
O Tesouro do Capitão
Author
B. Shock
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21
Capítulo 1
VIOLET
Eu corri pelo terreno, o ar frio da noite machucando a minha pele enquanto cada respiração se transformava em pequenas nuvens brancas.
Eu estou fazendo isso! Eu finalmente estou conseguindo!
Minha bochecha doía no lugar onde Lance me bateu, um pouco de sangue escorrendo pelo meu rosto enquanto eu corria para os estábulos. Parei por um momento, olhando para trás, para a casa, para ver se alguém já tinha notado a minha ausência.
As janelas ainda estavam escuras. Quase todos os empregados foram dormir rápido depois da cena no jantar, deixando apenas eu e alguns guardas noturnos acordados a esta hora. Eu tinha conseguido evitá-los até aqui, me escondendo nas sombras enquanto pegava o que eu conseguia carregar.
Eu não ia ser a esposinha obediente que Lance queria. Vista, mas não ouvida, obrigada a andar às pressas pela minha própria casa por medo da fúria do meu marido.
Prefiro me arriscar nas ruas a viver desse jeito. Vou até o cais e encontrar um navio. Começar de novo em um lugar novo. Um lugar bem longe do Lance.
Eu puxei um freio e entrei em uma das baias, pedindo para a égua ficar quieta enquanto o passava pela sua cabeça. Gritos de repente irromperam da casa quando os guardas correram para o pátio, com suas tochas erguidas no alto.
“Onde ela está?” gritou a voz imperiosa do meu noivo. “Encontrem ela e tragam ela para mim!”
Minhas mãos tremiam enquanto eu passava a perna sobre as costas do cavalo, grata por não estar usando um vestido desta vez enquanto afundava os calcanhares no flanco dela.
“Vamos!” eu gritei.
“Lá! Ladrão!” alguém gritou enquanto eu cavalgava rápido para fora do estábulo.
Meu olhar disparou para a figura na porta, capturando a expressão sombria no rosto de Lance enquanto eu passava em alta velocidade. Bati as rédeas, fazendo o cavalo correr mais rápido enquanto rapidamente deixávamos a propriedade de Lance para trás.
Não tem mais volta agora. Se ele me pegar, eu estou morta.
***
Abandonei o cavalo um pouco antes de entrar na cidade, navegando pelas ruas à luz das lanternas enquanto me dirigia ao cais. Cinco navios estavam atracados no porto, três deles grandes embarcações navais da coroa. Mantive distância deles. A tripulação devota apenas me entregaria de volta ao meu noivo, o almirante deles.
Fui na direção de um dos outros navios, uma embarcação mercante mais nova, com velas impecavelmente brancas. O contramestre estava de pé perto da prancha de embarque, limpando as unhas com uma adaga.
“Saudações!” chamei, baixando a minha voz para soar mais como a de um homem.
“O que você quer?” ele resmungou, olhando para mim com uma sobrancelha erguida.
“Eu gostaria de comprar uma viagem no seu navio! Por favor, para onde vocês vão agora?”
Ele me olhou com raiva, cruzando os braços sobre o peito. “Port Karshin.”
Port Karshin?! Isso é perfeito! Lance nunca iria me achar numa cidade grande como essa!
“Excelente. Quanto custa?”
Eu puxei o meu saco com as moedas e pedras preciosas que roubei. Ele olhou para a pequena bolsa antes de começar a rir muito alto.
Ele balançou a cabeça, limpando a lâmina que segurava no tecido gasto das suas calças. “Dá o fora, garoto.”
“Senhor, por favor. Eu realmente preciso sair da—”
Ele me empurrou, sua adaga cortando meu braço enquanto eu caía no chão. Sangue pingou da ferida nas tábuas de madeira.
“Eu disse para dar o fora! Nós não estamos aceitando nenhum passageiro, e mesmo se estivéssemos, não faríamos isso por algumas moedas miseráveis! Agora, vaza!”
Recuei rápido, apertando a mão ao redor do corte profundo no meu antebraço. Vi um barril de água perto de um beco e corri até lá, quase sem olhar para o reflexo do meu disfarce de cavalariço ao pegar um punhado de água. Fiz uma careta enquanto limpava o sangue e a sujeira do meu braço.
Que homem rude. Tirei o lenço do pescoço e usei-o para enfaixar a ferida, suspirando enquanto meu olhar voltava para o cais. Não parece ter ninguém perto do outro navio. A tripulação deve estar em alguma taverna. Se eu encontrar o capitão, talvez eu consiga negociar a viagem.
O som de vozes chamou minha atenção, e eu me virei, empalidecendo ao notar quatro dos homens de Lance se aproximando. Rapidamente me escondi atrás do barril enquanto eles se aproximavam. Meu estômago embrulhou quando o assunto da conversa deles chegou aos meus ouvidos.
“Por que estamos aqui no meio da noite? O que nós estamos procurando?” um deles reclamou.
“A noiva do almirante sumiu, seu idiota. Ela não estava no quarto quando a criada foi verificar, e ainda teve aquele roubo de cavalo nos estábulos,” o outro respondeu. “Se quer saber, ela provavelmente fugiu com o cavalariço. Um encontrinho de amantes, entende?”
“Não sei por que o almirante está tão nervoso,” o terceiro falou com desdém. “Já vai tarde. Ela é a filha bastarda da criada do barão. Nem entendo por que ele se interessou por ela.”
“São negócios,” o segundo respondeu. “O barão quer proteção da marinha. Muitos de seus navios foram atacados por piratas, e ele está perdendo dinheiro. Ele fará do almirante um parceiro assim que ele casar com a garota. Ele será um homem muito rico. Mas não gostaria de ser a noiva dele. Ele tem—”
“Fechem as bocas antes que a gente se dê mal!” o último guarda brigou enquanto eles passavam. Eles não faziam ideia de que eu estava ali.
Esperei um momento até ouvi-los conversando com o contramestre antes de sair de fininho do meu esconderijo e correr de volta para a cidade.
Droga. Como eles me acharam tão rápido? Achei que eu tinha mais tempo.
Balancei a cabeça, deixando minhas dúvidas de lado enquanto tentava focar em como sair da ilha. Eu precisava encontrar o capitão do outro navio. A julgar pelo estado do navio dele, ele estaria disposto a aceitar qualquer moeda que eu oferecesse.
O som de aplausos e música ecoava de um dos prédios. Homens bêbados vagavam na frente, um par de prostitutas paradas na porta tentando os marinheiros que passavam a gastarem suas moedas com apostas e diversão.
Aposto que alguém aí dentro pode me dizer onde ele está. Eu ainda posso ter uma chance.
Dirigi-me até a taverna, determinada a não perder minha única chance de liberdade.
***
Uma mulher escancarou a porta da frente da taverna enquanto eu me aproximava, jogando com raiva um homem muito bêbado na rua.
“Se não pode pagar, não pode brincar!” ela gritou, ajeitando as saias enquanto as garotas de ambos os lados riam.
Ele se levantou desajeitadamente, agarrando com força o braço da mulher quando ela se virou para voltar para dentro. Ela girou, dando-lhe um chute bem forte no meio das pernas que o fez soltá-la. Ele caiu de joelhos, as mãos agarradas às suas joias da família enquanto gania.
Fazendo uma careta, desviei dele e segui a mulher para dentro do estabelecimento. Puxei a aba do meu chapéu para baixo, escondendo meu rosto ao entrar. Os homens ao redor do bar lançaram um olhar entediado na minha direção, me fazendo sentir grata mais uma vez pelo meu disfarce.
Deus sabe o que teria acontecido comigo se eu tivesse roubado um uniforme da criada.
Um corpo grande colidiu comigo, me jogando contra uma mesa e derramando algumas das bebidas em cima dela. Um homem rude me agarrou pelo colarinho, quase me erguendo do chão.
“Cuidado, garoto!” ele cuspiu.
Ele me empurrou, me olhando feio enquanto andava até o bar para outra bebida. Segui rapidamente para o fundo, onde uma multidão se aglomerava ao redor de uma mesa. Curiosa, fiquei na ponta dos pés para ver que jogo estavam jogando.
Cinco jogadores estavam sentados em círculo, cada um com um copo de madeira na mão. Eles os sacudiam, o som agudo dos dados batendo contra as bordas, antes de baterem seus copos virados para baixo na mesa. Cada apostador, então, levantava a borda apenas o suficiente para dar uma espiada enquanto ainda mantinham seus resultados escondidos.
Ah! Dados mentirosos! Já vi os homens da propriedade jogarem isso. Você só precisa ser um bom mentiroso e manter uma cara séria. Eu poderia fazer isso. Eu escondo meus verdadeiros pensamentos do Lance o tempo todo.
O homem à minha frente chamou a minha atenção. Ele estava vestido de forma suntuosa em um casaco vermelho-escuro, seu grande chapéu protegendo seu rosto enquanto ele olhava para os dados. Eu conseguia ver apenas a linha de sua mandíbula, a barba por fazer na bochecha lhe dando um perfil duro e rústico.
Esse deve ser o capitão. Ele parece assustador. E se eu não tiver o bastante para pagar a viagem?
Mordi o meu lábio enquanto olhava para ele.
Espera! E se eu jogar com ele para ganhar a viagem? Ele vai ter que me levar se ele perder a aposta, certo? Isso é loucura. Se eu perder, então eu vou ficar sem nada.
“Melhor… ficar aqui, garoto,” um bêbado falou com a voz arrastada enquanto se encostava na parede perto de mim. “A marinha está aí fora procurando um… cavalariço como você.” Ele soluçou, seus olhos caindo enquanto ele esvaziava a sua caneca. “Dizem que ele roubou um cavalo… e a mulher do almirante. Eles vão… enforcá-lo… ao nascer do sol, com certeza.”
Observei o bêbado escorregar lentamente para o chão, sua mão ainda agarrada ao copo enquanto roncava.
Meu peito apertou quando me voltei para o jogo. Eu não tinha escolha. Teria que jogar e ganhar se quisesse sair dessa ilha.













































