
Os Viajantes de Tyr 4: Absolvição
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Capítulo 1
Livro 4: Absolvição
MAGDALENE
Ele está rezando há horas. Eu estou rezando também. Rezo para que ele não venha de novo, que se perca nas próprias palavras e esqueça de mim. Só por esta noite.
Imploro por uma noite de solidão. Estou encolhida debaixo da minha cama, balançando o corpo para frente e para trás. Hoje não, hoje não, hoje não.
“MAGDALENE!”
O meu sangue gela. Ele está vindo. Deus não existe. Ou, se Ele existe, não consegue me ouvir deste buraco no chão onde fui trancada.
Ou talvez eu seja a pessoa má, suja como ele sempre me diz, e este é o meu Inferno, o meu castigo.
“Magdalene!”
Ele está mais perto agora. Não há como fugir dele nesta prisão que se tornou a minha vida. Escuto os passos dele do lado de fora do meu quarto e fecho os olhos. As lágrimas queimam o meu rosto, e eu choro baixinho.
A porta é escancarada e ele entra, contra a luz, coberto pela escuridão. Não sei se Deus existe, mas o Diabo é real e ele veio me buscar de novo.
“Magdalene.”
Acordo ensopada de suor, contendo um grito. Está um breu lá fora, no meio da madrugada. Balanço a cabeça, sentindo o gosto salgado das minhas lágrimas.
Faz anos desde que Salome nos encontrou, derrubou aquela porta maldita como um anjo guerreiro, e espancou o “Pai” até a morte. Faz anos desde que a minha irmã corajosa me pegou nos braços e me trouxe para a luz. Faz anos desde que fui libertada do Inferno.
Mas, todas as noites, eu volto para lá.
“Porra!”
Pego a garrafa de água que sempre deixo por perto e balanço as pernas para o chão. Faz meses desde que saí de Berkeley, e tenho viajado desde então, mudando de cidade em cidade, indo embora quando as coisas ficam intensas demais.
Sou como o Judeu Errante, aquele que zombou de Jesus a caminho da cruz e foi condenado a vagar pela Terra até a Segunda Vinda. Mas, nesta história, eu também sou a pessoa que carrega uma cruz nas costas.
Bebo a água de um gole só e vou para o banheiro deste motel barato em algum lugar de Wisconsin. A luz pisca no teto enquanto jogo água no rosto.
Nada consegue tirar o gosto amargo dos meus lábios, a agitação, a inquietação. Posso ficar aqui e me afogar no passado, ou posso sair, procurar confusão, esquecer, me sentir viva, me sentir no controle.
Pego a minha jaqueta de couro e saio. Neste buraco de cidade, só existe um lugar para achar confusão: o bar.
Enfio as mãos nos bolsos da minha jaqueta e deixo um sorriso brincar nos meus lábios. E, no silêncio da noite, eu o escuto. O ping do celular que Stig me deu.
Uma mensagem. Seguro o celular com força. Não há nada de assustador na mensagem. Muito pelo contrário, é da Lysandra.
Ela tem me ligado ou mandado mensagem todos os dias e, mesmo que eu não fale muito ou nem sempre responda, comecei a apreciar essas interações. Ela é insistente e não vai desistir de mim.
E mesmo tentando mantê-la à distância, não consigo deixar de me sentir grata pela sua determinação em ficar perto. Balanço a cabeça e abro a mensagem dela.
O casamento é na semana que vem. Tem um vestido de madrinha foda esperando por você. Eu vou estar esperando por você também.
Aquela palavra. Esperar. A última palavra que aquele homem me disse. Aquele homem sombrio, com olhos que sorriam e uma voz calma.
Eu ouvia os outros chamá-lo de Runner. Ele me disse que seu nome era Jesus. Ele até fez uma piada sobre isso. Jesus e Magdalene. Saído direto de O Código Da Vinci.
Eu queria ter sorrido. Queria ter feito muito mais naqueles poucos dias que passamos juntos. Os dias em que ele sentava comigo, pacientemente, só olhando para mim, conversando comigo, esperando por uma resposta.
Aqueles dias em que eu estava brigando comigo mesma, num lugar sombrio, desistindo da minha vingança, me culpando por tudo o que tinha acontecido. E chorando por Salome. E ele esteve lá durante tudo isso.
Ele disse que iria esperar. Foi o que ele disse quando fui embora e, por alguns segundos, eu não queria fazê-lo esperar. Mas eu era uma bagunça completa.
Eu ainda sou a porra de uma bagunça, e ele parece ser alguém que conserta as coisas — um homem que assume a responsabilidade de endireitar tudo. Mas algumas coisas nunca podem ser consertadas.
Outro som vem do meu celular.
Você lembra da festa de despedida de solteira, não lembra? Vai ser divertido.
“Merda.” Balanço a cabeça, pensando que Lysandra e Vik poderiam ter marcado o casamento para quando eu estivesse pronta para enfrentar o mundo de novo. E talvez enfrentar ele de novo.
“Você está jogando, gracinha?”
Me viro para o idiota que acabou de me chamar de “gracinha”. Ele é um cara grande, com uma barriga que só vai crescer mais se ele continuar bebendo cerveja nesse ritmo.
“Claro. Aposto duzentos dólares que a bola nove e a onze vão entrar naquela caçapa.” Aponto para um buraco na mesa.
O homem e os amigos dele riem com gosto e balançam a cabeça. Sou boa em duas coisas nesta vida. Eu sei brigar, porque aquele pai desgraçado me ensinou antes de… Não. E eu sei jogar sinuca.
A minha terapeuta descobriu isso. Alguma coisa no jogo me acalma, e eu costumava jogar por horas. Brigar e sinuca. Essas são as minhas habilidades. E se esses idiotas continuarem rindo na minha cara desse jeito, vão acabar conhecendo mais a primeira do que a segunda.
“Tudo bem, boneca.” Ele tira o dinheiro do bolso. “Apostado.”
Boneca o caralho! Posso muito bem quebrar o crânio desse cara de qualquer jeito. Aperto o meu taco de sinuca e me inclino sobre a mesa.
Sinto o homem mudar de posição para olhar melhor para a minha bunda, e fico furiosa. Não consigo deixar de pensar que os homens que inventaram este jogo com certeza imaginaram uma mulher se inclinando sobre uma mesa com um pedaço de pau comprido na mão.
O que eles não consideraram é que uma mulher com um taco na mão vai acabar quebrando algumas bolas. Literalmente. Eu me concentro e abro um sorriso ameaçador.
Dou a tacada na bola branca e assisto enquanto ela faz uma sequência impossível de batidas, mandando as bolas nove e onze direto para a caçapa.
“Puta que pariu!”
“Obrigada.” Pego o dinheiro. “Devemos acabar o jogo por aqui, ou você está a fim de perder mais?”
O cara está claramente bêbado, e tem uns dois amigos com ele. Estou presa no meio do nada, na cidade dele, no território dele.
A fantasia dele era jogar um pouco de sinuca, passar a mão em mim e depois me levar para o seu caminhão patético, ou sei lá o quê, para transar comigo. Mas a realidade teve um roteiro diferente: ele perdeu quinhentos dólares, foi humilhado na frente dos amigos e da cidade inteira, e não dei nenhum sinal de que estaria interessada em dar uns amassos com ele.
“Sua puta desgraçada!”
O ataque de raiva dele acontece bem na hora esperada. Luto para conter o meu sorriso enquanto vejo a raiva dele aumentar.
“Os tolos dão vazão a toda a sua raiva, mas os sábios trazem a calma no final.” A citação escapa sem que eu queira.
“Você…? Você acabou de me chamar de tolo, sua puta?”
“Salomão chamou”, respondo, arqueando uma sobrancelha.
Ele parece confuso, mas isso passa rápido. Ele lembra da sua intenção inicial e avança para cima de mim. Até que enfim.
“Me dá o meu dinheiro, sua puta trapaceira!”
Ele levanta o punho para me bater, mas é muito gordo, muito bêbado e muito lento. É quase como se ele estivesse certo: eu estou trapaceando. Mas não estou aqui para seguir as regras. Estou aqui para jogar.
Que pena que esse idiota não sabe perder com classe.
Esquivo do seu soco e giro para a esquerda, acertando um soco em cheio no pescoço dele. Ele cambaleia para trás, ofegante. Lanço um olhar de aviso para os amigos dele, mas eles parecem compartilhar da mesma falta de inteligência, e um deles corre na minha direção.
Pego um taco de sinuca e giro, acertando o maxilar dele em cheio.
Os outros clientes deste belo estabelecimento continuam bebendo as suas cervejas. Acho que nesta cidade esquecida, brigas de bar são a melhor diversão. Eles estão ganhando um show de graça.
Não faz muito tempo que idiotas ricos pagavam um bom dinheiro para ver um show desses.
A lembrança do Jack e do seu torneio me faz travar o maxilar. Aquele desgraçado. Aquele filho da puta doente e manipulador. Aquele babaca mentiroso.
Os homens. São todos iguais, sempre tirando, sempre tirando. Isso é tudo o que os homens da minha vida sempre fizeram.
Ele não, o pensamento invade a minha mente, mas eu o afasto.
Sinto um movimento e reajo a tempo de segurar o braço de um homem, torcendo-o num ângulo que resulta no barulho nojento de um osso quebrando. Jogo ele no chão e volto minha atenção para o próximo oponente.
“Não, não.” Ele levanta as mãos se rendendo. “Tudo bem, você ganhou de forma justa.”
“A moto lá fora. A Harley”, digo, com meu olhar varrendo todo mundo no bar.
Todos eles olham para o homem gordo, que ainda está de joelhos, lutando para respirar. É claro, penso, balançando a cabeça. Ando até ele e pego um taco de sinuca de uma mesa próxima.
Ele olha para mim, com terror nos olhos, e balança a cabeça.
“Apostamos duzentos dólares e a moto na última jogada ou foi impressão minha?”
Ele hesita. Consigo ver a cabeça dele funcionando. Giro o taco nas minhas mãos, ajudando a refrescar sua memória.
E aí está! A luz do reconhecimento.
“Uhm… é, nós apostamos.”
“As chaves”, exijo.
Ele se atrapalha nos bolsos e me entrega um molho de chaves com um chaveiro que diz Destruidor de Bocetas. Seguro as chaves com força e dou uma risada de deboche na cara dele. Está mais para destruído por uma boceta.
Jogo o taco na mesa, deixo alguns dólares para pagar a minha cerveja, e sigo em direção à porta.
“Minhas chaves”, ele choraminga. “As chaves da minha casa estão aí.”
Olho por cima do meu ombro, cravando o meu olhar nele.
“Que bom. Dê queixa de roubo da moto e eu vou ter que te fazer uma visitinha.”
Ele recua com as minhas palavras, e eu olho para o resto do bar. Todos eles parecem hesitantes em defender o perdedor. Espertos.
Empurro a porta e vou até a moto. Uma Fat Boy dos anos noventa para a porra de um cara gordo. Muito adequado. Subo na moto e coloco a chave na ignição.
Antes de ir embora, pego o meu celular e respondo a mensagem da Lysandra—
Eu vou estar aí.















































