
Segredos de Amantes Livro 2
Author
K.D. Peters
Reads
26,2K
Chapters
39
Prólogo
Livro 2: Segredos Sujos
Eu não conseguia lembrar há quanto tempo estava ali, definhando naquele prédio em ruínas. A noite estava caindo enquanto eu sentava no chão sujo, olhando pela janela quebrada para o campo de grama que ia até a floresta próxima.
Os grilos estavam cantando e as estrelas começavam a aparecer no céu enquanto a lua cheia subia acima das árvores escuras. O ar estava frio, beliscando minhas coxas e panturrilhas nuas. O vestido de lã sujo cor de pérola que eu usava esquentava bem os meus braços e o meu tronco, mas era só isso.
Mas o frio não me incomodava muito. Eu gostava de pensar que já tinha me acostumado com ele depois de ficar neste lugar por tanto tempo. Mas, por outro lado, eu também gostava de pensar que tinha me acostumado com muitas coisas com as quais eu não deveria.
Eu ainda lembrava de quando fui trazida para cá pela primeira vez. Quem fez isso foi a mesma pessoa que sequestrou a minha mãe e a mim quando eu era bem pequena, talvez com uns quatro ou cinco anos de idade. Esse cara não era um homem de verdade, embora pudesse parecer um quando quisesse.
Ele já tinha me dito que era algo chamado Grigori, um tipo de ser que já tinha sido um anjo um dia. Mas ele não agia como um anjo de jeito nenhum. Ele sequestrava e prendia mulheres neste lugar, fazendo coisas terríveis com elas antes de matá-las.
Esse foi o destino da minha mãe, pelo que eu entendi, e provavelmente teria sido o meu também se ele não tivesse decidido gostar tanto de mim desde o começo. Então, por que ele tinha sumido? Em todos esses anos, Quinton sempre voltava ao anoitecer.
Ele fazia isso tanto para manter as suas prisioneiras sofrendo quanto para ficar de olho em mim. Ele agia assim desde que me trouxe para cá. Ele dizia que gostava de mim e que queria me guardar só para ele. Ele garantia que eu fosse bem cuidada, deixando-me andar por onde quisesse neste lugar velho, além de garantir que eu tivesse roupas adequadas e comida. Ele até se preocupou em me educar, ensinando-me tudo o que eu precisava saber como se eu tivesse ido para a escola.
Porém, ele nunca teve a intenção de que eu saísse deste lugar. Mesmo quando eu ia lá fora, não podia ir muito longe do prédio.
Se eu fizesse isso, ele ficaria furioso, e ele dava muito medo quando ficava bravo. Por isso, eu sempre fazia o que ele mandava. Sempre. Eu ficava aqui neste lugar velho e em ruínas que no passado já tinha sido um hospício.
Eu ficava longe das prisioneiras que ele mantinha e torturava. Eu escutava e sempre me certificava de obedecer a tudo o que ele mandasse eu fazer. Então, por que ele não voltou dessa vez? Já fazia mais de um mês. Será que tinha acontecido alguma coisa com ele?
Agora eu tinha certeza de que algo tinha acontecido, e aquela mesma mistura de alegria e insegurança tomou conta de mim quando me levantei e liguei a minha lanterna. Mesmo não tendo nenhuma prova concreta, eu tinha certeza do que a minha intuição estava dizendo: Quinton não ia voltar. Ele finalmente tinha ido embora para sempre, o que significava que eu finalmente estava livre.
Eu andei devagar ao sair daquele quarto e seguir pelo corredor, ouvindo a sujeira e os destroços quebrando debaixo dos meus sapatos. Não havia eletricidade neste lugar, mas a minha lanterna era suficiente para eu enxergar bem, e eu apontei a luz para o chão e as paredes, observando as portas meio abertas e quebradas dos quartos.
A tinta das paredes estava suja e descascando, e o chão estava cheio de terra e poeira. Havia aquela mesma sensação assustadora no ar que eu sempre tentava ignorar, principalmente sabendo dos horrores que tinham acontecido nos andares de cima.
Passou pela minha cabeça a ideia de subir lá e fazer uma oração por aqueles que Quinton tinha matado, mas decidi que seria melhor não. Eu não queria ver o que Quinton tinha feito com eles. Já era o bastante que ele tivesse me poupado por algum motivo doentio.
Eu finalmente cheguei à entrada principal, observando a velha mesa em ruínas bem no meio da sala e os azulejos quebrados espalhados pelo chão. O velho lustre estava pendurado no teto alto por apenas duas de suas quatro correntes, ameaçando cair a qualquer momento. Tive cuidado ao dar a volta por aquela área enquanto me dirigia para as portas duplas de saída, abrindo-as devagar.
O ar da noite me recebeu, com o cheiro fresco de grama sendo uma distração bem-vinda dos cheiros de decomposição aos quais eu tinha me acostumado. Fiquei parada na porta, hesitando em dar um passo para fora. E se o Quinton voltasse e me visse ali? E se ele me pegasse e ficasse furioso?
“Você está sendo boba, Freya!”, repreendi a mim mesma em voz baixa. “Ele foi embora! Ele não vai voltar!”
Eu sabia que não conseguiria sobreviver ali por muito mais tempo. Eu tinha comido a minha última porção de comida naquela noite e o outono estava começando, então só ia ficar mais frio. Sem Quinton lá, eu não sobreviveria à primeira noite de geada severa.
Não havia escolha. Eu tinha que ir embora.
Aquele primeiro passo para fora da porta foi como entrar em uma liberdade que eu não conhecia há muito tempo. Eu respirei fundo enquanto caminhava em direção à floresta, apressando o meu passo. Eu não sabia para onde iria. Eu nem sabia como explicaria de onde eu tinha vindo ou quem eu era quando os outros me vissem. Eu só sabia que finalmente seria livre.
E essa liberdade ia ser uma coisa linda.














































