
Os Escolhidos Livro 6: Transformados
Author
G. M. Marks
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Chapters
37
Sonhos Entre as Estrelas
Livro 6: Transformada
KEIRA
“Você realmente acha que isso vai dar certo?”
Keira olhou para a amiga enquanto estavam deitadas juntas em seus sacos de dormir. “O que você acha?”
Dani suspirou. “Você tem razão. Só nos nossos sonhos.”
Keira voltou sua atenção para o céu noturno. Ela conhecia sua melhor amiga há tempo suficiente para saber quando ela estava mentindo, para saber quando ela estava aliviada, em vez de resignada.
O próprio suspiro de Keira foi muito diferente.
Ela colocou as mãos sobre o peito. Era uma noite quente e de lua nova, deixando as estrelas brilharem intensamente. Ela observou de perto, mas não viu nada de incomum.
Nenhuma luz brilhante. Nenhum homem maravilhoso e enigmático espreitando nas sombras.
Elas estavam na beira do acampamento do bairro, com colinas se estendendo ao longe, longe o suficiente das luzes brilhantes da cidade. Embora, aparentemente, os alienígenas não se importassem se abduziam no campo ou no centro da cidade — pelo menos era o que diziam os boatos.
A casa de Keira ficava a vinte minutos dali.
Ela queria que fosse mais longe.
Galáxias mais longe.
Ela suspirou novamente.
“Você é inteligente, Keira. Você não acredita de verdade que os boatos sejam reais, não é?” Dani disse. “As mulheres não estão sendo abduzidas. Alienígenas não existem. Ou, se existem, não estão vindo para cá.”
“Provável.” Ela hesitou. “Talvez não. Eu gosto de pensar que é possível.”
Uma lágrima indesejada escorreu pelo seu rosto. Ela rapidamente a secou antes que Dani pudesse ver, passando os dedos pelos seus longos cabelos escuros para disfarçar.
“Não é possível.”
“Eu posso sonhar. Eu posso me divertir.”
Keira franziu o rosto enquanto lutava contra a sua tristeza. Ela não sabia o porquê. Não tinha percebido o quanto estava chateada com a própria vida — e ela realmente não tinha motivos para estar chateada!
Ela ia para uma boa faculdade. Sua mãe era uma... bem... uma mãe razoável. Ela morava em uma casa.
Não uma casa boa.
E ela estava reprovando em uma das matérias.
Teria comida suficiente na geladeira para o café da manhã?
A última coisa que ela queria era voltar para casa amanhã. Voltar para a faculdade na segunda-feira. Retornar à rotina monótona de sempre.
Ficar sozinha. Lidar com a sua pobreza.
Keira cruzou os braços sobre o peito, segurando outro suspiro.
“No que você está pensando?” Dani perguntou.
“Em nada”, Keira disse, tentando disfarçar o nó na garganta. “A vida é só isso?”
“Como assim? O que mais você quer?”
Keira deu de ombros.
“A vida é legal, eu acho”, Dani disse. “Nada de especial.”
Ela disse isso de um jeito que fez Keira lançar-lhe um olhar penetrante.
Dani deu um sorriso trêmulo. “A vida não faz sentido. A morte é certa. A luta é uma probabilidade.”
“A fantasia existe na nossa imaginação”, Keira concordou. “Nossas imaginações bobas.”
“Nossas imaginações extraordinárias”, Dani disse. “Imaginações do tamanho do universo.”
Keira riu com os olhos cheios de lágrimas. “A gente fala tanta merda estúpida.”
“É. Mas merdas verdadeiras.”
Ambas voltaram seus olhares para as estrelas. Uma brisa fria afastou o cabelo do rosto de Keira.
Os grilos cantavam. Ela podia ouvir o som distante do trânsito. Risadas vinham do acampamento.
“Mas e se for verdade?” Keira disse.
“O quê?”
“Os boatos. Que alienígenas estão mesmo abduzindo mulheres para... você sabe. Você iria?”
“Se eles forem gostosos... sim... claro”, Dani riu. “Mas, por outro lado, como você sabe que eles são alienígenas bons? O que te faz pensar que eles não vão abusar da gente? E aquelas... você sabe... sondas anais e coisas do tipo.”
Keira caiu na gargalhada.
“É verdade!” Dani rolou para o lado. “Ou estuprar você. Ou machucar você. Ou matar você! Quem garante que eles querem amar você? Com que frequência na história da humanidade isso sequer aconteceu entre homens e mulheres? Por que eles seriam diferentes?”
“Existem histórias...”
“Histórias. Histórias inventadas! Por velhas solitárias, sem dúvida.”
“Pelo amor de Deus, Dani, me deixa sonhar, pode ser?”
Dani virou de barriga para cima. Mais risadas vieram do acampamento.
Ouviu-se o som de comemorações distantes, como se alguém estivesse assistindo a um jogo de esportes. Uma brisa fria arrepiou a pele de Keira. Ela se abraçou com mais força.
“E você?” Dani disse. “Então, eu acho que você iria com eles?”
“Sem pensar duas vezes.”
As duas ficaram em silêncio.
Keira tentou ficar acordada, ouvindo, mantendo os olhos nas estrelas, mas o acampamento logo ficou silencioso, e ela acabou pegando no sono.
***
A manhã seguinte amanheceu clara e ensolarada.
“Bom... nada de alienígenas... mas foi divertido de qualquer forma”, Dani disse enquanto elas desmontavam a barraca.
“É. A gente devia fazer isso de novo algum dia.”
“Algum dia”, Dani concordou.
As janelas estavam abertas, e o cabelo de Keira balançava com o vento enquanto elas dirigiam de volta para casa. Estava um dia excepcionalmente bonito, e foi triste deixar o acampamento para trás.
Não demorou muito para que as colinas fossem substituídas por casas, depois prédios industriais, depois sobrados e, então, o labirinto de habitações sociais abandonadas, poluído e sem árvores, que era a sua casa.
“Obrigada, Dani. Eu te ligo”, Keira disse enquanto saía do carro e pegava suas coisas. Ela bateu a tampa do porta-malas.
“Tchaaau!” Dani colocou o braço para fora da janela e acenou.
Keira acenou de volta enquanto Dani se afastava, observando até ela desaparecer na esquina. Erguendo suas bolsas, Keira caminhou até a porta da frente.
O carro da sua mãe estava estacionado no meio-fio. Keira ficou olhando. Em casa do trabalho numa segunda-feira? Seu coração apertou.
A porta estava destrancada. Keira ergueu o nariz ao sentir o cheiro de hash browns no forno.
Jogando suas bolsas no sofá, ela entrou na cozinha e viu sua mãe se movendo apressada perto do fogão. Seu cabelo loiro descolorido estava preso em um coque bagunçado. Ela usava o roupão, manchado e tão gasto que Keira quase podia ver através dele.
“Por que você não está no trabalho?” Keira perguntou.
“Ah!” Sua mãe se virou, dando um sorriso culpado enquanto segurava uma espátula engordurada. “Não ouvi você entrar! Espero que esteja com fome!”
Ela se virou rapidamente antes que Keira pudesse notar algo de errado. Antes que pudesse ver as olheiras escuras e o tremor em seus lábios.
“Eles demitiram você”, Keira disse, com a garganta apertada.
Sua mãe não respondeu, cantarolando baixinho.
O coração de Keira apertou ainda mais. Ela deveria ter ficado em casa. Pelo menos assim, ela poderia ter convencido a mãe a se levantar. Ajudado a se vestir.
Colocado ela no carro. Ela olhou para a lixeira e viu que sua mãe já a tinha esvaziado. O quanto ela tinha bebido na noite passada?
“Eu não sabia que a gente tinha bacon”, Keira disse, observando-a cozinhar. Ela fez o possível para não deixar a voz soar ríspida.
“Eu fui fazer compras.”
“De pijama?”
“É só no fim da rua.”
“Você pelo menos calçou sapatos?”
Sua mãe bateu a espátula na pia. “Pelo amor de Deus, Keira! Eu só estou tentando fazer algo de bom para você.”
“Tá bom, mãe.” Keira pegou alguns pratos e talheres. Os pratos bateram na mesa quando ela os colocou.
“Não faça tanto barulho!” Sua mãe ergueu as mãos, prestes a agarrar a própria cabeça com as mãos engorduradas antes de pensar melhor. Ela bateu a espátula de novo e virou o bacon.
Os ovos estalaram e chiaram.
Keira sentou-se, com as mãos enfiadas entre os joelhos. Ela não disse nada, apenas encarava a parede, pensando na sua conversa com Dani na noite passada.
“Aqui está”, sua mãe disse, sorrindo ao deslizar várias fatias de bacon, ovos e hash browns para o prato de Keira.
Keira franziu a testa. “E para você?”
Sua mãe sentou-se como uma criança na frente do próprio prato vazio, com os joelhos encolhidos contra o peito. Ela parecia tão magra.
Suas clavículas marcavam a blusa. Keira podia ver todos os pequenos ossos em seus pulsos.
“Isto é tudo para você”, sua mãe disse.
“Mãe...”
“Tudo para você.” Ela olhou pela janela, roendo a pele do dedo.
Abaixando a cabeça, Keira comeu sua comida obedientemente, sentindo apenas o gosto das lágrimas na garganta.











































