
O Universo da Discrição: O Que Não Foi Ouvido
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Ecos Não Ouvidos
MATEO
Sempre soube que eu era diferente, desde muito novo.
Meu pai nunca fez parte da minha vida, e minha mãe, que me teve aos dezessete anos, foi embora quando eu tinha seis, alegando que não levava jeito para ser mãe. Ela sumiu sem deixar rastros, me deixando na dúvida sobre onde ela estava, até que comecei a receber cartões de aniversário cheios de dinheiro de várias partes do país.
Conforme fui crescendo, descobri que ela tinha aberto uma conta bancária no meu nome e fazia depósitos anuais. Apesar disso, eu nunca toquei no dinheiro.
Meu avô foi quem me acolheu e me criou.
Durante uma de nossas muitas viagens de pesca, tentei calcular as chances de ele pegar um peixe. Levei em conta o volume do lago, o número estimado de peixes por pé cúbico e o tempo médio de espera.
Para mim, era uma equação simples, mas para o meu avô, era algo muito confuso. Depois disso, ele começou a me olhar de um jeito diferente, então parei de compartilhar meus pensamentos. Eu não queria que ele achasse que a minha mãe tinha razão em ir embora.
O momento em que vi meu avô mais orgulhoso foi quando entrei para o time de beisebol da escola. Eu tinha o dom de calcular a trajetória perfeita da bola e a força necessária para rebatê-la. Deixava a parte de correr para as outras crianças.
As aulas de matemática eram moleza para mim, mas eu me fazia de burro para o professor não contar ao meu avô. Quando o Sr. Warner não estava olhando, eu resolvia problemas de nível olímpico no meu caderno de rascunhos.
Eu passava meu tempo livre na sala de computadores, procurando desafios que estimulassem a minha mente. A aposentadoria do meu avô mal cobria nossas contas, mas ele conseguiu me dar um notebook no meu aniversário de doze anos. Aquele presente mudou a minha vida.
Aos quinze anos, eu já programava e escrevia sistemas avançados. Um ano antes de terminar o ensino médio, vendi um software de compressão de vídeo para a Symillion por cem mil dólares.
Eu queria usar o dinheiro para comprar a casa de praia dos sonhos do meu avô, mas ele insistiu que eu usasse para a faculdade. Desejando um desafio de verdade, concordei com relutância.
Escolhi estudar ciência da computação no famoso American Institute of Technology. Não demorou muito para eu perceber que tinha sido a melhor decisão da minha vida.
***
No meu primeiro dia, conheci Rupert em uma aula de Algoritmos e Teoria. Ele sentou na minha frente com um notebook AcuBook.
“Oi,” eu disse, me inclinando para a frente. Ele era gatinho, e eu estava ansioso para fazer um amigo.
Ele não respondeu.
Fiquei observando enquanto ele tirava um aparelho que parecia uma mini antena parabólica, conectava-o ao notebook e ajustava sua posição.
“O que é isso?” perguntei, tentando chamar a atenção dele de novo.
Mais uma vez, ele não respondeu. A aula já tinha começado, e eu estava começando a achar que ele era apenas mal-educado.
O professor Buchanan não perdeu tempo e começou a matéria. Eu ainda estava me acostumando com o ambiente da universidade e me esforçava para anotar tudo.
Só quando um aluno respondeu a uma pergunta que reparei no que estava acontecendo na tela de Rupert.
Uma coluna mostrava uma imagem pequena do professor e a transcrição de todo o seu monólogo. Outra coluna mostrava os perfis dos alunos com fotos, nomes e pronomes de cada um. A última coluna estava cheia de postagens de redes sociais, passando muito rápido.
O programa parava em um vídeo do aluno que estava falando no momento e anunciava: “Match Encontrado.” A foto do perfil do aluno ia então para a primeira coluna, atribuída à transcrição de sua resposta.
Fiquei de queixo caído. O aparelho estava transcrevendo a aula inteira em tempo real! Naquele momento, soube que precisava ser amigo daquele cara.
Depois da aula, sentei ao lado dele e estendi a mão.
“Mateo,” eu disse, dando um sorriso largo. Ele não podia me ignorar agora.
Rupert se virou para mim, parecendo que só então tinha percebido que não estava sozinho. Em vez de apertar minha mão, ele levantou um dedo, digitou algo no celular e deixou que o aparelho falasse por ele com uma voz grave e suave.
“Olá. Eu sou Rupert. Qual é o seu nome?”
Fui pego de surpresa. Por que ele estava usando o celular para falar? E eu não tinha acabado de me apresentar?
Então, a ficha caiu. Rupert era surdo!
Eu tinha confundido o silêncio dele com falta de educação. Agora, eu precisava descobrir como me comunicar com ele. O aplicativo de notas do celular parecia um bom começo.
Peguei meu celular, pronto para digitar uma mensagem, quando a voz robótica do aparelho dele soou: “Eu sei ler lábios se você articular bem as palavras.”
“MEU NOME É MATEO!” eu praticamente gritei, com meus lábios se movendo de forma exagerada. Morri de vergonha por dentro. Eu estava mesmo gritando com uma pessoa surda? Qual era o meu problema?
Rupert deu uma risada quase imperceptível e digitou: “Não precisa gritar, Presente de Deus.”
Ele sabia o significado do meu nome em italiano? Olhei para ele surpreso, e ele riu de novo, dessa vez soltando um pequeno ruído.
Eu não queria que a nossa conversa acabasse, então apontei para o aparelho dele, perguntando o que era. Dessa vez, fiz questão de articular bem sem aumentar o tom de voz.
“É para me comunicar com a minha nave-mãe,” o aparelho respondeu. Ele era inteligente, adorável e engraçado.
“Acho que sei o que isso faz de verdade,” eu disse, falando devagar. “Você gostaria de ter um parceiro de estudos?”
Ele riu novamente, a risada soprada dele enchendo o ar, e digitou: “Parceiro fixo? Mas acabamos de nos conhecer!”
Puta que pariu! Pelo jeito, leitura labial não era uma ciência exata.
“Estou só brincando com você,” ele digitou, claramente se divertindo com a minha vergonha. “Podemos estudar juntos… se você conseguir acompanhar o meu ritmo.”
Caralho!
***
Durante nossa primeira sessão de estudos, Rupert explicou como o aparelho dele funcionava. Ele tinha cocriado o pequeno receptor com seu pai, e o aparelho foi montado por um fabricante na Coreia. Foi projetado para captar ondas sonoras em lugares fechados e separar as vozes do barulho ao redor.
Ele mesmo tinha escrito o programa que vi na tela dele, uma maravilha do aprendizado de máquina. Como Rupert era surdo, ele não conseguia distinguir as vozes das pessoas, então seu software fazia isso por ele.
O algoritmo dele procurava na internet por amostras da voz de quem estava falando, cruzava os dados com o perfil da pessoa e transcrevia o que ela dizia.
“Então você é um gênio surdo, tipo o Beethoven?” eu brinquei. Puta merda! Isso foi ofensivo? Eu queria que fosse um elogio.
“Na verdade, eu invejo o tipo de genialidade do Beethoven,” a voz robótica respondeu.
O quê?!
“Músicos, artistas, atores... todos eles conseguem criar beleza para compartilhar com o mundo,” o aparelho falou por ele. “Por outro lado, o nosso tipo de inteligência tem a tendência de nos afastar das outras pessoas.”
“Uau! Para uma pessoa que não fala, você tem muito jeito com as palavras,” eu disse, com a admiração clara na minha voz. Caralho, eu acabei de dizer isso mesmo!? Qual é a porra do meu problema?
Ele sorriu para a minha cara de desespero e digitou rápido: “Eu nem sempre fui surdo. Escolho não falar porque não consigo controlar o som da minha voz.”
Sério? Eu não conseguia imaginar como devia ser difícil perder a audição depois de já tê-la, em vez de nunca ter escutado nada.
“Como isso aconteceu?” perguntei, sentindo que seria ainda mais insensível não perguntar a essa altura.
“Vamos voltar a este capítulo, pode ser?” o aparelho respondeu, evitando a minha pergunta de um jeito muito sutil.
As habilidades de Rupert com programação e algoritmos eram muito melhores que as minhas, mas eu entendia muito mais de matemática. Formávamos uma ótima equipe, preenchendo as lacunas no aprendizado um do outro sempre que estudávamos juntos.
Ele tinha permissão especial para usar o aparelho nas aulas. A precisão das transcrições que o programa fornecia até parecia trapaça.
Fazer parte da elite do AIT significava uma competição intensa entre os alunos, então eu não estava disposto a abrir mão de nenhuma vantagem.
Ficamos amigos rapidamente. Durante as primeiras semanas do segundo ano, Rupert era, sem dúvida, o centro da minha vida social.
Durante todo o tempo que passávamos juntos, ele nunca mencionou nenhum interesse amoroso, fosse por meninas ou meninos.
Será que ele via a surdez como uma barreira nesse sentido, ou havia outro motivo?
Ele era assexual?
Sinceramente, eu não tinha muita experiência com diversidade de orientações sexuais. Eu sabia sem a menor dúvida que era gay, mas de onde eu vim, isso não era algo que eu compartilhava abertamente.
O primeiro cara com quem transei só queria sexo casual. O segundo queria um relacionamento para o qual eu não estava pronto.
As duas experiências me deixaram com a sensação de que havia mais coisas lá fora.
Foi só quando fomos convidados para uma festa de fraternidade na Hargrave University que tive um vislumbre do que a minha nova vida poderia oferecer.













































