
O Nobre Sombrio Livro 1: O Nobre Sombrio
Author
Naomi Obasi
Reads
389K
Chapters
68
Capítulo 1
KAMORA
Era terrível a maneira como ela corria sob a forte chuva que castigava implacavelmente sua alma já destroçada.
As nuvens não davam sinal de trégua, abrindo-se ainda mais com outra chuva torrencial, como se zombassem de seu estado encharcado e a desafiassem a amaldiçoar os céus.
Por que isso sempre acontece comigo em dias importantes? ela pensou, aproximando-se do enorme prédio onde deveria comparecer.
A estrutura alta erguia-se orgulhosamente sobre ela, com seu exterior de pedra cinza escurecido pela chuva.
Ela correu em direção ao prédio e ficou sob o pilar, tremendo, na esperança de que suas roupas secassem antes da reunião.
Mais uma vez, ela tentara encontrar um emprego entre a elite, esperando que a contratassem como criada ou babá.
Por algum motivo estranho, suas opções anteriores haviam recusado seus pedidos, afirmando que ela não parecia “chique” o suficiente.
Se ela fosse chique, por que diabos estaria procurando um emprego de criada ou babá?
Que tipo de pessoa chique escolheria esse trabalho?
Ela atendia pelo nome de Kamora e, infelizmente, essa era a única coisa que lembrava sobre si mesma.
Oito anos atrás, alguns caçadores a haviam encontrado nas profundezas da floresta, quase sem vida.
Felizmente, eles a resgataram e ajudaram na sua recuperação.
Segundo eles, ela permaneceu inconsciente por mais de um mês.
Quando acordou, não conseguia se lembrar de nada sobre si mesma — exceto seu nome.
E da voz estranha que o chamava.
Ela esfregou as mãos para cima e para baixo nos braços na tentativa de se aquecer.
Seus dedos estavam rígidos de frio, e a água ainda se agarrava teimosamente ao seu corpo.
Ela tentou espremer a parte encharcada do vestido para não entrar na sala de reunião pingando como um cachorro molhado.
Embora não ficasse surpresa se fosse exatamente essa a sua aparência.
Quando se sentiu mais apresentável, deu uma boa olhada ao redor.
Havia apenas algumas pessoas paradas na entrada e, assim como ela, estavam encharcadas até os ossos.
“Graças aos céus”, ela sussurrou baixinho.
Pelo menos ela não era a única que entraria parecendo um cachorro molhado.
Kamora entrou no local.
Os corredores eram escuros logo além da entrada, e a única tocha pendurada na parede pouco fazia para dissipar aquela escuridão.
As sombras se esticavam pelas paredes de pedra como fantasmas diáfanos.
Ela continuou avançando e finalmente entrou em uma sala enorme.
Ela parou, surpresa com a visão.
Nunca tinha visto nada tão bonito quanto aquilo — ou talvez tivesse, mas não conseguia se lembrar.
A sala tinha lustres enormes com velas e vidro que iluminavam o espaço com um brilho quente e dourado.
Dois vastos salões se estendiam de cada lado, e diferentes pinturas adornavam cada superfície — até mesmo o chão e o teto exibiam belas imagens.
De repente, alguém esbarrou nela, e ela se virou, curvando a cabeça como forma de pedido de desculpas.
“Me desculpe”, disse ela, olhando para baixo.
“Não, eu peço desculpas”, respondeu uma voz suave, fazendo-a erguer o olhar.
Na frente de Kamora, estava uma garota que parecia ter a sua idade.
Sua pele era tão escura quanto bronze polido, e seu cabelo castanho caía em cachos macios sobre os ombros, quase chegando aos joelhos.
A surpresa brilhou em seus olhos, rapidamente substituída por um sorriso gentil, que Kamora retribuiu.
“Acho que você está aqui para a entrevista”, disse a garota.
“Sim”, respondeu Kamora, perguntando-se se havia se enganado com o reconhecimento no olhar dela.
“Bem, então é bom ver alguém que parece ter a minha idade, para variar. A maioria das pessoas que se candidatam é bem mais velha do que eu.” Ela acenou com as mãos e sorriu. “Eu sou Petal.”
“Kamora”, respondeu Kamora, acenando de volta. “Você sabe onde a reunião será realizada? Eu planejava perguntar por aí.”
“Não há necessidade. Já estive aqui várias vezes. Eu conheço o caminho”, disse Petal.
“Ah”, exclamou Kamora, surpresa.
Petal se virou e começou a caminhar em direção à passagem no lado esquerdo da enorme sala, com seus cachos macios balançando atrás dela.
Kamora a seguiu de perto.
“Você também já se candidatou a um emprego várias vezes?” perguntou Kamora.
Petal olhou para ela com um sorriso aberto. “Você não faz ideia. Tantas famílias me demitem depois de meses trabalhando com elas.”
“Por que isso?” perguntou Kamora.
“As esposas têm medo de que eu possa seduzir seus maridos”, sussurrou ela.
Kamora deu uma boa olhada no corpo de Petal.
Além do rosto lindo com o qual havia sido abençoada, os céus também haviam decidido abençoá-la com curvas capazes de causar uma enorme guerra entre os homens.
Ela entendia o medo das esposas.
Se fosse homem, não tinha certeza se seria forte o bastante para evitar a tentação de ser seduzido por Petal.
“Você tem sorte”, respondeu Kamora, suspirando. “Pelo menos conseguiu um emprego. Tenho procurado por meses, e nenhuma delas concorda em me contratar porque dizem que não sou chique o bastante.”
Petal olhou para ela, avaliando o que vestia. “Foi isso que usou quando foi se encontrar com as famílias?”
Kamora olhou para sua própria roupa. Era um vestido marrom sem mangas, usado sobre uma camisa branca cheia de babados. O vestido estava apertado nas costas para realçar o formato da sua cintura, fluindo quase até o chão.
“Sim”, respondeu ela, voltando a olhar para Petal. “Achei que era bonito. Tem algo errado com ele?”
Petal deu uma risadinha. “Querida, isso é o que você veste quando quer ver alguém que você já conhece — não o seu chefe. Como muitas das famílias ricas por aqui são esnobes e arrogantes, basta olharem para a sua roupa e logo vão deduzir que você não tem experiência.”
“Ah.” Kamora refletiu por um momento. “Ninguém me contou sobre isso.”
“Bem, agora você já sabe”, disse Petal, sorrindo. “Esse é o seu primeiro emprego?”
Kamora balançou a cabeça. “Como babá, sim. Eu costumava trabalhar em uma padaria. Decidi trabalhar como criada porque ouvi dizer que paga bem.”
“Você não está errada. Só esteja pronta para lidar com muitos patrões detestáveis e seus filhos. Não sei quem é o pior entre os dois.”
Kamora riu enquanto ela e Petal viravam à direita em uma esquina.
Elas desceram por um corredor que as levou direto para uma sala de reunião.
A sala já estava cheia de pessoas diferentes, todas esperando conseguir um emprego como criada em uma família nobre e de destaque.
Kamora encontrou um assento e rapidamente o ocupou. Petal sentou-se ao lado dela.
Enquanto elas se acomodavam, um silêncio tomou conta da sala assim que três mulheres entraram.
Kamora não conseguia vê-las com clareza de sua posição, mas ouviu muito bem quando uma delas começou a falar.
“Não temos muito tempo para entrevistar todas vocês, portanto, uma avaliação geral será aplicada”, anunciou a mulher.
Kamora observou enquanto ela entregava folhas de papel para pessoas diferentes na primeira fila, instruindo-as a repassarem para quem estava atrás.
“Nós as avaliaremos com base nas respostas que escolherem, e vocês serão enviadas para a família que se encaixe perfeitamente com sua escolha. Se não ficarem satisfeitas com a colocação, poderão sempre se inscrever para a próxima entrevista.”
Kamora pegou o papel entregue pela pessoa da frente, estudando as perguntas escritas nele. Eram todas muito simples, perguntando sobre nome e histórico familiar, entre outras coisas.
“Esta é a primeira vez”, disse Petal, e Kamora virou-se para encará-la.
“Como assim?”
“Em todas as entrevistas de que participei, nunca fizemos nenhuma avaliação como esta. É muito fácil.”
“Talvez haja uma família especial precisando de uma criada especial, por isso as perguntas estranhas”, respondeu Kamora.
Petal deu de ombros e começou a responder às perguntas. Alguns minutos depois, haviam terminado.
Ambas se levantaram e caminharam até a frente da sala para entregar as folhas.
“Vocês duas são rápidas”, comentou a mulher que havia falado antes.
Kamora deu uma boa olhada nela, notando seu rosto duro e roupas de corte elegante. Ela usava um vestido preto reto, sapatilhas e nenhuma joia.
Seu cabelo estava preso em um coque apertado, e seus lábios estavam comprimidos em uma linha fina. Tudo nela parecia ter traços afiados.
“Como ambas terminaram no tempo previsto, avaliaremos suas respostas imediatamente. Esperem lá fora.”
Kamora e Petal assentiram, entregando as folhas para a mulher antes de sair.
Soltaram um longo suspiro ao mesmo tempo, ficando juntas do lado de fora da porta.
“Espero conseguir uma casa cheia de belezas desta vez”, disse Petal, e Kamora riu.
“Não quero ser expulsa por causa de esposas inseguras.” Ela olhou para Kamora. “E você?”
“Eu ficaria muito contente com qualquer casa, na verdade”, disse Kamora, dando de ombros. “Desde que paguem bem.”
Elas não tiveram de esperar muito, pois a mulher de aparência severa saiu e devolveu os papéis.
“Parabéns”, ela disse simplesmente, antes de voltar à sala de reunião sem dizer mais nada.
Kamora olhou para seu papel e viu o nome “MAROKE MANOR” escrito em negrito.
“Consegui a Maroke Manor”, disse Petal, animada. “Eu tirei a sorte grande desta vez.”














































