
O Legado Real 4: O Luar Sobre as Águas
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Sorvete de Framboesa
Book 4: Moonlight on the Water
KNOX
“Não comece, pai”, eu reclamei enquanto saía do meu escritório.
Ele deu um suspiro profundo, já se preparando para o mesmo sermão que eu tinha ouvido umas cem vezes.
“Eu simplesmente não entendo por que você insiste em perder seu tempo com isso.”
“Alto, deixe isso para lá”, a voz da minha mãe soou enquanto ela se juntava a nós no saguão da casa da matilha.
“Você pega muito leve com ele, Fiona. Ele precisa focar em ser o alpha em vez de passar todo o seu tempo brincando com pranchas de surfe”, meu pai disparou, ignorando a mão que ela estendeu para ele.
“Eu posso focar nas duas coisas, e eu não estou brincando.”
Não adiantava tentar defender minha empresa de pranchas de surfe para ele de novo. Ele nunca escutava.
Não importava o quanto os lucros subissem, ou quantas revistas e programas de TV falassem bem das minhas pranchas. Nem mesmo o apoio de celebridades o impressionava.
Minha empresa nunca seria boa o bastante para ele, simplesmente porque não era a empresa da família. Quando fiz dezoito anos e assumi como alpha, todos esperavam que eu também assumisse como CEO da empresa da família.
Mas, em vez de ficar fazendo contas, fui para a escola de arte e abri minha própria empresa de pranchas de surfe personalizadas. Cinco anos depois, éramos uma empresa da Fortune 500, com surfistas profissionais do mundo todo usando as minhas pranchas.
Eu tinha orgulho do que construí, e minha matilha me apoiava. Mas nada disso importava para o meu pai.
Não importava o quão velho eu ficasse ou quão bem-sucedido eu me tornasse, ele nunca admitiria que estava errado. Ele nunca abriria mão do sonho de me ver administrando a empresa da família, em vez de simplesmente passá-la para um dos meus irmãos mais novos.
Se nada tinha mudado nos últimos dez anos, eu duvidava que mudaria algum dia.
“Vou para o escritório. Clay e Dover estão por aí se vocês precisarem de alguma coisa”, eu disse, batendo a porta da casa da matilha na cara do meu pai e indo a passos largos para o meu carro.
Dirigi até o escritório central, com a mente presa em uma névoa de frustração. O prédio ficava a apenas algumas quadras de Samoa Beach.
“Bom dia, Sr. Greystone”, a recepcionista falou com uma voz alegre, animada demais para uma hora tão cedo.
A maioria dos meus funcionários era humana, e eles não faziam ideia de que eu era um lobisomem alpha. Mas eu também oferecia estágios para membros da matilha interessados em arte ou negócios, e contratava muitos deles logo que saíam da faculdade.
Era um equilíbrio complicado, mas, até então, funcionava.
“Bom dia, Alicia.” Eu assenti, esperando pelo elevador.
Passei o meu cartão e subi para o quinto andar.
Megan, nossa segurança executiva, me cumprimentou quando saí. “Bom dia, Alpha.”
Ela era uma estudante universitária que cursava Administração, e também um membro da minha matilha.
“Bom dia, Megan. Como estão as coisas hoje?” eu perguntei.
“Todos estão esperando por você na sala de reuniões. O café está rolando solto, senhor, e os ânimos estão em alta”, ela disse, sorrindo enquanto andava ao meu lado.
“Obrigado. Me deseje sorte”, murmurei, não muito animado para outra reunião longa com um bando de engravatados.
Entrei na sala de reuniões. “Bom dia, pessoal. Vamos começar”, eu disse, indo direto aos negócios.
Quatro horas depois, a reunião finalmente acabou, e eu dei o fora. Alistair, meu lobo, esteve andando de um lado para o outro e pulando na minha cabeça a manhã inteira, e minha paciência estava se esgotando.
Ele não me dizia o que estava acontecendo, o que só me irritava ainda mais. Eu despistei todo mundo e andei algumas quadras até a praia.
Tirei meus sapatos sociais e meias, deixando meus pés afundarem na areia. Alistair começou a uivar na minha cabeça, e eu tive uma dor de cabeça instantânea.
“Que diabos?” esbravejei.
“Companheira!” ele latiu.
“O quê?” eu disse, sem demonstrar emoção.
Eu não tinha certeza se tinha ouvido direito. Ele realmente disse companheira?
Fazia mais de dez anos desde que tínhamos idade para encontrar nossa companheira e, sinceramente, eu quase tinha desistido. Havia muitas lunas em potencial na matilha, e meu pai vinha me pressionando para escolher uma há anos.
Comecei a farejar o ar, desesperado para encontrar o que quer que tivesse deixado Alistair tão agitado. A praia estava lotada — humanos para todos os lados, alguns lobisomens misturados, todo mundo aproveitando o primeiro dia de verão de verdade.
Apertei o passo, examinando cada rosto, cada grupo, procurando por aquilo que estava fazendo meu lobo praticamente vibrar de excitação.
Então, a sensação me atingiu. O aroma mais convidativo e inebriante que eu já tinha sentido.
Era como ar fresco do mar misturado com sorvete de framboesa — doce e marcante, e impossível de ignorar. Eu não sabia explicar como sorvete podia sequer ter cheiro, ou por que o aroma dela era tão diferente da brisa habitual do oceano da Califórnia.
Tudo o que eu sabia era que aquilo estava me deixando completamente louco.
O tempo simplesmente... parou quando a vi. Ela era minúscula — tipo, muito minúscula mesmo, até para uma humana.
Ela não devia ter mais que um metro e meio de altura, pesando talvez uns quarenta e cinco quilos se estivesse encharcada. O cabelo dela era o loiro mais platinado que eu já tinha visto, caindo por suas costas como uma cachoeira que capturava cada raio de sol.
A pele dela parecia macia e clara, quase como neve fresca. E então, como se pudesse sentir que eu a encarava, ela se virou.
Foi quando vi os olhos dela — azul-gelo, tão brilhantes que quase não pareciam reais. Seu olhar encontrou o meu, e os olhos dela se arregalaram.
Ela se virou tão rápido que mal tive tempo de reagir, desaparecendo no meio da multidão. Mas eu já estava fixado no cheiro dela. Não havia a menor chance de eu deixá-la escapar.
Ela se movia pela areia como se estivesse flutuando, e não andando. Ela não era uma loba, mas também não era apenas humana.
Tudo sobre ela era um mistério, e eu não conseguia decidir se isso me assustava ou me deixava empolgado.
“Espere!” gritei, mas ela já estava se desvencilhando da multidão, correndo direto para a floresta.
Ela sequer diminuiu a velocidade enquanto entrava nas árvores que margeavam a beira da praia.
Corri atrás dela, com o coração acelerado, mas fui lento demais. O cheiro dela me levou até uma pequena enseada escondida entre as árvores, bem onde a areia encontrava o oceano.
Procurei por toda parte, até chequei a água, na esperança de que ela aparecesse depois de um mergulho ou algo assim. Mas ela tinha simplesmente... sumido.
Alistair choramingou na minha cabeça, andando de um lado para o outro e cavando a areia, como se de alguma forma pudesse encontrá-la se tentasse com força o suficiente. “Nós perdemos a nossa companheira.”
Sentei-me onde a floresta encontrava a areia, e fiquei esperando por tanto tempo que o sol começou a descer no horizonte.
“Tudo bem com você, Alpha?” A voz de Clay surgiu na minha mente. Meu beta e meu irmão mais novo estavam sempre me checando.
“Eu encontrei a minha companheira”, resmunguei, sem saber se queria gritar ou rir.
“Cara, isso é ótimo!” Clay soou feliz até demais.
“E eu a perdi.”
“Você o quê?” Ele pareceu confuso, o que, honestamente, me deu vontade de jogar algo longe.
“Ela fugiu de mim e simplesmente desapareceu.” Não consegui evitar o aborrecimento, mesmo dentro da minha própria cabeça.
“Ela fugiu?” Ele estava mesmo me ouvindo?
“Ela não é uma loba. Não sei o que ela é”, admiti, sentindo-me mais perdido do que nunca.
“Você vai achá-la, Knox. Companheiros não conseguem ficar escondidos por muito tempo, especialmente depois de terem sido expostos um ao outro. Vocês serão atraídos de volta logo.” Clay era o eterno otimista.
Suspirei, mas nem me dei ao trabalho de responder. Em vez disso, forcei-me a levantar e comecei a longa caminhada de volta para o carro.
Clay e minha irmã Jenna encontraram seus companheiros logo após completarem dezoito anos. Minha irmã caçula, Meredith, faria dezoito anos em breve, e estava convencida de que o namorado era o companheiro dela. Eu não tinha tanta certeza.
Meu pai nunca entendeu por que eu ainda não tinha simplesmente escolhido uma companheira. Ele escolheu a minha mãe quando tinha dezenove anos e ainda não tinha encontrado a sua companheira destinada.
O relacionamento deles era exatamente o motivo de eu me recusar a me contentar com uma companheira escolhida. Meu pai era frio e sem coração, até com sua própria companheira.
Eu sabia que minha mãe encontrava conforto com outros homens, assim como meu pai encontrava com outras mulheres, mas ninguém nunca falava sobre isso.
Eu não queria isso para mim, nem para a minha companheira, nem para a minha matilha. Se meus irmãos podiam encontrar os companheiros deles, então eu também podia encontrar a minha.
Fui emburrado o caminho todo até o carro e dirigi de volta para a casa da matilha, sem vontade de falar com ninguém.
Eu tinha a sensação de que esse mau humor iria durar por um tempo — ou, pelo menos, até que eu visse minha companheira misteriosa de cabelos prateados e olhos azuis novamente.













































