
O Universo da Discrição: Pose Perfeita
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Capítulo 1
Perfect Pose
O ensino médio nunca foi o meu lugar feliz.
Eu era o garoto quieto e desajeitado que tentava passar despercebido. Mas, ironicamente, a tentativa de ser invisível muitas vezes me fazia chamar ainda mais atenção.
Às vezes, isso contava a meu favor, como quando me levou à minha melhor amiga, Vanessa. No entanto, também me tornou um alvo fácil para o Benjamin, que não gostava nem um pouco de mim.
Mas então, tudo mudou.
Eu me formei como o orador da turma e fui aceito na escola de artes mais prestigiada da cidade. De repente, eu senti que pertencia àquele lugar.
Eu não era mais o estranho do grupo. Eu era Christian Taylor, o aluno com bolsa de estudos integral. Eu era o cara que tinha deixado a banca de admissão sem palavras com um desenho a carvão de um garoto debaixo de um salgueiro-chorão.
Apesar das minhas reservas iniciais, eu senti que ali era um lugar onde eu poderia ser eu mesmo. Talvez eu não precisasse mais me esconder, nem mesmo de quem eu realmente era.
***
“O projeto final deste semestre terá como foco a forma humana”, o Prof. Foster declarou de forma enfática.
Ele gesticulou para quatro pessoas que entraram no nosso estúdio, vestindo roupões de banho brancos com o emblema da escola.
“Vamos dar as boas-vindas aos nossos modelos: Katherine, Stephan, Liz e Jonathan.”
Katherine era uma mulher deslumbrante, que devia estar no início dos seus sessenta anos. Ela envelhecera maravilhosamente bem; sua pele negra e lisa deixaria minha mãe morrendo de inveja.
Stephan era bem mais velho, provavelmente beirando os oitenta anos. Ele tinha um olhar bondoso e um corpo esguio.
Deduzi que Liz estivesse no início dos quarenta anos. Ela era um pouco cheinha, com cabelos ruivos longos e crespos, além de olhos verdes vibrantes.
Mas Jonathan foi quem roubou a cena. Ele tinha mais ou menos a minha idade e era alto, com mais de um metro e oitenta. Seus cabelos curtos em tom loiro-escuro e seus olhos cor de avelã vasculharam a sala com atenção.
O Prof. Foster instruiu que eles se despissem e assumissem as poses predeterminadas. Eu quase perdi o fôlego quando Jonathan tirou tudo, com a maior naturalidade, e se acomodou num banco alto, com as pernas encolhidas.
Eu me perguntava que tipo de esporte tinha esculpido aquele físico. Foi uma luta desviar o olhar, mas eu não queria ser pego encarando-o.
Ele era de tirar o fôlego e, exatamente por esse motivo, eu sabia que não poderia escolhê-lo como meu modelo. Optei pela Katherine.
A pose dela era o sonho de qualquer artista. Suas mãos estavam perfeitamente posicionadas e as pernas esticadas exibiam músculos que teriam fascinado Da Vinci.
Mas eu não conseguia me concentrar. Desperdicei metade de um caderno de esboços tentando capturar a elegância dela, mas minha atenção estava sempre dividida.
Jonathan virou minha obsessão.
Eu não ousava me aproximar dele depois da aula, então tudo a seu respeito, exceto o corpo, existia apenas como uma fantasia na minha mente. Eu imaginava a sua voz, os seus movimentos e até mesmo como ele interagia com os outros.
A minha versão do Jonathan era impecável.
Eu sabia que tinha talento, e o Prof. Foster também, mas ele começou a notar que o meu progresso estava ficando muito para trás.
“Christian, parece que você está tendo dificuldades com esse projeto”, ele comentou, um dia, após a aula. “Não consigo entender direito o motivo.”
Eu o encarei e, em seguida, olhei para os meus tênis All Star vermelho-berrante. Com certeza, eu não iria contar o motivo da minha distração.
“Você tem só mais uma semana para concluir o projeto. Talvez devesse considerar um modelo diferente”, ele sugeriu, sem nenhuma segunda intenção.
Ele estava tentando, de forma genuína, resolver o meu bloqueio criativo, e não insinuando que eu escolhesse a pessoa que assombrava os meus sonhos.
Será que ele não fazia mesmo ideia?
O Prof. Foster estava certo. O meu trabalho com a Katherine estava abaixo do esperado. Mas eu sabia que seria a mesma coisa com qualquer outro modelo, exceto o Jonathan.
Eu tinha que reunir um pouco de coragem e agir de forma profissional. Ele seria o meu muso inspirador e, se alguém perguntasse, eu diria que ele me lembrava o meu irmão. Não era mentira; o Porter já tinha posado para mim muitas vezes, só que não nu.
Pintar o Jonathan foi a coisa mais natural que eu já fiz. A forma dele fluía para a tela com facilidade. Logo percebi que eu conseguiria ignorar a minha paixão e focar em capturar os traços mais sutis do seu rosto lindo.
Meu pincel traçava cada sombra, cada imperfeição, tudo o que eu não tinha conseguido capturar com a Katherine. Apesar do avanço, eu ainda estava muito atrás do restante da turma.
A pintura a óleo exigia tempo e paciência, luxos que eu não tinha mais. Hoje era a última aula e eu corria um sério risco de ser reprovado, a menos que tomasse alguma medida drástica.
O Prof. Foster concordou com a minha proposta, mas avisou que haveria um desconto na nota pelo atraso.
E então chegou a parte mais difícil.
Tirar fotos dos modelos estava totalmente fora de cogitação, então eu teria que dar um jeito de convencer o Jonathan a me ajudar. Isso significava que eu teria que falar com ele de verdade.
Que droga!
O Jonathan que eu tinha inventado na minha cabeça estava prestes a ser despedaçado.
“Jonathan”, chamei, e a minha voz ecoou pelo corredor.
Consegui alcançá-lo bem na hora em que ele estava prestes a sair do prédio. Ele se virou e me deu uma boa olhada de cima a baixo. O meu coração deu um pulo.
“Eu sou o Christian, da turma do Prof. Foster…”
“Terceira carteira da direita, última fileira.” Ele estendeu a mão para me cumprimentar.
Ele tinha me notado? Droga! Isso ia ser uma repetição do desastre com o Benjamin? Eu tinha passado incontáveis noites chorando pelo inferno que aquele valentão do ensino médio me fez passar, mas nunca tinha contado isso a ninguém.
Eu teria que dar ao Jonathan o benefício da dúvida, afinal de contas, sem ele o meu projeto já era.
“O que posso fazer por você?”, ele perguntou, quando eu já estava calado há tempo demais.
“Ah, sim. Hum, eu preciso da sua ajuda”, eu consegui dizer, mesmo tendo ensaiado o que iria falar um milhão de vezes.
Ele ficou em silêncio, esperando que eu continuasse.
“Eu tive que mudar o modelo do meu retrato e, agora, estou ficando para trás em relação ao resto da turma.”
“Você trocou de modelo e me escolheu?”, ele perguntou, com uma sobrancelha arqueada. “Por quê?”
Merda! Que droga! Por que ele tinha que perguntar isso?
“Porque o meu irmão dese... Eu costumava desenhar o meu irmão e, agora… É que, bem, quer dizer…”
Ele ficou observando o meu desespero, com um sorriso de canto nos lábios.
“De qualquer forma, o Prof. Foster me deu um prazo extra, mas eu vou precisar trabalhar no estúdio com você depois do horário de aula.”
“Por quanto tempo?”, ele perguntou, franzindo a testa.
“Uma hora, talvez duas”, respondi, rezando para que ele aceitasse.
E se ele dissesse “não”?
“A escola me paga vinte dólares por hora. Depois do horário de aula, vou ter que cobrar trinta”, ele disse.
“Sessenta dólares!”, deixei escapar, em choque. “Eu sou bolsista. Mal consigo fechar o mês do jeito que as coisas estão.”
Ele me olhou de cima a baixo outra vez e disse: “Beleza, trinta dólares pela sessão inteira, mas faremos isso na minha casa.”
Pensei na proposta dele por um momento e me dei conta de que não tinha muitas alternativas.
“Fechado”, eu disse, estendendo a minha mão para cumprimentá-lo mais uma vez.
“E mais uma coisa: você vai me deixar mexer no celular enquanto trabalha. Ficar parado sem fazer nada fica chato muito rápido.”
















































