
O Delegado do Xerife Livro 2: Gabriel Von Ashner
Author
Collette G. May
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Chapters
42
Capítulo 1
Livro 2: Gabriel Von Ashner
GABRIEL
Lá estava ela de novo. Suas maria-chiquinhas loiras balançavam enquanto ela movia a cabeça de um lado para o outro no ritmo do velho hino que a congregação cantava. Ela sempre usava os vestidos mais bonitos, com cores e estampas vivas. Na primeira semana em que ele a viu, o vestido dela era rosa com flamingos dançantes. Na semana seguinte, era amarelo com papoulas brancas. Hoje, era azul com nuvens sorridentes flutuando. Ele nunca tinha visto o rosto dela, mas, nas últimas semanas, esperava ansioso por aquele pequeno ponto de luz sentado dois bancos à frente dele nas manhãs de domingo.
Ela estava sempre acompanhada por uma mulher de cabelos escuros com as tranças mais complexas, e ele se perguntava quanto tempo ela levava para arrumar o cabelo de manhã. Nada o atraía fisicamente na dupla, exceto a promessa de brilho que elas traziam para o seu dia. E ele andava precisando muito desse pouco de brilho ultimamente.
Ele sempre perdia as duas de vista em outros momentos do culto porque sua avó cumprimentava seus vários grupos sociais antes de saírem da igreja, e isso muitas vezes levava mais uma hora.
Gabriel muitas vezes continuava sentado enquanto esperava sua avó terminar as conversas e marcar os compromissos para o resto da semana. Ele segurou uma careta ao ver a avó anotar algo em sua agenda de bolso. A semana dele seria cheia de viagens de carro para fazer favores... de novo.
“Gabriel!” A cabeça dele se ergueu rápido com o chamado irritado da avó. Depois que seus pais morreram em um acidente de carro quando ele tinha dez anos, sua avó o criou. Desde sair escondido à noite, pichar vários prédios federais, roubar carros, matar aulas, quase não se formar e eventualmente acabar sendo preso e mandado para os Fuzileiros Navais, nenhuma das autoridades que ele conheceu conseguia intimidá-lo tanto quanto o olhar azul e severo da sua avó.
Desde o seu retorno aos Estados Unidos há um mês, sua avó fazia ele dirigir de um compromisso para outro no Rolls Royce Park Ward azul-royal do avô dele, o que significava que ele chamava tanta atenção quanto um dedo engessado. E ter quase um metro e noventa de altura e ser forte como o “Superman” não era a melhor maneira de passar despercebido.
Os compromissos da avó incluíam o salão de beleza, compras, clube de bridge na segunda-feira, clube do livro na quarta-feira e o cassino de bingo na sexta-feira. Ela ia a um brunch com as amigas da época de escola no sábado, e Gabriel ficava livre para fazer o que quisesse depois de levá-la de volta para casa. Isso, claro, se ela não tivesse arrumado um encontro com alguma neta ou sobrinha de suas amigas, ou com alguém do círculo de conhecidos delas. E hoje, a julgar pelo tom de voz dela, a situação não seria diferente.
Trincando os dentes para garantir que a falta de paciência não transparecesse em seu rosto, ele foi a contragosto ao encontro da avó e de suas quatro amigas. O vinco profundo entre as sobrancelhas grisalhas dela mostrava que ele estava encrencado. Gabe fez uma rápida revisão da última semana e do porquê de estar sob os holofotes... E então ele hesitou... mas fugir estava fora de cogitação. Por experiência própria, fugir da avó era a pior coisa que ele poderia fazer.
“Gabriel Raphael Adam Von Ashner, o que você fez com a Marigold Philips?”
“Eu fiz o que a senhora pediu, Vó.”
“Não se faça de cachorrinho obediente comigo, mocinho!” Os olhos dela o fuzilaram, com o dedo cutucando a barriga dele, pois era a parte mais alta que seus ombros com artrite permitiam que os braços levantassem. “Você a levou para atirar tinta... tinta... dar tiros de tinta um no outro!”
Gabe mordeu os lábios ao se lembrar da toda certinha Marigold em seu vestido rosa-bebê na altura da panturrilha e coque loiro bagunçado cheio de estilo, coberta de manchas de tinta amarela e azul após o encontro deles. Tinha sido uma atitude de merda, mas ele esperava que ela espalhasse para todo mundo que ele era um babaca. Pelo menos assim, as mulheres ficariam menos ansiosas para ir a um encontro armado pelas avós. “Calma, Vó, nós ainda estamos na igreja.”
Ela apertou os lábios, o batom vermelho rachando nos cantos com o esforço que ela fazia para não dizer algo. Ela ajeitou a bolsa de domingo mais para cima no antebraço e alisou o cardigã marfim sobre a saia lavanda e a blusa branca. Ela estreitou os olhos e passou por ele com uma firmeza da qual seu sargento instrutor teria se orgulhado.
Ele ainda chegou ao carro antes dela e conseguiu abrir a porta de trás para a avó. Ele se certificou de que ela estava acomodada, então ficou parado ao lado da porta do motorista para respirar fundo antes de assumir o volante. Ele olhou pelo para-brisa antes de se virar no banco e olhar para a sua avó.
Ela era a mulher mais forte que ele conhecia, e ele a admirava e temia na mesma medida. E ela parecia não envelhecer, o rosto oval ainda tão liso e limpo quanto na época em que ele era menino. Ela não era uma mulher alta, tinha pouco mais de um metro e sessenta, mas sua presença era inconfundível. Ela ainda era uma mulher bonita e Gabriel não ficava surpreso ao saber que ela vinha tendo pelo menos três encontros por semana desde o seu retorno. Mas ele conseguia entender o motivo — ela continuava tão cheia de vida e extrovertida quanto na época em que era casada com o avô dele.
“Vó, nós já conversamos sobre arrumar encontros para mim. Eu não estou interessado em namorar agora.” O tom dele foi suave, e ele esperava que ela reconhecesse a sua sinceridade.
“Você tem trinta e cinco anos, Gabriel. Quando você vai se interessar em formar uma família?”
“Vó”, ele suspirou. “Eu acabei de voltar. Tenho umas merdas que preciso resolver, e uma delas é arrumar um emprego para que eu possa pelo menos comprar a minha própria cerveja.”
“Eu compro uma cerveja muito boa!”
Gabe levantou uma sobrancelha com a resposta rápida dela.
“E além do mais, você precisa resolver as suas merdas desde que tinha dez anos de idade.”
“Poxa, muito obrigado, Vó.”
Ela esticou o braço pelo meio dos bancos e segurou o rosto dele com carinho. “Eu não quero que você acabe sozinho quando chegar a minha vez de pegar a barca.”
Ele pegou a mão dela e beijou as costas antes de envolvê-la com as suas duas mãos, os dedos pequenininhos dela desaparecendo por completo. “Se Deus quiser, a senhora ainda vai perder essa barca por um bom tempo.”
“Ah, Gabriel. Sempre o meu otimista.”
Ele sorriu com o sarcasmo dela. Ambos sabiam que ele era realista, e que áreas cinzentas não existiam.
“E então? Como a Marigold Philips gritou quando você sujou ela toda de tinta?”
Gabe soltou uma risada rouca com a travessura no rosto dela enquanto ligava o carro. “Nem fui eu! Nós fizemos dupla contra uma turma da quinta série!”













































