
O Universo da Discrição: Mantida
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Capítulo 1
Uma carreira de coca pelo fato de que meu pai se suicidou há menos de três meses.
Outra pelo fato de que isso transformou minha mãe em uma alcoólatra secreta.
Mais uma porque hoje eu tive que voltar para a escola depois de me recusar a falar com qualquer pessoa durante o verão todo.
A Frankie tinha passado lá em casa cinco vezes, mas nunca passou da recepção. Eu tinha certeza de que ela devia me odiar com todas as forças, mas na época eu não me importava nem um pouco.
Dizem que a cocaína faz mal para a saúde, mas eu acredito que situações familiares fodidas são muito mais destrutivas.
Eu tinha só dezessete anos, e sentia que estava vivendo esse pesadelo louco por uma vida inteira.
O funeral tinha sido a parte mais difícil. Tinha gente chorando para todo lado, e todos eles insistiam em me perguntar como eu me sentia.
Como uma merda do caralho, é claro! Meus dois únicos amigos eram a coca e os analgésicos pesados.
Estar muito chapado ou muito na pior era muito melhor do que o vazio escuro que a morte do meu pai tinha deixado no meu coração, na minha cabeça e na nossa casa.
Assim como qualquer outro garoto da minha idade, eu também fazia maratona de séries de TV. Alguns dos programas mostravam os pais de jovens super-ricos como ausentes, abusivos ou, em alguns casos, verdadeiros psicopatas!
Meu pai não era nenhuma dessas coisas. Ele tinha herdado toda a sua riqueza e nunca tinha trabalhado um dia sequer na vida. Apesar de todos os seus passatempos caros, ele sempre arranjava tempo para mim.
Eu o considerava o pai mais amoroso que alguém poderia desejar.
Quando percebi que gostava de garotos, ele foi a primeira pessoa para quem contei. Nem a minha mãe sabia ainda. Obcecada com a imagem e a decência, eu tinha certeza de que a mamãe acharia um escândalo logo ela ter um filho gay. Meu pai não confirmou nem negou as minhas suspeitas, mas me incentivou a contar para ela quando eu sentisse que era a hora certa.
“Todo o dinheiro do mundo nunca vai te fazer feliz se você usá-lo para construir a sua própria prisão”, ele tinha dito.
Daí em diante, ele fez de tudo para me apoiar. Ele me levava para a minha obsessão secreta—o Balé, mesmo que ele odiasse. Durante o intervalo, ele me perguntava de quais caras eu gostava.
No meu aniversário, ele me levou ao Luz de la Luna para almoçar. Ele até mandou uma bebida para o cara que eu estava olhando com muito tesão do outro lado do salão. Quando o garoto lindo olhou na minha direção, eu me abaixei e me escondi. A toalha de mesa e tudo o que estava em cima dela vieram para o chão comigo.
Nós rimos o caminho todo até em casa.
“Se você precisar de um pouco de privacidade, use isto”, ele tinha dito, me entregando um cartão de crédito novinho em folha. “Nem a sua mãe sabe dessa conta. Faça o que quiser com ela.”
Por que você fez isso, pai? Por quê?
***
“Ashton! Seu desgraçado!”, a Frankie gritou comigo.
“Me desculpa”, eu disse, com os olhos arregalados, quase pulando nos meus sapatos.
“Você está chapado no primeiro dia de aula?”, ela perguntou, com um sorriso torto.
“Estou! Meu luto precisa ser controlado”, eu disse como desculpa.
“Besteira! Você já estava se ‘controlando’ com essa merda muito antes de ter qualquer luto na história!”, ela sibilou.
“Vai se foder!”, eu disse.
“Vai se foder você também!”, ela cuspiu as palavras, me dando um soco forte no braço. “Como você está aguentando as coisas?”
“Estou me virando”, eu disse, batendo na lateral do meu nariz.
A Frankie riu enquanto entrávamos para a primeira aula. Eu não achava que conseguiria sobreviver ao dia sem ela.
***
De novo, aquelas caras de tristeza! Todo mundo olhava para mim com pena, mas não dizia nem fazia nada.
Eu me sentei e levantei a gola da minha camisa. Ela não cobria mais do que o meu pescoço, mas eu definitivamente me sentia mais seguro. A Frankie apertou a minha mão, e eu sabia que ficaria bem. Pelo menos até o efeito da coca passar.
O Sr. Greer entrou e mandou todo mundo se sentar e ficar quieto. Foi uma tarefa difícil, mas ele era um babaca, então…
Porra, quem era aquele?
“Senhoras e senhores, eu gostaria de apresentar o novo colega de vocês, Lucas Santos. Conto com todos vocês para fazerem ele se sentir bem-vindo.”
A Priscilla levantou a mão e disse: “Tem um lugar vazio bem aqui, Sr. Greer. Eu ficaria muito feliz em ajudar o Lucas a se adaptar.”
Tenho certeza de que ficaria, sua megera sugadora de almas! Tem um motivo para esse lugar estar vazio! A Vadilla tinha tentado me seduzir, e eu a rejeitei. Depois, ela contou para todo mundo que nós tínhamos ficado na festa do Mandeep, mas que eu gozei em seis segundos e chorei até ela ir embora.
Eu a odiava com todas as minhas forças, mesmo que o boato tivesse parado temporariamente as fofocas sobre eu estar babando pelo Gabriel Vega.
Aquela fofoca, na verdade, era real.
O Gabriel sempre me deixou de pau duro, especialmente durante a aula de natação. Ninguém usava sunga tão bem quanto ele. Para ser justo, eu provavelmente não era o único. Ele abandonou a escola no ano passado para ser modelo das cuecas Vero.
Chega de falar do Gabriel! Deixa eu dar uma olhada no garoto novo. Hmmm, da minha altura, cabelo escuro cortado bem curto e ombros que faziam as roupas caírem perfeitamente. Atlético, mas não forte demais, e aqueles olhos! Pareciam chocolate.
“Fecha a boca, senão a baba vai pingar na sua mesa, cara de cu!”, a Frankie me deu uma cotovelada forte.
“Vai se foder!”, eu sussurrei irritado.
“Eu iria, mas a aula já começou”, ela disse com um sorriso.
Eu observei o Lucas enquanto ele se sentava hesitante ao lado do próprio Satanás. Será que ele conseguia cheirar a maldade?
“Antes de começarmos, eu gostaria de expressar meus mais sinceros pêsames ao Ashton”, o Sr. Greer disse, estendendo o braço na minha direção. “Seu pai era um membro valioso da nossa comunidade e fará muita falta.”
De volta às caras de tristeza. Todo mundo, menos o Lucas. Ele estava olhando para mim em choque total.
***
“Qual é o seu problema com o garoto novo?”, a Frankie exigiu saber durante o almoço. Eu espetei o garfo na minha salada para fingir que estava comendo.
“Você não viu como ele reagiu quando o Sr. Greer disse o meu nome? Ele parecia ter visto um fantasma!”, eu respondi, com as pupilas dilatadas fixas no Lucas, que estava sentado ao lado do Sebastián e do Olivier.
Os gêmeos eram muito fofos, mas não tinham cérebro nenhum. Por sorte, os pais deles eram mais ricos do que Deus. Eles definitivamente não sobreviveriam um dia fora da sua pequena bolha mimada. Pensando bem, eu provavelmente também não sobreviveria.
“Claro, é por isso!”, a Frankie retrucou. “Não tem nada a ver com o fato de que você o despiu mentalmente no momento em que ele pisou na sala de aula.”
Ela não estava errada.
***
Uma mensagem da mamãe? Ela geralmente nunca me incomodava; alguma coisa devia estar acontecendo. Eu entrei na sala de estar, bem quando o sol estava se pondo lentamente sobre o Parque.
A nossa casa era formada por seis apartamentos, incluindo as coberturas, que tinham sido unidos em um só. Nós tínhamos mais espaço do que sabíamos usar e, desde que o meu pai morreu, o lugar parecia completamente sem vida.
“Eu gostaria que você conhecesse a Cynthia, a nossa nova governanta.”
“Prazer em conhecê-la”, eu murmurei. Eu fazia um esforço para ser gentil com as nossas governantas; elas sempre acabavam sabendo todos os nossos segredos.
“A Cynthia e o filho dela vão ficar com a gente até conseguirem encontrar o próprio lugar deles.”
O quê?! A governanta ia ficar aqui? E quem era esse filho?
“Mãe! Você viu o tamanho dos nossos quartos?!”, uma voz familiar ecoou pelo corredor.
Lucas?
“Prazer em conhecê-lo”, eu disse, apertando a mão dele com uma força exagerada.
“Vocês dois já não se conheceram na escola?”, a minha mãe perguntou surpresa.
“O Lucas estava um pouco sobrecarregado hoje”, eu disse, olhando nos olhos dele. Isso explicava o porquê de ele ter ficado me encarando em choque hoje de manhã.
“Eu estarei eternamente em dívida com a senhora, Sra. Brandenburg. Tenho certeza de que o Lucas não vai desperdiçar essa oportunidade preciosa”, a Cynthia disse, lançando um olhar severo para o filho.
“As notas do Lucas superaram muito as exigências da bolsa de estudos da escola. Eu apenas falei bem dele”, a mamãe disse com um sorriso sincero.
Mas que porra é essa?!
“Ashton, por que você não mostra a casa para o Lucas? Eu tenho algumas coisas para discutir com a Cynthia.”
***
“Por que você não disse nada hoje?”, eu perguntei enquanto andávamos em direção ao meu quarto. O Lucas estava claramente impressionado com o tamanho da nossa casa.
“Eu presumi que alguém como você não iria querer se associar com o filho da governanta”, ele disse, dando de ombros.
“Eu realmente não sou assim!”, eu disse, parando para encará-lo.
“Eu perguntei aos seus colegas sobre você. A Priscilla, em especial, tinha muito a dizer”, ele rebateu com um sorriso atrevido.
“Não acredite em nenhuma palavra que aquela cobra diz!”, eu cuspi as palavras.
Ele riu. Foi muito fofo.
“Ela usou exatamente a mesma frase sobre você!”
Só um dia de aula e o Diabo já tinha fincado as garras bem fundo. Eu teria que desfazer lentamente a lavagem cerebral da Priscilla se o Lucas e eu fôssemos viver sob o mesmo teto em harmonia.
“Este é o meu quarto. Por favor, desculpe a bagunça.”
“Mas que… E eu achava que o quarto em que eu vou ficar era grande. Dá pra dar a porra de um banquete aqui dentro!”
“Hã?”
“Eu era garçom de banquetes no Elysium Resort em Cancún antes de vir para cá”, ele esclareceu.
“Bem, este sou eu!”, eu suspirei. “Quartos grandes, vistas incríveis, mais dinheiro do que eu posso gastar em várias vidas e ainda sou um fodido infeliz.”
“Por quê?”, ele sussurrou.
“Porque sem o meu pai, tudo isso parece não ter sentido.”
“Eu sinto muito”, ele disse, a primeira pessoa em centenas que realmente pareceu estar falando a verdade.
“E o seu pai?”, eu perguntei com cuidado.
“Não o conheço”, o Lucas respondeu com naturalidade.
“O quê?”, eu perguntei confuso.
“Eu sou o resultado de uma transa de uma noite só à moda antiga. A minha mãe ‘conheceu’ o meu pai biológico só uma vez”, ele disse com uma honestidade com a qual eu não estava acostumado.
“Não sei o que dizer sobre isso”, eu admiti.
“Não tem muito o que dizer. É o que é.”
Então, ele era fofo e interessante. Eu deveria tomar cuidado para não me apegar demais.
“Posso te pedir um favor?”, eu disse, precisando mudar de assunto.
“Vai doer?”, ele perguntou com um sorriso malicioso.
Uau!
“Deixa eu provar que eu não sou quem a Priscilla diz que eu sou”, eu disse com confiança.
“Tudo bem. Quanta cocaína você cheira?”
Porra!


































