
O Coração Carrero 1: O Início
Author
L. T. Marshall
Reads
1,2M
Chapters
63
Introdução
Arrick
Arrick olhou para o seu telefone brilhando no console central do seu carro. Ele suspirou quando o nome de Sophie piscou na tela. Aquele ar de irritação e ansiedade se misturou e veio à tona com força.
Ele já estava atrasado, o que ele odiava demais, mas sabia que cederia a qualquer coisa que ela quisesse. Sophie tinha o dom de mexer com ele, mesmo quando estava sendo muito irritante, como nos últimos meses, e por mais que ele tentasse, não tinha força de vontade quando se tratava dela. Ele tocou no painel do carro conectado ao telefone, e a voz dela ecoou pelo interior do carro assim que ele apertou o botão.
“Arrick... Arry? Você está aí?” Ela estava enrolando muito a língua, provavelmente bêbada demais de novo, e ele não pôde fazer nada além de suspirar e controlar a vontade de ficar bravo com ela, imaginando-a em sua mente e ficando estressado. Ele odiava saber que ela estava na rua naquele estado; ligar para ele significava que ela provavelmente estava sozinha, e aquelas patéticas, as chamadas amigas dela, a tinham abandonado de novo. Sua raiva cresceu por dentro, seus batimentos cardíacos aceleraram, e seus músculos começaram a ficar tensos.
“Sim, Sophs, eu estou aqui. Onde você está desta vez?” Ele sabia o motivo da ligação: ela precisava de uma carona de novo. Quando olhou as horas no painel, xingou baixinho.
Natasha estaria esperando por ele, faltavam apenas dez minutos para chegar ao apartamento dela, e ele podia garantir que Sophie estaria na direção oposta, de volta à cidade. Mais uma vez, ele teria que escolher entre a namorada e Sophie, e todos sabiam que ele sempre iria para onde ela precisasse, sem pensar duas vezes.
Ultimamente, ele e Natasha tinham brigado muito mais por causa do tempo que ele passava correndo atrás de Sophie, mas ele não conseguia evitar. Ele se sentia responsável por ela. Depois de anos sendo a única pessoa a quem ela recorria, ele se importava muito com ela, e a ideia de ela estar bêbada e em perigo em algum lugar o fazia suar frio. Sophie era um ponto fraco, algo que ele nunca tinha entendido de verdade. Ele achava que era por causa dos anos vendo a garota indefesa e precisando de cuidados, e por ele ser uma pessoa muito protetora, que se importava até demais com o que acontecia com ela. Ela era o mais próximo que ele tinha de uma irmã, e ele sempre pensou que era apenas isso.
“Estou na boate do Randy sozinha, Arry... Eu perdi todo mundo e não consigo encontrar a minha bolsa.” Ela parecia tão jovem e indefesa, atingindo-o como um soco no estômago, enrolando-o no dedo mindinho sem nenhum esforço. Bastava um tom de choro para ele imaginar aqueles grandes e doces olhos azuis de corça, como um gatinho machucado, com aquela boca perfeitamente desenhada tremendo, pronta para chorar. Ele trincou os dentes enquanto a onda de ansiedade o atingia com força. Sophie era jovem e linda, um pouco linda demais para ser honesto, e era o alvo perfeito para idiotas e babacas que costumavam procurá-la. Ela simplesmente atraía problemas sem nem tentar.
A boate do Randy ficava a vinte minutos de carro na direção contrária. Se ele buscasse Natasha primeiro, com certeza haveria um grande barraco ali dentro. Apesar das várias vezes em que ele juntou as duas, nenhuma parecia gostar da outra. Ele também não gostava da ideia de deixar Sophie naquele lugar horrível por mais tempo do que o necessário, e buscar Tash primeiro faria exatamente isso. Ele não tinha energia para mais uma briga entre Tasha e Sophs, e já estava fazendo o retorno com o carro na rua, de volta para ela, sem hesitar. Suas mãos já tinham feito a escolha, mesmo enquanto ele ainda pensava no assunto.
Natasha entenderia. Ela iria reclamar no começo e ficar chateada, mas, no fim das contas, tinha que aceitar que Sophie sempre faria parte da vida dele, e que ele nunca deixaria de cuidar dela. Ela era a sua melhor amiga, alguém para quem ele passou seis anos sendo um porto seguro enquanto ela enfrentava o trauma da sua infância nas mãos de um pai abusivo.
Sophie era uma parte dele, um laço formado ao longo de anos ajudando a garota a se adaptar à sua nova vida na casa da sua nova família adotiva, em um ambiente seguro. Eles se deram bem em algum momento entre ela olhar para ele como se não confiasse nele e quisesse que ele caísse em um buraco, e a primeira vez em que ela deixou que ele pagasse um milk-shake sem agir como se quisesse chutar as bolas dele.
“Eu estou a caminho, Sophs. Volte para a boate e fique lá até eu chegar para te buscar.” Ele parecia irritado — que merda, ele estava mesmo muito irritado, mesmo tentando não demonstrar. Ela estava se metendo nessas situações com muita frequência e nem o escutava mais, não ouvia a voz da razão. Ele ficava com um nó no estômago só de pensar em quantas situações perigosas ou idiotas ela tinha se metido sem ligar para ele.
Completar dezenove anos no ano passado pareceu ter virado uma chave na cabeça dela, como se ela devesse viver de forma louca e festejar como Leila, a sua irmã, costumava fazer. Era mais simples quando ela era apenas uma criança, saindo com ele e fácil de orientar, ficando feliz em relaxar e assistir a um filme em vez de sair, ficar bêbada e transar. E essa parte era algo em que ele não se permitia pensar de jeito nenhum; Sophie e sexo eram dois assuntos que ele nunca quis juntar de forma alguma, e ele com certeza não queria conhecer nenhum dos idiotas com quem ela saía.
Era muito mais fácil quando ela era uma garota de quinze anos com olhos grandes que o seguia de forma obediente e pedia conselhos a ele, prestando atenção em cada palavra. Ele sentia muita falta daquela garota; pensava nela com frequência e sentia saudade dos dias em que os dois conseguiam relaxar, ficar largados no sofá e dividir porcaria para comer, aproveitando um tempo de qualidade de um jeito fácil e sem esforço.
Natasha não gostava de nada disso; odiava a maior parte das coisas que ele e Sophie amavam e não via o que ele via nela, o que deixava as coisas mais tensas. Não havia nada em comum entre as duas mulheres.
Ele sabia que não estava tão presente para Sophie como no passado por causa disso, e ultimamente, tudo o que fazia era buscá-la em bares e boates e levá-la para casa para se recuperar quando ela estava um desastre. Eles quase não conversavam sobre nada quando ele a via.
Ele estava velho demais para essa merda agora. Faria vinte e seis anos em poucos meses, e a última coisa que ele precisava era de todo esse drama, todas as semanas da sua vida com ela. Ele sentia falta da Sophie que ficava feliz em sair com ele, de viajarem juntos ou saírem para fazer coisas normais, como andar de jet ski, jogar Xbox, fazer snowboard, assistir a desenhos estrangeiros e ficar de bobeira, ou qualquer outro passatempo que eles tivessem dividido nos últimos anos. Sentia falta das coisas pequenas, antes dela começar a namorar idiotas e viver no limite da loucura. Ele apenas sentia falta dela — infinitamente.
O que ele não daria por uma ligação dela sóbria, com aquela voz doce do outro lado apenas perguntando como foi o seu dia, em vez de chorar por outro resgate. Ele não fazia ideia de como eles tinham chegado a esse ponto.
“Você está com raiva de mim?” O tom triste e o começo do choro dela o fizeram se sentir culpado na mesma hora, com aquela dor no estômago e um aperto no peito. Sophie não era muito de chorar, a não ser que achasse que Arrick estava chateado com ela, e ele nunca entendeu por que ela desabava quando ele estava com raiva. Ela com certeza não estava nem aí se alguém da sua família adotiva ficasse bravo com ela, especialmente a irmã ou a mãe, de quem era mais próxima. Pelo que ele se lembrava, ela não ficava triste quando as amigas brigavam com ela, mas Sophie achava difícil manter amigas fora da família, principalmente por causa do seu passado e de todos os demônios que ele trazia. Ela não confiava o bastante nas pessoas para formar laços reais, então ele sabia como era importante continuar na vida dela, mesmo quando ela se comportava como um desastre em um caminho para a destruição. Não que ele tivesse escolha; a vida parecia vazia quando ele não tinha notícias dela por semanas, e ainda bem que ele só tinha passado por isso algumas vezes.
“Não, Mimma, eu não estou com raiva, Sophie. Entre, fique quentinha e espere por mim.” Ele tentou suavizar o tom de voz, acalmando com gentileza as penas arrepiadas da sua bebedeira para convencê-la a fazer o que ele queria. Quando ela estava assim, era uma criança grande que ele precisava manejar com cuidado; a raiva dentro dela estava pronta para exagerar e atacar, mesmo que isso machucasse só a ela mesma.
Sophie era alguém que ficava na defensiva com facilidade, se fechando e atacando as pessoas que importavam quando tentava se proteger, e estar bêbada aumentava isso dez vezes mais. Ela sempre tinha sido assim, e muito poucos tinham a habilidade dele de saber como lidar com ela. Teimosa demais para pensar de forma lógica, às vezes não percebia que estava dando um tiro no próprio pé.
Ele aumentou a velocidade, testando os limites do seu carro novo para chegar até ela mais rápido, enquanto a tensão no seu corpo aumentava. Já era tarde, quase dez da noite, e a cidade brilhava com a iluminação sem fim de Nova York enquanto a sua elegante Mercedes cinza-aço deslizava pela noite com facilidade. Ele mordia o lábio enquanto os seus olhos percorriam o trânsito sem paciência, verificando os retrovisores enquanto se ajeitava no banco.
Ela sempre o deixava ansioso quando estava desse jeito, com tantos cenários passando pela cabeça dele sobre o que poderia acontecer com ela, e o seu corpo todo se retorcendo num tango de ansiedade. Sophie era ingênua nos melhores momentos, mas bêbada, era completamente alheia ao perigo, e levando em conta o passado dela, parecia ter o dom de atrair coisas ruins.
“Me desculpe... Arry.” Ela começou a soluçar, e ele apenas se sentiu pior. Ele nem tinha gritado com ela desta vez, então não fazia ideia de por que ela estava chorando. Ele tinha parado de gritar com ela há meses, quando percebeu que isso não mudava mais o comportamento dela, e odiava quando Sophie chorava. Isso o fazia se sentir um ser humano de merda quando aqueles olhos magoados de corça o atingiam bem no estômago.
Ele já tinha visto muitas lágrimas dela ao longo dos anos, todas ligadas ao que o seu pai doente e nojento tinha feito com ela, e isso era tudo o que ele via agora. Aquele rosto indefeso e quebrado, cheio de marcas e dor de uma infância que poderia tê-la destruído. Arrick ficou tenso quando aquela onda de raiva o atingiu por dentro como uma lança de fogo.
Sempre que ele pensava naquele babaca, tinha vontade de matá-lo. O fato de ele pegar alguém tão inocente e doce como ela e abusar dela de forma cruel por anos dava vontade de arrancar a espinha do cara e enfiar na garganta dele. Ele era muito protetor com ela, sabendo de tudo o que sabia, estando lá em todas as consultas de terapia e a amparando nos desabafos cheios de lágrimas quando ela precisava conversar.
Sophie o deixou se aproximar de formas que mais ninguém pôde, e a profundidade das suas confissões sombrias arrancava a alma dele várias vezes diante de tanta tristeza pela qual ela tinha passado. Ouvir tudo aquilo quase o destruiu, então ele não tinha ideia de como ela tinha suportado tudo e continuado sã. Ele jurou há muito tempo que sempre a protegeria, que destruiria qualquer cara que se atrevesse a encostar a mão nela contra a sua vontade de novo, e esse era um juramento que ele iria manter por toda a vida.
Sophie era a sua guerreira! Apesar de tudo, ela tinha superado as lembranças como uma chama invencível e florescido apesar daquele babaca. Ele nunca conheceu ninguém tão forte quanto ela. O orgulho tomou conta dele ao pensar no quanto ela superou na tentativa de seguir em frente. Arrick puxou o ar com força, acalmando o seu jeito de agir por fora enquanto o carinho por ela dominava tudo.
“Qual é, Sophs. Não faça isso. Você sabe que eu não consigo lidar com isso quando você chora. Vou chegar aí em vinte minutos ou menos. Vá, seja uma boa garota e volte para a boate por mim.” Ele conseguia ouvir o barulho da rua ao redor dela e percebeu a voz dela tremendo por causa do frio. Franziu a testa de novo por causa de mais uma coisa que ela estava fazendo consigo mesma, sem nenhum cuidado com o próprio bem-estar, e isso o irritava muito. Ela devia ter saído sem casaco de novo, vestindo algo curto demais e com pouco pano, sem estar nem aí que já era fim de estação e que aquela exposição poderia matá-la.
A garota precisava de cuidado o tempo todo. O amor dela pela moda atual o irritava, já que as tendências mostravam muita pele e pouca roupa. Hoje em dia, as mulheres estavam usando cada vez menos, e ele odiava que Sophie seguisse a tendência de deixar muito pouco para a imaginação. Ela era completamente viciada em moda; as roupas eram a vida dela, mesmo quando eram apenas pedaços de pano em seu corpo.
Ela tinha um corpo que atraía olhares, pernas longas e uma estrutura pequena e perfeita, com curvas que até alguém como ele não podia ignorar. Ela cresceu rápido demais e parecia ter chegado à puberdade desde o momento em que ele a conheceu. Não importava o quanto ele tivesse tentado não ver as mudanças e ignorar o quanto ela chamava a atenção, ele tinha que admitir que Sophie era irresistível para a maioria dos homens. Ele só podia imaginar quantos pervertidos nojentos já a estavam secando com os olhos.
“Tudo bem... Eu estarei nos fundos, nas cabines, deitada.” Ela fungou mais um pouco e recuperou o controle. Ele xingou por dentro, a frustração batendo forte e o impedindo de explodir. Ele cerrou os dentes para conter a vontade de gritar com ela enquanto a raiva crescia.














































