
O Universo da Discrição: Seguro
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Capítulo 1
Eu estava sentado no saguão, vestindo meu terno recém-comprado, espiando através da parede de vidro para a sala de reuniões. A descrição do trabalho tinha sido clara: vista-se bem, mas não chame atenção.
Eu tinha feito meu dever de casa na noite anterior e reconheci a mulher na cabeceira da mesa. Ariadne Buchbinder, a grande chefe do A’aru Group.
O irmão dela, David, administrava o império hoteleiro Elysium, mas o território de Ariadne era a alta-costura. Ela era dona de grandes nomes como Linda Tate, FIUME e da icônica marca da falecida designer Veronique Archambeau, simplesmente conhecida como…
Vero.
Eu não era um guru da moda, mas conhecia o bordão da Vero, “In Vero, Veritas”. Era um trocadilho com o ditado em latim, “In Vino, Veritas”, ou “No vinho há verdade”, uma referência a como o álcool pode fazer as pessoas revelarem seus segredos.
Eu já tive minha cota de momentos de língua solta sob a influência de bebidas. Uma noite particularmente nebulosa com uísque com gelo me levou a fazer algo que jurei que nunca faria.
Para fugir da minha culpa, saí do exército há menos de um ano e encontrei consolo na reunião mais próxima do AA.
Puta merda!
Um homem saiu do elevador, com botas pretas de salto alto nos pés e uma grande bolsa de couro desgastada no braço. Suas unhas eram de um rosa chocante, combinando com sua camisa colada da Vero.
Seu rosto era perfeitamente equilibrado, acentuado por maquiagem preta esfumada nos olhos e cachos escuros. Eu nunca tinha visto alguém tão extravagantemente fabuloso de perto. Esse era Marcus Westfield, o Diretor de Criação da Vero.
Susan, do RH, abriu a porta e nos conduziu para a sala de reuniões. Encontrei um lugar no canto e fiquei em posição de sentido.
“Eu não tenho o dia todo. Tenho um desfile para preparar”, Marcus anunciou, jogando sua bolsa em cima da mesa.
Fiquei perplexo com o desprezo dele pelas pessoas obviamente influentes na sala.
“Sente-se”, Ariadne ordenou friamente.
Marcus obedeceu, mas cruzou os braços como uma criança emburrada.
“Sr. Bergen, aqui não é o exército. Por favor, sente-se”, Ariadne disse, com um sorriso caloroso.
Assim que me sentei, Ariadne voltou sua atenção para Marcus, que estava absorto em seu CuffPhone.
“Convoquei esta reunião urgente porque alguém aqui está recebendo ameaças de uma fonte desconhecida.”
Meu olhar disparou pela sala, tentando descobrir de quem ela estava falando.
“Todos receberam um agente de segurança pessoal. Sr. Bergen, você ficará com o Marcus”, Ariadne disse, gesticulando na minha direção.
“Um guarda-costas?! Isso é ridículo, eu não preciso de uma babá!”, Marcus protestou, levantando-se abruptamente.
“Sente-se”, Ariadne repetiu.
Ele se sentou, mas continuou reclamando.
“Nós te demos muita liberdade porque confiamos na sua visão. Mas isso não está em discussão!”, ela afirmou firmemente.
Marcus trincou o maxilar e olhou furioso para Ariadne em silêncio.
“Tudo bem”, ele murmurou, pegando sua bolsa e saindo furioso da sala.
Levei um segundo para perceber que eu deveria segui-lo. Eu me levantei de um salto e corri em direção ao elevador.
“Felix”, eu me apresentei, estendendo a mão.
Marcus não retribuiu o gesto. Ele olhou feio para mim e declarou: “Você está demitido!”
“Você não pode me demitir porque não é meu chefe”, respondi calmamente. Eu não ia deixar que ele me afetasse.
“Tá bom, então seja útil! Eu tomo café preto com uma colher de baunilha.”
“Meu trabalho é mantê-lo seguro, senhor”, eu disse, cruzando os braços no canto de trás do elevador.
“Não me chame de ‘senhor’! Eu odeio linguagem com especificidade de gênero!”
“Como devo chamá-lo então?”, perguntei. Será que cuzão era específico de gênero?
“Você pode me chamar de Marcus ou de Vossa Majestade”, ele disse, com um sorriso se espalhando pelo rosto.
“Vou tentar me lembrar disso”, respondi, lutando para manter uma expressão séria.
***
“Hugo, este é o Felix. Felix, Hugo”, Marcus apresentou, apontando para seu motorista.
“Um prazer”, Hugo cumprimentou, inclinando o chapéu para mim.
Ele era um cara mais velho, mas parecia amigável e tinha um ar de cavalheiro. Inclinei-me para frente e apertei sua mão.
“Felix é meu agente de segurança pessoal”, Marcus explicou, fazendo aspas no ar.
“Eles te deram um guarda-costas?”, Hugo perguntou, erguendo uma sobrancelha.
“Eu sei! Estou tão surpreso quanto você, querido.”
Marcus fuçou em sua bolsa e puxou um vaporizador. Ele deu uma tragada funda, soltando a fumaça pelo nariz.
“Isso não é ilegal em um veículo fechado?”, questionei.
“O Hugo não se importa, não é, gatinho?”, Marcus perguntou, cruzando as pernas.
“De jeito nenhum, Vossa Majestade”, Hugo respondeu, piscando pelo espelho retrovisor.
“Viu! Não tente me controlar no primeiro dia, Lucky.” Marcus abaixou a janela, apesar da sua reclamação anterior.
Levei um momento para perceber por que ele tinha me chamado de Lucky. Felix significava “feliz” em latim. Como linguista e tradutor do exército, eu conhecia meus idiomas, mas fiquei surpreso que ele também conhecesse.
“Vamos direto para Nárnia, ou devo passar em casa primeiro?”, Hugo perguntou, fazendo uma curva impecável para a esquerda.
“Não tenho tempo para me trocar, docinho”, Marcus respondeu, colocando um par de óculos de sol de armação branca adornados com pedras brilhantes.
“Nárnia?”, perguntei, com as mãos cruzadas no colo.
“Meu estúdio de design, onde toda a mágica acontece!” Marcus deu um beijo no dedo e o tocou na minha bochecha.
Não reagi, mas percebi que teria que me acostumar com seu… estilo único.
***
Hugo nos deixou em um antigo lote industrial na parte badalada da cidade. Mesmo de fora, eu percebia que este lugar era um pesadelo de segurança.
Eu teria que pedir um favor a um amigo para fazer uma inspeção no local e me dar um orçamento razoável. Eu tinha recebido um orçamento para proteger a casa e o local de trabalho de Marcus, mas planejava gastá-lo com sabedoria.
“E aí, vadias!”, Marcus gritou quando entramos no amplo espaço aberto. “Quem vai ler o relógio da contagem regressiva para mim hoje?”
“Dezoito dias, seis horas e doze minutos”, uma mulher baixinha gritou de trás de uma grande mesa de metal.
“Nós vamos estar prontos?!”, Marcus gritou, reunindo suas tropas.
“Sim, Vossa Majestade!”, todos responderam com entusiasmo.
“Estas são minhas pequenas fadinhas”, Marcus sussurrou, balançando os dedos. “Elas são a verdadeira essência da Vero.”
“Diga que sou uma maldita fada mais uma vez, eu te desafio. Eu arranco seus dentes!” Uma mulher na casa dos quarenta anos, com a pele em um rico tom de marrom, estava de braços cruzados.
Marcus nem piscou. “Conheça Shaniqua, minha designer técnica. Ela é quem…”
“Transforma as ideias malucas e descabidas dele em algo real”, ela interveio, terminando a frase dele.
Shaniqua era a prova viva de que nem todo mundo conseguia lidar com a personalidade excêntrica de Marcus.
“Então, eles finalmente arranjaram um guarda-costas para você, hein?”, Shaniqua perguntou, com os dedos voando sobre seu AcuTab.
“Você descobriu isso tudo sozinha, docinho?”, Marcus respondeu, colocando uma mão sobre o coração em fingido choque.
“Você tá falando sério? Com toda a merda que você fala, eu fico chocada que ninguém tenha tentado te matar ainda!”
Eu já estava começando a gostar dessa mulher.
“Tudo bem, estou entediado”, Marcus anunciou, caminhando a passos largos em direção a uma escada no meio da sala. Ele subiu até o topo e declarou: “Pessoal, conheçam o Felix. Ele está aqui para me manter vivo até a Semana da Moda. Se vocês tiverem algum problema com isso, resolvam com ele. Obrigado!”
Marcus era um maluco total, mas tinha um jeito de comandar uma sala.
Um cara alto com cabelos com luzes e os braços cheios de pulseiras se aproximou de mim, ficando desconfortavelmente perto.
“Esse aqui é um verdadeiro deleite”, ele disse. “Onde você o encontrou?”
“Se afasta, Paulo!”, Marcus avisou. “Não o assuste no seu primeiro dia.”
“Não é isso que você está tentando fazer?”, perguntei, mantendo minha posição.
“Bem, você sabe o que dizem. Quando a vida te dá um garoto bonito, faça uma limonada”, Marcus disse com um dar de ombros indiferente. “Ah, eu disse isso em voz alta? Foi mal!”
Não pude deixar de soltar uma pequena risada.
“Sarah, querida. Posso pegar você emprestada um instante?”, Marcus chamou uma garota lá no fundo. “Precisamos tirar o Lucky desse terno terrível.”
Que porra é essa?
“Eu não sou um político careta. Aqui é a Vero, e você precisa se vestir a caráter!”


































