
Relâmpago em Seu Toque
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Desenraizada
“Você está em perigo.”
Wren deu um pulo com o sussurro em seu ouvido, olhando pela rua em busca de sua origem.
“Por favor, venha comigo. Agora. Antes que outras pessoas se machuquem.”
Wren se virou e viu um senhor mais velho parado ao seu lado. Ele estava perto demais, e Wren imediatamente se afastou dele, seu instinto de luta despertando.
O senhor concordou com a cabeça. “Ótimo. Você precisará desses reflexos em breve. Venha.” Ele fez um gesto na direção de um sedã de quatro portas que estava estacionado perto deles.
“De. Jeito. Nenhum”, Wren respondeu.
O senhor não pareceu surpreso com a resposta dela. Ele apenas olhou em volta e depois voltou sua atenção para ela.
“Por favor, perdoe a minha indelicadeza, mas o tempo é essencial. Não sei como a encontraram, mas você está sendo caçada neste exato momento. Se os Beings chegarem aqui antes de partirmos, temo que outras pessoas se machuquem. Peço sua confiança e cooperação neste momento.”
Wren soltou uma risada curta. Esse homem era um lunático de carteirinha.
Assim que ela se virou para entrar na cafeteria e escapar dele, sentiu uma força intensa atingi-la, tirando-a do chão e jogando-a contra a exata porta por onde planejava fugir.
Um barulho irrompeu ao seu redor enquanto ela balançava a cabeça e tentava se levantar. Ela sentiu um líquido escorrer pela lateral do rosto, observando gotas de sangue respingarem nos degraus de concreto.
Ora, ora. Isso não é nada bom, Wren pensou enquanto começava a avaliar o resto do corpo em busca de ferimentos. Finalmente, ela conseguiu se firmar em pé.
Ao se virar, ela paralisou mais uma vez enquanto uma criatura de outro mundo — e o homem com quem ela acabara de falar — se enfrentavam em uma batalha diante de seus olhos.
Wren olhou em volta para ver se mais alguém estava vendo o que ela via. As pessoas que estavam ali meros segundos atrás tinham sumido.
O que está acontecendo?
Wren observou enquanto o senhor continuava a lutar contra a criatura — não, ele a tinha chamado de Being. O Being acertou um golpe, e o senhor saiu voando para o outro lado da rua, seu corpo desabando ao bater no prédio com um estrondo oco.
Ele não vai se recuperar disso.
Wren olhou para o Being diante dela, o medo se instalando, e paralisou quando os olhos da criatura pousaram nela.
Ele facilmente chegava a três metros de altura, com sua pele irradiando um tom arroxeado. Tinha o corpo de um adolescente esguio que crescera rápido demais para o corpo acompanhar.
Enquanto se movia na direção dela, uma cauda bifurcada balançava preguiçosamente atrás dele, com espinhos se projetando ao longo de sua espinha e sobre os ombros do Being. Ele avançou sorrateiramente. Ela se tornou seu próximo alvo.
Wren procurou por uma arma — qualquer arma — enquanto ele se esticava na direção dela, suas unhas afiadas como adagas se estendendo de suas mãos gigantescas em câmera lenta. O Being fedia a decomposição e sangue.
Sua boca se abriu para mostrar não um, mas dois conjuntos de dentes pontiagudos, com um líquido verde pingando das várias bordas irregulares. Sua língua se moveu lentamente para a frente como uma cobra, lambendo o líquido verde enquanto as órbitas oculares vazias a encaravam.
As garras da criatura envolveram seu pescoço e apertaram. Wren lutou contra a escuridão que a tomava, arranhando a pele fria e áspera do Being que a segurava firmemente em suas garras.
Assim que a escuridão tomou conta de sua consciência, ela viu uma luz forte preencher o ar.
Então este é o meu fim.
DOIS DIAS DEPOIS
Wren seguiu o senhor para dentro da mansão à sua frente. Quarenta e oito horas antes, sua vida tinha virado de cabeça para baixo quando aquele homem estranho apareceu ao seu lado.
Ele havia acabado salvando-a de ser morta antes de lhe dizer que ela se tornaria parte de um grupo de elite de pessoas que identificaria e derrotaria criaturas conhecidas apenas como “Beings”, que ameaçavam as pessoas do mundo.
Agora ela se encontrava na frente desta velha mansão, em uma ilha no meio de um mar. Ela não tinha ideia de onde estava ou o que o futuro lhe reservava, mas se sentia pronta para qualquer coisa.
“Você vem, Srta. Wren?”, o senhor, que havia se apresentado a ela como Sr. Lee, perguntou enquanto parava diante da porta.
“Sim, senhor”, ela respondeu.
Ela cruzou a entrada do prédio e olhou em volta, reparando imediatamente nas duas pessoas descendo uma grande escadaria na direção deles.
O Sr. Lee falou com sua voz calma. “Esta será a sua nova casa.”
Ela já tinha entendido essa parte, mas quem era ela para contrariar o homem que havia salvado sua vida há apenas dois dias?
“É dividida em diferentes suítes para que cada pessoa possa ter seu próprio espaço”, ele continuou, apontando para várias portas enquanto falava.
“O escritório principal, com mesas para cada pessoa, fica na porta à esquerda. Pela segunda porta, há uma biblioteca.” Ele se virou, apontando para o outro lado do grande salão.
“Pela primeira porta à direita, você encontrará um salão para receber visitas. A segunda porta leva à sala de jantar e à cozinha.” Ele parou, virando-se para encará-la.
“Vocês farão suas refeições juntos e, uma vez por mês, você e seu parceiro devem se reunir com o diretor.”
Wren ouvia o Sr. Lee tagarelar enquanto observava o casal descer a escadaria e se aproximar deles. Eles pararam para esperar enquanto o Sr. Lee continuava falando, sem tentar esconder que a estavam analisando.
O Sr. Lee os ignorou enquanto continuava falando diretamente com ela. “Você é livre para passear pela propriedade o quanto quiser.” O Sr. Lee fez um aceno de cabeça para o casal — pelo menos, ela achava que eram um casal.
“O prédio ao lado da casa, à esquerda, é o prédio de combate, e o da direita é onde o diretor fica. Você será levada a ele depois que tiver tempo para se acomodar.”
Ele voltou toda a sua atenção para o casal. “Presumo que tenham recebido a minha mensagem?”
“Sim. Todos os preparativos estão em andamento.” A mulher falou com uma voz suave e gentil.
O Sr. Lee se virou de volta para a jovem ao seu lado. Ele tinha tirado o chão dela e sabia que ela estava com medo.
No entanto, não havia tempo para ele considerar os sentimentos dela. Eles já estavam ficando sem tempo.
“Assim que conhecer o seu parceiro e concluir o treinamento obrigatório, você receberá um trabalho e, então, terá mais liberdade. Por enquanto, porém, todos os seus movimentos estão restritos ao complexo.” Ele terminou, esperando pelas perguntas que sempre vinham.
“Quanto tempo isso costuma demorar?”, Wren perguntou baixinho, sentindo todos os olhos, visíveis e invisíveis, sobre ela.
Não era a pergunta que ele esperava, mas ainda assim era válida. “Depende da pessoa, mas... normalmente por volta de três meses.”
Wren olhou para o Sr. Lee, reparando no seu terno de três peças, chapéu-coco e bengala, ainda um pouco atordoada por tudo o que tinha acontecido nos últimos dias.
Agora ele lhe dizia que ela estava confinada ali pelos próximos três meses? O que tinha acontecido com a sua vida serena?
Aos vinte e seis anos de idade, ela havia construído uma vida para si mesma; não era uma vida grandiosa, mas era dela. Ela tinha um emprego estável, uma boa renda e uma casa que tinha acabado de comprar.
Ela superara tanta coisa para encontrar aquela paz, e agora estaria começando tudo de novo. Mais do que qualquer que fosse aquela criatura, recomeçar do zero era muito mais assustador.
Chega! A vida é uma droga, supere isso.
Wren deu a si mesma um sacode mental, tentando se manter firme na realidade, apesar de desejar, lá no fundo das partes sombrias da sua alma, que aquilo fosse um sonho do qual acordaria em breve. Finalmente, ela teve que admitir que não estava sonhando e que aquela era a sua nova realidade.
Uma vez que aceitasse isso, ela avaliaria a sua situação e veria quais eram as suas opções reais daqui para a frente. Ela relembrou a conversa que tinham tido no avião.
Ela estivera encarando o oceano, tentando organizar e dar sentido às informações que o Sr. Lee lhe havia passado sobre os Beings, sobre ela ter um poder especial, precisar se mudar para este complexo e de que não havia tempo para se despedir da vida que levava.
***
“O senhor tem certeza de que eu tenho esse… poder em mim? Quero dizer, pode ter sido apenas um acidente eu ter visto. Certo?”
“Não há engano, Srta. Wren. Ele está aí, ou você não seria capaz de ver”, garantiu o Sr. Lee. “Vamos lá, não se preocupe. Os outros estarão nos esperando quando chegarmos lá. Você não está sozinha.”
“Outros?”
“Sim. Há mais pessoas como você, e elas a ajudarão nesse processo. Agora, tente descansar um pouco.”
Wren concordou com a cabeça e tentou fazer o que ele havia sugerido.
***
Agora ela estava ali, e mal conseguia se conter para não fugir, gritando, daquele salão. Em vez disso, ela respirou fundo e se concentrou nas duas pessoas paradas à sua frente.
Ambos eram altos, loiros e o que só poderia ser descrito como bonitos, com traços clássicos sobre os quais só se lê em livros de romance. Wren sentiu vontade de revirar os olhos.
Ela não pertencia àquele lugar perto deles com a sua estatura baixa e arredondada, olhos escuros e óculos. Isso era um grande desperdício do tempo de todo mundo.
Ela se virou para ir embora. Ela tinha cansado.
Ela ia voltar para casa. Para o inferno com tudo isso.
Ela esqueceria o que vira e, com o tempo, sua vida voltaria ao espaço normal, monótono e seguro que ela havia construído para si mesma. Wren paralisou quando um homem fechou a porta e se encostou nela, bloqueando a única rota de fuga que ela conhecia.
Ele parecia saber o que ela pensava ao encará-la antes de lhe dar um sorriso sem humor. Ele era mais baixo que os outros, mas ainda assim bem alto em comparação à estatura de um metro e meio de Wren.
Ela realmente queria soltar aquele grito agora. Ele também parecia ter saído de um livro de romance com seu cabelo longo, preto e sedoso — não havia outra maneira de descrever.
Pelo menos era bem cuidado, enquanto caía solto pelos seus ombros. Os olhos dela examinaram seus músculos bem definidos e ombros largos.
Sério, o homem parece um tanque, ela pensou consigo mesma enquanto seus olhos se encontraram com os dele mais uma vez. Foram os olhos dele que a afetaram.
Eles eram dourados, como os de um falcão, e pareciam enxergar o fundo dos seus pensamentos. Ela não estava neeeem um pouco à altura deles aqui.
“Já terminou?”, ele perguntou em uma voz de barítono seca, porém suave, fazendo com que Wren desse um passo para trás instintivamente.
Esse homem irradiava perigo, e era direcionado a ela.
“O quê?”
“Você já terminou a sua análise?”, ele perguntou. A voz dele era profunda e sedosa. Ele continuou sustentando o olhar dela. “Gosta do que vê?”










































