
O Coração Carrero 3: Felizes para Sempre
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Capítulo 1
SOPHIE
Arry me leva para dentro do apartamento, de mãos dadas, com os dedos bem entrelaçados, e me dá um sorriso suave e sexy enquanto me guia pelo corredor largo e de teto alto do nosso novo lar. Estou cansada da nossa viagem, esgotada, dolorida e precisando de um banho longo na banheira depois de passar horas em um avião comercial, mas finalmente estamos aqui.
Posso deixar de lado o peso do meu corpo e dos meus ossos, e relaxar na nossa casa com um grande suspiro de alívio. Finalmente está acontecendo. Após semanas de muito trabalho, estresse e pânico para chegarmos aqui antes que o meu novo semestre começasse, estou esgotada e exausta, mas ainda assim formigando de animação.
Paris… nossa casa pelo próximo ano.
Nossa pequena aventura enquanto eu vou para a faculdade e dou os passos em direção ao sonho que tenho em vista. Ele moveu céus e terra para garantir que isso acontecesse, e eu não conseguiria amá-lo mais por causa disso, mesmo se tentasse. É a nossa realidade. É o meu futuro.
Olho ao redor enquanto ele solta nossas malas de viagem no chão com um baque suave, ambas de uma só mão. Elas caem perto dos pés dele, praticamente suspirando com o mesmo alívio pelo fim de uma viagem entediante, refletindo como nós dois estamos parecendo. Nós embalamos e enviamos tudo o que queríamos antes de nós e viajamos apenas com o básico. Tudo o que temos são duas bolsas pequenas, um cansaço imenso de um voo longo pra caralho de oito horas de New York, e uma vontade de aproveitar tudo.
O frio na barriga de empolgação e os arrepios por conhecer o lugar pela primeira vez desde que compramos este apartamento crescem dentro de mim, me despertando do meu cansaço da viagem. Isso chama a minha atenção, enquanto meus pulmões se enchem com uma energia renovada ao ver tudo novo e brilhante pela primeira vez.
Nós enviamos alguém da confiança de Arrick para avaliar este lugar, em uma compra rápida baseada em vídeos, fotos e avaliações de inspetores de imóveis. Aqui estamos nós, vendo o lugar totalmente decorado de acordo com as nossas especificações, admirando o apartamento em toda a sua glória real, e vendo tudo pessoalmente pela primeira vez na vida.
A grande entrada e as molduras francesas ornamentadas me deixam louca de empolgação. É tão charmoso quando você entra no pequeno hall de entrada meio fechado, com seus tetos altos, paredes num tom creme claro e um piso de madeira muito polido — na cor mais escura de marrom mogno. Lembra a casa dos sonhos em um filme de romance que se passa numa época passada de Paris.
Mal posso esperar para ver como tudo ficou por completo, agora que nossa designer deixou tudo pronto para a nossa mudança. Horas mostrando para ela nossos designs, ideias e paletas de cores. Olhando para um milhão de catálogos de decoração, imagens do Pinterest e tendo noites sem dormir enquanto preenchia mood boards para ela. Sites de móveis, amostras de tecidos e obras de arte…
Eu pisco enquanto observo tudo em uma olhada com os olhos arregalados, quando entramos no conceito aberto da nossa sala de estar principal, e faço uma pausa… Pisco duas vezes… pisco de novo. Meu rosto congela enquanto o visual me transforma em uma estátua de pedra de alguém nada impressionada.
Meu rosto murcha e meu coração afunda espetacularmente no estômago, como um peso de chumbo, enquanto eu olho para a enorme sala de estar na minha frente, e meu humor sai completamente de órbita. A empolgação morre, a felicidade é assassinada e as lágrimas ardem porque estou cansada pra caramba, e essa não era a visão que eu esperava ter na minha frente. Isso tem o mesmo efeito que sistematicamente levar um soco forte e de surpresa no estômago e na cabeça.
Não é nada do que combinamos, ou o que escolhemos juntos, o que passamos horas, dias e semanas escolhendo e discutindo sobre, e entregando para aquela suposta designer careira e que veste roupas espalhafatosas. Não acredito que aturei o flerte óbvio e bajulador dela com o Arrick sem parar por toda essa merda que vejo na minha frente.
Eu solto a minha mão da dele ao parar, paralisada no meu lugar, com a raiva fervendo irracionalmente, e me viro com uma expressão fechada que rapidamente toma conta do meu rosto. Sinto vontade de bater na cabeça dele com qualquer coisa que eu tenha em mãos e não consigo evitar a efervescência de uma “reação exagerada da Sophie” por causa de algo que o Arrick fez para chateá-la.
Sim, eu preciso controlar essa merda, mas ele é tão irritante pra caramba às vezes.
Esta é praticamente uma cópia do apartamento do Arry antes de eu ir morar com ele. Os mesmos tons neutros e uma vibração casual e confortável. Um apartamento masculino de New York dentro de um prédio francês, e absolutamente nada das coisas que eu escolhi. Ele eliminou a “Sophie” do ninho de amor de “Arry e Sophie”. E eu estou prestes a chorar de coração partido. Quero chorar em um tipo de desgosto de “meu namorado é um babaca tão maldoso”. Este apartamento não parece o meu novo lar acolhedor, que eu esperava que me abraçasse com alegria. Em vez disso, parece um apartamento de solteiro e uma área feita apenas para o Arry.
Onde estão as minhas luzes de fada brilhantes, mantas felpudas e almofadas românticas espalhadas? Onde estão as minhas lanternas gigantes cheias de velas e coisas fofas nas prateleiras? A minha escolha de estampas nas paredes ou até o sofá que eu escolhi? Onde estão as porras das minhas esculturas de unicórnio de prata?
“O que foi?” Arry se vira e me avalia, confuso, e olha duas vezes ao redor do cômodo como se estivesse procurando o que me deixa infeliz. Ele está totalmente cego para o que está faltando e só vê algo que, obviamente, ele gosta.
Babaca!
Estou puta porque ele não percebe nada disso. Porque ele parece totalmente surpreso que eu teria esse tipo de reação àquele apartamento de solteirão sem graça exposto diante de nós em toda a sua glória minimalista, dura e nada acolhedora. Eu nunca vi a cor cinza parecer tão chata.
“Não foi isso que escolhemos?” Eu aceno com a mão pelo cômodo de forma irritada, com a decepção me enchendo por dentro, e eu sei que é uma coisa tão boba para se ficar chateada, mas este deveria ser o nosso primeiro lugar juntos. Não apenas um lugar para o qual eu me mudei e coloquei a minha marca.
Isso era nosso. Metade a metade de nós dois. Nosso primeiro ‘vamos escolher tudo juntos do zero’ de verdade.
Passei quase três semanas rolando fotos de cômodos e catálogos de acessórios para entregar à estúpida da designer, e o irritando com as opções em todas as oportunidades. Meu celular e meu WhatsApp estão lotados com as cinco mil imagens que eu mandava para ele no trabalho todo dia e com as respostas dele de ‘por favor, me mate agora e simplesmente escolha o que você quiser’. Ele vivia me dizendo para eu ir em frente e escolher por nós dois. Ele não parecia se importar muito e dava pouquíssima opinião.
Fica claro que ele nunca quis dizer a porra daquilo, não importa quantas vezes ele tenha mandado!
“Claro que é… Tenho quase certeza de que dissemos a ela para manter o estilo da nossa casa de New York.” Ele olha ao redor de novo inocentemente enquanto volta para tentar me segurar, mas eu dou um tapa na mão dele, fazendo um estalo satisfatório, e me afasto rápido na direção da mesinha de centro. A irritação não me faz bem, e a última coisa que consigo lidar quando estou puta é ele tentando ficar todo romântico e pegajoso para amenizar a situação sem nem perceber o que ele sequer fez.
Ele é tão burro pra caralho às vezes.
“Nós dissemos parecido… Nós escolhemos coisas juntos! Móveis, peças de decoração, uma paleta de cores. Tecidos e obras de arte. Nada disso está aqui… Você aprovou essa merda?” Eu me viro e lanço um olhar raivoso para ele, trincando os dentes para conter a crescente decepção que me dá dor no estômago, e o rosto dele murcha um pouco também. Finalmente percebendo o quanto estou fervendo de mágoa com isso.
Estou cansada de um voo longo e de alguns meses estressantes arrumando malas e me matando de estudar para acompanhar a matéria desta faculdade. Eles estão mais adiantados que New York, e eu tive que passar as minhas férias de Natal fazendo lição de casa mais do que comemorando. Minha única folga foi na festa da família dele durante o Natal; o resto do tempo foi gasto obcecada em deixar a nossa nova casa do jeito que precisávamos que fosse.
Eu só queria entrar aqui e amar o lugar, sentir que estávamos começando em um novo ninho de amor… mas o que recebo é um tapa na cara. Uma cópia de apartamento de uma época em que eu não tinha influência no ambiente em que ele vivia. Uma época em que Arry estava com outra garota, e ele tinha todo um futuro planejado que não me incluía. Onde o gosto de merda e a personalidade sem graça dela tiraram toda a diversão e o brilho da existência dele, de alguma forma isso simboliza uma época pré-Sophie da vida amorosa do Arrick.
“Amor?” Arry tenta segurar a minha mão de novo, e eu me afasto irritada, empurrando um pote cheio de pedrinhas da beirada de uma mesa de canto. Isso nem é bonito. Nem entendo para que serve e não faço questão de esconder do meu rosto a cara de nojo daquele enfeite brega. Eu sei que fico mais difícil de lidar quando estou cansada, mas o Arry não tem noção do fato de que não se fode com as escolhas de decoração de uma mulher!
“Não venha de 'amor' para cima de mim… É isso que você quer? Parece que você mandou ela copiar o seu outro apartamento e tirar tudo o que tem a ver comigo.” Uma lágrima atinge meu olho, e eu me sinto estúpida. Estou estragando os nossos primeiros momentos em Paris com uma briga idiota porque os meus sentimentos acabaram de ser pisoteados de forma massiva. Arry olha ao redor de novo e volta para perto de mim, parecendo um pouco sombrio, estendendo a mão com cuidado como se estivesse se aproximando de um animal selvagem pronto para atacar. Ele tem a decência de pelo menos parecer cauteloso e um pouco culpado.
“O nosso apartamento! … Eu não….”
Eu olho para ele com raiva e nem deixo que ele termine de falar.
“Esquece. Não importa. Eu vou me deitar.” Minha voz soa desanimada e, obviamente, arrasada pela emoção. Mesmo que a vontade esteja transbordando sob a superfície, eu não quero chorar. Eu não quero brigar. Quero me afastar dele e limpar a mente; talvez, depois de um cochilo, isso não pareça um problema tão grande. Eu ando até a porta, que me lembro ser do quarto principal pela planta da casa, mais no fundo do corredor, mas ele é rápido e para na minha frente primeiro.
“Não foi isso que eu fiz. Ela estava me mostrando um monte de designs e essas merdas, e você já estava estressada. Eu só aprovei uma paleta de cores e disse para ela deixar parecido com a nossa casa. Eu não pedi para ela deixar de fora nada do que você escolheu… Eu juro. Eu só pedi para ela dar uma maneirada em todas as coisas de unicórnio brilhantes e fofas para que você pudesse adicionar as suas próprias depois.” Ele está falando super sério, me dando olhos de cachorrinho sem dono, e eu balanço a cabeça para ele com muita raiva.
Dar uma maneirada na Sophie?!?!?! Mas que porra é…
Pelo amor de… Arghhhh
“E as coisas que eu dei para ela? Coisas que eu queria, coisas que você concordou? EU DEI ISSO PRA ELA! E os meus sentimentos e as minhas escolhas, hein? E os malditos mood boards que ela nos fez preencher? E os itens que salvei nos sites! Para que porra serviu tudo isso? Eu passei semanas nisso. Semanas em que eu deveria estar estudando, em vez de ficar fazendo uma merda que claramente nunca precisei.” Estou quase chorando agora — ele está me impedindo, odiando esse cômodo burro e estúpido enquanto passa os braços ao meu redor devagar, com cautela. Ele está irritantemente calmo e pisando em ovos, mas isso me deixa ainda mais puta.












































