuro…” Ela vacilou, e Aubrey captou a hesitação que sua mãe raramente deixava escapar.
Outro membro do clero deu um passo à frente. Plinth, macilento e movendo-se devagar, desenrolou um pergaminho com precisão teatral. “No caso de o Herdeiro da Coroa falhar em fornecer um sucessor, ou se abdicar do trono, o clero assumirá a administração do reino até que um governante legítimo seja nomeado.”
Aubrey cravou um olhar frio em Plinth. “E quando, exatamente, esse decreto foi escrito? Foi nos dias do Segundo Rei? Ou há apenas duas semanas, quando vocês começaram a planejar o meu futuro em segredo?”
O Rei Galdor olhou para o enorme relógio batendo na parede. “Você tem as suas lições de rainha antes do jantar, Aubrey. Continuaremos esta… discussão amanhã.”
Aubrey não esperou permissão para sair. Com um movimento rápido e fluido, suas asas de bronze se abriram, as penas refletindo os raios dourados de seu cabelo ao captarem a luz das pedras preciosas.
Ao levantar voo, ela encontrou o olhar da mãe — e a piscadela sutil e cúmplice a encheu de rebeldia. O clero havia feito a sua jogada.
Mas Aubrey não tinha intenção de se curvar à vontade deles tão facilmente.
***
Apesar do peso da sala do trono ainda grudado nela, um sorriso surgiu nos lábios de Aubrey. Lições de rainha — que farsa.
Por quase um século e meio, seus pais mantiveram a ilusão. Lições realizadas em algum distrito distante de Sablewood? Dificilmente. Ficar sentada em uma câmara de pedra, recitando protocolos, fazia a sua pele coçar.
Seu coração pertencia aos céus, às árvores — os lugares selvagens onde o alcance do reino diminuía.
Ela se enrolou em uma grossa capa de viagem e saiu para a sua varanda. A brisa da noite a encontrou como um velho amigo, puxando a bainha de sua capa e carregando o cheiro de pinheiro e terra úmida.
Ela fechou os olhos e respirou fundo, saboreando a liberdade silenciosa. Sem guardas. Sem corte. Sem títulos. Apenas vento. Céu. Voo.
Com um único movimento fluido, suas asas se abriram, o bronze piscando na luz fraca. Ela saltou — o ar sob suas penas enquanto ela voava para cima, deixando as torres de pedra do castelo para trás.
Abaixo dela, a floresta se espalhava — um mar de esmeralda sussurrando segredos que apenas ela podia ouvir. O sol poente pintava a copa das árvores de ouro e violeta, e seu pulso acelerou com a empolgação. Uma sombra cruzou seu caminho. Uma coruja Thalariana, enorme e silenciosa, passou voando em direção aos penhascos.
Seus olhos cor de âmbar encontraram os dela por um instante antes de ela desaparecer em direção às montanhas, onde o último beijo do sol iluminava os penhascos. Atrás dela, a floresta se agitou. As corujas noturnas começaram seus cantos assustadores, ecoando suavemente entre as árvores.
À medida que ela descia pela copa, o peso do dia escorregava de seus ombros. A floresta a aceitava sem questionar, seu silêncio era um bálsamo para o seu estresse.
Ela inclinou-se para a esquerda, pegando uma corrente de ar, as asas planando sem esforço em direção ao seu verdadeiro destino — uma clareira escondida entre o Reino de Sablewood e a distante cidade de Aranello.
As árvores se separaram. Aninhada em seu centro havia uma pequena cabana, seu teto de palha suavizado por musgo, com heras se enroscando pelas pedras como dedos em repouso. Ela não estava simplesmente sobre a terra, mas se erguia com ela, como se tivesse brotado do chão da floresta.
Era o lugar seguro dela.
Fumaça de lenha saía da chaminé, misturando-se com o cheiro selvagem do anoitecer e de terra fértil. Perto dali, a estufa brilhava suavemente no crepúsculo — seu vidro encantado quente de vida.
Uma das paredes estava aberta, deixando o sopro da floresta passar, convidando o exterior a entrar. Lá dentro, as plantas cresciam como queriam — emaranhadas, sem amarras, vivas de uma forma que os palácios nunca poderiam ser.
Enquanto Aubrey descia do céu, ela viu Nalia lá embaixo, já esquadrinhando o horizonte com seus olhos afiados de Elfa. Os cachos ruivos de Nalia capturavam a luz do fim da tarde, emoldurando suas orelhas pontudas, e um sorriso travesso surgiu em seu rosto enquanto ela acenava.
“Você tem muita coragem de aparecer tão tarde, Sua Alteza”, Nalia provocou, com uma falsa formalidade pesada na voz.
Aubrey pousou ao lado dela com um gemido dramático. “Você precisa me chamar assim?”
“Velhos hábitos”, Nalia disse, seu sorriso revelando afeto. “Ele está na estufa. Kieren vai voar com você de volta em uma hora.”
“Duas”, Aubrey rebateu.
Nalia revirou os olhos. “Você vai perder o jantar. Suas damas de companhia vão se rebelar.”
“Tenho certeza de que tem algo fervendo na sua cozinha. Pode me buscar uma tigela?”
“Tudo bem”, Nalia suspirou, sorrindo. “Como quiser, Princesa.”
Aubrey beijou-lhe o rosto em agradecimento e foi em direção à estufa, atraída pelo cheiro de terra e de pinheiro, de seres vivos deixados livres. Lá dentro, Caedar estava ajoelhado entre as mudas.
Ele parecia ter crescido lá — vestes verdes e marrons misturando-se às plantas, os longos cabelos prateados amarrados para trás, as mãos afundadas na terra enquanto sussurrava antigos cânticos dos Elfos.
As linhas de seu rosto foram esculpidas por séculos, mas seus olhos tinham o brilho da travessura, como a luz das estrelas enterrada em pedras antigas. “A geada está cedendo”, ele murmurou, com os dedos escovando um broto terno. As palavras não eram destinadas a ela, não de verdade.
Ele esteve presente em sua vida desde que ela era criança. Não era apenas um professor, mas um elo com a antiga magia — com os ritmos das raízes, do vento e da pedra. Através dele, ela aprendeu a ouvir a terra, e não apenas a moldá-la.
Ela se lembrava do dia em que suas asas se abriram pela primeira vez, aos vinte anos. A cerimônia de maioridade queimava em sua memória como as estrelas desenhadas no céu noturno.
A dor daquela mudança agora estava distante, mas a liberdade selvagem e alta — o momento em que ela se tornou uma com o vento — permanecia tão vívida como sempre.
Sua aura revelara o seu caminho: uma cultivadora de jardins, destinada a nutrir a vida do solo sob os seus pés. Não foi inesperado — nenhum herdeiro de Sablewood jamais demonstrou uma aura ligada a governar. Mas Aubrey nunca se sentiu menosprezada por esse destino.
Na verdade, seus pais e avós sempre a encorajaram a seguir a sua paixão, a cultivar a magia dentro dela. Foi uma liberdade pela qual Aubrey era eternamente grata.
Caedar também estimulou essa paixão, ensinando tudo o que sabia — desde despertar a vida nas mudas com mãos gentis até conjurar sementes do próprio ar. “Por que você está aí parada, criança?” Caedar perguntou, em um tom ríspido, porém familiar.
Diferente de Nalia, ele raramente a chamava de Princesa — e nunca a deixava esquecer o quanto ela ainda era jovem aos olhos dele.
Aubrey fez uma reverência. “Desculpe-me, Caedar. Nalia foi buscar comida para mim, e eu… estava apenas apreciando a vista.”
Seus olhos continuaram na terra, as mãos trabalhando suavemente. “Então, escute com atenção. A parede ficará aberta hoje à noite. As plantas desejam o ar da montanha agora que a geada está cedendo. E quando você terminar de comer, quero que crie uma flor.”
Uma flor. Um calafrio percorreu a sua espinha. Simples no nome, mas complexa — o mais verdadeiro teste da magia de criação. Vida, beleza, equilíbrio. Uma harmonia elemental tecida em uma única flor.
“Eu já estimulei o crescimento de mudas”, ela disse hesitante. “Mas uma flor…”
“Você está pronta”, Caedar a interrompeu, levantando-se devagar. “A primavera está despertando, e você já deu vida a mais do que o suficiente. Por que você deixa as suas dúvidas envenenarem o solo?”
Antes que pudesse responder, Nalia apareceu, segurando uma tigela fumegante. “Porque ela não acredita ser digna de uma coroa”, ela disse, colocando a comida nas mãos de Aubrey. “Essa dúvida contamina tudo o que ela toca.”
Aubrey soprou de leve na sua colher, o cheiro de ervas e temperos subindo com a fumaça. “Mas você me entende, não é?”
Nalia colocou um cacho atrás da orelha. “Eu finjo entender. Mas eu vi você se tornar mais do que uma princesa. Talvez seja a sua humildade que te impeça.”
“É mais do que isso”, Caedar disse, sem ser rude. “Deixe-a comer primeiro. A luz diminui, e o que ela enfrenta não é simples.”
Nalia sorriu com malícia, esbarrando no braço do pai. “Você vai comer logo, ó sábio?”
“Com o tempo”, ele murmurou. “Assim que ela começar… eu a deixarei sozinha.”
A colher parou no meio do caminho para a boca. “Sozinha?”
Era uma palavra estranha — não era comum. Além de estar nos céus, ela nunca ficara verdadeiramente sozinha. Caedar e Nalia sempre estiveram lá, ligados pelos seus votos de protegê-la.
Caedar colocou a mão em suas vestes e lhe entregou algo: um pequeno sino de ouro, quente e sólido de tão antigo. Ela traçou as runas entalhadas nele, o metal vibrando de leve com a magia.
“Você sabe as palavras”, ele disse com suavidade. “Se precisar da gente.”
Aubrey assentiu. “Eu sei.”
“Este lugar é seguro”, Nalia acrescentou.
Aubrey acreditou nela. O irmão de Nalia, o guardião silencioso da floresta, permanecia sempre na beira das árvores — invisível, mas nunca longe.
A voz de Caedar quebrou o silêncio. “Agora coma. Depois me mostre o que floresceu.”











































